ISSN 1678-0701
Número 68, Ano XVIII.
Junho-Agosto/2019.
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Entrevistas

11/06/2019ENTREVISTA COM RICARDO CARDIM PARA A 68ª EDIÇÃO DA REVISTA EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AÇÃO  
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ENTREVISTA COM RICARDO CARDIM PARA A 68ª EDIÇÃO DA REVISTA EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AÇÃO

por BERE ADAMS

Ricardo Cardim – Criado do Floresta de Bolso (Foto do autor)



Apresentação – O entrevistado desta edição é Ricardo Cardim, que é mestre em Botânica pela Universidade de São Paulo e diretor da Cardim Arquitetura Paisagística. Dedica-se ao resgate de áreas verdes através de diversos projetos, como o Floresta de Bolso, uma técnica criada por ele e que tem por objetivo de resgatar as florestas nativas dentro da escala urbana. Seus estudos têm repercussão internacional, sendo muito premiado por suas ações imprescindíveis para a sustentabilidade planetária. Nesta entrevista será possível perceber por que plantar árvores é um assunto muito mais sério e criterioso do que pensamos!

Bere – Olá Ricardo, é uma grande satisfação tê-lo como nosso entrevistado e agradecemos muito por aceitar o nosso convite. Começo esta entrevista te perguntando: Como surgiu o interesse por trabalhar com o resgate de florestas?

Ricardo – O interesse de trabalhar com o resgate de florestas partiu, principalmente, a partir da percepção de que quase toda vegetação presente nas cidades brasileiras é de origem estrangeira. Eu estimo que, hoje, cerca de 90% das plantas usadas no paisagismo e arborização são de origem estrangeira, ou seja, não estavam naquele local antes da chegada do homem europeu. Se a gente pensar isso é um absurdo sem tamanho porque estamos falando do País que tem a maior biodiversidade do Planeta, com quase 20% das espécies do mundo, e que tem mais de 50 mil espécies de plantas. Então a gente transformou territórios que tinham uma biodiversidade incrível em cidades que são estruturas de concreto e asfalto, e pra absurdo a gente colocou, ainda, como vegetação, nestas cidades, plantas de origem estrangeira. A gente, assim, criou ambientes completamente artificiais e aí, a ideia da floresta é justamente poder reinserir nesses ambientes urbanos trechos da vegetação original, da paisagem ancestral, de forma a que estas florestas de bolso, que eu chamo, possam ser ferramentas de educação e de serviços ambientais pras pessoas.

Bere – Desde quando você trabalha com a técnica Floresta de Bolso, e em que consiste esta técnica?

Ricardo – Eu trabalho com a floresta de bolso desde 2013 e esta técnica consiste em criar pequenos trechos de vegetação original, no caso, aqui em São Paulo, Mata Atlântica, que sejam compatíveis com a infraestrutura urbana construída, ou seja, que a gente crie florestas que elas participem mesmo nos mais diminutos espaços e essa técnica ela reproduz a dinâmica natural da Mata Atlântica que é de competição positiva, ou seja, as árvores são seres gregários que vivem em conjunto numa evolução ancestral e elas competem entre si, o que gera um crescimento muito rápido onde todo mundo ganha e uma manutenção muito baixa. Então eu reproduzo esta técnica e a gente tem conseguido resultados como 10 metros de crescimento em altura em apenas dois anos, como é o caso do Bosque da Batata atrás da igreja de Pinheiros.

Bere - Como você percebe o envolvimento da comunidade quando ocorrem os mutirões?

Eu comecei plantando floresta de bolso na escala privada, nos projetos de paisagismo, que é o que eu faço para viver. E aí as pessoas começaram a me perguntar: “Ricardo, você não pode fazer uma floresta de bolso nas áreas públicas?”, pessoas que representavam coletivos vieram conversar comigo e aí, em 2016, em março, a gente fez a primeira floresta de bolso pública. E eu confesso que eu estava até um pouco cético, achando que as pessoas não iriam participar, mas foi muito interessante ver que houve um verdadeiro mutirão no sentido da palavra. A primeira floresta de bolso a gente tinha 80 mudas e participaram 250 pessoas totalmente voluntárias, chamadas pelas redes sociais, e em uma palestra que a gente tinha dado antes, gratuitamente na subprefeitura de Pinheiros, e isso me incentivou muito e aí a gente começou a fazer edições em áreas públicas chamando as pessoas. A gente teve edições que teve 600 pessoas plantando de forma voluntária, crianças, idosos, gente de todas as regiões da cidade, de todos os níveis sociais, plantando florestas juntos em um parque público num domingo de manhã. Então, uma coisa maravilhosa, completamente inesperada, e ver que pessoas, não somente as convertidas, aquelas que já são ativistas, mas pessoas de diferentes percepções estavam ali, trabalhando, lutando pra trazer o verde de volta pra cidade. E o que eu percebi é que as pessoas gostam muito de plantar árvores, mas elas gostam muito mais de plantar florestas porque a floresta representa deixar um legado. Quando você planta uma floresta, além de você plantar em comunidade, com outras pessoas, o que é muito enriquecedor, você está restaurando uma paisagem e trazendo uma máquina do tempo, e por que uma máquina do tempo, porque uma árvore, sozinha, pode ser derrubada, mas uma floresta de Mata Atlântica, quando ela é plantada, ela é eterna, porque, além da legislação que hoje é muito severa com a Mata Atlântica, positivamente falando, quando você cria uma floresta, você cria uma estrutura blindada que vai passar por gerações, ela vai viver 300, 400 anos, porque quando uma árvore morre a outra a repõe, e ela é autossustentada.

Bere – Este projeto inovador Floresta de Bolso dá um grande salto na qualidade do que é plantado, uma vez que, na maioria das ações de plantio de árvores nas cidades, há falta de conhecimento sobre quais árvores devem ser plantadas em determinados locais. O que você diria sobre isto?

Ricardo – Eu diria que hoje, infelizmente, a maior parte dos plantios feitos por ONGs, políticos, enfim, ações que muitas vezes com uma super boa intenção, elas sofrem de falta de critérios técnicos, de cuidados e de investimento. Quando a gente planta árvore para realmente esta árvore prosperar, essa floresta prosperar, tem que ter primeiro critério técnico, que espécie eu planto, lógico que você deve sempre plantar espécies nativas da sua região, e aí não estou falando de nativa do Brasil, nativa do estado de São Paulo. Estou falando de nativas da sua região, o que tinha no seu município e arredores, isso é o sustentável, isso é o que vai atender a fauna, o equilíbrio ecológico, vai diminuir a manutenção, diminuir o consumo d’água, enfim, vai melhorar a diversidade do meio ambiente, então precisa-se ter estudo para entender quais são as espécies de plantas nativas da sua região, pra serem usadas numa arborização consciente e criteriosa. E aí vale a pena consultar biólogos, vale a pena consultar trabalhos científicos sobre a vegetação da região, vale a pena visitar florestas da região, e tudo isso para se ter realmente um plantio técnico, um plantio que vai trazer o máximo dos serviços ambientais e de resgate histórico, cultural e ferramenta de educação ambiental.

Bere – O que você considera mais importante em relação ao plantio de árvores e por que muitas árvores plantadas não vingam? Como fazer um plantio de árvores da forma correta e por que devemos levar em conta alguns critérios?

Ricardo – Outro aspecto muito preocupante do plantio de árvores, hoje em dia, em mutirão, é a falta de investimento. Não adianta você plantar mudas de 20 centímetros de altura, numa festa, em ambiente urbano. Essas mudas elas vão desaparecer, elas não vão chegar a vida adulta, elas vão ser cortadas junto com a grama, elas vão ser levadas para o formigueiro de uma formiga cortadeira, elas vão sofrer com a seca, e com a competição das gramíneas do entorno, ela, via de regra, não vai prosperar. Quando a gente faz a floresta de bolso, a gente tem um grande investimento, por isso que a gente demora muito pra fazer floresta de bolso, porque tem um investimento muito grande envolvido e a gente precisa de patrocinadores já que a floresta de bolso é um movimento com 100% recursos privados, não tem dinheiro público de nenhuma forma, ali dentro, então de alguma forma a gente vai investir no aluguel de escavadeiras mecânicas, grandes escavadeiras para poder tirar o solo contaminado da cidade com entulhos, lixo, trocar o solo por um solo de qualidade, achar a terra original, a gente vai investir dinheiro comprando mudas de altíssima qualidade que é o que a gente compra do viveiro Fábrica de Árvores, são mudas desenvolvidas no sistema rodmaker, que a raiz não está enovelada, uma raiz fibrosa, de alta qualidade, mudas nativas da Mata Atlântica, e uma muda dessas sai R$ 40,00, ou R$ 45,00, ela é mais cara, e aí depois tem a adubação, com lodo de esgoto que também a gente manda trazer com frete, então, é um plantio que as vezes é uma floresta de bolso e ela sai, em média, o valos de R$ 40,000,- mas é isto que garante que ela vai ter um desempenho de altíssima qualidade e vai realmente cumprir a promessa que foi feita às pessoas que foram voluntárias no dia do plantio. Olha, você está plantando uma floresta que ela vai crescer, prosperar, e seus filhos, seus netos vão poder aproveitar dela, não é um plantio que está fadado ao fracasso, diferente de muitos que a gente vê, infelizmente.

Bere – Ricardo, parabéns por este trabalho tão imprescindível para a saúde planetária e muito obrigada pela sua disponibilidade de compartilhar sua experiência e seu conhecimento neste tema que precisa de mais aprofundamento para que as árvores que sejam plantadas tenham vida longa. A ponto de nossos filhos e netos poderem delas usufruir. As florestas de bolso, não tenho dúvidas, são um grande legado, parabéns!



Para mais informações:

http://www.cardimpaisagismo.com.br/



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