ISSN 1678-0701
Número 67, Ano XVII.
Março-Maio/2019.
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13/03/2019OS IMPACTOS DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE REJEITOS DE MINÉRIO DE MARIANA-MG NA ATIVIDADE PESQUEIRA NO NORTE E NOROESTE DO ESPÍRITO SANTO APRESENTADOS POR REPORTAGENS DA TV GAZETA  
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OS IMPACTOS DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE REJEITOS DE MINÉRIO DE MARIANA-MG NA ATIVIDADE PESQUEIRA NO NORTE E NOROESTE DO ESPÍRITO SANTO APRESENTADOS POR REPORTAGENS DA TV GAZETA



Gleycivânia Pacheon Borges¹

Jorge Eduardo de Lima Siqueira²

Serli Santos Silva³



Publicitária, Professora da Faculdade Vale do Cricaré, pós-graduada em Docência no Ensino superior, MBA em Comunicação e Marketing para Mídias Sociais e mestranda em Educação, Gestão Social e Desenvolvimento Regional pela Faculdade Vale do Cricaré. E-mail: gleycii.mm@hotmail.com.

2 Advogado, professor da Faculdade Vale do Cricaré, pós-graduado em Direito Civil e Processo Civil, pós-graduado em Advocacia Trabalhista, mestrando em Educação, Gestão Social e Desenvolvimento Regional pela Faculdade Vale do Cricaré. E-mail: jorgeeduardolima7@gmail.com.

3 Jornalista, pós-graduada em português para jornalistas, professora da Faculdade Vale do Cricaré, mestranda em Educação, Gestão Social e Desenvolvimento Regional pela Faculdade Vale do Cricaré. E-mail: sssfag@hotmail.com.

RESUMO

Este artigo aborda alguns dos impactos ambientais, sociais e humanos decorrentes do rompimento da barragem de rejeitos de minério da SAMARCO, em Mariana/Minas Gerais. Apresenta referencial teórico acerca dos danos causados pela lama e dejetos em águas, das características da bacia do rio Doce e atividade econômica ao seu redor. Traz um conglomerado de efeitos decorrentes do desastre, verificados e publicados através de matérias da TV Gazeta, no norte do Espírito Santo, especialmente para a atividade pesqueira local. As informações servem de fonte para educação ambiental de todos que direta e indiretamente estão ligados à atividade mineradora.

Palavras-chave: Impactos humanos. Tragédia de Mariana. Bacia do rio Doce. Atividade pesqueira. Norte/Noroeste do Espírito Santo. Educação Ambiental.

ABSTRACT

The present work discusses the environmental, social, and human impacts resulted from SAMARCO's ore tailings dam rupture in Mariana / Minas Gerais. It presents a theoretical review about the damages caused by the waste mud in water, changes at characteristics from “rio Doce” basin and at the local economic activities. It also brings the effects conglomerate resulted from the disaster, verified, and published through several news form TV Gazeta, in the north/northwest of Espírito Santo state, especially at the local fishing activity. The information serves as a source of environmental education to all directly and indirectly linked to the mining activity.

Keywords: Human impacts. Disaster at Mariana. “rio Doce” basin. Fishing activity. North of Espirito Santo State. Environmental Education.

1 INTRODUÇÃO

Tragédias ambientais são muito frequentes em todo o planeta. Mas sua maior ocorrência é por fenômenos naturais. Estas, causam devastação, provocam desespero, desolação. Mas outras acontecem por falha ou provocação humana. Estas, além dos estragos violentos, causam dor, desespero e principalmente, revolta e indignação.

Foi o caso do rompimento de duas barragens de rejeitos de minérios em Mariana, Minas Gerais, ocorrido em novembro de 2015. Falhas na manutenção e fiscalização dos reservatórios acarretaram na maior tragédia ambiental já ocorrida no Brasil. Os estragos foram imediatos e também prolongados. A imprensa noticiou que mais de 60 milhões de metros cúbicos de lama de rejeitos de minério atingiram o Rio Doce. Toda essa poluição percorreu o rio, de Minas Gerais à foz no Espírito Santo e invadiu também o mar.

O desenvolvimento desse estudo se dá através da coleta de relatórios e reportagens feitas no Espírito Santo pelas TVs Gazeta Norte e Gazeta Noroeste, afiliadas da Rede Globo, que se empenharam em mostrar o avanço da lama pelos municípios capixabas banhados pelo Rio Doce e consequentemente, os impactos que ela causou. Desde as primeiras reportagens deram especial atenção às pessoas que viviam da pesca. Elas foram diretamente afetadas, e não se sabiam por quanto tempo a situação iria perdurar. As reportagens mostraram em diversas vilas e comunidades pesqueiras, o drama de não ter mais de onde tirar o sustento. Acompanharam a intervenção da Justiça em favor dos pescadores, determinando que a mineradora Samarco, responsável pelas barragens, pagasse uma indenização, uma espécie de ajuda de custo aos pescadores afetados pelo desastre, além daqueles que viram os meses passar sem nada receber.

O conteúdo deste artigo visa expor uma série de danos vivenciados por pessoas afetadas pela tragédia, trazendo conhecimentos e alertas no campo da educação ambiental a todos que direta ou indiretamente estão ligados à atividade mineradora, seja como agentes fiscalizadores ou mesmo aqueles que estejam no entorno de barragens de minério. Demonstra, assim, e com clareza relatos de danos concretamente vivenciados por pessoas que perderam seu meio de subsistência em razão de um desastre ambiental de imensuráveis proporções.

2 CARACTERÍSTICAS E RISCOS DAS BARRAGENS DE REJEITOS DE MINÉRIO

Antes de tratar mais precisamente dos impactos da tragédia de Mariana no norte do Espírito Santo, objeto de matérias jornalísticas que serão destacadas, vale tecer algumas considerações sobre as barragens de rejeitos de minério.

A lei n. 12.334/2010, foi editada com a finalidade de estabelecer a Política Nacional de Segurança de Barragens – PNSB e implantar o Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens – SNISB (BRASIL, 2010, p. 01). Em seu artigo 2º, inciso I, define barragem como sendo “qualquer estrutura em um curso permanente ou temporário de água para fins de contenção ou acumulação de substâncias líquidas ou de misturas de líquidos e sólidos, compreendendo o barramento e as estruturas associadas”. Além disso, determina que a segurança da barragem deve se destinar à manutenção de sua integridade estrutural, de modo a preservar a vida, a saúde, a propriedade e o meio ambiente.

Desde a edição da mesma lei as barragens são classificadas por categoria de risco, conforme o potencial dano que possa causar e seu volume, segundo critérios definidos pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos – CNRH. Assim, são tidas como de risco alto, médio ou baixo, em razão de suas características técnicas, estado de conservação e atendimento ao chamado “Plano de Segurança da Barragem” (BRASIL, 2010, P. 03). Além disso, o artigo 7º da lei n. 12.334/2010 prevê a realização de inspeções de segurança regulares e especiais com periodicidade e qualificação dos técnicos definidos segundo a categoria do risco e o potencial dano atribuído à barragem (BRASIL, 2010, P. 04).

Nesse ponto, convém destacar que consta no Cadastro Nacional de Barragens de Mineração, data-base abril de 2014, que a barragem localizada em Mariana/MG foi classificada como categoria de risco baixo, conforme consta na página virtual da Agência Nacional de Mineração (2015, p. 01). A classificação revela que era reduzida a periodicidade com que se dava a fiscalização da estrutura, bem como ausência de exigência de corpo técnico mais qualificado, considerando a redação do artigo 7º da lei de barragens, mencionada acima. Além disso, o rompimento da barragem pouco mais de um ano após sua classificação revela potencial equívoco ou negligência na fiscalização local e categorização dos riscos.

Segundo manual publicado pelo IBRAM – Instituto Brasileiro de Mineração (2016, p. 09), a barragem de rejeitos de minério tem como função primordial a contenção dos mesmos, objetivando em segundo plano a reutilização da água na mina. O documento revela que os impactos ambientais e os riscos decorrentes dessas barragens estão entre os mais expressivos para a indústria. Sua ruptura é usualmente causada por falhas na gestão da segurança local, ocasionando gravíssimos impactos ambientais, sociais e econômicos, como se verificou no rompimento da barragem de Mariana.

O Instituto Tecnológico Vale – ITV – traz informações em sua página virtual de que os rejeitos de minério “são formados de partículas ultrafinas contendo Ferro, Alumina, Fósforo e Sílica e são classificados de acordo com sua granulometria” (2018, p. 03). Ensina, ainda, que a barragem de rejeitos de minério serve como uma barreira onde são lançados os restos advindos do beneficiamento de minério, sendo transportados em forma de polpa. Assim, a barragem é construída, estruturada e mantida de modo a não permitir que a água e os rejeitos decorrentes do beneficiamento do minério alcancem o meio ambiente e suas formas de vida.

São comprovados os efeitos tóxicos decorrentes da exposição humana e de animais a metais pesados como os rejeitados em barragens de minério. A presença desses metais em organismos de peixes, por exemplo, afeta consideravelmente sua saúde, especialmente seus mecanismos de proteção contra doenças, podendo levar à morte. São igualmente tóxicos ao ser humano e a outras formas de vida (MUNIZ, D. H. F.; OLIVEIRA-FILHO, E. C., 2006, p. 89).

Feitas essas considerações, é possível constatar que, seja por falhas na fiscalização, gestão da segurança ou outros fatores, a barragem gerida pela SAMARCO na cidade de Mariana/MG, não foi capaz de alcançar seu objetivo, vindo a se romper em 05 de novembro de 2015, fazendo com que os rejeitos, extremamente tóxicos ao meio ambiente e aos organismos vivos, invadissem toda a bacia do rio doce, dizimando peixes e toda forma de vida existente no local, além dos impactos ambientais, sociais e humanos que foram noticiados desde o desastre. Passamos à demonstração de alguns efeitos deletérios da tragédia, transmitidos através de matérias veiculadas pela TV Gazeta no norte do Espírito Santo, especialmente aqueles suportados pelos pescadores que dependiam e ainda dependem de vida na bacia para sua subsistência.

3 ROMPIMENTO DA BARRAGEM DA SAMARCO EM MARIANA-MG

O rompimento da barragem de Fundão, localizada no subdistrito de Bento Rodrigues, a 35 km do centro do município de Mariana, Minas Gerais, ocorreu na tarde de 5 de novembro de 2015. Essa barragem de rejeitos de minérios era controlada pela Samarco Mineração S.A., um empreendimento conjunto das maiores empresas de mineração do mundo, a brasileira Vale S.A. e a anglo-australiana BHP Billiton, e foram construídas para acomodar os rejeitos provenientes da extração do minério de ferro retirado de extensas minas na região (D’AGOSTINO, 2015).

Um estudo contratado pelas mineradoras Vale, BHP Billiton e Samarco sobre a tragédia em Mariana mostrou que a presença de lama no ponto de ruptura da barragem, onde deveria ter somente areia, é uma das causas do colapso da estrutura.

O engenheiro geotécnico Norbert Morgenstern, um dos especialistas que participaram do painel de investigação sobre o rompimento da barragem de Fundão,  explicou, por meio de videoconferência com jornalistas em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que o rompimento foi o resultado de “uma consequência de eventos e condições” e detalhou motivos para que colapso tenha ocorrido na ombreira esquerda. “O fluxo ocorreu na ombreira esquerda por causa do recuo na ombreira esquerda ter sido construído sobre  uma mistura de areia e lama e não apenas areia”, explicou.

Além do recuo, dos problemas de drenagem, da liquefação e do acúmulo de lama onde deveria ter rejeito arenoso, o especialista citou três pequenos abalos sísmicos, que foram registrados poucas horas antes do rompimento. Os abalos, segundo Morgenstern, aceleraram o gatilho da liquefação, iniciando o fluxo de rejeitos. (FREITAS; PAES, 2016, s. p.)

O rompimento da barragem de Fundão é considerado o desastre industrial que causou o maior impacto ambiental da história brasileira e o maior do mundo envolvendo barragens de rejeitos, com um volume total despejado de 62 milhões de metros cúbicos. “A lama chegou ao rio Doce, cuja bacia hidrográfica abrange 230 municípios dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, muitos dos quais abastecem sua população com a água do rio” (ARAÚJO; MACHADO, 2016). Ambientalistas consideraram que o efeito dos rejeitos no mar continuará por pelo menos mais cem anos. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad) notificou, no dia 18 de novembro, a mineradora Samarco acerca da primeira infração em decorrência do rompimento da barragem em Mariana. O valor da infração é de R$ 112.690.376,32. O cálculo da multa se baseou no Decreto 44.844/2008 que estipula o valor máximo da multa em R$ 50 milhões. O valor foi reajustado pela Unidade Fiscal do Estado de Minas Gerais (UFEMG) devido aos agravantes.

Foi a primeira multa aplicada pela Semad. Segundo o órgão, a mineradora causou poluição e degradação ambiental, resultando em dano aos recursos hídricos, prejudicado a saúde, a segurança e o bem-estar da população, devido ao rompimento da Barragem de Fundão e agravamento da situação da Barragem Santarém da Mina Germano, em Mariana. (ARAÚJO; MACHADO, 2016, s. p.)

Depois do rompimento, os rejeitos de minério caíram nos rios Gualaxo e Doce e chegaram ao mar, no Espírito Santo, e comprometeram a qualidade da água. Outro agravante é o fato de o rompimento ter comprometido todas as propriedades do distrito de Bento Rodrigues e parte dos imóveis de Paracatu de Baixo, o que fez com que os moradores fossem retirados (ARAÚJO; MACHADO, 2016).

Antes de tratar de outros efeitos do rompimento da barragem da Samarco, valem algumas considerações sobre a bacia do rio Doce e a atividade pesqueira ao seu redor.

4 A PESCA NO RIO DOCE

Situada no sudeste brasileiro a bacia do Rio Doce tem área de drenagem de aproximados 86.715 quilômetros quadrados, passando por 230 municípios, com predomínio nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Suas nascentes estão em Minas Gerais, nas serras da Mantiqueira e do Espinhaço, avançando 850 km até chegar a Regência, no Espírito Santo (ECOPLAN-LUME, 2010, p. 32).

São abrangentes e variadas as atividades econômicas no entorno da Bacia, sendo exercida pela agropecuária (cana-de-açúcar, café, criação de gado, reflorestamento e outros), agroindústria, mineração (ouro, ferro, pedras preciosas), indústria (celulose e outros), atividade pesqueira, além de outros comércios (ECOPLAN-LUME, 2010, p. 32). Em sua área está situado um dos maiores agrupamentos siderúrgicos da América, compreendendo a Companhia Siderúrgica Belgo Mineira e a USIMINAS. Presente também a Companhia Vale do Rio Doce – que controla a SAMARCO –, além de outras mineradoras e reflorestadoras (ECOPLAN-LUME, 2010, p. 35).

Embora chame atenção por seu conglomerado empresarial, a região não deixa de se destacar também pela desigualdade em seu seio. Apenas algumas cidades tiveram seu desenvolvimento considerável, tais como Governador Valadares, Linhares e Colatina. Entretanto, a maior parte dos municípios são tidos como pobres. E o impacto dessa constatação é ainda maior quando se leva em conta que, segundo dados divulgados pelo Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (PIRH), em 2010 a região tinha população superior a 3,5 milhões de habitantes (ECOPLAN-LUME, p. 35).

Neste ponto, vale considerar que até o rompimento da barragem de Mariana haviam poucos estudos sobre a atividade pesqueira na região. Essa conclusão pode ser extraída de simples pesquisa que se tente realizar acerca dos dados e características da atividade pesqueira, suas comunidades e povos ribeirinhos da bacia do rio Doce relativo a período anterior ao desastre. São encontrados muitos artigos, publicações e estudos disponíveis, porém quase todos posteriores à tragédia ambiental que assolou o rio Doce, inexistindo a mesma disponibilidade quanto à situação pretérita da atividade pesqueira. Nem mesmo no PIRH são encontradas muitas informações nesse sentido, o que denota pouca ou nenhuma preocupação com os pescadores até então.

Em que pese tais considerações, no PIRH de 2010 (ECOPLAN-LUME, p. 106) há registros de que pescadores do local acusavam já a mortandade de peixes na bacia, possivelmente em razão do despejo de esgoto in natura no rio Doce e rejeitos diversos advindos do complexo de indústrias da região. Ainda assim, relatavam a existência de deslocamento de grandes cardumes, tais como piau-vermelho, crumatã e outros, principalmente durante a piracema, que se dá durante as chuvas que vão de outubro a março de cada ano. Apesar das diversas formas de poluição de suas águas, ainda era abundante a ictiofauna do rio Doce, sustentando a atividade de todos os pescadores que tiravam o sustento de suas águas até o rompimento da barragem. Há registros do mesmo ano, no PIRH (ECOPLAN-LUME, p. 166), que existiam cerca de 174 estabelecimentos industriais ligados à pesca no entorno da bacia, no estado de Minas Gerais, com percentual de crescimento anual de 12,40%, além de 50 estabelecimentos no Espírito Santo, com taxa de crescimento anual de 8,02%.

Era intensa neste período a atividade pesqueira principalmente na Lagoa Juparanã, em Linhares/ES. Nos mercados da cidade eram encontradas, além das espécies mais comuns, peixes exóticos como pacumã, tucunaré, piranha, tilápia, apaiari e outros (ECOPLAN-LUME, 2010, p. 108). Atualmente não há mais essa variedade de peixes disponíveis no comércio local, conforme se verificará em capítulo deste artigo dedicado especialmente à exposição dos efeitos nefastos registrados em matérias da TV Gazeta após o rompimento da barragem de Mariana.

Outro estudo que denota a intensidade da atividade pesqueira na bacia foi o publicado pelo IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – (VIANA, 2017, p. 104), revelando que, em 2010 o IBGE havia catalogado a existência de 1.699 pessoas com 10 ou mais anos de idade que estavam ligadas à atividade pesqueira na bacia do rio Doce, com renda média de R$ 882,00. Já em 2016, através de números publicados pela SAMARCO, foram registrados 3.800 pescadores locais. O autor justificou a discrepância entre os números pelo fato de que o IBGE registra apenas os pescadores beneficiários do Seguro Defeso, ignorando os “pescadores artesanais”.

Já em 2010 havia forte preocupação com o lançamento de rejeitos e resíduos variados nas águas do rio Doce, pois já se verificava a presença de esgoto, lixo, metais pesados e agrotóxicos na bacia. Consta no PIRH que a ingestão de pescados advindos de águas com esse nível de poluição “é ainda mais grave devido à concentração de organo-tóxicos e metais pesados em sua carne” (ECOPLAN-LUME, p. 263). Com o rompimento da barragem a pesca e o consumo de peixes da bacia foram proibidos, tema a ser também abordado à frente, neste escrito.

Essas informações, ainda que concisas, se prestam à demonstração das características da região da bacia do rio Doce e da atividade pesqueira anteriormente ao rompimento da barragem de Mariana, permitindo a comparação da situação pretérita com a posterior, registradas pela TV Gazeta e que será exposta em capítulo próprio.

5 OS IMPACTOS DA LAMA DE REJEITOS DAS BARRAGENS DE MARIANA NA ATIVIDADE PESQUEIRA NOS MUNICÍPIOS DO ESPÍRITO SANTO ACOMPANHADOS PELO TELEJORNALISMO DAS TVS GAZETA NORTE E NOROESTE

O jornalismo das TVs Gazeta Norte e Gazeta Noroeste acompanharam de perto o avanço da lama de rejeitos de minérios das barragens que se romperam em Mariana, desde que foi anunciado que ela poderia atingir o Rio Doce. Desde a tragédia em novembro de 2015, até maio de 2018, 180 reportagens foram feitas mostrando os impactos ambientais, sociais e econômicos causados pela lama que percorreu o Rio Doce, de Minas Gerais até a foz em Linhares (TV GAZETA NORTE, 2018).

Um dos maiores impactos foi sobre a atividade pesqueira. Dados das emissoras revelam que do total de reportagens sobre o rompimento das barragens, 79 estavam relacionadas à pesca, fonte de sobrevivência de milhares de pessoas no trecho capixaba percorrido pelo Rio Doce.

A lama de rejeitos de minérios começou a preocupar os capixabas já nas primeiras 36 horas após o rompimento das barragens de Mariana. No dia 6 de novembro de 2015, o ES TV segunda edição, noticiava que a lama de rejeitos havia chegado ao Rio Doce, um dia após o rompimento (RUI, 2015). A contaminação da água era certa, assim como seu impacto devastador já se anunciava.

A lama percorria o rio deixando um rastro de morte. No quarto dia após a tragédia, os pescadores dos três municípios capixabas cortados pelo rio (Baixo Guandu, Colatina e Linhares) decidiram expor suas preocupações. A reportagem da TV Gazeta Norte, mostrou que pessoas que vivem da pesca estavam em alerta, porque a onda de lama avançava em direção às suas comunidades. Eles se reuniram, mas não era para falar da pesca, mas da iminência de ver interrompida, a atividade de onde tiravam seu sustento. Era o medo do que ainda não se sabia ao certo, que estava por vir (RUI, 2015). E o que viria seria desolador.

Os peixes que habitavam o Doce, não resistiriam à poluição. Os pescadores perceberam, e no dia 14 de novembro, a TV Gazeta Noroeste acompanhou moradores ribeirinhos, pescadores, ongs, profissionais de meio ambiente, voluntários, todos com apoio da justiça, numa tentativa de proteger as espécies que habitavam o rio. A reportagem mostrou que, em uma corrida desesperada, eles tentavam retirar os peixes do rio, e transportá-los para lagoas de Linhares e Marilândia, onde pudessem se manter vivos. Como a própria reportagem mencionava, “a pescaria forçada é a operação Arca de Noé”. O objetivo mostrado na reportagem era tirar o máximo de peixes possível do rio, antes da chegada da lama em águas capixabas. Tudo isso em plena piracema, o período de reprodução dos peixes. Era o segundo dia de operação, e mais de 500 mil peixes já haviam sido resgatados em Colatina. No município, segundo a reportagem, cerca de 200 famílias dependiam da pesca e viviam um clima de pura apreensão (FARDIN, 2015).

A operação também foi registrada pelo jornalismo da TV Gazeta Norte no dia 18, em Linhares. O resgate dos peixes neste município era com o objetivo de montar um banco genético das espécies nativas. Cerca de 80 espécies eram consideradas nativas do Rio Doce, 11 classificadas como ameaçadas de extinção, e 12 que só existiam neste rio. Principalmente pescadores se envolveram na ação para ajudar a salvar parte da vida que restava no rio (RUI, 2015). No dia 19 de novembro, os trabalhos continuavam, mais uma vez, mostrados pela reportagem da TV Gazeta Norte. Era provavelmente o penúltimo dia das equipes de resgate para capturar e transferir os peixes do rio para viveiros montados na sede do Incaper – o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência técnica e Extensão Rural (SENA, 2015). Os rejeitos de minério chegariam ao município já no dia 20.

Os peixes que permanecessem no rio não resistiriam. E não resistiram mesmo. Aos primeiros sinais da lama no Rio Doce, a TV já mostrava que moradores começavam a acompanhar a agonia dos peixes que não puderam ser resgatados. O ES TV do dia 24 de novembro (19 dias após as barragens se romperem) exibiu imagens desoladoras da chegada da lama nos municípios capixabas. Em Baixo Guandu, duzentos quilos de peixes mortos já haviam sido retirados desde a chegada da lama. E nesta data, o Ibama já estimava 2 toneladas de peixes mortos ao longo de todo o trajeto já percorrido pela lama de rejeitos. Depois que todo o curso do rio foi contaminado, 11 toneladas de peixes mortos foram recolhidas do Rio Doce, das quais 3 foram em águas capixabas (MELLO, 2015).

Assim como moradores das cidades cortadas pelo rio, os jornalistas que acompanhavam tudo de perto se mostravam impressionados com tamanha devastação. A maior tragédia ambiental já registrada no Brasil segundo dados das reportagens.

A lama já seguia lenta rumo à foz do rio em Regência, provocando apreensão e tristeza. Além do resgate dos peixes, as equipes de reportagem da TV Gazeta Norte mostraram a tentativa da Samarco em evitar que a lama chegasse ao estuário, colocando boias para proteger o berço da vida marinha. Os pescadores duvidaram da eficácia da alternativa, o que logo se confirmou: a medida foi um fracasso (RUI, 2015).

No dia 21 o primeiro protesto foi registrado pelo jornalismo da mesma emissora. Um protesto silencioso feito por pescadores que usaram um barco para chamar a atenção para a morte no rio Doce, e para a responsabilidade da Samarco pelo desastre ambiental. Foi na vila de Regência, onde a lama atingiria o mar (SENA, 2015). O segundo protesto dos pescadores foi registrado três dias depois, já na sede do município. A televisão exibia imagens dos manifestantes percorrendo ruas da cidade, e ainda jogando as redes em frente à prefeitura de Linhares como forma de simbolizar a morte dos peixes. A lama já havia chegado à foz, e todos os pescadores foram obrigados a suspender as atividades (SENA, 2015).

Na comunidade de Povoação, também na foz do rio Doce, assim que a lama de rejeitos de minério chegou as reportagens já mostravam o mar devolvendo peixes mortos. Os dados colhidos pelas equipes de jornalistas e apresentados nas reportagens eram cada vez mais assustadores. Os estragos provocados pela tragédia na atividade pesqueira não paravam de aumentar e os prognósticos não eram nada positivos. A tendência era piorar.

Informações do site G1 apontam que no Espírito Santo, cerca de 3 mil pescadores foram afetados pela lama da Samarco. Muitos vivem exclusivamente da atividade no Rio Doce. Sem a pesca, essas pessoas se viram sem ter de onde tirar o sustento de suas famílias (CAMPOREZ, 2016). Não havia outra fonte de renda que não fossem os peixes do Rio Doce.

Outra reportagem do G1 informou que na vila de Povoação, em Linhares, vivem 512 famílias e todas são dependentes da pesca (TV GAZETA, 2016). Assim que a lama atingiu a foz do rio, nenhum pescador pôde mais lançar suas redes na água. Estavam todos proibidos de pescar.

Quando entrou o mês de dezembro, os pescadores do Rio Doce decidiram cobrar da Samarco alternativas de renda, já que com a pesca não podiam contar (ARPINI, 2015). No dia 02 o ES TV mostrou que a Federação dos pescadores foi à justiça. Pedia à empresa, uma indenização de, pelo menos, um salário mínimo para cada pescador prejudicado pelo rompimento das barragens, e uma reparação por danos morais. Um acordo foi firmado por TAC – Termo de Ajuste de Conduta (RUI, 2015).

Quando a tragédia completou um mês, os telejornais reforçaram os danos causados por ela. Mais uma vez, mostrava pescadores desiludidos, sem saber quando poderiam voltar a tirar o sustento das águas do Doce. Dia após dia, o desespero de quem dependia do rio, era mostrado. Dia 07 de dezembro, o telejornal mostrou que, em Colatina, pescadores, mesmo impedidos de pescar, todos os dias percorriam o rio, sem saber o que iam fazer dali por diante (MELLO, 2015).

No dia 10, foi dia de mais uma audiência com pescadores dos três municípios capixabas afetados pela lama de rejeitos. Era momento de discutir o TAC assinado pela empresa Samarco para prestar ajuda aos profissionais que ficaram prejudicados pela poluição do rio Doce (MELLO, 2015). No dia 16 de dezembro a Justiça determinou que empresa repassasse uma ajuda de custo de um salário mínimo para cada pescador, mais 20% para cada dependente, e uma cesta básica durante 6 meses (SANTOS, 2015). A determinação deveria começar a ser cumprida imediatamente. Mas em Linhares, no dia 19 de janeiro de 2016, dois meses e meio após a tragédia, pescadores relataram ao repórter Kaio Henrique, da TV Gazeta Norte, que muitos ainda não tinham recebido o cartão do benefício (SANTOS, 2016). Chegou o mês de fevereiro, e a repórter Ariele Ruy (2016), também mostrou que na vila de Regência, Linhares, 30% dos pescadores ainda não tinham visto a cor do dinheiro, e continuavam proibidos de pescar, agora não só no rio Doce, mas em toda a foz, por decisão judicial. E essa decisão afetaria cerca de mil profissionais da região.

A dificuldade em receber a ajuda de custo fez moradores de Baixo Guandu também protestarem. O ES TV mostrou no dia 25 de fevereiro de 2016, que eles fecharam a linha férrea Vitória – Minas, administrada pela Vale (BACHETI, 2016).

Em 05 de março de 2016. Quatro meses após a tragédia. O assunto nos telejornais locais, ainda era a lama de rejeitos das barragens que se romperam em Minas Gerais. E mais uma vez, a reportagem começa com a dramática situação dos pescadores que continuavam com redes encostadas, barcos ancorados, freezers vazios (CARVALHO, 2016). A reportagem trazia dados do Instituto Estadual de Meio Ambiente, o IEMA – Instituto Estadual de Meio Ambiente, que informava que a pluma de maior concentração de rejeitos estava na foz em Regência, e mesmo com 78 pescadores da vila, cadastrados para receber a ajuda de custo da Samarco, 16 ainda estavam sem o auxílio. Enquanto quem precisava não recebia, quem nunca foi pescador, estava recebendo o benefício. Essa foi a denúncia feita por pescadores na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, e registrada pela TV Gazeta Norte no dia 24 de março do mesmo ano (CARVALHO, 2016).

Quando a tragédia completou 5 meses, o assunto pesca ainda era o principal nos telejornais das TVs Gazeta Norte e Gazeta Noroeste. Em 5 de abril, o repórter Kaio Henrique mostrava que a pesca continuava proibida, os peixes que habitavam a foz estavam contaminados, e muitos pescadores ainda não haviam recebido um centavo sequer do benefício que havia sido acordado através da justiça em dezembro (SANTOS, 2016).

Ao completar 6 meses, uma reportagem relembrava os danos causados pelos 800 quilômetros do Rio Doce. E afirmava: apesar dos prejuízos não terem sido ainda calculados, os pescadores foram os mais prejudicados. Os problemas foram tantos, que o repórter Alessandro Bacheti (2016), apresentou dados de que só no fórum de Colatina, mais de 9 mil processos foram movidos contra a mineradora.

No dia 26 de maio de 2016, a repórter Érika Carvalho, mostrou numa reportagem que no município de Linhares havia 800 profissionais associados à colônia de pescadores da cidade. Mas 180 deles não haviam conseguido ser cadastrados para receber ajuda de custo da Samarco. O prazo para o cadastramento, havia encerrado seis dias antes. E a pesca continuava proibida em toda a foz (CARVALHO, 2016).

A tragédia completou sete meses, e a situação dos pescadores mostrada nas reportagens continuava a mesma, ou até pior. A repórter Ariele Rui, mostrou no dia 05 de junho de 2016, que além de não poder pescar nem no rio, nem na foz, as embarcações dos pescadores começavam a estragar por ficarem paradas (RUI, 2016).

A partir daí a intensidade das reportagens sobre a lama que invadiu o Rio Doce após o rompimento de duas barragens de rejeitos de minério em Mariana, Minas Gerais começou a diminuir. Mesmo assim, a cada mês de aniversário da tragédia ambiental, os relatos dos repórteres das emissoras Gazeta Norte e Gazeta Noroeste, traziam as aflições dos pescadores. Ao completar 8 meses, uma reportagem dos repórteres Alessandro Bacheti e Mayara Mello (2016), apresentava a informação de que em Colatina, os barcos dos pescadores continuavam parados, e seus proprietários ainda não sabiam quanto tempo mais esperar para voltar às atividades pesqueiras.

Mais um mês se passou, e a notícia era de que a pesca havia sido liberada no rio. Mas na foz, continuava proibida. Como na comunidade de Regência, em Linhares, a maioria dos moradores dependiam da pesca, alguns pescadores ignoravam a proibição e já tentavam tirar seu sustento do mar onde a lama ainda se concentrava (CARVALHO, 2016).

Aos 10 meses da tragédia ambiental que poluiu intensamente a bacia do rio Doce, uma reportagem da jornalista Érika Carvalho (2016) mostrou que os pescadores da vila de Regência continuavam sem poder pescar. E com uma ajuda de custo bem inferior ao que tinham com a pesca, as contas começavam a se acumular. E pescadores de outras duas comunidades da foz, Pontal do Ipiranga e Barra Seca, reclamavam que ficaram de fora do cadastro da Samarco para receberem o cartão-benefício.

No dia 4 de outubro, 11 meses após o derramamento de lama no rio, o repórter Alessandro Bacheti (2016) contou a história de pescadores de Colatina, que tiveram que mudar de profissão. Não havia mais peixe no rio e o jeito era encontrar outra alternativa. Uns viraram coletores de recicláveis, outros, revisores de roupas. Até quem recebia a ajuda de custo da Samarco, amargava outro problema: golpistas, que retinham os cartões do benefício e cobravam para liberar o dinheiro. Mas a reportagem também apresentava a esperança dos pescadores de um dia voltarem à atividade de uma vida inteira: a pesca. E em Linhares uma outra reportagem no mesmo dia, mostrava a situação dos pescadores da vila de Povoação, onde 22 famílias dependiam da pesca (CARVALHO, 2016). Segundo a reportagem 40 pescadores continuavam sem nenhuma ajuda da mineradora Samarco, e guardavam suas esperanças num novo cadastramento, que começava a ser feito na comunidade que iria direcionar as famílias para programas sociais.

Chegou novembro de 2016, e a tragédia completou um ano. Uma equipe de reportagem da TV Gazeta Norte voltou a comunidade de Povoação em Linhares. Era 13 de novembro, e os pescadores ainda viviam a angústia e a insatisfação de não poder pescar. A atividade continuava proibida, e muitos profissionais não recebiam ajuda da mineradora. Não sabiam como pagar as contas que se acumulavam (CARVALHO, 2016). Por isso, no dia 29 de dezembro, decidiram protestar. A reportagem mostrou. E aquele novo cadastramento que havia sido feito na vila, não tinha trazido nada a ninguém ainda.

No dia 05 de janeiro de 2017, foi a vez de uma equipe de reportagem mostrar em Colatina, que os pescadores continuam desassistidos. Alguns com petrechos de pesca novinhos, sem poder usar (BACHETI, 2017). E muitos aguardavam por uma ajuda mínima da Samarco, que nunca chegava.

Mais dois meses se passaram, e a angústia continuava. A repórter Gabriela Fardin visitou a vila de pescadores em Maria Ortiz no dia 24 de março. Encontrou barcos ancorados, redes estragando, e gente lamentando não poder mais tirar do rio o sustento, como fez a vida inteira. E pior, era a Quaresma, o período religioso em que muitos católicos substituem a carne por peixe. Mais uma renda que os pescadores deixaram de ter (FARDIN, 2017).

A situação estava semelhante na vila de Regência em Linhares, quando no dia 09 de abril, os repórteres Érika Carvalho e Frideberto Viega (2017) mostraram que a associação de pescadores estava fechada desde que a lama chegou à foz do Doce e que os freezers já estavam enferrujando. Eram 7 funcionários e 114 pescadores cadastrados que se viram sem alternativa de renda, e mais de um ano depois da tragédia, continuavam sem saber quando voltariam ao trabalho. Na vila vizinha, Povoação, tinha pescador sem qualquer amparo da mineradora, que estava dependendo de doações até de comida para sobreviver. O caso foi mostrado no telejornal, no dia 15 de abril (CARVALHO, 2017).

A vida nas comunidades pesqueiras foi transformada em desilusão. Já havia passado um ano e sete meses desde que o marrom da lama invadiu o rio e a foz, e o repórter Kaio Henrique encontrou em Regência, barcos apodrecendo, freezers inutilizados, e ainda a desolação de pessoas que sequer sabiam, quando a pesca voltaria a ser liberada, e se os peixes não estariam contaminados (SANTOS, 2017).

No final de julho de 2017, uma equipe de reportagem da TV Gazeta Noroeste mostrou que o drama dos pescadores do município de Colatina continuava sem expectativa de acabar. E lá havia pescador que durante todo esse tempo não recebeu qualquer ajuda de custo. Nesse aspecto, a trajetória das reportagens mostrava um claro descaso da mineradora Samarco com grande parte dos profissionais que dependiam da pesca para sobrevivência (MELLO, 2017). Era a descrição de que o acordo firmado na justiça, não vinha sendo cumprido plenamente.

Passaram-se mais dois meses, e ainda vivendo de incertezas e praticamente sem amparo dos responsáveis pela tragédia, mais uma vez, pescadores decidiram protestar. E a TV Gazeta Norte acompanhou a indignação dos manifestantes, que fecharam novamente a ferrovia Vitória-Minas, em João Neiva, no dia 25 de setembro, impedindo a passagem de trens carregados com minério. Vários pescadores relataram que mesmo tendo feito cadastro, não foram contemplados para receber a ajuda de custo determinada pela justiça à Samarco (RUI, 2017).

Chegou o mês de novembro de 2017. A maior tragédia ambiental já registrada no país completava 2 anos. E como estava a situação dos pescadores que dependiam do Rio Doce para tirar seu sustento? A reportagem de Mayara Mello (2017) mostrou que não mudara para melhor. Pelo contrário, além de quase não mais encontrar peixes no rio, os poucos que apareciam, não eram vendidos. Havia o medo de estarem contaminados. Os petrechos de pesca estavam todos estragando com o tempo. Em Regência, Linhares, o repórter Kaio Henrique (SANTOS, 2017) voltou para mostrar que a mancha escura já não era mais vista na superfície. Os sedimentos de minério estavam no fundo do rio. A aparente água limpa não enganava os pescadores. As redes pareciam ser só lembrança dos tempos de pesca farta. A reportagem apontava que os dois anos se passaram, pesquisas foram feitas, mas nenhum laudo conclusivo foi apresentado afirmando se a contaminação havia prejudicado a vida marinha ou a qualidade do peixe que habitava o rio e a foz atingidos pela lama de rejeitos.

O telejornalismo das emissoras continuou acompanhando os reflexos da tragédia na vida das comunidades pesqueiras também em 2018. O derramamento de lama havia mudado de forma drástica a vida de centenas de pescadores, e no final de janeiro, numa reportagem da jornalista Ariele Rui (2018), muitos ainda amargavam a falta do trabalho, e consequentemente de dinheiro para se manter. Não tiveram amparo da mineradora Samarco com a ajuda de custo determinada pela justiça e ainda tiveram um outro benefício, o seguro defeso (logo quando a pesca de algumas espécies é proibida), que também foi negado para vários pescadores. Na reportagem eles alegavam que no INSS, recebiam a informação de que a própria Samarco havia orientado o não pagamento do benefício, porque “todos” os pescadores já recebiam o auxílio da mineradora.

No dia 30 de janeiro, dois anos e dois meses depois do rompimento das barragens, uma notícia que trazia um pouco de alívio para quem dependia do Rio Doce. A reportagem mostrava que as indenizações começaram a ser pagas. Em todo o estado, 10 mil pescadores estavam incluídos no pagamento. 96 pescadores da colônia de pesca de Regência iriam receber a indenização (CARVALHO, 2018). Não era tudo o que queriam, mas os pescadores se mostravam contentes com alguma forma de ressarcimento, por mínima que fosse. Na vila, ninguém mais pescava, assim como os pescadores de Colatina, haviam abandonado a atividade.

Mas os meses se passaram, e em abril, a última reportagem exibida pela TV Gazeta norte sobre a situação dos pescadores depois da tragédia, foi de mais uma manifestação (CARVALHO, 2018). Ela mostrava que manifestantes foram para a porta da Fundação Renova (criada para atender aos atingidos pela lama de minério) em Linhares, reivindicar para que todos os que, de alguma forma foram prejudicados pela lama que atingiu o Rio Doce, fossem indenizados. E a colônia de pesca afirmava que no município, vários pescadores nunca haviam recebido o cartão-auxílio determinado pela justiça, nem indenização.

Para a maioria das comunidades pesqueiras afetadas pela lama, o telejornalismo das duas emissoras foi, e ainda parece ser a forma de poderem falar, cobrar, mostrar o que estavam vivendo, o descaso que passaram a enfrentar, as dificuldades com as quais passaram a conviver sem saber até quando. A sensibilidade dos jornalistas na condução das matérias tem sido fator importante, pois não deixam o assunto “morrer”. Mesmo tendo diminuído a intensidade com passar dos anos, de tempos em tempos, o assunto volta ao foco das reportagens. Afinal, quem foram os culpados? Eles foram punidos? E as vítimas? Vão ser ignoradas até quando?

6 CONCLUSÃO

A maior tragédia ambiental da história do Brasil começou a ser desenhada muito antes do dia 05 de novembro de 2015, o que se extrai de uma barragem que se rompeu e era classificada à época pela Cadastro Nacional de Barragens de Mineração como de risco baixo, além de fiscalização deficitária e descaso da Samarco na gestão de segurança. Ficou claro que os efeitos dessa irresponsabilidade e baixo desempenho ambiental da empresa responsável trouxe consequências desastrosas para a bacia do rio Doce e todos aqueles que dependiam dela para extrair seu sustento. A TV GAZETA Norte/Noroeste registrou e tornou público as perdas para aqueles que viviam da pesca, além da agonia vivenciada pelo desamparo durante quase dois anos para muitos e, até hoje, para alguns outros. As imagens televisivas deixaram vivos no curso do tempo o que não pode ser esquecido: os impactos social, ecológicos e econômicos resultantes da completa contaminação da bacia hidrográfica do rio Doce pelos rejeitos de minério, o que ficou demonstrado neste escrito. Por fim, a tragédia de Mariana/MG deixa um alerta acerca da necessidade de aperfeiçoamento das formas de fiscalização quanto à segurança ambiental de grandes empresas e, sob outro viés, como as populações ribeirinhas, até então esquecidas, só vieram a ser lembradas quando o desastre lhes tirou o mínimo para sobreviver e ainda tiveram de lutar e esperar para que, anos depois, começassem a receber suporte capaz de prover-lhes com o mínimo de dignidade, mas que nunca poderá lhes devolver o que só a natureza é capaz de fornecer.

No campo da educação ambiental preventiva, os relatos e dados expostos acerca dos danos provocados pelo rompimento da barragem, trazem à luz a necessidade de fiscalização real e efetiva das barragens de minério, além de informações aos povos ribeirinhos e que vivem no entorno dessas barragens sobre os reais riscos a que estão expostos. Demanda ainda, dos órgãos públicos, maior vigilância e aponta os possíveis resultados de sua negligência, convocando-os a ações preventivas de maior concretude.



REFERÊNCIAS

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