ISSN 1678-0701
Número 68, Ano XVIII.
Junho-Agosto/2019.
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11/06/2019NARRATIVAS AMBIENTALISTAS DE PESCADORES ARTESANAIS DE SÃO JOÃO DE PIRABAS: UMA METODOLOGIA PARA O ENSINO-APRENDIZAGEM DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL  
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NARRATIVAS AMBIENTALISTAS DE PESCADORES ARTESANAIS DE SÃO JOÃO DE PIRABAS: UMA METODOLOGIA PARA O ENSINO-APRENDIZAGEM DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Ellen Cristina da Silva Corrêa - Pós-graduada em Ciências Ambientais e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará/Campus Bragança. São João de Pirabas/Pará ellen_pirabas@yahoo.com.br



Luiz Rocha da Silva- Doutor em Educação em Ciências e Matemática pelo PPGECEM/UFMT. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará/Campus Bragança. Bragança/Pará luiz.rocha@ifpa.edu.br



RESUMO

Este trabalho objetiva averiguar as interpretações linguísticas que o povo pesqueiro do município de São João de Pirabas lança ao meio ambiente ao interagir com ele. O artigo intenta discutir a possível interdisciplinaridade entre língua e ciências ambientais, visto que é por meio da linguagem que se pode compreender a natureza. A investigação qualitativa iniciou-se pela pesquisa de campo no intuito de coletar subsídios in loco por meio de incursões participativas até a praia do “Areião”, localizada no município de São João de Pirabas. Posteriormente, fizemos entrevista com roteiro semiestruturado a cinco pescadores da localidade, verificamos a partir disso, narrativas e terminologias próprias do povo pesqueiro local, as análises dos dados foram feitas levando em consideração teóricos como Larrosa (2002) sobre o que chama de Experiência/Sentido e Benveniste (1989) a respeito da Sociolinguística. Conseguimos relacionar a atividade da pesca ao desenvolvimento do local e constatar que os profissionais da pesca mantêm com o meio uma relação não somente extrativista, mas sim de proteção inerente. Não foi crível nesta pesquisa adentrar o espaço escolar, mas deixamos aqui registrado a relevância para a escola em reconhecer tais interações, pois estaria promovendo ensino-aprendizagem de conteúdos concretos e que fazem parte do cotidiano dos alunos e assim, inserindo a educação ambiental de forma palpável na prática escolar. Sobre isso tornou-se prudente considerar as afirmações de Freire (1996) sobre sua desejável e possível educação progressista.

Palavras-chave: Natureza. Linguagem. Fala. Cultura. Interdisciplinaridade



ABSTRACT

This work aims to investigate the linguistic interpretations that the fishing people of the municipality of São João de Pirabas throw to the environment when interacting with him. The article tries to discuss the possible interdisciplinarity between language and environmental sciences, since it is through language that one can understand nature. The qualitative research was initiated by the field research in order to collect subsidies in loco through participatory incursions to the "Areião" beach, located in the municipality of São João de Pirabas. Subsequently, we interviewed five fishermen from the locality, we verified from this, narratives and terminologies proper to the local fishing people, the analyzes of the data were made taking into account theorists such as Larrosa (2002) about what he calls Experience / Sense and Benveniste (1989) on sociolinguistics. We have been able to relate the activity of the fishing to the development of the place and to verify that the professionals of the fishing maintains with the environment a relation not only extractivist, but of inherent protection. It was not credible in this research to enter the school space, but we have here registered the relevance to the school in recognizing such interactions, since it would be promoting teaching-learning of concrete contents and that are part of the daily life of the students and thus, inserting the environmental education of form palpable in school practice. On this, it became prudent to consider Freire's (1996) statements about his desirable and possible progressive education.

Keywords: Nature. Language. Speaks. Culture. Interdisciplinarity



INTRODUÇÃO



Este artigo faz parte de uma investigação do cotidiano de pescadores e coletores de caranguejo e mariscos da região nordeste do Estado do Pará, especificamente faz análise das falas e dos afazeres ligados às vidas, as representações e as tradições ambientais dos sujeitos.

A principal problemática para o desenvolvimento desta pesquisa decorreu do questionamento em relação à possibilidade da interação cotidiana entre linguagem, culturas tradicionais e meio ambiente e da probabilidade das escolas inserirem nos seus ambientes de pesquisas uma relação de construção de saberes e conhecimentos das culturas e das tradições da pesca em suas aulas de EA.

Um fator importante aqui investigado é a maneira como esses povos da pesca utilizam a cultura e a língua para unir-se e referir-se ao meio ambiente e que estas ações podem resultar em discursos e análises diferenciadas do meio, próprios dos trabalhadores da pesca, nesta investigação determinou-se analisar tais ocorrências, e verificar como a escola pode educar ambientalmente seus alunos nesse ambiente complexo de saberes e conhecimentos.

A intenção inicial era num ambiente escolar selecionado, tal como a Escola Guajarina Menezes Silva e numa série específica, como o 6º ano do Ensino Fundamental, investigar como alunos e até mesmo professores das disciplinas de língua portuguesa e Ciências percebem a pesca e se de alguma maneira conseguem relacionar o que observam à natureza e ao meio ambiente em que vivem. Dessa forma, a pesquisa intentou apresentar uma proposta interdisciplinar para as disciplinas de língua portuguesa e ciências interagirem nas escolas de ensino fundamental nas aulas de EA (Educação Ambiental).

O desenvolvimento desse projeto surge então da necessidade de se conhecer pela expressão da fala a ciência e pela consciência dos sujeitos ambientais acerca dos temas que envolvem o seu meio ambiente de trabalho, gerando assim, novos saberes ecológicos e mudanças simples, porém expressivas nas atitudes e hábitos cotidianos em relação a questões ambientais na escola e no cotidiano.

Uma inquietação possível a cerca dessa problemática seria a implementação da linguística na Educação em Ciências e Ambiental interdisciplinarmente no contexto escolar, entendendo-se que a Educação Ambiental é, ao mesmo tempo, uma forma de educar e aprender por investigação, que busca a melhoria do próprio meio ambiente em que vivemos e da qualidade de vida que está não só nas atitudes, mas nas expressões dos sujeitos.

A inserção de uma pesquisa cotidiana sobre a expressão da fala na Educação Ambiental que insere curiosidade epistemológica nas suas interpretações linguísticas considera na escola que essas expressões se configuram de fato como investigação e análise estruturadora dos saberes ecológicos dos sujeitos que fazem do meio um local de vida e trabalho, poderíamos então pela interpretação linguística das narrativas dos sujeitos entender a formação de uma sociedade economicamente sustentável e integrada ao meio ambiente. Se a Educação Ambiental objetiva formar para cidadania, para criticidade e busca a transformação de valores e atitudes, construindo posturas éticas e conscientes, a interpretação das falas e atitudes dos sujeitos ambientais como patrimônio humano intangível poderia ser grande contribuinte na construção de um novo modelo de sociedade ecológica.

Nessa direção é inteligível ainda que a conexão entre a escola e a sociedade é aspecto diametralmente essencial. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) adverte sobre a criação de metodologias de integração da sociedade com a escola que devem garantir a participação da comunidade nas ações educacionais e nos projetos das escolas. Assim, os marcos legais apontam a preocupação em pesquisar e estender saberes relacionando a Educação com dimensão dos saberes sociais, que devem ser tratados não apenas como simples saberes, mas como saberes sociais que interferem em toda a formação humana.

A aproximação entre as disciplinas de língua portuguesa e ciências, biológicas ou demais ramificações, causa de fato estranhamento, pois se tem certo distanciamento entre as áreas das ciências da natureza e as ciências humanas. Porém, ao levar em conta os problemas ambientais pode-se perceber o quanto a sociedade pode estar relacionada, assim possibilitando enriquecimento de indagações e vínculos epistemológicos. Dessa forma, nos voltaremos a investigar como se dá tal interação, a priori, investigando as falas dos sujeitos envolvidos diretamente com o meio ambiente, a saber, os pescadores.



  1. A PESCA ARTESANAL EM SÃO JOÃO DE PIRABAS

São João de Pirabas é uma cidade e município pesqueiro do estado do Pará localizado na microrregião do salgado. Seu nome originou-se de um peixe por nome “piaba”, abundante nas águas dos seus rios, já a referência ao Santo diz respeito a forte devoção da população inicial ao “São João”. Com efeito, torna-se evidente o cenário tradicional do lugar que tem na pesca seu meio de sobrevivência e na fé sua maneira de expressar gratidão ao mar, evidenciados por santos como o então Rei Sebastião.

Em São João de Pirabas a pesca artesanal é vista como forma de subsistência dos moradores, por isso as embarcações de madeira fazem parte desde muito cedo da vida de boa parte dos munícipes, assim o conhecimento adquirido sobre a pesca e os equipamentos necessários para o ofício tornam-se corriqueiros, o que demanda significativo saber empírico a esses profissionais. Freitas&Rivas (2006, p.30) legitimam que a pesca artesanal não está alinhada somente à produção de alimentos, mas também às diferentes estratégias e aos comportamentos associados ao uso do recurso pesqueiro.

Percebe-se, então, que pescar não é somente “jogar a linha ao mar”, mas sim requer significativo conhecimento sobre o ambiente natural em que se está e mais do que isso sobre os utensílios necessários para que de forma equilibrada (visto que o sustento não pode faltar) sejam extraídos os recursos para sobrevivência. Um dos implementos mais utilizados para a pesca artesanal é a canoa, nela podem ir à pesca um ou dois pescadores, quantidade comum àqueles denominados como pescadores artesanais (entre eles, os curralistas, nome dado aos pescadores que trabalham na pesca artesanal de curral que na pescaria diz respeito a um cercado de madeira feito no mar ou rio para a captura de peixes). A variação no uso de apetrechos está relacionada com o tipo de ambiente explorado e seus grupos de espécies-alvo. As pescarias caracterizam-se por explorar um grande número de espécies, empregando diferentes tamanhos de canoas e variados métodos de pesca. (ICMBIO-Instituto Chico Mendes de Conservação do Meio Ambiente).

Portanto, observa-se que a pesca faz parte da vida dos habitantes do lugar e desde a colonização do local sustenta as famílias pirabenses. No entanto, na contemporaneidade, por meio do Relatório (2016, p.66) com diagnóstico socioambiental referente à criação da Resex São João de Pirabas e ampliação da Resex Chocoaré Mato Grosso (Unidade de conservação federal do Brasil categorizada como reserva extrativista e criada por Decreto Presidencial em 13 de dezembro de 2002 numa área de 2.785 hectares no estado do Pará) apurou-se que, na última década, as principais espécies de valor comercial como a pescada amarela e o camurim, vêm apresentando forte redução em sua abundância, pois segundo relatos dos pescadores, os estoques pesqueiros estão sendo explorados de forma predatória por pescadores de outras regiões (ICMBIO). Para driblar as adversidades vindas da pesca predatória, os pescadores atuam em outra forma de extração, e tirar caranguejo se apresenta como meio viável, além de outros produtos como o camarão e mariscos.

Ultimamente, a pesca predatória em São João de Pirabas está sendo feita por pescadores de regiões como Boa Vista que utilizam a prática da rede apoitada para fechar a passagem dos peixes na “boca do rio”. Por isso, é relevante saber o que tem a dizer o pescador pirabense sobre seu ambiente natural de trabalho, é válido que a academia e o corpo social reconheçam a voz desse povo repleto de saber empírico e que por meio disso pode colaborar com a preservação de ecossistemas frágeis que há muito deixaram de atender somente a sobrevivência de comunidades tradicionais, mas sim tornaram-se vítimas do desenfreado poder industrial do capitalismo.



  1. ORIENTAÇÕES METODOLÓGICAS



De acordo com o que diz Marconi&lakatos (2003, p. 186): “Toda pesquisa implica o levantamento de dados de variadas fontes, quaisquer que sejam os métodos ou técnicas empregadas... É a fase da pesquisa realizada com intuito de recolher informações prévias sobre o campo de interesse.”. Desta maneira, a presente investigação qualitativa inicia-se fazendo uso da pesquisa de campo que é aquela utilizada com o objetivo de conseguir informações e/ou conhecimentos acerca de um problema, para o qual se procura uma resposta, ou de uma hipótese, que se queira comprovar, ou, ainda, descobrir novos fenômenos ou as relações entre eles.

Anterior a isso, foi feita pesquisa bibliográfica na intenção de verificar conteúdos relevantes sobre o tema. Encontraram-se diversas pesquisas sobre questões antropológicas no que diz respeito à construção da identidade do pescador, assim como sobre a formação de professores educadores ambientais a partir de suas experiências com a natureza. Pesquisas como a de Gianpaolo Adomilli (2002) sobre trabalho, meio ambiente e conflito: um estudo antropológico sobre a construção da identidade social dos pescadores do Parque Nacional da Lagoa do Peixe-RS e sobre Saberes e fazeres identitários: a narrativa produzindo professores educadores ambientais de Vanise Gomes, Cleuza Maria Dias e Maria do Galiazzi ressaltaram a necessidade que se tem de uma metodologia inovadora que considere uma situação concreta de evidenciação da natureza.

Adomilli (2002) retrata o pescador como detentor do saber-fazer, conhecimento que o faz atuar nesta profissão e assim respeitar o ritmo da natureza. Ele diz que o pescador procura “levar em conta a relação com a natureza, com base no saber tradicional do grupo, destacando-se as representações sobre o meio em que vivem, observados nas referências às condições para realização da pesca, como o saber sobre os ventos e o mar”. Isso nos mostra a quantidade e qualidade de conhecimento a cerca da natureza advindas das experiências marítimas de pescadores. Contudo, percebeu-se na pesquisa bibliográfica que os estudos voltados para a educação ambiental remetem a formação de professores baseados em teorias e minimamente em práticas, somente o de Gomes, Dias e Galiazzi aproxima-se daquilo que acreditamos ser de fato um educador ambiental, por isso mesmo em seu trabalho as autoras iniciam questionando se são realmente educadoras ambientais e terminam por dizer que “Produzir-nos como professoras educadoras ambientais é, pois, uma aposta de o fazer com nossos alunos em sala de aula em que as histórias tem gente dentro, lugares, saberes e fazeres”.

Em relação a São João de Pirabas, encontramos o Relatório com diagnóstico socioambiental referente à proposta de criação da Resex São João de Pirabas, feito pela Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa, no ano de 2016. Esse documento mostra a abrangência pesqueira do local, seu desenvolvimento ao longo dos anos e a necessidade de conservação dos ecossistemas que ali se encontram. Nessa perspectiva, é que se acentua a necessidade de uma prática efetiva para o ensino de educação ambiental, algo que possa ser comprovado pelos alunos em tempo real. Por isso esta pesquisa se faz importante, pois ela pode fazer com que os saberes de uma comunidade pesqueira adentrem os muros da escola e possa ser avaliado como conhecimento crucial para a preservação da fauna e flora local.

A pesquisa de campo foi feita in loco por meio de incursões participativas até a praia do “Areião” que tem o nome simbólico de “rancho”, local em que os pescadores utilizam para suas práticas.

Figura 1 - Praia do “Areião” localizada em São João de Pirabas.

Fonte: Imagem feita pelos autores

O ponto que nos direcionamos foi o comumente conhecido como “rancho do seu Abraão”.

Figura 2 - “Rancho do seu Abraão” localizado na praia do “Areião” em São João de Pirabas.

Imagem feita pelos autores

Usamos como metodologia inicialmente nesse momento apenas reuniões e contatos junto aos pescadores, e assim foram observadas as atividades e num ambiente de diálogos coletadas as falas desses trabalhadores da pesca. Essas falas foram registradas por meio de gravadores celulares.

Dos diálogos elegemos cinco questões ligadas a dimensões conceituais relacionadas à vida, ao meio ambiente de trabalho e a natureza e o que esses ambientes representam para os sujeitos que dele retiram seu sustento e das suas famílias. Em seguida fizemos o uso de entrevista com roteiro semiestruturado a respeito das questões acima. Nos diálogos também coletamos palavras e termos que refletem o modo de interação dos pescadores com o meio. Segue abaixo quadro de perguntas.

Tabela 1 – Perguntas direcionadas aos pescadores

PERGUNTAS

  1. O que é o oceano, os rios, furos e o manguezal pra você e o que estes ambientes representam na sua vida profissional?

  1. Retirar caranguejo ou pescar é cansativo, dá muito trabalho ou é estressante passar o dia todo nesse ambiente?

  1. Você já se deparou com os segredos da natureza? Conte-me sobre os segredos da natureza.

  1. Sua atividade põe o meio ambiente em risco? Você acha que pescar e ou tirar caranguejo prejudica o meio?

  1. Fale um pouco mais sobre isso que você faz e me diga se gostaria de mudar de profissão.



As perguntas foram direcionadas aos pescadores por nomes Lucival, Correte, Rogério, Raimundo e Cotó, que aqui distribuiremos na ordem de 1 a 5, respectivamente.

Figura 3 - Pescadores artesanais de São João de Pirabas, na imagem estão o senhor Rogério, Cotó e Raimundo, nessa ordem.

Fonte: Lucival Ferreira

Segue a transcrição:

Tabela 2 – Transcrição das respostas às perguntas da tabela 1

TRANSCRIÇÃO DAS RESPOSTAS DOS PESCADORES

RESPOSTAS DA PERGUNTA DE NÚMERO 1

1- É a minha primeira casa, até porque tudo tá no meio ambiente, assim é a primeira e única casa até na morte pra onde agente vai? Pra terra, pro chão ou se morrer afogado o mar leva, mas tudo é natureza... Às vezes isso até me dá um pouco de esperança (risos) saber que é a terra que vai comer minha carne (se vendo útil depois da morte para a natureza) se bem que com toda essa beleza até da pena morrer e deixar tudo isso, mas agente tem que abrir espaço pros outros... Deus fez, Deus desfaz... (Risos)... Eu faço da natureza uma parte de mim é daqui que eu encho o bucho dos meus meninos são nove boquinhas esperando o pão então eu venho trago os dois mais velhos pra aprender e rezo pra voltar e levar o peixe e o que for... Na minha vida a natureza é tudo, eu aprendi com ela e vivo dela e é só isso...

2- Olha a natureza é nossa... Esse mundaréu de água é tudo nosso só Deus pra tomar da gente ele que fez... Eu adoro isso tudo aqui, não me imagino fora desse ambiente pescar é como e fosse uma brincadeira de criança só dá felicidade... (Risos)... Tem gente que pensa que isso aqui é infinito, nunca vai se acabar, mas eu já vi muita coisa se acabar aqui, a praia por exemplo tá se acabando... E acabar agente se acaba junto, tem que respeitar o que é nosso se não já era... A natureza não precisa de mim... Eu preciso dela nesse mundo eu sou apenas uma pequena pedra que o tempo leva... A vida se acaba e se agente não cuidar vai tudo se acabar...

3- Quando eu venho pra cá fico feliz (Risos)... Tristeza é na hora de voltar pra casa risos chegando lá a dona encrenca (se referindo a mulher) pergunta logo... Trouxe alguma coisa? Agente sempre leva... Pode até num ser dinheiro, mas o peixe e o caranguejo e o siri isso nunca falta. É a natureza que dá pra gente, mas olha... Não tá tão fácil mais assim não, eu penso que vai se acabar... Nesse ritmo que tá não vai durar muito não isso é triste saber dessas coisas, mas enquanto agente pode vamos cuidando pra vê se dura pros outros também... Eu passo muito tempo aqui por isso acho que nem largo mais essa vida.. Sabe que eu estudei pra ser pescador (risos) meu pai foi o professor e ele disse aprende com a natureza que tú nunca vai passar fome... E eu ó aprendi mesmo e nunca passei fome ele me dá é tudo que eu quero...

4- Pra mim é tudo, eu só vivo porque amo a natureza, isso tudo aqui... E é isso é daqui que eu vivo... Preciso cuidar né? Pra mim tem que cuidar, mas são todos cuidando e não um cuidando e outros destruindo todos são donos assim todos são responsáveis.

5- É interessante que vocês das universidades vem aqui perguntar pra gente essas coisas não sabem as respostas?... Mas você é diferente gosta de conversar e gravar... Pra alguma coisa isso vai servir... Mas eu vou te contar que aqui tudo tem uma proteção divina e se agente não respeitar a mãe do mangue castiga agente e como isso acontece ela não permite um bom dia de trabalho isso é a natureza quando ela se invoca com você já era, pode pedir desculpas e voltar pra casa esse dia não vai tá pra peixe (risos) penso que a natureza é nossa vida e nós somos a vida dela agente cuida dela e ela cuida de dá pra gente o que precisamos e é isso ai...


RESPOSTAS DA PERGUNTA DE NÚMERO 2

1. Eu não acho, pelo contrário estressante é ficar em casa... Eu adoro isso aqui se pudesse nem voltava pra casa...

2. Já foi mais fácil, mas tá ficando difícil existem dias bons e dias ruins, mas é tudo de bom se dé deu (risos)... Tem dias que o mar resolve deixar agente na mão ai só tomar umas e esperar que águas melhores virão...

3. Pra mim todo dia é cansativo, mas se o dia não for cansativo é porque não deu trabalho a agente descansa de dia e pesca a noite... Isso é vida de pescador trabalha de dia e de noite... Isso é cansativo mas é bom...

4. Ruim é não ter o que fazer eu nunca me sinto cansado... Me sinto é desmotivado quando percebo que as pessoas que aqui trabalham não sabem a importância disso tudo aqui...

5. Eu prefiro passar o dia aqui do que ficar em casa sem fazer nada, ai dá vontade de fazer besteira... (Risos)......aqui agente só pensa em arrumar a broca de cada dia




RESPOSTAS DA PERGUNTA DE NÚMERO 3

1. Eu ví uma curupira... Eu acho que vi... (Risos)

2. Se é segredo agente nunca fica sabendo (risos)... É segredo

3. Tudo na natureza é segredo, a cada dia agente vê uma coisa diferente... A natureza nunca é a mesma...

4. Quem sabe? Só Deus conhece os mistérios da natureza, quando ele quer ela revela, mas não existe segredo é só ir conhecendo que o mistérios vão se apresentando

5. A natureza é cheia de segredos um deles é onde tá o peixe?... (Risos)... Se a lua tá boa tem peixe se não não tem peixe... Que mistério é esse? Ninguém sabe...


RESPOSTAS DA PERGUNTA DE NÚMERO 4

1. Tem pra todos mais temos que saber trabalhar pra não acabar...

2. Tem muita gente que só vai no manguezal quando o caranguejo anda...

3. O IBAMA não sabe quando caranguejo anda... Ai marca fora da data certa....

4. É preciso pagar um auxílio na época do defeso pra gente não passar fome...

5. Não, eu acho que não.




RESPOSTAS DA PERGUNTA DE NÚMERO 5

1. Eu não gostaria e nem quero mudar de profissão, mas eu gostaria de que o governo nos ajudasse pra ser melhor, somos esquecidos aqui no meio do mundo e não temos assistência de nada, dependemos de todo nosso esforça pra sobreviver ai quando eles vêm aqui ainda tomam nossas ferramentas de trabalho isso é governo? Levaram até o motor da minha rabeta isso pra mim é roubo... Ai quando agente vai lá eles dizem que agente tava trabalhando em dias proibidos se eu nem tava trabalhando no defeso... E agente fica desprovido....

2. E se pudesse não trabalhava nessa profissão, ficava aqui só pescando e nem queria saber do resto... (risos)

3. Eu adoro isso aqui, só que essa vida eu não quero pros meus filhos estão tudo na escola, mas o mais velho chora pra vim pra qui eu que digo vai pra escola se não vai sofrer igual eu pra sustentar vocês... Estuda aprende e depois vai pescar mais vai sabido (risos)

4. Eu só saio dessa vida quando morrer... Enquanto isso é aqui e daqui pra casa e volto. Sempre assim...

5. Eu já fui trabalhar uma vez em Goiânia, cheguei lá era ajudante de pedreiro trabalhava dia todo pra ganhar micharia, fui porque me enganei pensando em conhecer outros lugares, me arrependi, levei a mulher e os meninos, mesmo assim lá deu uma saudade do mar, dos peixes e dos mariscos que foi o jeito voltar logo... Agora aprendi a lição trabalho bom é aqui tem todo dia e agente fica sempre feliz, perto desse cheiro de água salgada e de lama do mangue.



  1. A VOZ DO PESCADOR É A VOZ DA NATUREZA!

Todas as perguntas foram respondidas pelos pescadores. Iniciaremos a análise levando em consideração a primeira pergunta e das respostas, avaliaremos trechos de duas, a saber, dos pescadores 4 e 5, identificados como Raimundo e Cotó, respectivamente.

O entrevistado 4 (Raimundo) respondeu a respeito da pergunta de número 1 o seguinte: “Pra mim tem que cuidar, mas são todos cuidando e não um cuidando e outros destruindo todos são donos assim todos são responsáveis”.

De imediato, ao ouvirmos tal fala percebemos que o entrevistado vê a natureza como patrimônio de todos e que tal percepção não está condicionada ao fator escolaridade, mas sim ao que Larrosa (2002) intitula como experiência/sentido. De acordo com o autor as palavras produzem sentido, criam realidades e, às vezes, funcionam como potentes mecanismos de subjetivação. Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco. As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente “raciocinar” ou “calcular” ou “argumentar”, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece. (LARROSA, 2002, p.21)

Com efeito, as palavras demonstram nossa relação com o mundo, evidencia o quanto nos importamos com o outro, com o meio. Tudo isso, todas essas interações compõem nossa identidade e é por meio da palavra que se pode comprovar nossa capacidade de ser. A palavra torna-se, então, ontológica, pois corresponde a formação do ser humano, da existência. Assim, o homem vive mediante a palavra, se constitui dela e se reconhece a partir do uso. No entanto, para que isso aconteça é preciso que as palavras sejam de fato parte do homem, e não apenas um amontoado de informações ditas de maneira maquinal pelos seres humanos contemporâneos.

Só podemos nos precaver dessa função automática de dizer sem sentir se levarmos em conta a experiência, que para Larossa (2002) é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. É o que notamos na fala do entrevistado em questão. Sua total preocupação com a natureza advém de sua visão patrimonial do meio ambiente, visto que por meio da experiência consegue sentir os problemas que envolvem a natureza e a pouca importância que se dá a isso pela maior parte da sociedade. Essa experiência vai muito além do fator trabalho, mas sim configura uma questão de sobrevivência terrestre, ou seja, o sujeito consegue refletir acerca do que sente, do que vivencia, porque é tocado por isso e assim ao se aprofundar nessa reflexão e transpassar o espaço que o cerca chega a níveis de entendimento maiores, como perceber que a natureza segue um ciclo e pode ser finita e por isso precisa ser cuidada para que possamos coexistir.

Larrosa (2002) corrobora que um sujeito fabricado e manipulado pelos aparatos da informação e da opinião é um sujeito incapaz de experiência. Destarte, o que falta é a oportunidade de vivenciar tais experiências, isso porque vivemos num mundo moderno que nos oferece informação em tempo real e rapidamente substituível, impossibilitando que algo nos toque. Nessa circunstância, é válido lembrar que desde os primeiro anos de escola aprendemos que a informação é algo crucial no meio educacional, visto que sempre estamos inseridos em situações em que nos é solicitado opinar sobre determinada informação. O autor menciona que nossa opinião é algo subjetivo e a informação é o objeto sobre o qual opinamos.

Isso nos mostra o quanto a educação está colaborando para formar cidadãos que não dão verdadeiramente sentido àquilo que falam, automáticos em responder com opiniões que muitas vezes se restringem em ser a favor ou contra. Ao lembrar-me do momento da entrevista, percebi que todos imediatamente conseguiram responder as perguntas, mesmo que com certa vergonha e restrição vocabular, conseguiram expor seus anseios, suas análises, pois detêm conhecimento de causa, foram tocados pela natureza, porque estão expostos, porque a natureza não simplesmente existe, acontece, mas sim faz parte da vida desses sujeitos, é a razão da existência e continuidade de todos nós. Acredito que ao fazer a mesma pergunta a alunos deste município em relação à importância do oceano, rios, furos e manguezal, talvez, não conseguiria obter respostas tão bem arraigadas. Todavia isso agora não poderei investigar, ficará para um próximo trabalho.

A resposta (Trecho) do entrevistado de número 5 (Cotó) foi a seguinte: É interessante que vocês das universidades vem aqui perguntar pra gente essas coisas não sabem as respostas?... Mas você é diferente gosta de conversar e gravar... Pra alguma coisa isso vai servir... Penso que a natureza é nossa vida e nós somos a vida dela agente cuida dela e ela cuida de dá pra gente o que precisamos e é isso ai...

Nesse momento, percebi a despreocupação da academia em voltar às comunidades pesquisadas para mostrar os resultados da pesquisa feita. Retornar é relevante, pois demonstra ainda mais para a comunidade e sujeitos a importância que de fato têm para o corpo social e acadêmico.

Ao analisarmos o final do trecho da resposta vimos que os pescadores estabelecem uma relação de troca com a natureza, estabelecida de forma inerente isso pelo fato de ter sido capaz de se entregar a esse entendimento enquanto sujeito, porque vive de fato a experiência. Larrosa (2002) afirma que ser sujeito da experiência é ser sobretudo um espaço onde têm lugar os acontecimentos. Ou seja, é a possibilidade de abertura que se dá ao viver determinado momento, determinada situação e isso origina fatores sucintos para a transformação da realidade, o que nos remete à práxis marxista.

De acordo com Larrosa (2002) somente o sujeito da experiência está, portanto, aberto à sua própria transformação. Essa competência de transformação é entendida na fala deste pescador que por conta da experiência, paciência, de sua capacidade de sentir, observar, olhar, passa a ter outra postura social e profissional sobre o meio ambiente. Quem dera pudéssemos propiciar aos nossos alunos esse tempo para olhar, sentir devagar a natureza para que assim compreendessem sua importância. Isso pode ser possível e a Educação ambiental, acredito ser o caminho.

À pergunta de número 2, traremos à análise a resposta do entrevistado 2 (Correte): Já foi mais fácil, mas tá ficando difícil existem dias bons e dias ruins, mas é tudo de bom se dé deu (Risos)... Tem dias que o mar resolve deixar agente na mão ai só tomar umas e esperar que águas melhores virão...

Ao avaliar a resposta acima observa-se que os pescadores são conscientes das modificações ocorridas ao longo da história local, visto que reconhecem já ter sido mais fácil a pesca na comunidade. Isso pode ser explicado pelo que afirma Welcomme; Barthey (1998): A pressão da pesca inadequada e/ou excessiva leva ao declínio da qualidade do ambiente aquático, a contínua redução da capacidade das associações de peixes nativos de se adaptarem; e, principalmente, pela incapacidade de muitas espécies compensarem, por meio da reprodução natural. (WELCOMME; BARTHEY, 1998, p. 5)

Observa-se na resposta do pescador 2 a discursividade com a qual foi produzida, visto que um discurso necessita estar vinculado a determinado fator ideológico, ou seja, requer aproximação com o contexto que originou tal posicionamento. Nessa perspectiva, levaremos em conta a análise do discurso sobre o que a ideologia representa dentro do campo da linguística: “A ideologia é, pois, a visão de mundo de determinada classe, a maneira como ela representa a ordem social. Assim, a linguagem é determinada em última instância pela ideologia, pois não há uma relação direta entre as representações e a língua” (GREGOLIN, 1997, p.17).

Outrossim, também é primordial suscitar as menções de Pêcheux (1990) sobre “condições de produção de discurso” que confirmam a relação entre “formações ideológicas” e “formações discursivas”, mediante ao fato de que numa sociedade há características específicas que constituem discursos, tais como: contexto e época. Isso esclarece o fato de que o discurso também é responsável por incitar o indivíduo a encontrar seu lugar social, pois frequentemente vê-se a formação de determinadas grupos por meio do valor ideológico e, portanto discursivo da fala (no nosso caso, a de pescadores). Com efeito, é importante saber o que esses grupos têm a dizer, isto é, o que os pescadores artesanais de São João de Pirabas têm a nos contar.

É exatamente isso que a pergunta três nos revela. Dentre as respostas, traremos à tona a fala do entrevistado de número 5 (Cotó): A natureza é cheia de segredos um deles é onde tá o peixe?... (risos)... Se a lua tá boa tem peixe se não não tem peixe... Que mistério é esse? Ninguém sabe...

O saber empírico registrado na fala do pescador é visivelmente depreendido, mesmo que para ele isso não seja percebido. A ciência explica com outros termos aquilo que os pescadores reconhecem como influência para o sucesso de seu ofício. A hidrografia menciona a importância da lua sizígia (lua cheia) para a captura de peixes e por ser a região considerada estuarina, é possível que a preamar favoreça o deslocamento dos peixes e os faça acompanhar o movimento da maré alcançando os rios e, por conseguinte os currais.

Os pescadores entrevistados nos disseram que atualmente tem percebido que as águas denominadas por eles como “águas do escuro” (lua minguante) estão preferíveis para a pesca do que as que chamam de “águas do luar”(lua cheia). ROOKER e DENNIS (1991) mencionam a importância da fase lunar para a composição da ictiofauna de uma região, pois a variante provocada pela intensa ou pouca iluminação noturna possui ação sobre o nível das marés. Ademais, atividades reprodutivas associadas ao ciclo lunar, como a agregação para a desova, podem causar efeitos significativos na variação temporal da abundância de peixes (JOHANNES, 1978).

Todas essas informações científicas são vivenciadas pelos pescadores artesanais de pirabas, estes não detém conhecimento terminológico sobre cada fase da lua ou até mesmo sobre a dinâmica das marés, mas pode-se afirmar que seus saberes práticos conseguem suprir com proficiência essas ciências, pois muito mais do que teoria, eles as experimentam.

Larrosa (2002) ao falar sobre a capacidade do indivíduo de dar sentido ao que ler, isto é, da “relação de produção de sentido” (LARROSA, 2002, p. 137) revela que o ser humano para ler e compreender textos, necessita estar ligado a alguma coisa que se torna significativa para o indivíduo, entrando em seu mundo. O que não é significativo adiciona-se ao conhecimento, apenas (LARROSA, 2002). É nessa perspectiva que considerar as palavras dos pescadores artesanais pode romper com o tradicionalismo das aulas de Ciências em sala de aula, pois as vozes desses grupos teriam significado real para os aprendizes da escola local. Além do fato de haver nessa metodologia grande expectativa interdisciplinar não somente com a língua portuguesa, mas também com as disciplinas de Geografia e História.

A pergunta de número quatro diz respeito ainda mais a consciência ambiental dos pescadores. Selecionamos a resposta do pescador 1(Lucival) para avaliarmos: Tem pra todos mas temos que saber trabalhar pra não acabar...

Os pescadores entrevistados trabalham utilizando a pescaria de viração, tapagem de igarapé e curral enfiador. A pescaria de tapagem incide em colocar a rede de uma margem a outra do igarapé na maré cheia e retirar na maré seca ficando a rede na água por 3 horas em média até a despesca. Já na pesca de viração ou de redinha coloca-se a rede na boca do igarapé por 2 a 3 horas no máximo em qualquer horário ou maré. Em relação à pesca de curral enfiador, estes são construídos nas margens dos rios, igarapés ou praias com suas enfias abertas para a direção da vazante da maré, como por exemplo, onde desagua o rio ou igarapé para que a corrente de água direcione o peixe para o chiqueiro do curral.

Figura 4 - Curral onde pescam os entrevistados. Estão na imagem o senhor Lucival, Cotó e Correte, respectivamente.