ISSN 1678-0701
Número 69, Ano XVIII.
Setembro-Novembro/2019.
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No. 69 - 27/09/2019
NÓS E OS NÓS DO MUNDO  
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NÓS E OS NÓS DO MUNDO

Exposição da Fiocruz provoca reflexão sobre as ações humanas sobre o meio ambiente

Gigliola Casagrande 

Mestra em Ecologia, Cátia Viviane Gonçalves, media roda de conversa - Lidiane Mallmann



Você já parou para pensar do que é feito o meio ambiente? E o quanto o homem é responsável? Ele é composto de fatores físicos, químicos, biológicos e sociais que afetam - e são afetados - pelos seres vivos e atividades humanas. A harmonia entre todos é fundamental para garantir a manutenção da vida na Terra. Entretanto, com o acelerado ritmo de crescimento mundial, os interesses econômicos têm se sobreposto à preocupação com o planeta.

Os resultados estão aí. Extinção de espécies, mudanças climáticas, desertificação de terras e desigualdade social são alguns deles. Este cenário torna evidente que a contradição entre o crescimento econômico e a conservação do meio ambiente precisa ser superada com um novo modelo de desenvolvimento, mais sustentável. Para tanto, pensar sobre a relação entre consumo e necessidade é um dos aspectos mais importantes.

Todas estas ideias são uma provocação da exposição Nós do Mundo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro. Seus painéis, que ficam até dezembro no Museu de Ciências da Univates, buscam estimular a reflexão sobre nós (os seres humanos) e os nós (problemas) existentes na forma como nos relacionamos com o planeta. "É uma temática bem polêmica, que o museu abre espaço para discussão em momentos como visita de escolas", ressalta a coordenadora do MCN, Miriam Helena Kronhardt. As interessadas podem agendar idas ao museu pelo (51) 3714-7000, ramal 5505, ou mcn@univates.br Em 14 de agosto, uma roda de conversa mediada pela mestra em Ecologia, Cátia Viviane Gonçalves, abriu a exposição e apontou caminhos. Alguns, sem volta.

"A exposição traz alguns números e textos que dão uma mexida com o que está dentro da gente. Faz refletir muito da forma como estamos vivendo. O expositor interativo mostra quanta água se gasta para produzir determinado alimento. Caímos na cilada de achar que, porque não tem água na sua composição, não tem tanto impacto em relação à pegada líquida. Por exemplo, 100 gramas de chocolate exigem 1,43 mil litros para serem feitas, desde o plantio do cacau. É uma informação interessante. E isso que não estamos falando do carbono do transporte, energia consumida e resíduos gerados. Por isso, preciso de cadeias de ciclos curtos e comércio próximo a mim para diminuir a minha pegada. Isso pode ser amarrado a um dos temas da exposição, que é essa ideia de ir em busca de um novo modelo de desenvolvimento sustentável."

Cátia Viviane Gonçalves, mestra em Ecologia

"Pensamos só no produto final. Acompanhei muito de perto a produção de arroz orgânico, por quatro anos. Não tem agrotóxico, mas necessita quatro vezes mais água do que o de cultivo convencional. A pessoa não vai ingerir veneno, mas não dá para dizer que é sustentável. E ainda há a questão da movimentação da água. A maioria utilizada no arrozal é bombeada de um banhado ou de um rio. Você a tira de um ambiente de correnteza para outro, um lêntico, que é parado..."

Marina Schmidt Dalzochio, doutora em Biologia

"Muito disso tem a ver com as questões de marketing. Muitas vezes, compra-se um selo sem saber o que ele realmente representa. Esta confusão pode gerar enganos. Um produto orgânico não é necessariamente ecológico e vice-versa. O que é fundamental é disernir o quanto se trata de uma jogada boa de marketing e o quanto realmente representa o que queremos do produto. Por exemplo, quando o consumo de um litro de combustível representa o plantio de uma árvore, o real equilíbrio entre carbono emitido e fixado é questionável. Temo, às vezes, que o ambiente, ou a questão ambiental, tenha se desgastado muito por causa disso e que tenha se tornado um elemento de consumo ao invés de efetivamente contribuir para a busca da sustentabilidade ambiental."
André Jasper, paleobotânico e pós-doutor

"O desenvolvimento sustentável tem três pilares - ambiental, social e econômico. Quando se escolhe um produto orgânico, é importante saber o que na agricultura orgânica, não se permitem substâncias que coloquem em risco a saúde humana e o meio ambiente e que se tem uma questão ambiental e social muito forte envolvida." 

Cátia Viviane Gonçalves

"Há muita movimentação pela redução de uso de plástico, mas se ignora o resto. Também se vê esse lance de marketing no Instagram, no Facebook, nas mídias sociais: não usem canudinho plástico porque entra nas vias aéreas das tartarugas. Muito bom que isso está diminuindo, mas é preciso a redução de tudo, do desperdício de água, o consumo em geral. Me pergunto como a gente pode usar o marketing para nos ajudar e onde ele nos atrapalha, como biólogos e seres habitando o planeta. Isso poderia ser utilizado de uma forma mais ampla, para muito mais assuntos."
Andrea Pozzobon, acadêmica de Ciências Biológicas

"Sustentabilidade está muito em voga. Mas é preciso pensar qual é a real na tua casa, no teu ambiente de trabalho. Isso deve ser mais cobrado das pessoas. É muito legal o marketing, a mídia, dizer que sou sustentável, que tenho preocupação ambiental, que me preocupo com a tartaruga, com o boi, com o leite, mas o que eu estou fazendo? Trago isso para meu trabalho, atuo com a área da estética. Temos toda a questão do descarte de resíduos, a confusão de lixo com resíduo e a gente acaba ficando na mesmice. Está cheio de #meio ambiente, todo mundo vai na onda, mas é uma cópia um do outro. Precisamos de pequenos atos. E de se pensar não no nosso umbigo, mas na sociedade em geral."

Odith Leão, mestre em Sistemas Ambientais Sustentáveis

"Quando fazemos nossas escolhas, tentamos abrir mão de muitas coisas. Algumas pessoas não querem ou não estão preparadas para isso. Por exemplo, na feira de agroecologia da Univates, há períodos em que não tem couve-flor, porque não é época. Então, não compro. O consumo infelizmente é ainda bem pouco consciente."

Miriam Helena Kronhardt

Sobrecarga da Terra

A data do esgotamento dos recursos naturais este ano foi em 29 de julho. Teoricamente, é o dia em que a relação entre o consumo e a capacidade de regeneração do planeta chegou no limite.

"Em 1970, esse dia caiu na metade de dezembro. Aumentou o número de habitantes, mas mudamos nossa relação de consumo. A forma como as famílias eram organizadas e como obtinham os alimentos era diferente. Talvez por isso esse dia tenha sido tão próximo do final do ano em 1970 e não agora. Precisamos pensar no que estamos consumindo, que impacto é esse. Dá para fazer diferente? Vai dar trabalho? Vai custar um pouco mais?"
Cátia Viviane Gonçalves

"Desde 2010, isso tem diminuído três dias a cada ano. Provavelmente, em 2020, a data caia em 26 de julho. Em 2030, se estima que seja 15 de março."
Marina Schmidt Dalzochio

"Calcular essa data pode dar uma falsa ilusão de que, a cada ano, começamos por "zerar a conta". As certificações devem ser compreendidas de forma correta e nós, como consumidores, devemos ter clareza do que indicam. Por exemplo, as categorias de consumo energético de eletrodomésticos indica a eficiência de consumo de cada produto em específico e não a origem da energia. Então, um produto que consome pouca energia pode estar utilizando energia de uma fonte não renovável. Assim, cabe a nós, consumidores, termos clareza em relação ao que representa cada certificação ou selo."

André Jasper

Atenção às generalizações

"Vou parar de comer carne, vou substituir a proteína por algo que vem lá do outro lado do mundo. É pior do que a vaca que está pastando por aqui. As generalizações são perigosas. E principalmente com a mídia em massa e rápida. Uma das coisas que perdemos, com a mídia de massa e imediatista, foi a liberdade de aplicar o bom senso. Ou se é 'destropata' ou 'canhotopata'. Ou vegano ou carnívoro. As soluções se apresentaram de forma generalista e homogênea - 'para salvar o mundo, é preciso parar de comer carne, é preciso parar de emitir carbono'. Em alguns casos, consumo local é mais eficiente que uma dieta vegana. Não existe uma 'receita de bolo' aplicável a todas as realidades globais. É necessário compreender que realidades locais e regionais devem ser respeitadas e que precisamos resgatar a possibilidade de divergir dos discursos e soluções extremas."

André Jasper

"É interessante pensar nisso. Se a galinha é criada perto, o impacto é diferente daquela que vem de uma grande multinacional, do outro lado do planeta. Estou ajudando a desmatar a Amazônia? Depende da minha forma de consumo. Se é uma cadeia de ciclo curto (ou circuitos curtos de comercialização) é provável que eu saiba onde está vindo o meu alimento e consigo fiscalizar se está sendo produzida de acordo com boas práticas de produção ambiental e assim minimizar meus impactos."

Cátia Viviane Gonçalves

"Para trabalhar comunidade local, tem de mudar as formas de consumo. Preferir produtos locais, plantado ou criado aqui, comprar direto do produtor. Dá e tem que ser."

Eduardo Perico, doutor em Ecologia

Não tem solução

Como paleontólogo, André Jasper acredita que se usa uma lógica mercantilista na questão ambiental, que se discute, mas não se apresenta a solução. "Na verdade, não tem. Uma possibilidade seria reduzir a população mundial. Mas isso não vai acontecer", observa. Entretanto, Jasper ressalta que o fato de não haver saída não pode ser usado como desculpa para não agir. Mesmo que os discursos ambientais acabem se tornando ilusórios. "Se a gente parar hoje de emitir carbono, não vai deter o aquecimento global. Se eu parar de consumir combustíveis fósseis, vai continuar esquentando."

Os processos não param. "Acredito que a gente vai efetivamente mudar quando se pensar que, mesmo que eu não derrube a Amazônia, vai haver extinções. Se ela vier ao chão, vai ser mais rápido, mais intenso", apontava o professor da Univates na metade de agosto, pouco antes da onda de queimadas e desmatamento na Região Norte tomar maiores proporções. Apesar das notícias não muito animadoras, Jasper destaca que as pessoas não podem deixar se levar pela frustração. "E aí começa a se perguntar: por que vou separar o lixo hoje se eu já fiz ontem? Na verdade, tenho que fazer isso para sempre. Não tem fim essa história."

"A questão é apressar o processo. Nas questões das alterações climáticas e mesmo da sexta extinção em massa, a gente sabe que, independentemente se a gente não fizesse nada ou estivesse aqui ou não, iria haver outra era glacial, outra era de calor, tudo isso iria acontecer naturalmente. Mas o problema é nossas atitudes tornarem tudo mais rápido."

Eduardo Perico

"Nossas lutas são muito minimalistas. Temos que pensar que, enquanto há um animal com sete bilhões de espécimes andando por aí, eu paro de crescer ou vai colapsar. Não tem como combater isso sem colidir com liberdades individuais, então não se tem essa possibilidade. Ou tu atacas as liberdades individuais, que para nós estão muito bem consolidadas, pelo menos no papel, ou não tem opção. Porque vai crescer cada vez mais, ser necessário produzir mais, com consumo maior. A gente fica teclando em coisas pequenas, que sempre são importantes, claro, mas que não resolvem."

Eduardo Perico

"Para resolver a questão da superpopulação, a gente está disposto a abrir mão de nossas liberdades individuais? Ou melhor, como decido que eu mereço me reproduzir e os chineses não? Evoluímos tanto na nossa concepção de sociedade que a gente sabe que não é por aí que vai se atacar o problema. E como faz então? Abolindo o canudinho. Resolve? Não, mas isso não justifica a sua utilização."

André Jasper

"Temos que manter essas nossas pequenas ações, como dispensar o canudinho. Começar aos poucos e, somando, a gente sensibiliza as pessoas para uma mudança maior. "

Cátia Viviane Gonçalves

"Se a gente mantiver esse discurso de que não vai adiantar, ninguém vai fazer mais nada. São pequenos atos, porque a questão é cultural, é educacional. É recusar o canudo, evitar a sacola plástica, são pequenas atitudes. Sei que faço a minha parte."

Odith Leão

"A proposta é orientar, compartilhar, passar a informação para as pessoas. A gente fala da mídia, que nos bombardeia com um monte de coisas, mas vamos começar a pinçar e compartilhar o que realmente tem fundamento. Cada um pode fazer um pouquinho."

Odith Leão

"Ensinar ética ambiental desde pequeno funciona. Fazer a criança entender que ela é tão importante quanto uma barata, uma bactéria, um bichinho. Compreender a relação dela no mundo. Para que considere o mundo como a casa dela."

Luís Carlos Scherer, biólogo



Profissionais e acadêmicos participam de ação no Museu de Ciências da Univates (Gigliola Casagrande)



Fonte: http://encurtador.com.br/oNPY7





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