ISSN 1678-0701
Número 69, Ano XVIII.
Setembro-Novembro/2019.
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Relatos de Experiências

No. 69 - 27/09/2019
O ENSINO DE MATEMÁTICA E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COM O USO DE DADOS DE DESMATAMENTO E DE QUEIMADAS NA AMAZÔNIA BRASILEIRA  
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O ENSINO DE MATEMÁTICA E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COM O USO DE DADOS DE DESMATAMENTO E DE QUEIMADAS NA AMAZÔNIA BRASILEIRA

Rodolfo Maduro Almeida1, Maria Mirtes Cortinhas dos Santos1 e Sandro Aléssio Vidal de Souza

1Grupo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Educação Ambiental, Instituto de Ciências da Educação, Universidade Federal do Oeste do Pará

Resumo: Apresentamos o uso de dados de desmatamento e de queimadas na Amazônia Brasileira como questão ambiental no ensino de matemática. Partindo de uma breve discussão sobre a importância do monitoramento de intervenções antrópicas na Amazônia, os dados de monitoramento do desmatamento, do Programa de Monitoramento do Desmatamento da Amazônia Brasileira (PRODES), e os dados de monitoramento de queimadas, do Banco de Dados de Queimadas (BDQUEIMADAS), ambos produzidos e difundidos gratuitamente pela internet pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), são apresentados como fonte de informação para o desenvolvimento de atividades relacionadas com conteúdos de matemática. Para o desenvolvimento destas atividades, a planilha eletrônica é apresentada como uma ferramenta essencial para a organização, síntese e análise dos dados. Incialmente, os dados de desmatamento e queimadas são adquiridos e organizados em planilha eletrônica. Em seguida, gráficos e tabelas são produzidos para representar informações importantes para a análise e discussão do desmatamento e das queimadas. Por fim, atividades que contextualizam conteúdos de matemática com as tabelas e gráficos são apresentadas e discutidas. Os conteúdos abordados abrangem os conceitos de razão e proporção, grandezas e variações, e análise e interpretação de gráficos.

Palavras-chaves: ensino de matemática, educação ambiental, desmatamento, queimadas, sensoriamento remoto, planilha eletrônica.

Abstract

This article aims to explore deforestation and vegetation fires in the Brazilian Amazon as an environmental issue in mathematics teaching. Starting from a brief discussion about the importance of monitoring anthropogenic interventions in the Amazon Rainforest, deforestation data from Brazilian Amazon Deforestation Monitoring Program (PRODES), and vegetation fires data from the Brazilian Vegetation Fire Database (BDQUEIMADAS), produced and freely distributed by National Institute of Space Research (INPE), are presented as a main source of information for the development of activities related to mathematic teaching. During the development of these activities, the spreadsheet is presented as an essential tool for the organization, synthesis and analysis of these data. Initially, the deforestation and vegetation fires data are acquired and organized in spreadsheet. Then graphs and tables are produced to represent relevant information for the analysis and discussion of deforestation and vegetation fires in the Amazon Rainforest. Finally, activities that contextualize math curriculum contents with tables and graphs are presented and discussed. The mathematics content includes ratio and proportion, absolute and relative changes, and analysis and interpretation of graphs.

Keywords: mathematics teaching, environmental education, deforestation, vegetation fires, remote sensing, spreadsheet.

1. Introdução

Atualmente, os problemas ambientais que emergem como fruto da ação do homem sobre a natureza, tem gerado discussões nas distintas camadas da sociedade, colocando em pauta as práticas que o homem deve seguir para buscar uma boa relação com a natureza. No Brasil, a política nacional específica para a Educação Ambiental, instituída pela lei 9.795, de 27 de abril de 1999 (BRASIL, 1999), constituiu um marco de grande conquista, que enseja aos homens um compromisso para a busca da qualidade do meio ambiente. Conforme o artigo 1°, a educação ambiental é definida como “os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade”. O artigo 2° estipula que a “a educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não formal”. É importante asseverar que a educação ambiental deve ser desenvolvida sob a ótica da transversalidade, deve ser contínua, permanente em todos os níveis e modalidades do ensino formal, não devendo ser implantada como disciplina específica, segundo o artigo 10, da lei em questão.

Ressalta-se que há desafios para se trabalhar a educação ambiental no ensino formal ao se abordar questões ambientais dentro dos conteúdos escolares. Isto se deve principalmente tanto à falta de incentivo quanto a de formação adequada para que o professor paute suas aulas nessa temática, deixando o aluno à parte no debate acerca das questões que envolvam o meio ambiente. A educação ambiental como tema transversal no ensino formal busca abordar as questões ambientais dentro dos conteúdos escolares, visando preparar os educandos para uma visão crítica e holística da relação do homem com a natureza, pautada na conservação, na preservação e na adequada administração dos recursos naturais.

O tema central deste trabalho é abordar o meio ambiente como tema transversal no ensino de matemática. Este entrelaçamento é desafiante, pois a linguagem matemática é aplicada dentro um contexto reflexivo e crítico da realidade, visando fundamentar discussões a partir de um viés puramente quantitativo, contribuindo para a análise e validação de informações e para a compreensão da relação entre causa e efeito, permitindo uma reflexão de problemas que envolvem o meio ambiente. Este trabalho tem como objetivo abordar o desmatamento e as queimadas na Amazônia Brasileira como questão ambiental no ensino de matemática.

Este texto é estruturado conforme descrito a seguir. A seção 2 discute as intervenções antrópicas na Amazônia Brasileira e as recentes iniciativas para o seu monitoramento. A seção 3 discute a importância de se abordar o desmatamento e as queimadas na Amazônia como temática ambiental no ensino de matemática. A seção 4 apresenta os procedimentos metodológicos deste trabalho. A seção 5 apresenta os resultados e as discussões. E por fim, na última seção são apresentadas as conclusões.

2. As intervenções antrópicas na Amazônia Brasileira e as recentes iniciativas para o seu monitoramento

A Região Amazônica, ou Pan Amazônia é composta por nove países: o Brasil, a Venezuela, o Peru, a Bolívia, a Colômbia, o Equador, a Guiana, a Guiana Francesa, o Suriname e, conforme Meirelles Filho (2006, p. 33), corresponde às áreas drenadas pelas bacias dos rios Amazonas, Araguaia-Tocantins, Orenoco, Essequibo e outros menores; e de maneira geral, esta região, é considerada a área da América do Sul coberta predominantemente por florestas tropicais. A dimensão territorial da região é de aproximadamente 7,0 milhões de km2 e ocupa 50% da América do Sul. A Amazônia Brasileira abriga 60% de toda a área da Região Amazônica e ocupa cerca de 50% do território brasileiro, se estendendo pelos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e partes do Tocantins, Maranhão e Goiás.

As questões ambientais da realidade amazônica estão intimamente relacionadas com a ação humana sobre a floresta. Não se pode imaginar a preservação da Amazônia como uma floresta intocada e sem a presença do homem. Estudos mostram que na Amazônia existem regiões com longo histórico de convivência do homem, com a ação humana sobre a floresta se fazendo presente há milhares de anos (Clement et al., 2015). Antes da chegada dos europeus, a Amazônia já era povoada por milhões de pessoas (Lui et al., 2009). Estes habitantes praticavam um modo de vida equilibrado com o meio ambiente. Após a chegada dos europeus, grande parte destes povos foi dizimada, e passaram a exercer um forte domínio sobre os povos remanescentes, visando garantir a posse deste território, com intuito de se retirar dele as riquezas de interesse que lá existiam. Na contemporaneidade, do Brasil República e até os dias de hoje, há o predomínio das intervenções antrópicas induzidas pelos agentes privados, seguindo a lógica da economia capitalista, prioritariamente em função da realização ou descoberta de alguma atividade com potencial de lucro ou de interesse da economia, com predominância majoritária da expansão do agronegócio, dos empreendimentos energéticos, dos projetos de colonização, e da mineração como principais atividades (Lui et al., 2009).

Muitos problemas ambientais emergem na Amazônia dentro do atual cenário de intervenção antrópica, como podemos destacar o desmatamento, as queimadas, a garimpagem, caça e pesca ilegais, garimpagem, etc. Aqui, vamos nos ater a discutir sobre o desmatamento e as queimadas, que são as temáticas ambientais abordadas neste trabalho. O termo desmatamento se refere à eliminação total ou gradativa/parcial da cobertura florestal. O homem é o principal agente que realiza o desmatamento na Amazônia. O desmatamento ocorre quando o homem decide que a floresta em si não possui valor e a remove completamente. O desmatamento na Amazônia está relacionado principalmente à expansão da fronteira agrícola e à pecuária (Fearnside, 1991). O termo “queimada” se refere a uma prática primitiva realizada pelo homem, amplamente inserida no processo produtivo de pequenos agricultores da região amazônica (Moran, 1990), que envolve o uso do fogo na limpeza da terra para preparação de cultivo (a chamada agricultura de corte e queima) ou para formação de pasto. A queimada envolve o uso do fogo de maneira controlada, e quando foge do controle, ocorrem incêndios que podem consumir extensas áreas.

É importante frisar que a Amazônia Brasileira possui uma área de aproximadamente 5 milhões de km2, e que ainda existem muitos locais isolados, sem a presença efetiva do estado, onde o custo para se instalar bases de fiscalização e acompanhamento in loco das intervenções é elevadíssimo. Ressalta-se ante a essa realidade que o Governo Brasileiro tem investido fortemente no uso do sensoriamento remoto, o qual tem se mostrado uma ferramenta eficaz, e de suma importância, para o monitoramento do desmatamento e das queimadas. Com a utilização de imagens de satélite, o monitoramento pode ser realizado de maneira contínua e sistemática, e dentre as iniciativas com este propósito, destacamos: o Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (INPE, 2018a), que tem como objetivo monitorar o desmatamento na Amazônia Brasileira; e o Programa Queimadas (INPE, 2018b), que tem como objetivo monitorar os incêndios de vegetação no território brasileiro, e demais países da América, África e Europa. Estes projetos são mais detalhados a seguir.

O Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (PRODES) realiza anualmente, desde 1998, o mapeamento sistemático e contínuo do desmatamento por corte raso na Amazônia Brasileira, e obtém o cálculo das taxas anuais de desmatamento, uma informação muito importante para planejamento de ações de combate ao desmatamento e de políticas públicas sobre a região (INPE, 2018a). O PRODES é coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.

A cada ano, um acervo de imagens de satélite que cobre toda a Amazônia Brasileira é estruturado, contendo imagens do referido ano, onde as imagens selecionadas possuem a mínima cobertura de nuvens, visando contornar um problema que é muito comum na região amazônica. O histórico de imagens utilizadas pelo PRODES incluem as imagens dos satélites das séries Landsat (Agência Espacial Norte Americana / Serviço Geológico Norte Americano), da série CBERS (Programa sino-brasileiro de sensoriamento remoto), da série Resourcesat (Programa Indiano de Satélites de Observação da Terra). A Figura 1 mostra a localização da Amazônia Brasileira e o total de 229 cenas individuais do satélite Landsat (Grade Landsat) que cobrem toda a região.

O mapeamento do desmatamento vem sendo realizado pelo PRODES desde 1988. De 1998 a 2002 o mapeamento era analógico, chamado PRODES Analógico, sendo realizado por interpretação visual das imagens e o uso de mesa digitalizadora. A partir de 2003 o mapeamento se tornou digital, chamado PRODES Digital, sendo realizado com o uso de computador. Para a identificação e mapeamento das áreas de corte raso, técnicas de processamento digital de imagens de sensoriamento remoto são aplicadas sobre o acervo (Câmara et al., 2006). Quando esta tarefa é concluída, as áreas desmatadas mapeadas são incluídas a um banco de dados com os mapeamentos realizados nos anos anteriores. Os resultados de cada mapeamento anual são apresentados inicialmente em dezembro de cada ano, e consolidados no semestre seguinte. A metodologia empregada permite o mapeamento área mínima desmatada mapeada de 6,25 hectares. A interface da página do PRODES Digital é mostrada na Figura 2.

Figura 1 - Mapa de localização da Amazônia Brasileira, identificação os estados e as cenas individuais (imagens) do satélite Landsat que cobrem a região.

A página do PRODES Digital (INPE, 2018c) disponibiliza os dados sobre o desmatamento mapeado tanto em cenas individuais quanto mosaicos estaduais ou para toda a Amazônia Brasileira. Além dos dados de mapeamento, também é disponibilizado informações agregadas por município ou por unidades de conservação, em formato de tabelas. A Figura 3 apresenta um mapa do desmatamento para o ano de 2014 na Amazônia Brasileira, produzido a partir de dados de desmatamento obtidos pela página do PRODES Digital.

Figura 2 - Interface da página do PRODES Digital, que disponibiliza dados geográficos das cenas (imagens) individuais ou mosaicos estaduais e também dados agregados por município ou por unidades de conservação.