ISSN 1678-0701
Número 67, Ano XVII.
Março-Maio/2019.
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13/03/2019CIDADE DOS SONHOS: A CONSTRUÇÃO DA CIDADE IDEAL A PARTIR DO DEBATE ENTRE ALUNOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA  
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CIDADE DOS SONHOS: A CONSTRUÇÃO DA CIDADE IDEAL A PARTIR DO DEBATE ENTRE ALUNOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA



CITY OF DREAMS: BUILDING THE IDEAL CITY FROM THE DEBATE AMONG STUDENTS OF BASIC EDUCATION

Jadson de Jesus Santos¹, Phellipe Cunha da Silva²



¹ Doutorando em Desenvolvimento e Meio Ambiente, PRODEMA da Universidade Federal de Sergipe. Professor de Geografia pela Secretaria de Educação de Alagoas. E-mail: jadsongeo@gmail.com

² Doutorando em Desenvolvimento e Meio Ambiente, PRODEMA da Universidade Federal de Sergipe. Professor de Geografia pela Secretaria de Educação da Paraíba. E-mail: phellipecunha@hotmail.com



Resumo: Para o desenvolvimento deste trabalho, foi feita análise de metodologias utilizadas nas aulas de geografia para o desenvolvimento da, aqui denominada, “Cidade dos Sonhos”, na Escola Estadual Geraldo Melo dos Santos, localizada na cidade de Maceió/AL e na Escola Estadual Gabino Besouro em Penedo/AL. O projeto metodológico “Cidade dos Sonhos”, consiste em trabalhar conteúdos de geografia em conjunto, como: estatística, análise ambiental, cartografia, desenvolvimento e planejamento urbano. O principal objetivo do projeto foi trabalhar a compreensão, por parte dos alunos, de como eles são os principais autores da formação do lugar onde vivem, possuindo cada um, papel importante para a formação da sociedade. Para isso, foi colocado aos discentes a possibilidade de decidir sobre como o dinheiro público deveria ser usado para a construção de uma cidade onde o essencial é que haja qualidade de vida igualitária a todos possibilitando o debate, também, do meio ambiente inserido nas cidades.



Palavras-chave: Metodologia de ensino. Geografia urbana. Plano Diretor. Planejamento urbano. Ensino de geografia.

Abstract: For the development of this work, we analyzed the methodologies used in geography classes for the development of the "City of Dreams", at the Geraldo Melo dos Santos State School, located in the city of Maceió/AL and at the Gabino State School Beetle in Penedo/AL. The methodological project "City of Dreams" consists of working geography contents together, such as: statistics, environmental analysis, cartography, development and urban planning. The main objective of the project was to work on students' understanding of how they are the main authors of the formation of the place where they live, each having an important role for the formation of society. For this, it was put to the students the possibility of deciding on how the public money should be used for the construction of a city where the essential thing is that there is equal quality of life to all enabling the debate, also, of the environment inserted in the cities.

Keywords: Teaching methodology. Urban geography. Master Plan. Urban planning. Geography teaching.

INTRODUÇÃO

O homem, como ser histórico, conseguiu ao longo do tempo ser um indivíduo capaz de transformar a realidade vivida por ele. Tendo a ciência geográfica papel fundamental no auxílio à formação do indivíduo, dando-lhes subsídios para que ele se enxergue como um ser consciente e agente de mudança do espaço geográfico. Para tanto, se faz necessário que o processo de construção do conhecimento ocorra através das relações que os sujeitos estabelecem com seu lugar de vivência, devendo essa ação ser mediada pelos conceitos teóricos. Esse movimento é fundamental para que o indivíduo consiga conceber uma compreensão de mundo (CALLAI, 2006) e uma postura consciente e ativa na sua transformação.

Para que o professor de Geografia consiga contribuir na construção de um sujeito ativo, crítico e ciente de seu poder de mudança, é preciso que esse profissional, Segundo Santos (1999), tenha em mente que:

Uma aula é sempre um conjunto de questões, e não propriamente de respostas. A aula que quer ser uma resposta é algo quase desnecessário. A aula tem que ser um conjunto de perguntas às quais incompletamente o professor formula, e as quais os ouvintes tomam como um guia tanto para aceitar, como para, depois de aceitar, discutir e, mesmo, recusar. (Santos, 1999, p.7)

Dessa maneira, para que as aulas consigam ser momentos de reflexão e desenvolvimento da criticidade e do conhecimento é necessário, por parte do docente, o cuidado com a construção do planejamento.

Para Coaracy (1972) o planejamento é um:

Processo contínuo que se preocupa com o para onde ir e quais as maneiras adequadas para chegar lá, tendo em vista a situação presente e possibilidades futuras, para que o desenvolvimento da educação atenda tanto às necessidades do desenvolvimento da sociedade, quanto as do indivíduo. (Coaracy, 1972, apud Stefanello, 2008, p. 60)

Portanto, o ato de planejar não deve ser encarado como sendo uma mera burocracia, pois sua execução é primordial para nortear o trabalho do professor ajudando-o a desenvolver práxis educativa de qualidade.

Através da construção do planejamento o professor de Geografia tem a possibilidade de, ao pensar sobre a construção de sua aula, buscar meios que facilitem aos alunos compreender e relacionar o que está sendo estudado com o seu cotidiano. Deste modo, ao elaborar seu planejamento, o professor deve pensar em ofertar aos discentes, “além das aulas expositivas dialogadas, uma didática diferenciada, capaz de envolver os seus alunos, fazendo com que eles sejam participativos, críticos e que de fato produzam o saber geográfico escolar” (STEFANELLO, 2008, p. 106).

Diante do exposto, o presente artigo objetiva refletir sobre a importância da utilização da Pedagogia de Projetos como metodologia no ensino da Geografia E Educação Ambiental na Educação Básica, além de apresentar o trabalho desenvolvido com os alunos do ensino médio da Escola Estadual Geraldo Melo dos Santos localizada do município de Maceió/AL e da Escola Estadual Gabino Besouro, no município de Penedo/AL, referente ao trabalho com o conteúdo Planejamento Urbano, através do desenvolvimento do Projeto intitulado “Cidades dos Sonhos”.

A PEDAGOGIA DE PROJETOS COMO METODOLOGIA NAS AULAS DE GEOGRAFIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Desenvolvida pelo norte americano John Dewey (1859-1952), a pedagogia de projetos tem como finalidade dinamizar as aulas de modo a atrair a atenção dos alunos para o tema desenvolvido. A intenção é que sejam trabalhados temas do currículo escolar, interligando-os aos temas da rotina dos discentes.

Transformar a sala de aula em laboratórios didáticos dinamiza a construção do conhecimento por cada um dos indivíduos envolvidos. Os alunos conseguem compreender melhor os assuntos enquanto o professor consegue melhorar a experiência e possibilidades de abordagens de assuntos em sala de aula.

Ao ser trabalhados assuntos em forma de projetos, é possível aproximar a teoria da realidade de maneira mais prática. Segundo Prado (2005):

Na pedagogia de projetos, o aluno aprende no processo de produzir, levantar dúvidas, pesquisar e criar relações que incentivam novas buscas, descobertas, compreensões e reconstruções de conhecimento. Portanto, o papel do professor deixa de ser aquele que ensina por meio da transmissão de informações – que tem como centro do processo a atuação do professor – para criar situações de aprendizagem cujo foco incida sobre as relações que se estabelecem nesse processo, cabendo ao professor realizar as mediações necessárias para que o aluno possa encontrar sentido naquilo que está aprendendo a partir das relações criadas nessas situações. (Prado, 2005, p. 13)

Um dos pontos principais do uso da pedagogia de projetos é a interação dada entre os alunos. São eles os principais autores e atores das atividades. É por meio da construção da atividade que é possível despertar o intelecto crítico dos discentes, sendo possível, ainda, que eles consigam criar alternativas para possíveis problemas encontrados durante o desenvolvimento da atividade. Desse modo, Prado (2005, p. 14) afirma ainda que “o ato de projetar requer abertura para o desconhecido, para o não-determinado e flexibilidade para reformular as metas à medida que as ações projetadas evidenciam novos problemas e dúvidas”.

É na educação básica onde a pedagogia de projetos encontra espaço aberto para desenvolver as diversas possibilidades de ações a serem desenvolvidas. A construção do conhecimento dada nesta fase da educação é um arcabouço de ideias a serem colocadas em práticas.

Para a realização de um projeto em sala de aula é preciso levar em consideração a boa construção das ideias e não apenas utilizar-se atividades desconexas entre si. São diversas as metas a serem elencadas na construção de um projeto pedagógico, dentre eles: o estabelecimento de objetivos, metas e planejamento para, a posteriori, haver a possibilidade de execução e avaliação do trabalho realizado. Dessa forma, é possível, de acordo com Nogueira (2007, p. 77), “[...] imaginar o projeto antecedido de sonhos, vontades, desejos, ilusões, necessidades, etc., fatores estes que servirão como impulsionadores para o ato de projetar”. Sendo assim, um projeto deve, desde sua construção, ser pensado para o coletivo.

O que deve ser considerado na elaboração de um projeto a ser executado em sala de aula é que ele não está ali para servir como um regimento de regras a serem cumpridas, mas sim como um projeto de possibilidades e condições a serem seguidas com as devidas modificações e ajustes que possam surgir no decorrer da execução do trabalho.

Para a geografia, a abordagem da pedagogia de projetos é expandida por esta ser uma das disciplinas de maior representação da realidade. São diversos os temas abordados durantes as aulas de geografia, que vão desde a apresentação das teorias de surgimento da terra à análise das relações sociais que formam o mundo contemporâneo. A expressão desses conhecimentos é fator importante para o conhecimento dos alunos enquanto cidadãos, atores da sociedade, como afirma Silva (2001):

Os conceitos aprendidos assim não são passageiros, ao contrário, são duradouros e dão mais sentido aos estudos de geografia e, consequentemente, contribuem, de forma incisiva, para que, de fato, o aluno conhecendo a geografia possa então por conta própria entender o significado da máxima “conhece-te a ti mesmo”. (Silva, 2001, p. 25-26)

Para a construção de um projeto a ser executado em sala de aula deve-se, então, levar em consideração toda a dinâmica entre a teoria e realidade. É dessa maneira que é possível desenvolver, por meio da prática, a compreensão por parte dos discentes do mundo em que vivem, despertando-os para a compreensão de que são atores da realidade vivida em sociedade.

A CIDADE DOS SONHOS - CONSTRUINDO UM PROJETO NA ESCOLA

O projeto intitulado “Cidade dos Sonhos” foi desenvolvido em duas escolas da rede pública de ensino nas cidades de Maceió-AL e Penedo/AL. As atividades foram desenvolvidas em duas turmas do 1º ano do ensino médio em cada escola. O desenvolvimento das atividades deu-se por três semanas, sendo utilizadas seis horas/aula. Conteúdos, referentes ao que foi desenvolvido, foram trabalhados em aulas anteriores e durante a execução do projeto, como: cidade, zona urbana, zona rural e cartografia básica.

Na elaboração do projeto “Cidade dos sonhos” foi pensado sobre como o aluno sentir-se-ia incluído na formação e construção de seu próprio lugar de vivência. A ideia trabalhada neste projeto foi mostrar aos discentes sobre como são os seus papeis enquanto cidadãos, além de dar um embasamento teórico-prático de como funciona parte da administração participativa. Com isso, foi possível mostrar que “formar o cidadão, significa dar condições ao aluno de reconhecer-se como um sujeito que tem história, que tem conhecimento prévio do mundo e que é capaz de construir o seu conhecimento” (CALLAI, 2003, p. 78).

Dessa maneira, para que a formação de uma sociedade seja compreendida, é preciso que se sintam, os alunos, incluídos como principais autores desse processo. Ao interligar a construção de uma cidade imaginária com as diversas realidades, o discente passa a ter noção de como ocorrem todos esses processos e problemáticas que envolvem a cidade onde vivem. Sobre a importância do estudo da cidade e do município, Callai (2003) afirma que:

O estudo do município permite que o aluno constate a organização do espaço, que possa perceber nele a influência e/ou interferência dos vários seguimentos da sociedade, dos interesses políticos e econômicos ali existentes e também de decisões externas ao município, confrontando-se inclusive com interesses locais e da população que ali vive. (Callai, 2003, p. 81)

Após a compreensão sobre esses processos é possível, então, que os alunos possam apresentar seus trabalhos em cada uma das etapas do projeto, isto possui importância significativa no processo de compreensão, como indaga Nogueira (2007):

Enquanto expositores, os membros da equipe terão a grande oportunidade de comunicar-se com os demais alunos, e como sabemos, a comunicação é extremamente complexa de ensinar, mas neste caso fácil de propiciar, favorecendo, sem dúvida alguma, as áreas linguística e interpessoal. (Nogueira, 2007, p. 90)

Assim como os alunos, o professor deve utilizar-se das diversas temáticas abrangidas no decorrer de um projeto para o melhor entendimento do papel social que cada cidadão possui na formação de uma cidade. A importância do uso de um projeto deste tipo nas aulas de geografia dá-se, principalmente, pelo envolvimento do aluno como principal autor do seu processo como cidadão participativo.

Uma das principais ligações prática-teoria-prática é possibilitar que os alunos possam compreender a sua realidade por meio da a análise crítica dos fatos. A Geografia pode contribuir para esse processo de compreensão da realidade através da pedagogia de projetos, ou seja, o professor deve fazer uma ligação entre o conteúdo dado em sala de aula com a realidade, mas não basta apenas fazer essa ligação, deve-se também tentar compreender o porquê, onde, quando e como esse determinado acontecimento ocorreu, deste modo, se obtém uma maior compreensão de tal assunto. Assim afirma Selbach (2010):

O professor pode passar uma informação, mas verdadeiramente ensina seus alunos quando sabe transformar essa informação em conhecimento, transformando os próprios alunos. Assim a verdadeira e transformadora aprendizagem é processo que começa com o confronto entre a realidade do que sabemos e algo novo que descobrimos ou mesmo uma nova maneira de se encarar a realidade. (Selbach, 2010, p. 20)

O projeto “Cidade dos sonhos” foi trabalhado de forma a fazer o aluno compreender melhor os diversos conteúdos acerca da Geografia urbana com sua realidade, estabelecendo ligação direta com a Educação Ambiental a partir do debate da necessidade de existência de espaços verdes nas cidades destinados, além do lazer, à existência de qualidade de vida aos cidadãos que nelas residem. Ao abordar em sala de aula a construção de pesquisas estatísticas para firmar Plano Diretor de uma cidade fictícia, faz o aluno compreender passo-a-passo como é administrada uma cidade, como são distribuídos os recursos em obras e serviços, como é planejada a mobilidade urbana e demais atividades de uma cidade.

O Plano Diretor Municipal (PDM) é um instrumento de gestão, planejamento e administração municipal, nele são elencadas todas as regras e possibilidade de desenvolvimento e investimentos urbanos. Para o aporte legal, é desenvolvido por critérios elencados em leis maiores como a Constituição Federal, a Lei de Responsabilidade Fiscal e o Estatuto da Cidade. No caso do PDM, a Lei Nº 10.257, de 10 de julho de 2001, conhecida como Estatuto da Cidade, determina que:

Art. 42. O plano diretor deverá conter no mínimo:

I – a delimitação das áreas urbanas onde poderá ser aplicado o parcelamento, edificação ou utilização compulsórios, considerando a existência de infra-estrutura [SIC] e de demanda para utilização [...]

III – sistema de acompanhamento e controle.

A compreensão sobre o que é e qual a finalidade de um Plano Diretor é importante para analisar as decisões que partem da administração pública no desenvolvimento de uma cidade. Para o desenvolvimento do projeto, após a compreensão das finalidades de um plano diretor, as atividades do trabalho em sala de aula foram desenvolvidas de forma dinâmica, com o intuito de atrair a atenção do aluno. Para a elaboração da “Cidade dos Sonhos”, foram designadas diversas atividades aos discentes para criar uma cidade fictícia com todos os serviços essenciais.

Desde a pesquisa estatística, passando pela construção do mapa, ao processo de criação do Plano Diretor, o aluno, como ser crítico, é parte integrante desta cidade fictícia e isto ajuda-o a compreender que, assim como nesta ficção, ele é ser integrante do lugar onde reside, ator e autor da construção da cidade onde vive

METODOLOGIA E RESULTADOS

O desenvolvimento do projeto perdurou por seis aulas, duas por semana. O primeiro passo foi a abordagem, por meio de aulas expositivas dialogadas, sobre como ocorre o planejamento e gestão de uma cidade. No segundo passo ocorreu a divisão da turma em grupos, cada equipe era responsável pelo desenvolvimento das atividades para a construção da cidade com a finalidade de criar e aplicar uma pesquisa na própria escola. Por fim, foram utilizados o conhecimento adquirido e os resultados da pesquisa para a criação de cada uma das cidades fictícias:

Primeira Etapa - Aulas Expositivas Dialogadas

Por meio do método participativo, no qual o aluno é o principal ator da produção do conhecimento, o trabalho consistiu-se no desenvolvimento de diversas atividades. Para a elaboração das atividades em sala de aula, foram necessárias, primeiramente, aulas expositivas dialogadas sobre os diversos temas que iriam ser trabalhados posteriormente durante as etapas do projeto, como: noções de cartografia, atividades econômicas, cidades, estatística, educação ambiental e outros.

Segunda Etapa– Aprendendo a ser Pesquisador

A segunda etapa foi a pesquisa de cunho estatístico. Nesta etapa, dividiram-se as turmas em grupos onde cada grupo era responsável pela pesquisa de elaboração do plano diretor da cidade criada por eles. Para a criação da Cidade dos Sonhos pelos alunos foram designadas atividades de pesquisa que tratavam de: quantidade de habitantes, divisão de bairros, infraestrutura, espaços verdes, equipamentos urbanos necessários, mobilidade, segurança, saúde, educação e outros. Os grupos desenvolveram um questionário discriminando todas as áreas essenciais para o bom desenvolvimento de uma cidade.

Posteriormente à elaboração do questionário, os grupos tiveram a tarefa de fazer a pesquisa em campo, alunos de outras turmas da escola foram os sujeitos pesquisados, foram eles os responsáveis pela definição do que seria a cidade ideal para cada um. Para compreensão e melhor visualização dos resultados, foram elaborados em sala de aula gráficos estatísticos.

Concluída a pesquisa, foi trabalhado em sala como ocorre a manipulação dos dados pesquisados, transformando-os em gráficos, tabelas e quadros estatísticos. A proposta dessa atividade foi trazer ao aluno o diálogo sobre a importância das estatísticas para o conhecimento do que ocorre em determinados setores afim de a administração pública gerir melhor sobre a distribuição dos investimentos financeiros em cada uma das áreas.

Após a pesquisa, foi designado que os alunos escolhessem a própria equipe gestora para a cidade (Figura 1), a ideia é que cada um passasse a assumir o papel de um Prefeito, vice-prefeito, vereadores e secretários municipais. Feito isso, foi dito que cada grupo teria uma quantia de 1 bilhão de reais para ser usado na construção de equipamentos urbanos, prédios públicos e toda a infraestrutura necessária à cidade. Esse valor deveria ser utilizado a partir de uma pesquisa via internet com valores reais para construção de pontes, pavimentação de rua, construção de escolas, hospitais e todos os equipamentos necessários à cidade.

Figura 1. Debate entre os alunos sobre como seria investido o montante destinado às obras de infraestrutura da cidade. Foto: Autoria própria

Percebeu-se nesse momento uma empolgação por parte deles, a ideia de poder usar um valor alto fez eles terem a curiosidade, inclusive, de pesquisar o custo de construção e reforma da própria escola onde estudam. Neste momento foi notória a importância de mostrar aos nossos alunos que apesar de estarem em escola pública e gratuita, tudo aquilo tem um custo e é importante a todos os cidadãos a fiscalização desses valores.

Terceira Etapa – Construindo o Plano Diretor da Cidade

Nesta etapa ocorreu a elaboração do plano diretor para a Cidade dos Sonhos, material importante para a compreensão de como funciona a administração de uma cidade.

Mais uma vez, antes do início da atividade, foi uma aula teórica foi apresentada a fim de que os alunos tivessem conhecimento do que seria um Plano Diretor. Feito isto, os grupos começaram a desenvolver o PDM de suas cidades, o método aqui utilizado foi semelhante a uma votação na Câmara Municipal ou Conselho Participativo, cada integrante do grupo apresentava uma proposta, baseada na pesquisa feita anteriormente, para cada um dos temas a serem apresentados no PDM e, posteriormente, posto em votação, somente as propostas com a maioria dos votos eram aprovadas e colocadas no PDM da cidade fictícia.

Nesta parte do trabalho, os alunos puderam compreender melhor como são definidas as regras para o desenvolvimento urbano. Segundo o Estatuto da Cidade (2001):

Art. 28. O plano diretor poderá fixar áreas nas quais o direito de construir poderá ser exercido acima do coeficiente de aproveitamento básico adotado, mediante contrapartida a ser prestada pelo beneficiário.

§ 1o Para os efeitos desta Lei, coeficiente de aproveitamento é a relação entre a área edificável e a área do terreno.

§ 2o O plano diretor poderá fixar coeficiente de aproveitamento básico único para toda a zona urbana ou diferenciado para áreas específicas dentro da zona urbana.

§ 3o O plano diretor definirá os limites máximos a serem atingidos pelos coeficientes de aproveitamento, considerando a proporcionalidade entre a infra-estrutura [SIC] existente e o aumento de densidade esperado em cada área.

Art. 29. O plano diretor poderá fixar áreas nas quais poderá ser permitida alteração de uso do solo, mediante contrapartida a ser prestada pelo beneficiário.

Após a finalização do plano, ficou decidida a setorização da cidade por bairros como visto na Figura 2 em um dos mapas elaborados, onde cada equipamento urbano seria construído, em qual contexto geográfico a cidade estava localizada e outros fatores determinantes de como a cidade seria.





Figura 2: Mapa elaborado por um dos grupos de alunos mostrando a setorização da cidade com a presença de um rio e um parque ecológico. Fonte: Discentes envolvidos no projeto.

O interessante a constatar foi a presença em todas as cidades de parques verdes e de áreas de lazer próximas a rios ou praias marítimas. Como as escolas estão localizadas no litoral – Maceió – e à margem do Rio São Francisco – Penedo – eles levaram a própria vivência para a ficção, demonstrando o quão sentem-se pertencentes ao lugar onde residem além de ser notória a necessidade de conciliação entre o natural e o urbano para que haja qualidade de vida adequada a todos os cidadãos.

Quarta Etapa – Confeccionando o Mapa Cartográfico

Por fim, foi trabalhado com os alunos, por meio da elaboração de croquis, como era formada fisicamente a cidade: ruas, avenidas, praças, bairros e outros.

A última atividade do projeto foi trabalhar a cartografia para a criação do mapa urbano da cidade criada, exemplificada pela Figura 3. Esta pode ser considerada como a fase de pôr em prática as atividades estabelecidas nas primeiras etapas.



Figura 3: Mapa elaborado por um dos grupos de alunos da Cidade dos Sonhos. Fonte: Discentes envolvidos no projeto.

Ao ser trabalhado a cartografia em aula, os alunos puderam compreender a noção de espaço e escala, onde por meio da criação do mapa da cidade puderam direcionar na prática, onde poderia estar localizado cada um dos espaços e bairros criados por eles no Plano Diretor.

CONSIDERAÇÕES

Torna-se, cada vez mais, importante a inovação de metodologias para serem trabalhas em sala de aula. Porém, é preciso que sejam interligadas com assuntos da rotina dos alunos. O cuidado ao trabalhar os conteúdos programáticos de uma disciplina deve ser minucioso, ao passo que sem uma ligação com a prática, o conteúdo abordado pode não ser assimilado pelo aluno.

No desenvolvimento deste projeto metodológico, foi perceptível a busca por conhecimento por parte dos alunos. O engajamento em todas as etapas das atividades foi constatado por meio dos resultados obtidos. Não somente os gráficos e mapas estavam bem elaborados, como também a compreensão do planejamento urbano por meio do Plano Diretor criado para a cidade fictícia que, de certo modo, tornou-se realidade na finalização do projeto com o documento – Plano Diretor Municipal – e o mapa com o zoneamento da cidade criada.

Além disso, percebeu-se o engajamento por parte deles para que o dinheiro fosse bem gasto com a construção da infraestrutura da cidade para que ela pudesse funcionar de maneira que todos tivessem igual qualidade de vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Lei Nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Regulamenta os arts. 182 e 183 da Constituição Federal, estabelece diretrizes gerais da política urbana e dá outras providências (Estatuto da Cidade). Diário Oficial. Eletrônico de 11/07/2001, p. 1. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LEIS_2001/L10257.htm>. Acesso em 17 de setembro de 2015.

CALLAI, Helena Copetti. Estudar o lugar para compreender o mundo. In: CASTROGIOVANNI, Antônio Carlos (Org.). Ensino de geografia: práticas e textualizações no cotidiano. 5. ed. Porto Alegre: Mediação, 2006.

___________. O estudo do município ou a geografia nas séries iniciais. In: CASTROGIOVANNI, Antonio Carlos, et al. Geografia em sala de aula: práticas e reflexões. 4ª ed. Porto Alegre: UFRGS, 2003. pp. 77-82.

NOGUEIRA, Nilbo Ribeiro. Pedagogia dos projetos: uma jornada interdisciplinar rumo ao desenvolvimento das múltiplas inteligências. 7. ed. São Paulo: Ed. Érica, 2007.

PRADO, Maria Elisabette Brisola Brito. Pedagogia de projetos: fundamentos e implicações. In: ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini de; MORAN, José Manuel (Org.). Integração das tecnologias na educação. Brasília: Ministério da Educação/SEED/TV Escola/Salto para o Futuro, 2005. cap. 1, artigo 1.1, p. 12-17.

SANTOS, Milton. O dinheiro e o território. GEOgraphia, Rio de Janeiro, Ano. 1, Nº 1, 1999. Disponível em: <http://www.uff.br/geographia/ojs/index.php/geographia/article/viewFile/2/2>. Acesso em 8 de outubro de 2015.



SELBACH, Simone; CARNEIRO, Aline dos Santos (Ed.). Geografia e didática. Petrópolis: Vozes, 2010. 

SILVA, Vicente de Paulo da. O ensino de geografia por meio de projetos de pesquisa: experiências em escolas públicas de Uberlândia – MG. R. Ens. Geogr., Uberlândia, v. 2, n. 2, p. 23-38 , jan./jun. 2011. Disponível em: <http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/Art%202%20REG%20v2n2.pdf>. Acesso em 10 de dezembro de 2015.

STEFANELLO, Ana Clarissa. Didática e avaliação da aprendizagem no ensino de geografia. Curitiba: IBPEX, 2008.





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