ISSN 1678-0701
Número 68, Ano XVIII.
Junho-Agosto/2019.
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No. 68 - 11/06/2019
O USO DE CONTOS PARA (RE)PENSAR AÇÕES DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM CONTEXTO ESCOLAR COM JOVENS  
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O USO DE CONTOS PARA (RE)PENSAR AÇÕES DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM CONTEXTO ESCOLAR COM JOVENS

Rosemary Carvalho de Sousa

Mestranda em Ensino de Ciências e Matemática (PGECM) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Campus Fortaleza. E-mail:biocesarcals@gmail.com.

Raphael Alves Feitosa

Doutor em Educação, professor do Departamento de Biologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Docente do Mestrando em Ensino de Ciências e Matemática (PGECM) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Coordenador do Laboratório de Pesquisa em Ensino de Biologia da UFC (LEBIO). E-mail: raphael.feitosa@ufc.br.



Resumo

O presente trabalho irá apresentar uma proposta de atividade com jovens, através da utilização de textos narrativos do tipo contos. Seu objetivo é analisar e narrar uma experiência feita em uma escola pública de ensino médio da cidade de Fortaleza-CE. A relação interdisciplinar da literatura, representante do mundo das artes e das letras, com a educação ambiental, conectada ao mundo das ciências, permitiu superar à fragmentação produzida pelos modelos tradicionais de educação ambiental, adentrando em suas esferas críticas.



Palavras-chaves: Educação ambiental. Sustentabilidade. Conto.

Abstract

The present work will present a proposal of activity for high school students, through the use of short stories. The genre opportunizes, a short and linear narrative and with the use of a simple and direct language. Enabling the use of irony and refined humor whenever possible. Allowing the narrative of a fact or situation. That will enable the high school teacher to reflect on actions in the daily life, realizing the impacts that these actions may cause in the environment, especially where they live

Key - words: Environmental education. Sustainability. Tale.





INTRODUÇÃO

A Política Nacional de Educação Ambiental definida pela Lei nº 9795/1999, apresenta no seu arrigo primeiro, uma definição para Educação Ambiental (BRASIL, 1999), na qual se compreende o tema como os processos pelos quais o indivíduo e a coletividade elaboram valores sociais, atitudes, habilidades, conhecimentos e competências visando à conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, promovendo qualidade de vida e sua sustentabilidade.

A educação ambiental é um tema de caráter essencialmente interdisciplinar (COSTA, 2001; SOARES, 1993), não devendo ser restrito a uma(s) disciplina(s) isolada. Contudo, a efetivação de propostas desta natureza em escolas parece ser de difícil execução, devido a questões ligadas a formação docente, estrutura física dos educandários e da gestão escolar. Apresentar uma proposta pedagógica interdisciplinar que venha a proporcionar uma reflexão sobre o tema aos jovens de hoje, sobre suas escolhas e as possíveis consequências no ambiente aonde estão inseridos, está intimamente correlata com a sustentabilidade e qualidade de vida.

Díaz (2002, p.37) afirma que a finalidade da educação ambiental seria de fato, levar a se desvelar uma “[...] ética, fortalecida por uma sistema de valores, atitudes, comportamentos, destacando, entre os primeiros, questões como a tolerância, a solidariedade ou a responsabilidade”. Portanto, uma das vertentes da educação ambiental poderia ser um novo olhar sobre ações do dia a dia, afim de promover uma mudança de atitude e quem sabe realizar uma Educação Sustentável.

O exercício começa quando se busca, primeiramente, conhecer com qual juventude se vai trabalhar. Alguns questionamentos pertencentes a essa juventude, são importantes a serem esclarecidos Quais são suas práticas sociais? Como se dá a sua rotina? Em qual meio este indivíduo está inserido? Qual seu papel na sociedade? São alguns exemplos. Promover uma dialogicidade com as juventudes, permite que a interação entre distintas práticas culturais possam ser entendida por ambos os atores do processo, alunos e professores (FEITOSA; LEITE, 2011).

Na perspectiva dialógica encontramos o termo palavras geradoras, que Loureiro, Torres e Delizoicov (2014, p. 86) o definem como:

Estas, sintetizando e representando situações existenciais, que estão contidas nas contradições sociais, e se manifestam em situações vivenciadas pela população que participa do processo educativo, precisam ser compreendidas no sentido da superação que limita tanto a consciência como as transformações.

Sendo assim, conhecer e reconhecer onde esses jovens vivem e como vivem é o primeiro passo para se propor um diálogo sobre as questões ambientais atuais. Outro passo relevante passa a ser a escolha das ferramentas pedagógicas que os educadores ambientais se valem para comunicar os saberes ligados à Educação Ambiental (FEITOSA; LEITE, 2011). Tal escolha se liga a uma prática curricular fruto das interações humanas em sala de aula. Portanto, se faz necessário dialogar em torno do tema.

Podemos iniciar esse diálogo trazendo à tona a percepção de que a palavra, contida nas formas de expressão usadas pelos cientistas, produtores do saber formal que dá base ao campo da Educação Ambiental, para publicizar os resultados das suas investigações, pode ser, por um lado um cárcere e, por outro, libertação do pensamento racional humano. Cientistas utilizam como ferramenta de comunicação os artigos científicos e outras maneiras formais de expressão, como eventos acadêmicos (congressos, simpósios, etc.) (VILLELA PEREIRA, 2013). Tal forma de geração de saber não pode ser aplicada em sala de aula para crianças e adolescentes. É preciso traçar outros caminhos curriculares que conectem esses caminhos (FEITOSA; DIAS, 2015; SIMKA; MORRETO, 2013).

Os fios dessa teia curricular entre o indivíduo e o coletivo, entre o que está escrito nos artigos científicos e o que ocorre efetivamente no chão da sala de aula, faz parte da ação-reflexão cotidiana dos educadores ambientais. Eles cruzam esse emaranhado capricho de tempo e espaço escolar, cortando as linhas soltas dos currículos num laço.

Adentrando nessa visão, acreditamos que a arte, em suas diversas modalidades - teatro, literatura, dança, pintura, fotografia, cinema, performance, etc. – possui intrinsecamente um potencial gerador de interdisciplinaridade, elemento-chave da ação-reflexão de educação ambiental. A arte possibilita ao educando o contato com dimensões que, normalmente, são negligenciadas na formação de professores, a saber: estética, sensibilidade, afetividade, amorosidade, paixão, entre outros (FEITOSA; DIAS, 2015).

A arte permite dar ao ser humano um outro olhar, a visão da beleza. Beleza de contemplar a linda lua cheia que está disposta no seu hoje, de enxergar a boniteza das vidas, das gentes e das culturas. Quantas e quantas vezes nós olhamos o mundo e não enxergamos sua beleza? É necessário (re)encantar o olhar, sensibilizando os jovens para a beleza da natureza e do humano.

A esse respeito, diz Marcos Villela Pereira (2013), em um extremo, a palavra conto simboliza uma espécie de prisão do pensamento. É uma forma de violência contra o movimento infinito que é o fluxo da consciência. A palavra prende, demarca e regula o pensamento. Por outro lado, ao mesmo tempo, a palavra também concebe a liberdade do pensar. “A palavra dá vida, a palavra faz ver, a palavra cria” (VILLELA PEREIRA, 2013, p. 214). Ela gera corpo aos conceitos, e às emoções.

O conto, ferramenta artística de expressão literária foco da análise do presente artigo, é uma forma de retomada dessa relação perdida. Narrar uma história é semelhante à arte devido ao seu caráter estilístico. Trazendo para o presente texto a visão de Adorno (2003), a literatura contista/ensaística “[...] necessariamente se aproxima da teoria, em razão dos conceitos que nele aparecem, trazendo de fora não só seus significados, mas também seus referenciais teóricos” (ADORNO, 2003, p. 37).

Então, quem sabe, a própria escrita acadêmica esteja incompleta, em sua rigidez, impessoalidade e objetividade extrema. Sendo inacabada, acreditamos que ela ainda possa ser modificada. Então, podemos transgredi-la? Então, sobre o que escrever? Quais temas poderiam ser usados para a escrita do texto, de forma que pudesse levar a uma reflexão sobre as questões ambientais? E o mais importante. Será que poderíamos usar o conto, um texto narrativo, como uma ferramenta para trabalharmos Educação Ambiental junto a jovens?

Dito isso, o objetivo do presente artigo é analisar e narrar uma experiência feita em uma escola pública de ensino médio da cidade de Fortaleza-CE, a qual utilizamos textos no formato de contos escritos pelos próprios alunos para dialogar sobre educação ambiental.

Cotidianidade e o texto narrativo

Objetivar a fala na condição de rever ações do cotidiano, que possam vir a impactar o ambiente de maneira negativa ou positiva. Faz necessário lembrar-se da subjetividade que o fazer diário, o que chamamos de cotidiano, vem a apresentar. O reflexo próprio da vida cotidiana pressupõe um materialismo espontâneo: os homens intuitivamente percebem que o mundo exterior existe de modo independente de sua consciência (FREDERICO, 2000).

Quando é proposto aos jovens que dialoguem nas rodas de conversas, sobre as questões ambientais e a cotidianidade deles e que se percebam como agentes sociais que podem realizar mudanças de paradigmas através da mudança de perspectiva de suas ações rotineiras. Poderemos propor uma superação na superficialidade empírica do cotidiano. Isto si da quando os indivíduos passam a realizar ou a adotar uma postura reflexiva frente à vida cotidiana. “É pelo distanciamento reflexivo frente ao cotidiano, que o homem o compreende e analisa” (COSTA, 2001, p. 36).

Quanto à escolha do gênero textual. A seleção por conto, que em sua maioria são ficcionais, se deu devido ser um texto que pode retratar o cotidiano, um fato que aconteceu. É uma narrativa com início, meio e fim. Podendo ser reflexivo e interpretativo. A narrativa do conto é precisa, podendo representar somente um conflito, um só drama ou uma só ação. O conto aparece como uma amostragem, um flagrante ou instantâneo, pelo que vemos registrado literariamente um episódio singular e representativo (SOARES, 1993).

O autor de conto deve escolher um tema sobre o qual irá escrever. Se a proposta da atividade esta relacionada com ações do nosso dia a dia que venham a causar algum dano ao ambiente, ou não. Fez-se necessário a escolha de um gênero textual, no caso o conto, no qual a cotidianidade possa ser expressa. Como ressalta Gotlib (1990) uma sucessão de acontecimentos, já que é necessário ter algo para narrar, interesse humano, pois é feito por nós, para nós e acerca de nós; e tudo acontecendo na mesma unidade de tempo.

Seguindo a bússola teórica aqui defendida, avançamos em direção a uma relação de proximidade entre arte (conto) e ensino (de educação ambiental), tendo como elemento basilar a ideia de que o trabalho do educador se assemelha a de um artista (FEITOSA; LEITE, 2011). Seu trabalho reflexivo cotidiano, enquanto mediador do saber sistematizado, é marcado por um arranjo que conecta algo previamente planejado com a surpresa do dia-a-dia, o inesperado (SIMKA; MORRETO, 2013). O professor toca sua sala de aula como um músico no palco, numa espécie de sinfonia de ondas sonoras que mesclam os saberes apreendidos na formação universitária e os da prática cotidiana, de modo que a experiência de ensinar se camufla com suas teorias implícitas/explícitas, gerando o som que comunica o saber.

A arte da literatura, o conto de maneira específica, possui elementos que podem ser explorados mais diretamente pelos educadores ambientais, haja vista que despendam o lado imagético do ser humano, capacitando-o a narrar sua experiência (COSTA, 2001; SOARES, 1993). O conto pode ser usado como mecanismo de expressão do saber sistematizado da escola (ADORNO, 2003; VILLELA PEREIRA, 2013). Outrossim, essa artistagem ecoliterária pode servir como elemento gerador de ação-reflexão de caráter interdisciplinar (FEITOSA; DIAS, 2015).

METODOLOGIA

Abraçando a perspectiva de articulação entre arte e educação, o presente artigo narra uma atividade desenvolvida no âmbito das disciplinas de Biologia e da Língua Portuguesa, com duas turmas de alunos do terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública da rede estadual da cidade de Fortaleza-CE. Ao todo, participaram do processo educativo, cerca de sessenta alunos. A pesquisa tem natureza qualitativa por se tratar de uma investigação fundamentada na compreensão das informações a partir do contexto e das narrativas contidas nas produções textuais produzidas. Utiliza-se da narrativa de experiência planejada para pesquisa, a qual pode ser compreendida como ações são pensadas de forma a propor possíveis resposta para as questões que inicialmente são apresentadas (LIMA; GIRALDI; GERALDI, 2015). Visam, por exemplo, à reflexão de recursos didáticos previamente planejados, com estratégias e ferramentas de mediação previstas para produzir determinados dados.

Acreditamos que os saberes oriundos das experiências pessoais devam ser postas em diálogos com o conhecimento cientifico, permitindo uma participação mais democrática em assuntos que versam sobre a Educação Ambiental. Cada cultura tem modos próprios de construir e de validar suas explicações de mundo que foram elaborados ao longo do tempo, não sem inter-relações com aquelas culturas que lhes são contemporâneas (LIMA; GIRALDI; GERALDI, 2015). As ações ocorreram em um período de tempo de um mês e foram organizadas da seguinte forma.

A princípio, em duas aulas de Língua Portuguesa, foram apresentadas aos alunos as características pertencentes ao gênero conto e suas vertentes. Como mote-gerador das aulas da disciplina estava sendo o Pré-modernismo, escolhemos trabalhar com obras do autor Monteiro Lobato, um militante das causas ambientais, principalmente no meio rural como afirmam Souza e Cavalari (2009). Utilizamos um dos textos que compõem o livro Urupês (1918), formado por treze contos e um artigo. O escolhido foi o conto Urupês, texto que dá nome ao livro e que trás Jeca Tatu como personagem principal.

Concomitantemente, nas aulas de Biologia, o texto foi retomado e realizado uma roda de conversa sobre a temática da preservação da natureza, degradação ambiental e responsabilidade humana diante dos problemas ambientais. Ainda na roda de conversa, foram apresentados temas relacionados com sustentabilidade e o estilo de vida dos alunos. Seguimos o proposto por Simka e Morreto (2013) e por Feitosa e Leite (2011), na perspectiva de que os temas escolhidos apresentavam sentido e ligação com a realidade cotidiana dos alunos.

Durante a roda de conversa, temas relativos ao cotidiano dos alunos foram surgindo e anotados na lousa. E assim as duplas de alunos puderam escolher sobre qual dos temas gostaria de escrever uma narrativa em forma de conto. Através da deliberação dos alunos, ficou determinado que o texto devesse ter uma lauda. E que o texto final, depois de feita uma reescrita corretiva, deveria ser entregue posteriormente de maneira digital.

Nas duas aulas de biologia seguintes, com o auxílio do professor de Língua Portuguesa, as duplas de estudantes realizaram pesquisas na internet sobre o tema escolhido. Para que nas duas próximas aulas desta disciplina, com a presença do professor de Biologia, as duplas elaborassem os textos. Os contos foram corrigidos, reescritos e lidos na aula de Biologia, momento que foi promovida outra roda de conversa com o proposito de debatermos os textos criados pelos alunos.

Considerando a grande quantidade de material produzido, a presente de experiência planejada para pesquisa faz um recorte que traz apenas um único conto, escolhido por ser um que marcou diretamente os educadores envolvidos, devido ao seu conteúdo ter atendido a proposta inicial da intervenção na escola. Esse conto, exposto a seguir, traz a partir do cotidiano de um jovem, um olhar socioambiental que une ética e estética.

RESULTADOS & DISCUSSÃO

Quando a temática tratada se refere ao meio ambiente, quase sempre, os docentes, relacionam preservação da natureza com a aquela representação social bucólica de floresta, matas, rios, entre outros exemplos de espaços ditos como “naturais” (GIOVANNI, 2013; LOUREIRO; TORRES; DELIZOICOV, 2014). Dialogar sobre a importância destes ambientes é fundamental. Porém, o jovem nem sempre se vê como um agente ativo nesta questão socioambiental, pois nem sempre consegue perceber que ações que realizam em seu ambiente (urbano) podem influenciar ações correlatas nos demais ambientes (DÍAZ, 2002).

A leitura do conto Urupê permitiu que os alunos percebessem a temática sobre meio ambiente, principalmente sobre o meio rural, em contrapartida ao desenvolvimento urbano característico do público envolvido. O pré-modernismo, típico de Monteiro Lobato, apresenta um período histórico onde os grandes polos do Brasil se modernizavam, enquanto no interior havia a seca e a fome. Observaram que foi apresentado o retrato da miséria do sertanejo e do desespero, com um cunho depreciador. Onde o caboclo quase sempre era representado de forma caricata, como um ser preguiçoso e insolente.

Quando nas rodas de conversas, cria-se um espaço onde o direito de fala e de escuta fica assegurado, para que o individuo possa se expressar de uma maneira organizada. Permitiu-se que surgissem temas relacionados ao consumo consciente, usos sustentáveis e conservação do espaço público. Proporcionando vários debates bem interessante. Onde podemos perceber que as sugestões dos alunos, de ações de intervenções na preservação do ambiente, em sua maioria eram de responsabilidade de outras esferas (Governos, empresas). Poucos percebiam que sua ação ou um conjunto de ações individuais, poderiam refletir na coletividade e sustentabilidade do ambiente no qual está inserido. A responsabilidade do cidadão na proteção do meio ambiente e com os demais indivíduos trata-se de um sistema de responsabilidade compartilhada, atribuindo a todos a proteção do meio ambiente (PEREIRA, 2015).

Em alguns textos confeccionados pelos alunos, foi possível perceber uma relativa mudança na forma de perceber que sua(s) ação(s), podem influenciar na sustentabilidade e na qualidade de vida dos mesmos. Foram produzidas cerca de trinta e quatro crônicas, a maioria dos textos tratou sobre o uso consciente da água ou sobre a temática do lixo, principalmente sobre o descarte correto. Destacamos assim que a relação entre arte (literatura) e educação ambiental foi relevante para o processo aqui narrado, resultado que vai ao encontro das propostas de alguns pesquisadores do campo do ensino (FEITOSA; DIAS, 2015; FEITOSA; LEITE, 2011) e da epistemologia (ADORNO, 2003; REDERICO, 2000).

O conto a seguir nos exemplifica o entendimento da proposta da atividade. Foi através da análise de ações do cotidiano, que percebemos os possíveis impactos da ação humana perante o ambiente e, a partir daí, sugerir uma (ou mais) proposta de mudança de paradigma. O conto que se segue, foi redigido por uma dupla formada por duas alunas, com cerca de dezessete anos cada. Elas se apropriaram do problema ambiental do consumismo, tão presente em seu cotidiano, e do fato de uma delas ter uma irmã que estava grávida no período.

CONTO – A VELHA CALÇA DESBOTADA OU COISA ASSIM

Lembro perfeitamente quando nosso encontro aconteceu. Eu de bobeira, no shopping, e você, a procura de alguém. Não posso afirmar que foi amor à primeira vista. Mas hoje, sei que alguma coisa aconteceu. Fui ao seu encontro e percebi que encaixávamos perfeitamente.

Depois deste primeiro encontro, vieram tantos outros. Alguns alegres, outros desafiantes e até mesmo, tristes. Como o dia de hoje. Afinal, foram anos de convivência...

O tempo passou e não nos encaixamos mais. Mas me pego olhando pra você e sou envolvida por uma onda de sentimentalismo. Hoje, completo seis meses de gravidez. E você, minha calça jeans, participante de tantos momentos na minha vida, não me cabe mais.

Disseram:

-Jogue essa calça velha e desbotada, no lixo!

Fiquei relutante.

- Mas ela está novinha?!

Então resolvi reaproveitar você e transformá-la em uma bolsa. Onde poderei levar as coisas do bebê. E assim você ainda estará comigo em muitos outros momentos.”



CONSIDERAÇÕES FINAIS



O trabalho aqui exposto analisou, através de narrativas de experiências planejadas para pesquisa, ações feitas em uma escola pública de ensino médio da cidade de Fortaleza-CE. Nessas narrativas, exploramos textos no formato de contos escritos pelos próprios alunos para conversar sobre educação ambiental, numa tentativa de propor uma experiência de dialogicidade na escola básica.

Diante dos resultados narrados, evidenciamos que a conexão entre arte (Literatura e Linguagens) e ciência (Biologia e educação ambiental), geraram ações de caráter interdisciplinar. Isso, por sua vez, foi uma fato fundamental para o desenvolvido de uma ação-reflexão de educação ambiental feita pelos participantes do processo. A arte possibilitou aos educandos-contistas e aos professores-narradores o contato com dimensões ética, estética e sensível do ser. Portanto, a literatura e as artes em geral educa o homem fazendo-o superar à fragmentação produzida pelos modelos tradicionais de educação ambiental.

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W. O ensaio como forma. In:_______ Notas de literatura. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2003, p. 15-45.

BRASIL - Ministério do Meio Ambiente. Política Nacional de Educação Ambiental - Lei nº 9795/1999. Disponível em:< http://www.mma.gov.br/educacao-ambiental/politica-de-educacao-ambiental > Acesso em: 15 jan. 2019.

COSTA, L. C. A estrutura da vida cotidiana:uma abordagem através do pensamento lukacsiano. Revista Emancipação, Ponta Grossa, v. 1, n. 1, p.33-57, 2001. Disponivel em: < http://www.revistas2.uepg.br/index.php/emancipacao/article/view/22> Acesso em:6 de Fev.2019

DÍAZ, A.P. Educação ambiental como projeto. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2002.

FEITOSA, Raphael Alves; LEITE, Raquel Crosara Maia. O trabalho e o saber docente: construindo a mandala do professor artista-reflexivo. Rio de Janeiro: Câmara Brasileira do Jovem Escritor, 2011. Disponível em: < https://www.kobo.com/br/pt/ebook/o-trabalho-e-o-saber-docente>. Acesso em: 10 fev. 2019.

FEITOSA, Raphael A.; DIAS, Ana Maria Iorio. Ensino, Currículo(s) e Formação Docente: Mandala(s) como expressão da omnilateralidade e das ciências. Jundiaí: Paco Editorial, 2015.

FREDERICO, C. Cotidiano e artes em Lukács. Revista Estudos Avançados, São Paulo,v.14, n. 40,Set/Dec. 2000. Disponível em:< http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142000000300022> Acesso em: 5 Fev. 2019

GIOVANNI, S. (org.). Educação Ambiental: conceitos e aplicações. João Pessoa: Editora UFPB, 2013.

GOTLIB, N.B. Teoria do conto. São Paulo: Ática, 1990.

LIMA, Maria Emília Caixeta de Castro; GERALDI, Corinta Maria Grisolia; GERALDI, João Wanderley. O trabalho com narrativas na investigação em educação. Educ. rev., Belo Horizonte , v. 31, n. 1, p. 17-44, Mar. 2015 . Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/0102-4698130280>. Acesso em: 04 Fev. 2019.

LOUREIRO, C. F. B.; TORRES, R. J.; DELIZOICOV, D. (orgs.) Educação Ambiental: dialogando com Paulo Freire. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2014.

PEREIRA, Diego Emmanoel Serafim. O dever de participação na proteção em matéria ambiental na legislação brasileira. Revista Eletrônica Direito e Política, Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciência Jurídica da UNIVALI, Itajaí, v.10, n.1, edição especial de 2015. Disponível em:< www.univali.br/direitoepolitica> Acesso em : 4 Fev. 2019

SIMKA, S.; MORRETO, M. A. P. Ser Professor Reflexivo não é um Bicho-de–sete-cabeças. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2013.

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VILLELA PEREIRA, Marcos. A escrita acadêmica - do excessivo ao razoável. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 18, n. 52, 2013, p. 213-228. Disponível em: < http://hdl.handle.net/10923/8727> Acesso em: 10 de fe. 2019



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