ISSN 1678-0701
Número 69, Ano XVIII.
Setembro-Novembro/2019.
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No. 69 - 27/09/2019
A PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS DO 9° ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL II COMO INSTRUMENTO DE BASE PARA O DESENVOLVIMENTO DE UMA PROPOSTA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL  
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A PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS DO 9° ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL II COMO INSTRUMENTO DE BASE PARA O DESENVOLVIMENTO DE UMA PROPOSTA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL



Bruna Rafaella Freitas Pereira1, Julio Alejandro Navoni1,2, Cibele Soares Pontes¹,3 e Viviane Souza do Amaral1,4



¹Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA/UFRN). E-mail:brafaellafreitas@gmail.com. ²Diretoria Acadêmica de Recursos Naturais/IFRN. E-mail:navoni.julio@gmail.com. ³Escola Agrícola de Jundiaí/UFRN. E-mail: cibelepontes.ufrn@yahoo.com.br. ⁴Departamento de Biologia Celular e Genética/UFRN. E-mail: vi.mariga@gmail.com.



Resumo

A evolução do conhecimento humano tem provocado modificações nos valores e modos de vida da sociedade. Tais alterações acabaram por gerar inúmeros problemas ambientais. Em decorrência deste processo de degradação, a Educação Ambiental surge como resposta à preocupação da sociedade com o desenvolvimento sustentável, por meio da formação de uma atitude ecológica nas pessoas. Nesse sentido, o objetivo deste trabalho foi investigar e comparar a percepção ambiental de alunos do 9° ano do ensino fundamental II oriundos de duas escolas pertencentes da rede estadual de ensino do Rio Grande do Norte, tendo como diferencial, a localização destas Instituições, pois uma delas está situada em uma área com influência da atividade de mineração. Desta forma, este estudo de percepção avaliou o impacto deste tipo de atividade no cotidiano dos alunos que a vivenciam em relação aos estudantes que estão distantes desta realidade. Como instrumento de análise foi utilizado um questionário com 45 perguntas acerca dos seguintes aspectos: características sociodemográficas, percepção ambiental, determinantes de exposição e a vulnerabilidade socioeconômica foram avaliados. Os resultados permitiram uma comparação entre as escolas, de modo a se tornar possível a formulação de um diagnóstico do desempenho de cada uma em relação à percepção ambiental. Constatou-se que, em geral, os discentes do município de Santa Cruz têm pouco conhecimento sobre a mineração como uma atividade econômica. No entanto, designam a atividade como precursora de grandes impactos ambientais. Os discentes de Currais Novos associaram a importância da mineração de scheelita no município a um ciclo econômico de crescimento da cidade. Por consequência, atribuem que a atividade causa uma exploração desordenada do meio ambiente, o que reflete a sérios problemas socioambientais. Assim, a análise das percepções ambientais dos envolvidos evidenciou o processo de construção dos conhecimentos ambientais, com os quais os alunos percebem o impacto desse tipo de atividade para o meio ambiente, independentemente de estar inserido nesta realidade ou não.

Palavras-chave:Percepção ambiental; educação; mineração.



Abstract

The evolution of human knowledge has caused changes in the values ​​and lifestyle of society. These changes led to numerous environmental concerns. As a result of this process of degradation, Environmental Education emerges as a response to society's concern for sustainable development, through the formation of an ecological attitude in people. In this sense, the objective of this study was to investigate and compare the environmental perception of students from the 9th year of elementary education II, from two schools belonging to the state education network of Rio Grande do Norte, one of them located in an area influenced by mining activity. In this way, this perception study evaluated the impact of this type of activity in the daily life of students who experience it in relation to students who are far from this reality. As an instrument of analysis, a questionnaire with 45 questions about the following aspects was used: Sociodemographic characteristics, environmental perception, exposure determinants and socioeconomic vulnerability were assessed. The results allowed a comparison between the schools, in order to make it possible to formulate a diagnosis of the performance of each one in relation to the environmental perception. It was found that, in general, the students of the municipality of Santa Cruz have little knowledge about mining as an economic activity. However, they designate the activity as a precursor of major environmental impacts. The students of Currais Novos associated the importance of the mining of scheelite in the city to an economic cycle of growth of the city. Consequently, they attribute that the activity causes a disorderly exploitation of the environment, which reflects serious socio-environmental problems. Thus, the analysis of the environmental perceptions of the involved evidenced the process of construction of the environmental knowledge, with which the students perceive the impact of this type of activity to the environment, independently of being inserted in this reality or not.

Keywords: Environmental perception; education; mining.





1. INTRODUÇÃO

A evolução do conhecimento humano, principalmente nas ciências e tecnologias tem provocado modificações nos valores e modos de vida da sociedade (PALMA, 2005). O processo industrial, o crescimento das cidades, o aumento na utilização dos recursos naturais e a produção de resíduos, geraram profundas mudanças sociais, afetando principalmente a percepção do ambiente pelos indivíduos, que passaram a vê-lo como um objeto de uso para atender suas vontades, sem se preocupar em estabelecer limites e critérios apropriados. Tais fatores acabaram por gerar inúmeros problemas ambientais que podem afetar a qualidade de vida no planeta (SMILJANIC & JUNIOR, 2017).

Em decorrência deste processo de degradação, a Educação Ambiental surge como resposta à preocupação da sociedade com o desenvolvimento sustentável. Sua proposta principal é a de superar a divisão entre natureza e sociedade, por meio da formação de uma atitude ecológica nas pessoas (TRAVASSOS, 2004). Entretanto, para que a Educação Ambiental seja efetiva, torna-se imprescindível um levantamento inicial das diversas formas de percepção do ambiente no qual os indivíduos estão inseridos, a fim de se compreender a visão e a relação que cada um tem com o seu espaço (MARCATTO, 2007; BEZERRA; FELICIANO; ALVES, 2008).

A percepção sobre o meio ambiente tem sido objeto de diversas investigações que visam dar suporte às propostas de Educação Ambiental (CHAWLA, 2002; KAHN, 2002; TUAN, 1978). Por meio da avaliação da percepção ambiental pode-se compreender como os indivíduos com quem se pretende trabalhar percebem o ambiente em que vivem. Suas fontes de satisfação e insatisfação são de fundamental importância, pois só assim, conhecendo cada um, será possível estabelecer um diagnóstico inicial sobre a realidade do público alvo, norteando projetos a serem desenvolvidos (BERGMANN & PEDROZO, 2007). Nesse contexto, a utilização de questionários pode representar uma importante ferramenta para identificar as concepções, uma vez que possibilitam a expressão da opinião pessoal a respeito do tema abordado (SILVEIRA et al., 2013).

Assim, é importante ressaltar que para se dedicar em prol da melhoria do meio ambiente é necessário que haja transformações de valores, comportamentos, condutas e hábitos. É certo que essas mudanças devem começar pelo próprio indivíduo, pois assim será mais fácil absorver,por meio da adoção e da valorização de novos comportamentos, outros valores e estilos de vida mais adequados e capazes de reverter o processo de deterioração do meio ambiente e promover a todos uma melhor qualidade de vida (BEZERRA et al., 2008).

Desta maneira, o estudo da percepção ambiental é de fundamental importância para a compreensão das inter-relações entre o homem e o ambiente, uma vez que é possível identificar as formas precisas em que a educação ambiental poderá sensibilizar, conscientizar e contornar as dificuldades existentes, gerando discussões acerca das questões ambientais (FERNANDES, 2008). A tarefa da escola é proporcionar um ambiente saudável e coerente com o que é pretendido em relação à aprendizagem, contribuindo para a formação de cidadãos conscientes de suas responsabilidades e torná-los aptos a proteger, a refletir e a entender as consequências das alterações no meio ambiente, para que possam compreendê-las como produto da ação antrópica (BRASIL, 1997). Neste contexto, a escola representa um espaço ideal para o desenvolvimento do conhecimento, de valores, de atitudes e de atributos favoráveis ao meio, sendo a Educação Ambiental uma ferramenta fundamental para interagir neste processo (SILVA; LYRA; ALMEIDA-CORTEZ, 2003; DIAS, 2010).

De fato, se faz necessário e importante conhecer a percepção ambiental de estudantes, uma vez que precisam ser estimulados desde cedo a perceber como o universo funciona e como as leis da vida se manifestam (CAPRA, 2000). O que poderá ocorrer de forma prazerosa por meio de atividades regulares que podem ser desenvolvidas dentro da Educação Ambiental a fim de iniciar um processo educacional, que segundo BASSANI, 2001, envolve o desenvolvimento da cognição ambiental, em que as pessoas compreendem, estruturam e aprendem sobre o tema. Nesse sentido, o objetivo deste trabalho foi investigar e comparar a percepção ambiental de alunos do 9° ano do ensino fundamental II oriundos de duas escolas pertencentes da rede estadual de ensino do Rio Grande do Norte, tendo como diferencial, a localização destas Instituições, pois a Escola Estadual Instituto Vivaldo Pereira está situada em uma áreacom influência da atividade de mineração. Desta forma, este estudo de percepção poderá avaliar o impacto deste tipo de atividade no cotidiano dos alunos que a vivenciam em relação aos estudantes que estão distantes desta realidade.



2. METODOLOGIA

2.1 Caracterização da Área de Estudo

O estudo foi realizado nos municípios de Santa Cruz e Currais Novos, localizados respectivamente na mesorregião Agreste Potiguar e Leste Potiguar do estado do Rio Grande do Norte, no nordeste brasileiro (Figura 01). Segundo a última estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (2018), a cidade de Santa Cruz apresenta aproximadamente 39.355 habitantes, distribuídos entre as zonas urbana e rural e o município de Currais Novos apresenta aproximadamente 44.664 habitantes, onde se localiza a mina Brejuí, que é considerada a maior mina de scheelita da América do Sul. Suas atividades se iniciaram no ano de 1943, data da descoberta do minério (GERAB, 2014).



Figura 1. Localização da área de estudo.

O público alvo foi constituído por 86 alunos, onde 55 pertencem ao município de Santa Cruz (Escola Estadual Isabel Oscarlina Marques) e 31 ao município de Currais Novos (Escola Estadual Instituto Vivaldo Pereira). Para a obtenção dos dados, foram entrevistados alunos do ensino fundamental II (9° ano). A percepção de alunos foi estudada de acordo com perspectiva de Tuan (1980). De acordo com esse autor, existem consideráveis diferenças na maneira como as pessoas percebem o mundo, pois refletem necessariamente percepções individuais, podendo mudar de acordo com a idade, sexo ou estrutura social por exemplo.



2.2 Avaliação da Percepção Ambiental

Como instrumento de análise foi utilizado um questionário semiestruturado com 45 perguntas acerca dos seguintes aspectos: i) Características sociodemográficas: idade, sexo, e tempo de moradia; e características sociais e sanitárias: pratica de atividades físicas e consumo de alimentos; ii) Percepção ambiental: questões sobre conhecimento de danos ao meio ambiente que fossem prejudiciais à saúde, aspectos positivos e negativos da atividade mineradora e existência de contaminação natural e qualidade da água, ar e solo; iii) Determinantes de exposição: consideraram-se aspectos tais como manipulação de produtos químicos. Além disso, foi realizada uma análise de vulnerabilidade socioeconômica baseada na investigação das necessidades básicas insatisfeita (FERES; MANCERO, 2001), as quais foram definidas pela presença de uma ou mais das seguintes características infraestruturais ou de moradia: acesso a água potável, condições sanitárias adequadas e condições estruturais. A pesquisa foi realizada com a aprovação do Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (CAEE: 20368713.8.0000.5537de 2014). Todos os estudantes foram informados das circunstâncias da aplicação dos questionários e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido sobre a pesquisa requisitada pelo referido comitê de ética.



2.3 Análises Estatísticas

A abordagem quantitativa foi feita através da tabulação dos dados por meio de análise categorial. Os dados foram analisados por meio do programa SPSS Statistics versão 20 (StatisticalPackage for the Social Science).



3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

As características sociodemográficas incluídas nesse estudo foram direcionadas a compreender o contexto social em que estes estudantes estão inseridos para poder relacionar com as questões de saúde e ambiente. Ambas as escolas envolvidas na pesquisa são da rede pública de ensino do estado do Rio Grande do Norte, as quais apresentam um Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (IDEB) de 3,4 para o ensino fundamental II, anos finais (INEP, 2017). Além disso, para compreender a grau de semelhança entre os grupos comparados, informações relacionadas às condições de moradia e de convívio foram consultadas. Nos resultados, o número de pessoas que moravam por casa foi comparável entre as localidades. Já o acesso a água por meio de sistema de distribuição (89,1% vs 80,6%) e condições sanitárias (94,5% vs 100%) foi levemente diferente para Santa Cruz e Currais Novos, respectivamente. A população estudada apresentou uma faixa etária entre 14 a 18 anos de idade. Em relação ao sexo a amostra foi homogênea sendo 50% dos entrevistados homens e 50% mulheres. No que se refere ao grupo étnico, os participantes foram majoritariamente autodeclarados brancos (60,7% dos casos), sendo predominantemente pessoas oriundas das localidades inclusas neste estudo. No que se refere ao tempo de moradia, os participantes reportaram morar nessas cidades há mais de 5 anos.

A compreensão e a percepção dos estu­dantes para lidar com as questões ambientais foram abordadas de várias maneiras. A primeira abordagem da percepção ambiental esteve atrelada a informações sobre costumes e hábitos de cuidado pessoal, tais como a frequência de realização de atividades físicas e padrões alimentares. Em linhas gerais, os participantes reportaram dominantementea pratica de atividades físicas (61,6%) e percebem riscos vinculados com uma má alimentação, como também, a transmissão de doenças por consumo de alimentos em condições impróprias de higienização. Além disso, foi consultado sobre a composição dos alimentos consumidos, e em sua totalidade mostraram-se preocupados em manter hábitos alimentares saudáveis, como por exemplo, a necessidade de manter uma dieta equilibrada. Estas respostas enfatizam a importância da escola na formação e orientação de práticas saudáveis. De fato, o espaço escolar se caracteriza como um local propício para o desenvolvimento de ações de promoção à alimentação saudável, visto que representa um ambiente de relações e construção de conhecimento (SCHIMITZ et al.; 2008; BRASIL, 2009).

O segundo tópico esteve destinado a analisar a percepção dos alunos acerca do ambiente onde eles residem. Quando questionados sobre a preocupação com o ambiente, os 86 participantes responderam ter interesse na preservação ambiental. Já quando consultados pela qualidade ambiental do local de moradia, só metade dos alunos considerou viver em um ambiente saudável. Entretanto, quando se compara as respostas dos adolescentes de Currais Novos e de Santa Cruz é possível observar as diferenças de percepções. Mais de dois terços dos entrevistados que moram em Currais Novos declararam viver em um ambiente saudável, enquanto que a maioria dos moradores da cidade de Santa Cruz, respondeu negativamente a esta questão. Este fato é evidenciado na Tabela 1 que destaca os aspectos negativos mencionados pelos alunos de cada município.

Tabela 1. Características do ambiente não saudável.

Aspectos negativos

Santa Cruz (%)

Currais Novos (%)

Tem muito lixo na rua

14,5

6,5

Falta saneamento básico

3,6

3,2

O ar é muito poluído

9,1

12,9

A água não tem boa qualidade

9,1

0,0

% total de respostas

36,3

22,6



Quando a pergunta é reformulada, em relação às principais causas descritas, as respostas foram semelhantes entre as localidades, vinculando problemas que relacionam as fumaças liberadas pelas fábricas, pelo acúmulo de lixo nas ruas e pelo destino incorreto do esgoto como os mais relevantes (20% em Santa Cruz vs 22,6% em Currais Novos) conforme está descrito na Tabela 2.

Tabela 2. Percepção de danos ao meio ambiente.

Causas descritas

Santa Cruz (%)

Currais Novos (%)

Lixo nas ruas

10,9

3,2

Desmatamento

7,3

12,9

Erosão

5,5

9,7

Esgoto a céu aberto

5,5

6,5

Excesso de fumaça liberada pelas fábricas

3,6

12,9

% total de respostas

32,8

45,2



Uma abordagem sobre a qualidade ambiental e os distintos compartimentos ambientais foi avaliada em prol de entender diretamente a percepção dos participantes, agora evitando “potencialidades” associadas, e sim orientando a descrição de problemáticas de poluição e/ou contaminação utilizando a percepção sensorial dos alunos. Para tal objetivo, foram formuladas perguntas sobre a qualidade do ar, água e o solo. Considerando a população total entrevistada, 48% indicou uma boa qualidade do ar. No entanto, quando comparado por localidade, houve uma diferença de mais do 10% dependendo do local considerado, 40% para Santa Cruz e 54% para Currais Novos. Dentre as fontes poluidoras consideradas, as proporções variaram. Por exemplo, enquanto as atividades industriais foram as mais representativas como fontes poluidoras do ar para os Santa Cruzenses, os incêndios foram apontados como as principais causas de deterioração da qualidade do ar na cidade de Currais Novos (tabela 3).

Tabela 3. Fontes poluidoras do ar descritas pela população estudada.

Fontes de Poluição/Contaminação

Santa Cruz (%)

Currais Novos (%)

Indústrias

49

22,6

Veículos automotores

45,5

0,0

Incêndios

5,5

77,4

% total de respostas

100

100



Em relação à qualidade da água, foi consultado sobre o tipo de água consumida. Cerca de 53% do total dos alunos entrevistados indicou consumir água engarrafada, sendo um padrão similar para ambas localidades estudadas. Consultando a qualidade da água engarrafada comparada a da torneira, quase 100% dos entrevistados indicaram ser de melhor qualidade. Como evidenciado por Santos et al. (2008),geralmente o conhecimento e o saber popular sobre qualidade de água estão intimamente relacionados com a aparência e a cor que ela apresenta. Quando consultado o porquê da escolha do tipo de água consumida, entre os diversos tipos de possibilidades, uma proporção maior de entrevistados em Santa Cruz, indicou nas suas respostas que o não uso de água engarrafada vinha atrelada a problemas de tipo econômico, de acesso ao produto, mais do que a uma escolha pessoal como se pode observar na tabela 4.

Tabela 4. Motivos pela escolha do tipo de água utilizada.

Motivo

Santa Cruz (%)

Currais Novos (%)

É melhor

7,3

54,8

É mais barata

20,0

45,2

É livre de contaminantes

27,3

0,0

% total de respostas

100

100



Diante destes resultados podemos observar que, mesmo que as escolas inclusas neste estudo foram comparáveis em termos sociodemográficos, a escolha da água engarrafada como fonte principal de consumo em Currais Novos vem atrelado a costumes mais arraigados e relacionados a hábitos saudáveis em regiões mais desenvolvidas. Além disso, se considerarmos que a maioria dos entrevistados consomem ou consumiriam água engarrafada, este fato indica uma percepção de algum tipo de risco sanitário associado a qualidade da água, que pressupõe a compreensão de que a água engarrafada seria um produto mais saudável. No entanto quando questionados sobre se a água consumida era boa para a sua saúde, aproximadamente 10% dos entrevistados na cidade de Currais Novos e 25% dos entrevistados em Santa Cruz responderam negativamente. Essa observação indica que por um lado, que uma parte da população mais consumidora de água engarrafada considera de má qualidade a água consumida, mesmo que uma elevada proporção dos entrevistados em Santa Cruz acreditar na qualidade da água. Isso deixa ver a percepção diferencial dos riscos como representação integral do coletivo imaginário em relação a problemáticas de origem ambiental.

Em estudo realizado por Amaral et al. (2003) em propriedades rurais no estado de São Paulo, observou-se que 100% dos entrevistados consideravam a água das propriedades de boa qualidade, porém elevadas porcentagens das fontes de água utilizadas por eles estavam fora dos padrões microbiológicos de potabilidade para águas de consumo humano. Este estudo demonstra que muitas vezes a percepção dos usuários sobre a qualidade de água que consomem difere da real qualidade desta água, podendo então representar um fator de risco considerável na ocorrência de enfermidades de veiculação hídrica.

Quando perguntados sobre as fontes de poluição/contaminação da água, as respostas vincularam-se principalmente ao lixo industrial e ao lixo doméstico. Contudo, para o caso da cidade de Currais Novos, o aporte do lixo industrial representou mais de dois terços, indicando uma percepção significativa desta atividade na qualidade hídrica regional. Da mesma forma, quando consultados sobre o destino do lixo doméstico, os moradores de Santa Cruz apresentaram um conhecimento menos apurado do que os moradores de Currais Novos (29,1% vs 58,1, respectivamente). Além disso, a maioria dos alunos das duas cidades mencionou acreditar que a responsabilidade da qualidade hídrica é uma questão cidadã, e que uma consciência ativa sobre a problemática contribui com a preservação e qualidade dos recursos hídricos. Apesar disso, menos de 20 % dos entrevistados descreveu conhecer sobre as políticas aplicadas à regulamentação da qualidade hídrica. De fato, a diminuição da qualidade da água é um grave problema que precisa ser enfrentado. Os esgotos e os excrementos humanos são causas importantes da deteriorização da qualidade da água em países em desenvolvimento (SELBORNE, 2001).

Em relação à qualidade do solo, 78,2% dos entrevistados em Santa Cruz indicou que o solo pode acarretar problemas sanitários. Já em Currais Novos, a proporção de alunos que concorda com essa questão foi menor (38,7%). Dentre as problemáticas ambientais que podem levar a contaminação do solo, destacam-se o lixo e o esgoto. Estes agentes contaminantes foram mencionados por dois terços dos alunos entrevistados em ambas escolas. Segundo Deboni e colaboradores (2015) faz-se necessário um maior engajamento dos órgãos públicos para que se conscientize a população da importância do saneamento básico na qualidade de vida.

Afim de trabalhar a questão ambiental na problemática de atividades industriais, foram realizadas perguntas sobre a atividade mineradora aos estudantes. Na cidade de Santa Cruz 69,1% dos entrevistados indicaram que a mineração é a extração de minerais, já em Currais Novos 45,2% julgam ser uma atividade econômica (tabela 5). Fato esse que pode ser atribuído pela grande quantidade de mineradoras na cidade de Currais Novos, o que trouxe para a cidade um grande desenvolvimento econômico e social na década de 50.

Tabela 5. Definição de Mineração.

O que é mineração?

Santa Cruz (%)

Currais Novos (%)

Uma atividade econômica

18,2

45,2

Extração de minerais

69,1

22,6

Explorar o meio ambiente

12,7

16,1

% total de respostas

100

83,9



Foi solicitado aos discentes que listassem palavras que representassem os aspectos negativos e positivos da mineração para o homem, afim de mensurar a percepção dos mesmos. Entre os impactos negativos os mais representativos foram a degradação do ambiente, a exploração desordenada e doenças na população; já nos positivos foram listados economia para a cidade, geração de emprego e renda e a diversidade de produtos advindos da mineração (tabela 6).

Tabela 6. Aspectos negativos e positivos da mineração.

Aspectos Negativos

Santa Cruz (%)

Currais Novos (%)

Degradação do meio ambiente

14,5

19,4

Exploração desordenada

56,4

9,7

Doenças na população

0,0

35,5

Aspectos Positivos



Economia para a cidade

52,7

51,6

Geração de emprego e renda

3,6

16,1

Diversidade de produtos

32,7

12,9



Entendemos que, a abordagem crítica de questões ambientais, como a atividade mineradora, nos leva ao desenvolvimento de habilidades, compreensões, mudanças de atitudes, valores e comportamentos, os quais são adquiridos pela reinterpretação e transformação de conteúdo que explorem o universo social de forma esclarecedora.

Estes resultados permitem uma comparação entre as escolas, de modo a se tornar possível a formulação de um diagnóstico do desempenho de cada uma em relação à percepção ambiental. Na cidade de Santa Cruz foi observado que os discentes são mais sensíveis às questões ambientais, fator esse que pode ser explicado por sua maioria residirem na zona rural do município. As áreas rurais são agrupamentos de populações, considerados a partir de um conjunto de edificações, com 50 metros ou menos de distância entre si e com características de permanência, situado em área legalmente definida como rural (IBGE, 2010). Em geral, os moradores de áreas rurais possuem um contato com os ambientes não construídos maior que os de áreas urbanas, em função de que seu dia a dia está geralmente ligado a este lugar, além de ser notável a menor urbanização.

Leff (2005), ao discutir sobre a problemática ambiental identificada em situações de ensino-aprendizagem, faz a dissociação do contexto socioeconômico e cultural, isto é, da realidade na qual estão inseridos os alunos. Isto dificultaria a percepção e compreensão dos mesmos em razão da complexidade do meio em que vivem, sendo, portanto, uma possível explicação das razões pelas quais alguns alunos não identificaram os problemas ambientais diretamente. Nesse sentido, Miranda (2008) destaca que os jovens constituem o público alvo mais promissor no processo de Percepção Ambiental, pois sua consciência ambiental pode ser internalizada de maneira mais bem sucedida do que em adultos já formados e com comportamentos enraizados. Além de representarem as gerações futuras, eles também são multiplicadores eficazes na ação de estimular a análise crítica das questões ambientais e sociais na comunidade.



4. CONCLUSÃO

Baseado no que foi exposto, constatou-se que, em geral, os discentes do município de Santa Cruz têm pouco conhecimento sobre a mineração como uma atividade econômica. No entanto, designam a atividade como precursora de grandes impactos ambientais. Os discentes de Currais Novos associam a importância da mineração de scheelita no município a um ciclo econômico de crescimento da cidade. Por consequência, atribuem que a atividade causa uma exploração desordenada do meio ambiente, o que reflete a sérios problemas socioambientais.

Assim, a análise das percepções ambientais dos envolvidos evidenciou o processo de construção dos conhecimentos ambientais, com os quais os alunos percebem o impacto desse tipo de atividade para o meio ambiente, independentemente de estar inserido nesta realidade ou não.

Estes resultados mostram as diferentes formas de perceber as ações sobre o ambiente em que cada indivíduo vive. A percepção ambiental é um assunto que deve ser abordado continuamente pelos diversos setores da sociedade, e a Escola é apenas um dos locais em que essa temática dever ser trabalhada de forma a despertar o senso crítico das crianças e jovens de maneira a sensibilizá-los às práticas de conservação e respeito ao espaço coletivo em que vivem, conscientizando que dependemos do ambiente para nossa sobrevivência.

Desta forma, é necessário que as instituições de ensino se preocupem de maneira real para os grandes problemas que atingem cada vez mais o homem e que são ameaça iminente para as futuras gerações, que precisam ser despertadas para as sérias questões ambientais. Diante dessas considerações a realização desta pesquisa permitiu conhecer e caracterizar a percepção de meio ambiente dos estudantes das duas escolas participantes, que poderá ser de fundamental importância para o sucesso de futuras ações de educação ambiental.



5. REFERÊNCIAS



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