ISSN 1678-0701
Número 68, Ano XVIII.
Junho-Agosto/2019.
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Relatos de Experiências

No. 68 - 11/06/2019
ESTUDO SOCIOAMBIENTAL COM ALUNOS DA ZONA RURAL DE UBERABA-MG: RELATO DE EXPERIÊNCIA  
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ESTUDO SOCIOAMBIENTAL COM ALUNOS DA ZONA RURAL DE UBERABA-MG: RELATO DE EXPERIÊNCIA



Ana Paula Milla dos Santos Senhuk1; Ana Rita Silva2, Carlos Eduardo Borges Oliveira3, Felipe Fiochi Pena3, Fernanda Rezende Terra3, Geisla Giovana Silva e Oliveira3, Isabella Esper Tamburus3, Mário Roberto Prata Melo3, Paloma Cristina Pimenta3, Pedro de Souza Lopes Silva3 e Virgínia Oliveira Coelho2,3



1 Docente do Departamento de Engenharia Ambiental, Instituto de Ciências Tecnológicas e Exatas, Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

2 Secretaria Municipal de Saúde, Prefeitura de Uberaba.

3 Mestrandos em Ciência e Tecnologia Ambiental pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

anapmilla@yahoo.com.br (autor para correspondência); anaritabio04@gmail.com; agrobiogeoconsultoria@gmail.com; ffpena@hotmail.com; fernandaterra94@gmail.com; gegiovana@yahoo.com.br; isabelaesper@hotmail.com; marioprata93@gmail.com; paloma.pimenta17@hotmail.com; pedro.s.ls@hotmail.com; soricina2@gmail.com



RESUMO - O trabalho foi feito com alunos do Ensino Fundamental da zona rural de Uberaba-MG, como parte da disciplina Educação Ambiental do mestrado em Ciência e Tecnologia Ambiental/UFTM. Para isso aplicou-se um questionário semiestruturado, a dinâmica da teia e atividades práticas sobre conservação de recursos hídricos.



Palavras-chave: Educação Ambiental. Recursos hídricos. Saneamento rural.



ABSTRACT - The work was carried out with students from the Elementary School of the rural area of Uberaba-MG, as part of the Environmental Education discipline of the master's degree in Environmental Science and Technology/UFTM. For this, a semi-structured questionnaire, the web dynamics and practical activities on conservation of water resources were applied.



Keywords: Environmental Education. Water resources. Rural sanitation.



1. INTRODUÇÃO



No Brasil, menos da metade da população no Brasil possui serviço de esgotamento sanitário em seus municípios, representando apenas 39% do efluente urbano coletado e tratado. Essas ações antrópicas aliadas à destinação inadequada de resíduos sólidos contaminam os ecossistemas aquáticos, tornando-o um recurso impróprio para o consumo (ANA, 2017).

O Conselho Nacional do Meio Ambiente, na resolução 357 de 2005 (CONAMA, 2005), estabelece padrões para o consumo humano da água, que deve ser tratada, pois in natura apresenta agentes patogênicos que podem afetar a saúde humana. O abastecimento de água potável, assim como o tratamento de efluentes e a coleta e disposição adequada de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, faz parte das ações socioeconômicas que constituem o saneamento ambiental. Essas medidas buscam evitar doenças e fomentar a saúde, protegendo e melhorando as condições de vida da população urbana e rural (FUNASA, 2004; OLIVEIRA et al., 2018).

Na zona rural, o saneamento geralmente recebe menos atenção que nas cidades (RESENDE; FERREIRA; FERNANDES, 2018). O Brasil possui 31 milhões de pessoas que vivem na zona rural e em comunidades isoladas. Desse total, apenas 22% possui acesso ao saneamento rural, representando cerca de 24 milhões de pessoas ainda sem acesso a esse serviço (EMBRAPA, 2018).

Nesse contexto, as ações de educação ambiental tornam-se uma ferramenta importante na busca de alternativas viáveis para a solução e/ou minimização de problemas relacionados ao saneamento inadequado na zona rural e para maior sensibilização da população acerca das questões de saúde ambiental. Segundo a Lei 9.795/99, entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. A elaboração e utilização de técnicas e práticas de educação ambiental deve ser realizada para melhoria do saneamento rural e da qualidade de vida dos moradores dessas comunidades (GONÇALVES et al., 2013).

As Instituições de Ensino Superior apresentam um importante papel na formação de educadores ambientais que possam atuar tanto na educação formal, quanto informal, junto a escolas, ONGs, instituições públicas e privadas, entidades ambientais, sindicatos rurais, entre outros.

Assim, o objetivo do presente trabalho foi realizar práticas de educação ambiental com alunos do Ensino Fundamental da rede municipal de Uberaba, na zona rural, como parte da disciplina Desenvolvimento Sustentável e Educação Ambiental, do mestrado em Ciência e Tecnologia Ambiental/UFTM. Para isso, buscou-se:

  • Levantar aspectos sociais, culturais e de saúde de alunos do 9° ano;

  • Conhecer a percepção ambiental dos alunos do 9° ano quanto ao local onde moram e estudam;

  • Desenvolver atividades de educação ambiental sobre a importância da água com alunos do 6° ao 9° ano.



2. METODODLOGIA

O estudo foi realizado em Uberaba-MG, na região do Triângulo Mineiro, com área aproximada de 4.512,135 km² e população estimada de 328.272 habitantes (IBGE, 2017). Um questionário semiestruturado foi aplicado aos alunos do 9º ano do Ensino Fundamental das oito escolas rurais do município (Figura 1), sendo abordadas questões sobre renda familiar, saneamento, infraestrutura da escola, entre outras.



Figura 1. Localização de Uberaba no Estado de Minas Gerais e das Escolas Municipais da zona rural



Após a aplicação do questionário realizou-se uma dinâmica com o objetivo de refletir sobre o papel de cada ser vivo no ecossistema, o impacto antrópico e as possíveis medidas para minimizá-lo. Cartões contendo nomes de animais, plantas e outros componentes de um ecossistema terrestre foram entregues a cada aluno. Os alunos foram organizados em círculo e, durante a leitura de um texto, sempre que era falado o nome escrito no cartão, o aluno recebia o rolo de barbante. Isso foi feito até todos estarem ligados pelo barbante, formando uma teia (Figura 2B). Segue o texto lido durante a dinâmica (as letras em caixa alta eram as que estavam nos cartões):

São cinco horas da manhã, os primeiros RAIOS DE SOL começam a atingir a densa FLORESTA. As folhas das árvores captam o GÁS CARBÔNICO presente no AR e absorvem, por meio de suas RAÍZES, a ÁGUA e os SAIS MINERAIS presentes no SOLO. A luz do sol fornece a ENERGIA necessária para que se realize a FOTOSSÍNTESE. Então energia luminosa é transformada em energia química, ou seja, há a produção de ALIMENTO (açúcares) usado pela própria planta e também por outros seres vivos: é GAFANHOTO comendo FOLHA, ARARA-VERMELHA catando SEMENTE, MACACO-PREGO comendo FRUTA. Mas tem bicho que não gosta diretamente da planta, é como a ONÇA-PINTADA que abocanhou um BICHO-PREGUIÇA, que dava sopa num tronco de árvore. Além do alimento, a fotossíntese produz OXIGÊNIO para o meio, que é usado na RESPIRAÇÃO de diversos seres vivos. Já é meio-dia e apesar do sol escaldante, a temperatura dentro da floresta é mantida amena, pois a copa das árvores diminui a incidência solar. Assim, ZECA consegue descansar tranquilamente sob a sombra de uma castanheira e sobre um tapete de folhas e galhos que formam a SERRAPILHEIRA, matéria orgânica que aos poucos sofre a DECOMPOSIÇÃO por MICROORGANISMOS (bactérias e fungos), fornecendo NUTRIENTES para o meio e colaborando para a porosidade do solo. Quando a chuva cai, a água se infiltra pelos poros e circula pelo solo, igual o sangue nas veias, podendo atingir os LENÇÓIS FREÁTICOS. Tudo está interligado: a micro vida do solo, a ciclagem dos nutrientes, as plantas, os animais, inclusive o homem. É um ecossistema em equilíbrio dinâmico! ”

Enquanto o questionário era aplicado e realizada a dinâmica, atividades práticas foram organizadas em um local externo às salas de aula, sendo visitadas pelos alunos do 6° ao 9° ano (Figura 2).

a) Proporção da água no planeta - Com o objetivo de sensibilizar os alunos sobre a importância de se preservar os recursos hídricos, foi realizada uma atividade sobre a proporção de água no planeta. O Planeta Terra possui aproximadamente 71% de extensão coberto por água. Se toda essa água se encontrasse dentro de uma garrafa Pet de 2 litros, um copo de 50 mL (copinho de café) representaria toda a água doce existente no planeta. Por fim, retirando as geleiras (aproximadamente 77% da água doce do mundo) e a água subterrânea (22%), metade de uma tampa da garrafa Pet representaria a quantidade de água doce de acesso mais fácil para consumo humano (rios, lagos e pântanos).



Figura 2. A. Atividades de educação ambiental realizadas nas Escolas Municipais da zona rural de Uberaba-MG; B. Dinâmica da teia; C. Proporção da água no planeta; D. Terrário; E. Erosão do solo; F-G. Bioindicadores de qualidade da água; H. Mini ETA.

b) Terrário - Na sequência, foi abordado o ciclo da água utilizando um terrário como ilustração. Para isso, plantou-se, previamente, diversas suculentas em um aquário fechado com plástico filme transparente para penetração de luz, as quais sobreviveram sem adição de água ou troca de ar com o meio externo. Foi possível explicar o ciclo da água, do oxigênio, do carbono e da matéria orgânica, bem como a importância dos processos de fotossíntese, respiração e transpiração para a manutenção da vida em equilíbrio.

c) Erosão do solo - A prática teve como objetivo demonstrar como ocorre a erosão hídrica do solo, enfatizando a importância da preservação da cobertura vegetal. Para isso, foram usados três galões de 5L de água cortados longitudinalmente. No primeiro galão, que continha somente solo, ao adicionar água, a terra era arrastada para o recipiente coletor, demostrando o que ocorre em leitos de rios sem a mata ciliar. No segundo galão, que continha solo com palha de cana, a quantidade de partículas arrastada pela água era menor. Já o terceiro galão continha solo com grama e a água acrescentada ao ser drenada pelo solo carreava poucas partículas, representando a redução do assoreamento e da força das águas que chegam ao corpo d’água quando se tem uma mata ciliar.

d) Bioindicadores de qualidade da água - Alguns exemplares de macroinvertebrados bentônicos foram apresentados aos alunos e explicada a sua utilização como bioindicadores de qualidade da água. Foram observados em lupa larvas de três grupos: Tricoptera (muito sensível à poluição), Odonata (sensível à poluição) e Chironomidae (resistente à poluição), conhecidos popularmente com: cigarrinha, libélula e mosquito, respectivamente. Cada grupo desses animais recebe uma pontuação, variando de 1 (mais resistentes) a 10 (mais sensíveis). Assim, após uma amostragem desses organismos no sedimento do corpo d’água, é possível classificar o ponto analisado quanto à qualidade da água pela somatória dos pontos dos grupos de macroinvertebrados bentônicos encontrados.

e) Mini Estação de Tratamento de Água (ETA) - O tratamento de água é um conjunto de procedimentos físicos e químicos que são aplicados na água para que esta fique em condições adequadas para o consumo, ou seja, para que a água se torne potável, evitando a transmissão de doenças. Na mini ETA, um recipiente representava o rio, a água era bombeada e adicionava-se o coagulante sulfato de alumínio. Esta substância servia para aglomerar partículas sólidas que se encontravam na água como, por exemplo, a argila. Posteriormente, a água passava pelo floculador, onde as partículas sólidas se aglutinavam em flocos maiores. Na decantação, por ação da gravidade, os flocos com as impurezas e partículas ficavam depositados no fundo do tanque, separando-se da água. Na prática, o filtro não foi utilizado, mas no tratamento real, após a decantação, a água deve passar por filtros formados por carvão, areia e pedras de diversos tamanhos. Nesta etapa, as impurezas de tamanho pequeno ficam retidas no filtro. Na desinfecção, cloro ou ozônio é aplicado na água para eliminar microrganismos causadores de doenças, e então a água está pronta para distribuição à população.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

As atividades práticas propostas foram desenvolvidas nas oito escolas rurais para cerca de 650 alunos do Ensino Fundamental, contando com o apoio dos professores e funcionários (Figura 2). A dinâmica da teia foi bastante útil para discussão sobre as inter-relações entre o meio biótico (incluindo o homem) com o meio abiótico, e entre organismos pela predação e competição. Após a leitura do texto e a formação da teia de barbante, os alunos participaram das discussões dando exemplos de desequilíbrios na cadeia trófica por causas antrópicas e suas possíveis consequências.

A maioria dos alunos não conheciam as atividades práticas e puderam aprender novos conceitos e discutir sobre assuntos relacionados à conservação e qualidade dos recursos hídricos, de maneira mais fácil pela visualização de maquetes e experimentos. Atividades práticas e lúdicas são importantes ferramentas para o aprendizado, favorecendo a atratividade e facilitando a abordagem de novos conceitos, com grande potencial para sensibilizar e motivar os alunos, e levando à criação de um vínculo de responsabilidade perante questões ambientais (MOURA; CRIBB; JEOVANIO-SILVA, 2016).

No total foram aplicados 115 questionários a alunos do 9° ano do Ensino Fundamental das oito escolas rurais de Uberaba, sendo o número de 18, 7, 14, 5, 19, 17, 18 e 17, respectivamente para cada escola, de A a H.



3.1 Aspectos socioeconômicos, culturais e de saúde



A idade média dos alunos entrevistados era de 14,5 anos. A maioria era natural de Uberaba, moradores da zona rural, tendo, em média, 4 pessoas por moradia.

A preferência dos alunos entrevistados para atividades de lazer era a utilização de Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). Em primeiro lugar foi o uso de aparelho celular, seguido por assistir televisão e, em terceiro lugar, a prática de esportes. Escosteguy e Felippi (2017) mostraram em seu estudo sobre jovens rurais e usos das TICs, que a internet, o celular e o computador tem sido utilizado, mesmo que inconscientemente, como uma forma de controlar a incerteza, neutralizar a dispersão familiar, evitar a fragmentação biográfica e garantir a inclusão. Além disso, as diversas declarações de que as TICs oferecem segurança, principalmente a presença do telefone celular no meio rural, foram indicativos que reafirmam tal situação.

A maioria dos entrevistados pretendiam cursar o Ensino Superior e/ou Curso Técnico, principalmente os alunos da escola G (83,3%). A escola B apresentou o menor índice para essa questão (51,1%). Jovens rurais, em sua maioria, estão associados a condições precárias de contratos de trabalho, o que os leva a investir menos na educação (PAULO, 2011).

A principal reclamação dos jovens rurais em relação ao acesso à escolarização é a distância entre o domicílio e as escolas. A dificuldade de acesso à faculdades e universidades faz com que a minoria deles continue os estudos ou, mesmo quando o realizam, cursam em faculdades privadas e em regime semipresencial, cursos que muitas vezes não são o que desejam (CASTRO, 2009).

Com relação às atividades econômicas desenvolvidas nas residências dos alunos, houve prevalência das atividades agrossilvopastoris, como plantação de cana-de-açúcar, milho, soja, hortaliças e criação de gado de leite e corte, frango, porco e carneiro. Esse resultado condiz com as estatísticas nacionais e estaduais, onde Uberaba está entre os primeiros municípios no ranking brasileiro da economia agropecuária, possuindo um dos maiores PIB do agronegócio do Estado de Minas Gerais (SAEA, 2017).

As doenças citadas pelos alunos foram: dengue (em 62,5% das escolas), febre amarela (25%), doença de Chagas (12,5%) e verminoses (12,5%). Na escola G, os alunos responderam que não tiveram nenhuma destas doenças. A opção verminoses foi relatada na escola H (5,9%). Essa escola localiza-se a 50 km de Uberaba e os alunos vivem nas fazendas da região e alguns em assentamentos. Provavelmente os casos de verminoses relatados estão relacionados com a qualidade da água consumida, necessitando maiores investigações.

Dengue teve maior ocorrência na escola D, onde 40% dos alunos entrevistados assinalaram somente essa doença. Essa escola está localizada no Distrito Rural de Peirópolis, cuja economia baseia-se no turismo, em função dos fósseis encontrados nas imediações. Desde a sua criação em 2010, o Complexo Cultural e Científico de Peirópolis/UFTM tornou-se um centro de referência nacional em paleontologia, desenvolvendo atividades de pesquisa, ensino e extensão.

Febre amarela foi assinalada pelos alunos das escolas A (5,6%) e E (5,9%) e doença de Chagas foi relatada apenas na escola E. Contudo, de acordo com informações da Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Uberaba, não houve registro dessas doenças no município, nos últimos anos. Assim, vale ressaltar a importância de orientar a população a sempre procurar uma Unidade de Saúde em caso de doença para o tratamento adequado, para a notificação da doença e para que sejam tomadas as medidas de controle e prevenção adequadas, evitando possíveis surtos e epidemias.



3.2 Aspectos ambientais da moradia



Cerca de 60% dos entrevistados relataram que a água para abastecimento onde moravam era de poço artesiano ou mina e, 15% de cisterna. Abastecimento com água tratada pelo Centro Operacional de Desenvolvimento e Saneamento de Uberaba (Codau) foi relatado por 25% dos entrevistados, principalmente por alunos das escolas A e E, localizadas nos distritos Capelinha do Barreiro e Ponte Alta, respectivamente.

O esgoto da moradia era lançado em fossas, segundo 71% dos entrevistados. Contudo, não souberam diferenciar entre fossa séptica ou negra e, apenas dois alunos da escola A relataram que o esgoto era lançado a céu aberto. Mais de 100 m de distância entre o poço artesiano e a fossa foi relatado por 61% dos entrevistados. Distância menor que 100 m foi relatada por oito alunos das escolas A, F e G.

Esses dados apontam um tema importante a ser trabalhado nas escolas sobre o descarte correto de efluentes e o risco de contaminação dos recursos hídricos, caso não sejam observadas as normas de saneamento rural, como a eliminação do uso das fossas negras, por exemplo. A gestão dos recursos hídricos na zona rural é necessária para minimização de danos ambientais e à saúde, requerendo como base a educação ambiental, uma vez que é preciso partir da conscientização da população e de seus governantes para a busca da sustentabilidade no meio natural (ALCÂNTARA et al., 2012).

A separação do lixo era feita em 48% das casas dos entrevistados, sendo a parte orgânica destinada para alimentação dos animais. Apenas 11,2% disseram que era feita a compostagem com o lixo orgânico ou algum material era reciclado. Parte dos resíduos gerados pelas atividades humanas possuem valor comercial, e é necessário adotar uma nova postura e perceber o lixo como uma matéria-prima potencial, minimizando a contaminação ambiental com o seu descarte inadequado (D’ALMEIDA; VILHENA, 2000). Por isso, é necessário ensinar e mostrar aos alunos a importância da separação do lixo desde a fonte, para posteriormente poder ocorrer de forma facilitada outras medidas alternativas que diminuam o seu impacto no meio ambiente, como é o caso da reciclagem, compostagem e uso de biodigestores.



3.3 Aspectos ambientais e de infraestrutura da escola



Em geral, os alunos não souberam responder as questões sobre de onde vem a água potável da escola e para onde vai o esgoto. De acordo com informações do Codau, todas as escolas rurais de Uberaba possuem poço artesiano, com exceção da escola E, em Ponte Alta, que possui uma Estação de Tratamento de Água. O esgoto das escolas é lançado em fossas sépticas.

Cerca de 83% dos entrevistados disseram que o lixo da escola era destinado à coleta pública, sem separação de orgânicos ou recicláveis. Esses dados revelam mais uma vez uma questão ambiental importante para ser abordada com os alunos, que é a coleta seletiva, que pode ser trabalhada por meio de gincanas, projetos de reciclagem, compostagem de resíduos orgânicos, uso de adubo orgânico produzido pelos alunos nos jardins e hortas, entre outros.

A poluição percebida na escola e arredores foi relatada por 80% dos entrevistados. A poluição sonora era percebida nas escolas mais próximas às rodovias (B, G e H). A poluição do ar foi relatada principalmente por alunos da escola H, devido à proximidade com uma empresa de extração de calcário. De acordo com dados preliminares, a concentração de material particulado no ar (MP2,5), no período seco, chegou a atingir 20 vezes mais que o limite determinado pela Organização Mundial da Saúde (WHO, 2016), que é de 25 µg/m3 para a média diária.

Observa-se que esse nível de poluição é prejudicial à saúde dos alunos e funcionários da escola, além da população flutuante que utiliza os serviços de restaurante e posto de combustíveis, e moradores da região. Diversos estudos demonstram a associação de poluição do ar e impactos à saúde, mesmo quando os níveis de poluição estão dentro dos limites estabelecidos pela legislação (OLMO et al., 2011). Esses efeitos são notados na mortalidade geral e em causas específicas como doenças cardiovasculares e respiratórias; na morbidade como acréscimos em sintomas respiratórios em crianças, decréscimos na função pulmonar, ou aumento no absenteísmo escolar. 

Em relação à infraestrutura da escola, a biblioteca e a cantina foram consideradas boas pela maioria dos alunos, e as salas de aula foram consideradas de média condições. O laboratório de Ciências estava desativado ou inexiste em praticamente todas as escolas. Sobre as condições da quadra de esporte, grande parte dos alunos consideram ruim nas escolas nas escolas C e D, o motivo estava relacionado com a falta de cobertura da quadra. No que se refere aos jardins, apenas na escola F os alunos consideraram a condição boa. Nas outras escolas não havia áreas verdes ou encontravam-se abandonadas. Em todas as escolas, o acesso à internet foi considerado ruim, visto que geralmente não é liberado para os alunos.

No que diz respeito às melhorias que gostariam de ter, na maior parte das escolas foram relatadas a oferta de aulas de informática e prática de esportes, melhoria geral da infraestrutura da escola e reativação do laboratório de Ciências.



4. CONSIDERAÇÕES FINAIS



A realização de atividades de educação ambiental por alunos da Pós-Graduação mostrou-se uma ferramenta importante para o desenvolvimento da prática docente, criando um ambiente favorável à formação de profissionais conscientes de seu papel na sociedade. Mais atividades devem ser realizadas nesse sentido de aproximar os saberes do campo com o acadêmico, estimulando a cultura indagativa e crítica e, também, o interesse de alunos do Ensino Básico pela pesquisa.

Os resultados dos questionários permitiram levantar temas que podem ser abordados em atividades futuras de educação ambiental, em projetos extensionistas que envolvam a comunidade escolar e civil, como medidas de saneamento rural, destinação adequada de resíduos de origem agrícola, tratamento da água para abastecimento e tratamento de efluentes, impacto da poluição do ar sobre a saúde, entre outros.

Espera-se a continuidade das ações de educação ambiental nas escolas municipais e o envolvimento de novos atores na busca de solucionar a questão de saúde pública vivenciada pela comunidade da escola H, com relação à poluição do ar.







BIBLIOGRAFIA

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