ISSN 1678-0701
Número 67, Ano XVII.
Março-Maio/2019.
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13/03/2019CULTURA E IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS DO BAIRRO ANGARI, ÀS MARGENS DO RIO SÃO FRANCISCO, JUAZEIRO-BAHIA  
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CULTURA E IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS DO BAIRRO ANGARI, ÀS MARGENS DO RIO SÃO FRANCISCO, JUAZEIRO-BAHIA

Adzamara Rejane Palha Amaral1, Regina Claudia Nascimento², Rosilda Alves Magalhães Menezes³,

Tâmara Almeida e Silva4.

¹Bolsista CAPES, Mestranda do programa de Pós-Graduação em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental, Universidade do Estado da Bahia-PPGEcoH /. adzamarajua@gmail.com.2 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental, Universidade do Estado da Bahia -PPGEcoH /. regclaudia1@hotmail.com.3Profa. Me. em Ecologia Humana. Universidade do Estado da Bahia, Docente da UNEB, rosilda_magalhaes@hotmail.com.4Profa. Drª. em Oceanografia. Universidade do Estado da Bahia, Docente PPGEcoH /UNEB, tamaraalmeidas@yahoo.com

Resumo: O artigo aborda um estudo dos impactos observados a partir da dinâmica das relações entre pescadores artesanais e o meio ambiente. Assim, o objetivo deste estudo foi identificar os impactos socioambientais, culturais e territoriais na comunidade urbana e centenária de pescadores artesanais do bairro Angari. O estudo foi realizado no bairro Angari, às margens rio São Francisco, Juazeiro-Bahia, em duas etapas: a primeira, por meio de observação direta com aplicação do método listagem de controle (checklist), in situ; a segunda, a partir de um levantamento bibliográfico, ambas em setembro de 2018. Por meio do checklist, foi percebido que há construção de prédio nas proximidades da comunidade, presença de animais domésticos, disposição de resíduos sólidos (embarcações deterioradas, pneus, sacolas plásticas), desmatamento da mata ciliar, assoreamento, esgotos a céu aberto lançados diretamente no rio, além de residuos de peixes que são lançados diretamente dentro do rio, sem tratamento, e lavagem de roupa no seu leito. A perspectiva de estudar os impactos tem relevância para refletir e alertar a sociedade sobre os efeitos e riscos dos impactos, e, portanto, gerar conscientização da conservação ambiental e preservação dos aspectos culturais dos pescadores artesanais que formam a identidade da referida comunidade.

Palavras-chaves: Cultura. Educação Ambiental. Pesca. Preservação. Proteção.

Abstract: The article approaches a study of the observed impacts from the dynamics of the relations between artisanal fishermen and the environment. Thus, the objective of this study was to identify socio-environmental, cultural and territorial impacts in the urban and centennial community of artisanal fishermen in the Angari neighborhood. The study was carried out in the Angari neighborhood, on the banks of the São Francisco river, in two stages: the first, through direct observation with the application of the checklist method, in situ; the second, the from a bibliographical survey, both in September 2018. Through the checklist, it was noticed that there is construction of a building near the community, presence of domestic animals, disposal of solid wastes (deteriorated vessels, tires, plastic bags), deforestation killer ciliary, silting, open-air sewers thrown directly into the river, as well as fish waste that are thrown directly into the river, untreated, and laundered in its bed. The perspective of studying impacts is relevant to reflect and alert society about the effects and risks of impacts, and, therefore, generate awareness of environmental conservation and preservation of the cultural aspects of artisanal fishermen that form the identity of said community.

Key-words: Culture. Environmental education. Fishing. Preservation. Protection.

1.INTRODUÇÃO

A pesca profissional em uma comunidade de pescadores é vista como uma atividade alternativa para sobrevivência, considerando que muitos possuem um grau de escolaridade insuficiente para ingressarem no mercado de trabalho. Em contrapartida, possuem um vasto conhecimento empírico, tradicional, que é repassado através das experiências vividas pelos mais velhos sobre o contato e as atividades com o meio ambiente aos mais jovens (SILVA; SOARES, 2008).

Em comunidades pesqueiras, a historicidade reflete a origem e trajetória de um povo. O Bairro Angari, por exemplo, localizado às margens do rio São Francisco, na cidade de Juazeiro-Bahia, teve origem na grande quantidade de ingás (Ínga edulis Mart), espécie típica de formação ciliar, nativa da caatinga, que existiam na margem do “Velho Chico” (ALVES, 2014).

O bairro Angari é centenário, com aproximadamente 128 anos de história, testemunhou o crescimento populacional e demográfico da cidade que vivência diariamente a rotina de pescadores que saem de suas casas, com seus barcos, para buscarem o sustento de suas famílias no rio São Francisco. A comunidade também inspirou as letras das canções do compositor Edésio Santos, que, em suas músicas, homenageava as lavadeiras de roupa, no rio, no tempo de outrora, que era um costume típico dos ribeirinhos (SOUZA, 2017).

A comunidade do Angari, nos dias atuais, vive dividida por duas realidades distintas: de um lado condomínios luxuosos, bares, lanchonetes, restaurantes com música ao vivo animam os frequentares da Orla; e do outro lado, casas simples, de pessoas que sobrevivem da pesca artesanal no rio São Francisco e do seguro defeso, na época da Piracema, contemplam a beleza do por do sol no final de tarde olhando para as águas do “Velho Chico”, conforme Souza (2017).

Assim, este artigo teve como objetivo identificar impactos socioambientais, cultuais e territoriais da comunidade de pescadores do bairro Angari ao Rio São Francisco, que são resultantes da interação entre ser humano e a natureza.

2. REVISÃO DA LITERATURA

2.1. Os pescadores urbanos do bairro Angari

No rio São Francisco, o ofício de pescador representa uma das principais atividades econômicas. Contudo, há outros aspectos que propiciam a utilização desse grande volume de água, como por exemplo: a agricultura irrigada, a navegação, a geração de energia elétrica e o turismo (LIMA; MELO, 2013).

De acordo com as simbologias, o rio São Francisco também é caracteristicamente conhecido pelas definições carinhosamente denominado como “um legítimo Nilo Caboclo”, pelo renomado geógrafo brasileiro, Prof. Dr. Aziz Nacib Ab’Sáber (2003), que o considerava “o mais típico rio alóctone1 a cruzar sertões rústicos” (SÁ & NOGUEIRA, 2015).

Devido às múltiplas funções, o “Velho Chico”, como é conhecido esse importante rio brasileiro, tem sofrido com as ações antrópicas, afetando diretamente os homens e mulheres da pesca artesanal, os quais têm, nesta atividade, sua principal fonte de renda (LIMA, 2013).

Segundo Souza (2017), a Colônia de Pescadores Z-60, do Bairro Angari, foi fundada no dia 11 de novembro do ano de 1992. Atualmente, funciona como suporte de orientação aos profissionais que ainda vivem do rio e da pesca. Nesta instituição, estima-se que cerca de 500 pescadores trabalham de forma autônoma. Todavia, a atividade pesqueira tem sido prejudicada devido ao barramento do rio São Francisco por meio da construção de usinas hidrelétricas ao longo do rio São Francisco, reduzindo, assim, os estoques pesqueiros, inclusive espécies de peixes nativos reofílicas, sendo estas as que precisam da correnteza para a sua reprodução(piracema).

2.2 Aspectos econômicos da pesca artesanal

A pesca é uma das atividades humanas mais antigas, sendo, para muitas comunidades, sobretudo tradicionais, a exemplo das indígenas, uma tradição histórica, cultural e de subsistência. Os grupos instalados ao longo do rio São Francisco têm, na atividade pesqueira, uma importância histórica, além de representar uma das principais fontes de proteínas para estas comunidades (SANTOS & ALVES, 2016).

Durante o período colonial brasileiro, quanto à pesca, no cerne destes estudos estava à questão da utilização da hidrovia, através de investimentos imperiais, como canal de tráfego de pessoas e produtos, tendo como questão principal especular a possibilidade de introdução, por exemplo, de embarcações maiores, como os vapores roda-popa, gestados eventualmente por companhias de navegação instituídas (MAGALHÃES, 2014).

A atividade pesqueira no Brasil, conforme Santos (2015), entende-se como a formação do território brasileiro, pois carrega as influências de cada momento histórico dessa formação. A atividade era predominantemente artesanal, através de funções que visavam à própria subsistência das famílias indígenas. Os instrumentos utilizados eram tradicionais e confeccionados pelos próprios índios, a exemplos de técnicas de pesca herdadas deste período, que são: as canoas e as redes tecidas com fibras vegetais, que, no decorrer dos anos, foram aperfeiçoadas e são utilizadas até os dias atuais.

Na Colônia de Pescadores do Angari, a pesca artesanal caracteriza-se como uma atividade econômica realizada com base em conhecimentos tradicionais, transmitidos de geração a geração de pescadores, cujos recursos pesqueiros são utilizados de forma sustentável, em harmonia com a preservação e a conservação do meio ambiente e da biodiversidade, conforme previsto na Lei que dispõe sobre a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Pesca e Aquicultura- Lei 11.959/2009 (BRASIL, 2009).

As relações entre ser humano e meio ambiente, segundo Begossi (2013), são o princípio básico da Ecologia Humana, que trata de analisar as interações entre populações humanas e recursos naturais. O contato direto entre os pescadores e os recursos naturais é diário, observando-se a dependência econômica a partir dos usos dos recursos aquáticos e a vegetação.

A pesca artesanal é a praticada diretamente por pescador profissional, de forma autônoma ou em regime de economia familiar, com meios de produção próprios ou mediante contrato de parceria, desembarcado, podendo utilizar embarcações de pequeno porte (BRASIL, 2009). Praticada nas diversas comunidades ribeirinhas existentes no Submédio São Francisco, a pesca artesanal é uma importante atividade humana que sofre impactos socioambientais, que promovem variações nas suas características, formas e finalidades ao longo do tempo (SANTOS & SANTOS, 2018).

Depois da construção da barragem de Sobradinho-BA, os peixes que desovavam nas águas correntes deixaram de reproduzir no grande lago. Os velhos pescadores já não conseguem pescar em abundância a piranha (Pygocentrus nattereri), pirá (Malacanthus plumieri) e o surubim (Pseudoplatystoma fasciatum), que chegava a pesar 80 kg. Os predadores inseridos no lago, como o tambaqui e o tucunaré, impedem a reprodução de outros peixes, pois se alimentam de seus óvulos (AMARAL, 2012).

De acordo com Souza (2017), antes da construção da barragem de Sobradinho os pescadores pescavam com pedaços de rede ou com uma flecha. Quando o peixe aparecia na superfície das águas era flechado. Dessa forma, muitos pescadores conseguiam suprir a família financeiramente.

Para Pimentel (2018), o homem, constantemente, causa impactos ambientais ao desmatar, pois impermeabiliza o solo, entre outros danos naturais, sendo necessário prever e avaliar os impactos negativos, adotando medidas a fim de evitá-los ou a minimizá-los. Desta forma, a introdução da arborização no meio urbano é a medida principal para minimizar diversos impactos ocasionados pelo homem.

A Psicologia Ambiental busca compreender de forma interdisciplinar o homem em seu contexto físico, social, cultural e psíquico. Essa ciência busca, nessas inter-relações homem e ambiente, a compreensão das percepções, atitudes, significados ambientais, ao mesmo tempo considerando os comportamentos associados a elas (JERONINO & SOUZA, 2015).

2.3 A cultura ribeirinha do bairro Angari

A Colônia de Pescadores Z-60 tem uma importância cultural, social e histórica, a qual representa o Vale do São Francisco, em especial, para a cidade de Juazeiro (BA). Vê-se, no entanto, que essa relevância não impede que o Angari sofra, em diversos aspectos, o drama da invisibilidade. Nesse contexto, e de acordo com Alves (2014), o acesso aos bens e serviços públicos que garantam qualidade de vida na localidade, não existe. Ainda, segundo o autor:

É coerente afirmar que o registro do domínio cognitivo dos pescadores e suas famílias sobre a história do Bairro, a partir da memória coletiva e das práticas sociais articuladas culturalmente e ambientalmente pode ser um caminho importante de luta pela efetivação do registro oficial como território de comunidade tradicional e também de direitos já constituídos por lei, mas pouco cumpridos pelos poderes públicos (ALVES, 2014, p.64).

A relação do homem ribeirinho com o rio São Francisco, compreendida a partir da cultura, leva em consideração que esta relação se constrói nos hábitos do dia a dia, nas formas de percorrer e viver no espaço. No cotidiano se processa a esfera da proximidade, da vizinhança, do conhecimento e do reconhecimento, da horizontalidade das relações afetivas.

A imagem de concreto do Nêgo D’água, produzida pelo artista plástico Lêdo Ivo, nascida como “resultado e não como suporte do imaginário”, conforme aponta a visão durandiana, vem funcionando como uma referência, sobretudo às novas gerações, aos filhos dos pescadores, como um mecanismo de fortalecimento da percepção da memória da coletividade firmada nesse imaginário, nesse sistema simbólico (MARQUES & ALVES, 2014).

A produção da arte e da historicidade do município de Juazeiro (BA), onde a comunidade do Angari está situada, dá mostras (como se evidenciaram em discursos analisados, nesta pesquisa) de sua relação efetiva com tais elementos simbólicos, ligados ao rio e às histórias do “Velho Chico” (ALVES, 2014).

A partir desses pressupostos, propõe-se a estudar a comunidade de pescadores artesanais do Angari, com intuito de traçar os impactos socioambientais, partindo de seu dia-a-dia, apresentando contribuições para futuras tomadas de decisões governamentais que possam trazer melhoria dos índices de desenvolvimento humano desta população (SOUZA, 2017).

A comunidade do Angari tem sido objeto de estudo dos pesquisadores Marques e Alves (2014), Souza e Almeida (2017), que pesquisam os aspectos da simbologia de comunidades de pescadores ribeirinhos, os quais refletem vários aspectos, inclusive de pertencimento.

2.4. Impactos ambientais provocados pela comunidade do Angari

De acordo com Resolução do CONAMA nº 1, de 23 de janeiro de 1986, por impactos ambientais deve-se entender:

[...] qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: a saúde, a segurança e o bem-estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; a qualidade dos recursos ambientais (BRASIL, 1986).

Conforme Silva (2016), a comunidade do bairro Angari é composta por moradores de baixa renda, com uma infraestrutura precária e ocupação irregular, o que gerou problemas de saneamento básico, tornado o local foco de doenças. Isso traz consequências diretas para o rio, acometido por impactos ambientais.

3.MATERIAL E MÉTODOS

3.1 Área de Estudo

O estudo foi realizado no bairro do Angari, localizado no município de Juazeiro, no Norte da Bahia, à distância de 430 quilômetros da capital da capital Salvador. A comunidade teve a sua economia voltada à pesca artesanal, e a sua origem, em 1878, ocorreu pela Lei n. º 1.814 de 15 de julho, dez anos após o lugarejo chamado ‘Joazeiro’ ter sido elevado ao status de cidade. Com o passar dos anos, a atividade da pesca tornou-se a forma de subsistência da maioria das famílias (ALVES, 2014).

A área de localização limita-se as coordenadas geográficas 09° 24´ 42´´ S e 40° 29´ 45´´W, com altitude aproximada de 366 m, situado na região Nordeste, ocupada por uma população de baixo poder aquisitivo, segundo Souza (2017) (Figura 1)

Figura 1: Bairro do Angari às margens do rio São Francisco, Juazeiro-BA.

Fonte: Digital Globe (2018).

3.2. Coleta de Dados

O estudo foi realizado em duas etapas: através de observação direta com aplicação do método listagem de controle (checklist), in situ, em setembro de 2018, na comunidade Angari, que se localiza às margens do rio São Francisco, Juazeiro-BA; e de um levantamento bibliográfico em revistas científicas, monografias, dissertações e teses, com trabalhos, a maioria dos últimos cinco anos, e poucos trabalhos mais antigos, porém, de relevância temática que se adequou perfeitamente ao contexto, sobre os impactos socioambientais e culturais em uma perspectiva da observância da sustentabilidade da comunidade e dos processos de preservação da cultura.

Tabela 01- Modelo do Cheklist usado para a coleta de dados dos impactos socioambientais que afetam o rio São Francisco na comunidade Angari

INDICADORES

PESO

CLASSE

EFEITO

Aterros




Caminhos




Processos Erosivos




Lavagens de Roupa/Utensílios/animais




Deposição de Lixo no rio




Agricultura de subsistência




Degradação da Vegetação Ribeirinha




Emissão de Efluentes domésticos




Recreação




Pesca Artesanal




Assoreamento




Irrigação




Estradas e rodovias




Emissão de gases Químicos




Mineração(Extração de Areia)




Check List (2018).

3.3. Análise dos Dados

Para análise dos dados foi utilizado a análise de percepção do ambiente. Os métodos de análise da percepção ambiental se estruturaram desde o final da década de 1960. A publicação da UNESCO, Guidelines for field studies in Environmental Perception (Whyte, 1977), apresenta uma série de técnicas de pesquisa de campo para os estudos de percepção ambiental que se baseiam fundamentalmente na combinação de três abordagens: observar, escutar e interrogar sendo está última a mais utilizada.

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Trata-se de uma comunidade pescadora urbana residente às margens do rio São Francisco, centenariamente. Os resultados da aplicação do checklist, às margens do rio São Francisco, na comunidade Angari, mostraram a presença de animais domésticos soltos, embarcações deterioradas, pneus, sacolas plásticas, assoreamento, desmatamento da mata ciliar, esgoto a céu aberto despejado diretamente no rio, construção de prédios próximos ao rio, além de dejetos de peixes que são lançados diretamente dentro do rio, sem tratamento, e lavagem de roupa no seu leito.

De acordo com os estudos de Pereira (2017) sobre infraestrutura e disposição de resíduos sólidos, o bairro Angari dispõe de infraestrutura adequada para a coleta de resíduos, porém, estão localizadas pontualmente, o que caracteriza uma má distribuição por meio de coletas.

No bairro Angari, as ações antrópicas afetam o meio ambiente, poluindo-o e desequilibrando os ecossistemas que vivem às margens ou próximo ao rio. Os impactos socioambientais percebidos neste trecho da Bacia Hidrográfica do São Francisco sugere que a educação ambiental seja trabalhada com os moradores da comunidade, com ações que venham a minimizar a degradação do rio, uma vez que muitos retiram daí suas fontes de sobrevivência.

Segundo Souza (2017), a pesca artesanal de subsistência é desenvolvida por pessoas residentes em comunidades rurais, geralmente chamadas de ribeirinhos, ou indígenas, que pescam de forma tradicional e cotidiana, sendo também praticada ocasionalmente pelos moradores de pequenas cidades.

Estudos sobre conflitos socioambientais, realizados por Souza (2017), relata que populações pesqueiras inseridas em um ambiente conflituoso, sofrem com agravamento da poluição do rio, pela disputa de território, visando à maximização da produção de pescados e pela sociedade urbana que o cerca, o que acarreta um surgimento de conflitos socioeconômicos e socioculturais, bem como escassez de pescados e desvalorização cultural.

O crescimento urbano do município baiano Juazeiro, também gerou o aumento do lixo e esgotos. A este fato também é atribuído o declínio nas capturas somado ao crescimento do número de pescadores e as novas tecnologias empregadas na atual pesca, a exemplo do barco a motor (SOUZA, 2017).

Os resíduos sólidos promovem impactos diversos em ambientes e às próprias sociedades humanas. Para Pimentel (2018), o descarte inadequado de resíduos sólidos é um dos grandes problemas da atualidade. As altas taxas de produção de lixo e os problemas com a sua destinação final são preocupações recorrentes dos governos e de toda a sociedade.

Na comunidade do Angari foi identificada a presença de vários resíduos sólidos como apontados na Figura 2.

Figura 02- A. Embarcação. B. Resto de pneus de borracha. C. Resíduos sólidos domésticos. D. Esgotos Domésticos no Bairro do Angari em 2018.

Fonte: Amaral & Nascimento (2018).

A Política Estadual de Educação Ambiental-PEA-BA, Lei nº 12.056/2011 determina que os municípios devam construir seus Programas Municipais de Educação Ambiental-PEAM, com diagnóstico socioambiental, as prioridades de ação e as responsabilidades quanto ao seu desenvolvimento, entre outras diretrizes (BAHIA, 2011).

Os esgotos e lixos lançados a céu aberto geram problemas de saúde humana, principalmente em crianças, além de contaminar o solo e a água. De acordo com Santos (2016), a falta de oferta de saneamento básico pelo poder público gera vulnerabilidade socioambiental, pois traz riscos aos recursos naturais que servem ao ser humano.

A ação antrópica sobre o rio São Francisco não pode ser considerada de forma isolada somente em relação aos danos causados às suas águas, mas, deve-se considerar também a proteção dos recursos naturais, a exemplo do solo, dos lençóis freáticos. Segundo Reis et al (2017), a qualidade das águas do São Francisco é prejudicada devido à maneira como o ser humano utiliza o solo e os recursos naturais.

Na porção alta do rio São Francisco, que engloba a Usina Hidrelétrica de Sobradinho e os municípios de Juazeiro-BA e Petrolina-PE, uma pesquisa detectou que a qualidade da água nesses locais é a menor de toda a bacia hidrográfica, devido, principalmente, ao oxigênio dissolvido, que é um indicador de poluição, necessitando de providências ambientais; ainda, as principais ações degradadoras da bacia do rio São Francisco foram: áreas agrícolas e ocupações irregulares crescentes, principalmente em margens de rios e nos lagos das usinas hidrelétricas (REIS et., al 2017).

De acordo com Santos et al (2017), cabe aos usuários da água organizarem-se e participar dos comitês, defender seus interesses quanto aos preços a serem cobrados pelo uso, assim como sobre a aplicação dos recursos arrecadados e sobre a concessão justa das outorgas dos direitos de uso.

O sistema ambiental, através do colegiado implementado no Brasil, possibilita a internalização da questão ambiental nas políticas estaduais e municipais, quando existentes. Entretanto, os alcances quanto ao envolvimento dos movimentos sociais e organizações comunitárias têm sido muito desiguais. Observa-se que, tanto nos conselhos estaduais quanto nos municipais, com significativas diferenças entre regiões, ainda prevalecem as decisões definidas pela presença muitas vezes majoritária da representação governamental (JACOBI, 2007).

A política das águas no Brasil nunca privilegiou o saneamento. Por mais de 60 anos, essa política foi fortemente dominada pela supremacia da geração de energia e equacionou medidas com o objetivo de minorar os problemas já existentes, num país onde ainda convivem a cultura da abundância e da finitude do recurso água.

Em dezembro de 1996, após uma longa tramitação e de dois substitutivos, o Congresso Nacional aprovou o Projeto de Lei Nacional de Recursos Hídricos, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos e criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Em 08 de janeiro de 1997, o Presidente da República sancionou a Lei nº 9.433, dotando o Brasil dos instrumentos legais e institucionais necessários ao ordenamento das questões referentes à disponibilidade e ao uso sustentável de suas águas (MACHADO, 2003).

6. CONCLUSÕES

Dentre os impactos socioambientais ocorridos no bairro Angari, foram observados a presença de construção de prédio, animais domésticos, resíduos sólidos (embarcações deterioradas, pneus, sacolas plásticas), desmatamento da mata ciliar, assoreamento, esgoto a céu aberto lançados diretamente no rio, além de residuos de peixes que são lançados diretamente dentro do rio, sem tratamento, e lavagem de roupa no seu leito. As embarcações servem para acúmulo de lixo e moradia de animais peçonhentos. Os esgotos e lixões a céu aberto com encanação de diretamente das residências para o rio.

Observou também a prática de evisceração de peixe cujos residuos são lançados diretamente no rio. Os aspectos observados também são somados ao fator natural de estiagem intensamente frequente na região do São Francisco. Tais impactos são resultantes do desmatamento da mata ciliar nas encostas, assoreamento do rio, da poluição de esgotos domésticos e industriais, resíduos sólidos orgânicos e agroquímicos, despejo dos dejetos humanos e dos animais, que são lançados sem tratamento no rio São Francisco pelas populações locais e adjacências, alterando os ecossistemas aquáticos e terrestres cujos efeitos estão intrinsecamente ligados à qualidade de vida da população.

As condições de moradia da comunidade no bairro Angari, não apresentam relação com o cumprimento do que determina o Plano Diretor do município de Juazeiro-BA, conforme previsão da Lei Complementar nº 020/2016 do município de Juazeiro-BA. Pode-se dizer que a disposição das casas obedeceu a questão social, econômica e cultural de perfil próprio da comunidade, pois no início da sua formação contava com pescadores e lavadeiras que se situavam às margens do rio por uma questão de sobrevivência.

A cultura dos pescadores do Angari constitui um acervo de obras literárias que influenciam na construção da identidade do município de Juazeiro-Bahia, o que acaba dando respaldo para que o poder público municipal não crie maiores problemas quanto à permanência e à disposição dos moradores em uma área urbana de contrastes.

O estudo também destaca a importância da educação ambiental, capaz de despertar para mudança de valores e atitudes, crianças, jovens e adultos na perspectiva da preservação e conservação dos recursos naturais, fonte de vida, e serem agentes multiplicadores para proteção de um dos bens mais precioso do povo de Juazeiro.

No ambiente da cultura do povo ribeirinho, a simbologia é representada pela poesia e prosa das lavadeiras, tão cantadas pelos acordes das canções dos compositores juazeirenses, que retrataram a vida de mulheres fortes que têm o ofício de lavar as roupas no rio, sendo este uma tradição do povo ribeirinho que vive às margens do “Velho Chico”.

O rio São Francisco sofre alterações devido às ações humanas, como por exemplo, desmatamento da mata ciliar, assoreamento do rio, deposição do lixo a céu aberto, os resíduos sólidos de borrachas (pneus velhos) que poderiam ser encaminhados para a reciclagem, barcos depredados, que deveriam ser colocados em outros locais para serem reaproveitados. Assim sendo, sugere-se que a comunidade poderia reivindicar do poder público políticas públicas de saneamento básico ou ambiental, que é um dever do Estado e um direito do cidadão como garantia de uma vida digna.

Observou-se que tanto a comunidade do Angari quanto o rio foram prejudicados pela força dos impactos ambientais. Os moradores do bairro convivem com os diversos tipos de resíduos sólidos lançados diretamente no solo, sendo o lixo produzido descartado em locais inadequados por ação da própria comunidade, que é causadora e sofre as consequências dos impactos socioambientais.

Todavia, a ausência de políticas públicas, voltadas a coleta de resíduos bem como o saneamento básico, aparentemente inexistente na comunidade, permitiu que moradores construíssem rusticamente seus sistemas de despejo de esgotos através de encanações deficitárias ou a abertura de valas diretamente no solo para o escoamento do esgoto, conforme apresenta-se na figura 2 (B,C e D).

A ausência do poder público, principalmente no que se refere ao saneamento básico, direito de todo cidadão e dever do Estado para a garantia das condições mínimas de sobrevivência pode acarretar problemas de saúde pública. Outro fator preponderante à condição ambiental do bairro trata-se da ausência de educação ambiental voltada à sustentabilidade ambiental, pois em sua maioria, pneus velhos, garrafas e plásticos, que poderiam ir para a reciclagem, foram lançados à céu aberto. Para um entendimento do papel da sociedade, frente à responsabilidade com a sustentabilidade ambiental, torna-se relevante compreender que através do exercício da cidadania, as leis se tornam eficazes, e, podem ser modificadas ou adequadas.

Nesse sentido, para aqueles que escolheram o caminho da democracia direta e constitucional, tanto sob o ponto de vista político quanto profissional, essas reflexões podem se tornar, na verdade, um estímulo ao compromisso de todos de agir sempre em prol do bem-estar desta e das futuras gerações, de forma inequívoca, numa perfeita adesão à ideia de desenvolvimento sustentável como aquele em que se usa os recursos naturais de forma racional

Diante do exposto, observou-se os riscos inerentes a qualidade dos recursos hídricos, a saúde e a cultura, que colocam sob ameaça os ecossistemas e a própria existência da comunidade. Portanto, o estudo trouxe holisticamente informações da percepção sobre impactos socioambientais e culturais. Ainda, pode-se perceber a existência de questões territoriais provocados por ações antrópicas resultantes da disputa por área entre população pesqueira local e populações urbanas no rio São Francisco.

AGRADECIMENTOS

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela concessão da bolsa de estudos ao primeiro autor, durante o mestrado.

REFERÊNCIAS

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ALVES, V. L. S. Retrato ecolinguístico dos pescadores artesanais do Angari, ribeirinhos do São Francisco. Paulo Afonso: 2014.

AMARAL, A.P. Sento-Sé Memórias de Uma Cidade Submersa. Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Juazeiro (BA): 2012.

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