ISSN 1678-0701
Número 69, Ano XVIII.
Setembro-Novembro/2019.
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No. 69 - 27/09/2019
PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AMBIENTES NÃO FORMAIS DE EDUCAÇÃO: UM DESAFIO NO GERENCIAMENTO DOS RECURSOS HÍDRICOS  
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PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AMBIENTES NÃO FORMAIS DE EDUCAÇÃO: UM DESAFIO NO GERENCIAMENTO DOS RECURSOS HÍDRICOS



Rhuann Carlo Viero Taques1, Adriana Massaê Kataoka2, Stephany Caroline de Souza Martins3, Drielle Strugal4



1 Graduando em Ciências Biológicas, Departamento de Ciências Biológicas, Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), rhuanntaques@gmail.com

2 Doutora em Educação Ambiental, Professora do Departamento de Ciências Biológicas, Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), dri.kataoka@hotmail.com

3 Graduanda em Ciências Biológicas Departamento de Ciências Biológicas, Universidade Estadual do Centro-Oeste, stephany0789.sc@gmail.com

4 Mestre em Educação Ambiental, Professora do Departamento de Ciências Biológicas, Faculdade Guairacá, dristrugal@hotmail.com





Resumo: As práticas de Educação Ambiental em espaços não formais de educação são capazes de aproximar indivíduos de causas socioambientais. Neste sentido, o presente estudo objetivou por meio de um relato crítico, apresentar uma intervenção socioeducativa realizada pela Prefeitura Municipal de Guarapuava por meio da Secretaria Municipal do Meio Ambiente no Dia Mundial da Água. Esta ação tinha principal fim de sensibilizar a comunidade para com temáticas ambientais relacionadas aos recursos hídricos de modo com que suas atividades foram discutidas neste artigo tendo como base os princípios da Educação Ambiental crítica, que visam a transformação da relação sociedade/natureza por meio da transformação social.



Palavras-chave: Água; Sociedade; Comunidade; Reaproveitamento; Intervenção.



Abstract: Environmental Education practices in non-formal education spaces are able to bring individuals closer to social and environmental causes. In this sense, the present study aimed, through a critical report, to present a socio-educational intervention carried out by the Guarapuava City Hall through the Municipal Environment Secretariat on World Water Day. This action had the main purpose of sensitizing the community to environmental issues related to water resources so that their activities were discussed in this article based on the principles of Critical Environmental Education, which aim at the transformation of the society / nature relationship through the transformation Social.



Keywords: Water; Society; Community; Reuse; Intervention.



Introdução



Desde a transição de métodos e processos de manufatura ocorridos durante a revolução industrial no século XVIII, o mundo moderno vem passando por múltiplas transformações que têm resultado na participação de diversos atores sociais em debates e reflexões sobre temáticas ambientais (KATAOKA et al., 2017). Dentre estas alterações, se destacam problemáticas de ordens socioambientais que podem contar com possibilidades relacionadas a Educação Ambiental (EA) para seu enfrentamento.

Dentro da amplitude temática abordada pela EA estão inclusos os recursos hídricos, essenciais para sobrevivência das espécies e desenvolvimento das sociedades humanas. Discussões acerca da quantidade de água disponível no Planeta Terra tem ganhado espaço desde o início do século XX, visto que este recurso, mesmo que inesgotável, é passível de perda de qualidade tornando-se inapto para consumo humano.

Como o Dia Mundial da Água está relacionado diretamente com temáticas ambientais, considerou-se que seria uma ótima oportunidade para mobilizar a comunidade para a reflexão. Assim, o Departamento de Educação Ambiental da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Guarapuava organizou uma série de atividades neste dia. Ressalta-se que este departamento objetiva aproximar a comunidade do Município de temáticas socioambientais e culturais, de modo a envolver diferentes áreas do conhecimento, realizando diversas ações durante todo o ano.

Desta forma, este artigo busca relatar e discutir a experiência de uma intervenção intitulada “Dia mundial da água: multi e interrelações” que foi criada como alternativa metodológica para um processo educativo ambiental nas conjunturas sociais do município.

A educação para o conhecimento e gestão crítica das águas se faz necessária pelo fato de que sem esta torna-se impossível enfrentar a fragmentação do conhecimento socioambiental que predomina na educação tradicional escolar, de forma com que as problemáticas regionais não são analisadas e arguidas de forma efetiva.

Definido o papel desta intervenção delineia-se uma EA crítica, interdisciplinar, emancipatória e transformadora para a construção dialética individual e coletiva de sujeitos capazes de resolver problemas ambientais por meio de processos de ação-reflexão-ação.

Inicialmente, neste artigo, serão explanados aspectos gerais relacionados aos recursos hídricos, e posteriormente serão discutidos aspectos que sustentam a EA enquanto campo do conhecimento que objetiva a reflexão acerca da dialética relação entre sociedade e natureza. Por fim, este estudo apresentará as atividades aplicadas na intervenção durante o Dia Mundial da Água no Município de Guarapuava/PR.



Uma reflexão acerca da problemática da água



A água enquanto recurso natural, além de ser fundamental para manutenção da vida no Planeta Terra é um elemento de grande importância para sustentação de diversas atividades econômicas que induzem as sociedades humanas ao desenvolvimento social (MACHADO, 2003). Dados relatados por Ribeiro e Rolim (2017) destacam que cerca de 75% da superfície do nosso planeta é revestida por este elemento, sendo que destes, 97,5% representam águas oceânicas. Aproximadamente 2,4% das águas continentais estão restritas a geleiras e a regiões subterrâneas, de modo com que apenas 0,007% da água doce está disponível para utilização humana (SHIKLOMANOV, 1998).

A crise hídrica, termo tão assistido ultimamente, é fruto de processos de apropriação e dominação humana sobre ecossistemas aquáticos a partir do desenvolvimento capitalista caracterizado pela extrema compartimentalização social, cultural e ambiental (BACCI e PATACA, 2008).

A Assembleia Geral das Nações Unidas por meio da resolução A/RES/64/292, assegura água potável um direito humano legal. Em face disto, a Organização das Nações Unidas (ONU, 2019) demonstrou que quase 900 milhões de pessoas no “Planeta Água” não possuem acesso a este recurso. Além disto, 40% da população mundial, cerca de 2,6 mil milhões de indivíduos sequer possuem serviços relacionados a saneamento básico (ONU, 2019).

No Brasil, esta situação não é diferente. Fatores como rápido crescimento demográfico, eficiente desenvolvimento industrial, desigualdades sociais, má gestão de efluentes domésticos, superexploração de mananciais, desflorestamento de matas ciliares e utilização inadequada da água na indústria agrícola, comprometem diretamente a disponibilidade deste recurso em nosso país (IBGE, 2002).

O governo brasileiro que até então dispunha da água como recurso infinito dominado pela supremacia capitalista da geração de energia em detrimento do serviço público (MACHADO, 2003), somente após a Eco 92 no Rio de Janeiro é que colocou em prática instrumentos de caráter normativo para consolidação dos processos de gerenciamento ambiental hídrico (MACHADO, 2003).

Neste sentido, preconiza a Lei Federal n° 9.433/97 no estabelecimento de diretrizes para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e da estruturação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH) com objetivo de descentralização e consequente sistematização democrática da Gestão – integrada – das Águas (MODAELLI, 2013).



‘‘Art. 3º Constituem diretrizes gerais de ação para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos: I - a gestão sistemática dos recursos hídricos, sem dissociação dos aspectos de quantidade e qualidade; II - a adequação da gestão de recursos hídricos às diversidades físicas, bióticas, demográficas, econômicas, sociais e culturais das diversas regiões do País; III - a integração da gestão de recursos hídricos com a gestão ambiental; IV - a articulação do planejamento de recursos hídricos com o dos setores usuários e com os planejamentos regional, estadual e nacional; V - a articulação da gestão de recursos hídricos com a do uso do solo; VI - a integração da gestão das bacias hidrográficas com a dos sistemas estuarinos e zonas costeiras (BRASIL, 1997).’’



Nesta perspectiva a gestão dos recursos hídricos assume não tão somente caráter participativo, mas também sugere práticas educativas que propões a capacitação de sistemas e indivíduos engajados no cumprimento de seus papeis sociais (BRASIL, 2004). Portanto, a educação voltada para o ambiente assume grande importância por notabilizar valores que pautam suas responsabilidades sociais para com o meio (LIMA, 1984).



Revisitando a Educação Ambiental e a Educação Não Formal



A Educação Ambiental (EA) pode ser compreendida como uma concepção totalizadora dos processos educativos que envolvem o meio natural e social (LOUREIRO, 2012), tendo muito a oferecer no que diz respeito ao despertar de uma compreensão que inter-relacione as ações exercidas pela humanidade, seja para com o ambiente ou para com os indivíduos sociais (GARCIA e ROSA, 2012).

Loureiro (2012) explicita que a vinculação de processos ecológicos com aspectos sociais é o primeiro passo para atividades educadoras ambientais que objetivem transformações das ações humanas sobre a natureza. Especificamente a EA crítica objeta-se contra abordagens comportamentalistas, reducionistas e dualistas na concepção de mutualidades cultura-natureza (LOUREIRO, 2012). Tem como foco analisar problemáticas socioambientais em sua procedência e origem, livre de disposições e intenções ideológicas de sistemas sociais dominantes. Sobre estas observações Lima (1984) destaca que:



‘‘(...) a Educação Ambiental é uma abordagem multidisciplinar (...) que exige uma postura crítica e um corpo de conhecimento produzido a partir de uma reflexão sobre a realidade vivenciada. Sendo uma proposta essencialmente comunitária, materializa-se através de uma prática cujo objetivo maior é a promoção de um comportamento adequado a proteção ambiental (...) onde a participação é um princípio fundamental (...) inclusive em níveis de educações não formais.’’



Dentro deste contexto, diversas metodologias tem sido adotadas às práticas relacionadas a EA crítica que não são conexas a convenções pontuais e conservadoras (KATAOKA, et al. 2017), com destaque a processos de ensino-aprendizagem em espaços não-formais de educação. Estes espaços são exteriores aos ambientes geográficos escolares dinamizados por ações pedagógicas e educativas (GARCIA, 2005), capazes de promover formações que vão além da memorização de discursos ‘depositados’ por docentes (LOUREIRO, 2012).

Garcia (2005) menciona, que a educação não-formal não detém identidade ou maneira sistemática de se organizar. Desta forma, não é necessário que sejam utilizados instrumentos, práticas e características típicas da educação tradicional para planejar e aplicar seus objetivos.



Percurso metodológico



O presente estudo trata-se de um relato de experiências em que o pesquisador também foi ministrante da intervenção. O relato está organizado de forma a apresentar as ações e seus respectivos objetivos, descrevendo detalhes relevantes que dialogam com a EA em sua perspectiva crítica.



Universo da pesquisa



As atividades concernentes a intervenção intitulada Dia Mundial da Água: multi e interrelações foram realizadas em espaços públicos no Município de Guarapuava/PR, mais especificamente no passeio da Rua XV de Novembro em frente as lojas Pernambucanas.

Os educadores ambientais da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Guarapuava organizaram todas as atividades propostas (Tabela 1) em seus devidos espaços pelo início da manhã. A partir do momento em que as dinâmicas estavam preparadas, a comunidade que passava pelo local já era convidada a participar.



Descrição e avaliação das atividades



A seguir serão apresentadas as descrições e análises das atividades realizadas ao decorrer da intervenção. Tivemos a preocupação de organizar práticas que não se restringissem a abordagens tradicionais de educação ambiental. Também destacamos que embora um olhar isolado possa identificar essa ação como pontual, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Guarapuava (SEMAG) trabalha continuamente com temáticas socioambientais ao longo do ano, por meio de diversos projetos regionais. Assim consideramos que as ações aqui descritas são um recorte de um processo continuo de educação socioambiental.

Outro aspecto que merece ser destacado refere-se a inserção da temática da água na realidade imediata da região, de modo com que esta ação fizesse sentido aos olhos da população. Momentos de diálogos e reflexões também foram priorizados de forma a contribuir ao despertar de uma consciência crítica nos participantes.



Tabela 1 – Objetivos das atividades aplicadas durante a intervenção Dia Mundial da Água: Multi e Interrelações

Atividade

Objetivos

O quanto de água utilizamos em nossas ações cotidianas?

Promover reflexão acerca do desperdício da água em suas mais variadas dimensões.






A implicação do uso e mal uso da água nos ecossistemas aquáticos.

Preservação dos ambientes aquáticos como um todo, além da ampliação da concepção em reconhecer o meio ambiente como um espaço de interrelações existentes entre fatores químicos, físicos, bióticos, abióticos e socioculturais.




Jogo da memória: utilização dos recursos hídricos.

Reconhecer que a água não é apenas utilizada para fins pontuais e domésticos, formando cidadãos conscientes dos meios de produção e suas influências diretas no ambiente.








Jogo da trilha: o caminho da água.

Por meio de ludicidade, demonstrar aos participantes do jogo qual o trajeto percorrido pela água utilizada em fins domésticos, industriais, agroculturais, dentro outros. Este trajeto se refere a captação da água nos ecossistemas aquáticos, passando por sua utilização em múltiplos fins, até seu descarte, tratamento e devolução aos corpos d’agua.




Abordagem a comunidade

Despertar na população uma consciência crítica acerca da exploração e utilização dos recursos aquáticos em escala local e global.

Fonte: os autores.

A primeira atividade intitulada “O quanto de água utilizamos em nossas ações cotidianas?” teve o objetivo de causar impacto visual na população que passava pelo local demostrando por meio de garrafas plásticas a quantidade de água utilizada em ações pontuais como a lavagens de louças, calçadas e carros, além do banho higiênico e descarga sanitária, por exemplo (Figura 1a). Ao longo dos pontos que continham as garrafas, considerando que as experiências e conhecimentos dos educadores ambientais da SEMAG eram de suma importância, orientações acerca desta temática eram dadas constantemente.

De acordo com estudos, foi demonstrado que a demanda por água para consumos humano dobra a cada 21 anos, de modo com que durante os últimos 50 anos, a disponibilidade de água doce no mundo caiu cerca de 60% (RIBEIRO e ROLIM, 2017). Desta forma, fica claro que a escassez dos recursos hídricos guia perspectivas e ações que busquem sua preservação.

Diversas metodologias que buscam o reaproveitamento da água crescem e se desenvolvem diariamente (VILLIERS, 2002). Ações como armazenamento de água da chuva ou resultante da lavagem de roupas foram relatadas pela população durante a intervenção, que mesmo de forma pragmática tem sucesso ao reutilizar os recursos hídricos de forma sustentável.

De acordo com a FIESP/CIESP (2004), o uso racional da água por meio de práticas que adéquem melhorias relacionadas ao seu uso, coopera grandemente para a conservação e preservação dos ecossistemas aquáticos. A ABES (2013), por sua vez, destaca que a reutilização da água está interligada diretamente com a preservação do meio ambiente de modo a evitar uma catástrofe mundial.

Ações simples, portanto, podem ser tomadas para evitar este desperdício. Medidas como o fechamento da torneira enquanto ensaboa a louça, escova os dentes ou faz a barba e a manutenção de encanamentos foram relatadas como exemplos pelos indivíduos participantes desta atividade.

A segunda atividade intitulada “A implicação do uso e mal uso da água nos ecossistemas aquáticos” buscava ampliar a visão da população relacionada aos recursos hídricos de modo a estimular a compreensão de que o conjunto de ações pontuais e coletivas que podem influenciar diretamente todo um ecossistema, ou ainda, uma sociedade.

Dentro deste contexto, é importante destacar que a EA crítica consolida-se como prática libertadora quando é capaz de ampliar a percepção de que o meio ambiente é um espaço de interrelações existentes entre fatores físicos, químicos, bióticos, abióticos e também sociais e culturais (LOUREIRO, 2012). A atividade contextualizava ações sustentáveis não apenas com o saber tecnicista e racional, mas com uma nova perspectiva do ser, capaz de transformar positivamente, ou não, a natureza a sua volta, pois como destaca Zilberman (1997) os elementos ambientais que se fazem presentes no meio, incluindo os seres humanos e os recursos hídricos, são passíveis de interinfluências sinérgicas.

Esta atividade educativa se distanciava das meras utilizações dos recursos hídricos de forma a possibilitar, por meio de um jogo de perguntas, respostas e curiosidades que ficavam em grandes tapetes no chão (Figura 1b), reflexões de que a água pertence a sistemas integrados e dinâmicos que sofrem impactos antrópicos.

Houve certa dificuldade por parte dos participantes em inter-relacionarem suas relações sociais e econômicas com os recursos hídricos. A grande maioria dos indivíduos era familiarizado com a informação de que os esgotos domésticos degradam a natureza, mas eram avessos a concepção de que atividades agropecuárias, industriais e cooperativas, sem gestão adequada, também empobrecem o meio.

Diálogos com os participantes durante as atividades não implicavam apenas aspectos informativos e conceituais, mas objetivavam a compreensão das complexas dimensões a que a temática da água insere-se, como a cultura, economia, sociedade e ambiente. Neste sentido, a EA crítica que segundo Guimarães (2012, p.48-49)

(...) volta-se para uma práxis de transformação da sociedade” pode contribuir com a superação de uma visão fragmentada, na qual o sujeito passa a ser considerado parte integrante da sociedade, atuando como agente transformador da realidade global.”



Dentro deste contexto, a terceira atividade intitulada Jogo da memória: utilização da água (Figura 1d), buscava demonstrar aos participantes de maneira lúdica e divertida as mais variadas utilizações deste recurso. Imagens de atividades domésticas, rurais, industriais, agropecuárias, metalúrgicas e mineradoras compunham as 32 cartas do jogo.

Os conteúdos das cartas eram discutidos com os jogadores pelos funcionários da SEMAG (Figura 1d). Muitos participantes ficaram impressionados em como as práticas agropecuárias abusam do uso de fertilizantes e agrotóxicos, poluindo mananciais aquáticos, ou ainda, em como o não tratamento de efluentes industriais, destacado pela SEMARH (2012), como um dos principais pontos que acarretam problemas relacionados aos recursos hídricos, e a má gestão de recursos urbanos são prejudiciais aos ecossitemas aquáticos.

Informações acerca desta temática também eram contextualizadas, como por exemplo o fato destacado pela Campanha da Fraternidade de 2014 (CNBB, 2014) em seu texto base, onde explicita que o quadro da escassez de água no mundo se deve principalmente à falta de gestão das atividades relacionadas a agricultura e pecuária. Estas consomem cerca de 70% deste recurso disponível, destacando-se o fato de que mais da metade desta água é perdida para os processos de evaporação ou são devolvidas aos mananciais aquáticos repletas de micropoluentes como agrotóxicos (WWF, 2018).

Os participantes, em sua maioria, apontavam a criação de leis e Programas de Conservação e Reuso da Água como alternativas que destinem a preservação deste recurso, já que segundo Bemfica e Bemfica (2015) as indústrias em geral além de poluírem os rios e mananciais com seus efluentes, utilizam a água de maneira irresponsável como se a água fosse infinita.

Ficou claro para os jogadores que as medidas para evitar o desperdício e incentivar o reaproveitamento da água, apresentadas nas primeiras atividades, são válidas, porém, que o problema central está nos grandes meios de produção como a agricultura, já que em plantações que necessitam de irrigações, mais de 60% da água destinada para isto é desperdiçada por metodologias inadequadas e má gestão dos encanamentos (COSTA e BARROS-JUNIOR, 2005).

Como já relatado, apenas uma pequena parcela das águas continentais está disponível para o consumo humano (SHIKLOMANOV, 1998), sendo na maioria das vezes passiveis de tratamentos pré distribuições domésticas (FERREIRA et al., 2013). Estes tratamentos eram os focos da quarta atividade intitulada Jogo da trilha: caminho da água.

Nesta atividade os participantes andavam por caminhos inseridos em um grande tapete interativo que possuía o caminho artificial percorrido pela água bruta desde sua captação até seus tratamentos pré e pós domésticos, industriais, comerciais e agropecuários (Figura 1e).



Figura 1 – Atividades realizadas durante a intervenção Dia Mundial da Água: multi e interrelações

Legenda: A – Atividade: o quanto de água utilizamos em nossas ações cotidianas? B – Jogo: A implicação do uso e mal uso da água nos ecossistemas aquáticos; C - Jogo: a implicação do uso e mal uso da água nos ecossistemas aquáticos; D – Jogo da memória: utilização dos recursos hídricos; E- Jogo da trilha: o caminho da água; F – Materiais informativos e educativos entregues a comunidade durante os diálogos com os educadores ambientais da SEMAG.



Durante aplicação deste jogo, ocorreu certa preocupação em associar os conhecimentos transpassados pelos educadores ambientais da SEMAG com saberes práticos dos participantes, possibilitando, desta forma, uma visão geral e concreta do processo de tratamento da água, já que este, de acordo com Bemfica e Bemfica (2015) está diretamente relacionada ao desenvolvimento socioambiental.

Houve grande interesse da comunidade neste jogo por se tratar de uma atividade bastante interativa. Questões como má gestão dos encanamentos subterrâneos, contas mensais pagas as estações de tratamento de água, modelo estadocêntrico de saneamento e proliferação de doenças foram levantadas e discutidas com os participantes, visto que em todo o mundo, mais de 80% das águas residuais retornam ao meio ambiente sem tratamento (WWAP, 2017).

Por fim, a abordagem à comunidade pelos funcionários da SEMAG culminou na mais efetiva tentativa de despertar uma consciência crítica na comunidade do Município, pois segundo Marques et al., (2014) a Educação Ambiental deve ser compreendida como um exercício efetivo da cidadania já que requer autonomia, liberdade, responsabilidade e participação democrática dos indivíduos em âmbitos sociais.

Com objetivo de que a população compreendesse que meio ambiente atrelado a crise hídrica não se resume apenas a aspectos naturais e que sim abrange as multi e interrelações, além de processos históricos, culturais, religiosos, étnicos e raciais das sociedades humanas, instituíram-se diálogos com a comunidade que transitava pelo local da intervenção. Além disto, folhetos informativos com a temática da água eram entregues a comunidade (Figura 1f).

Desta forma, a temática da água esteve contida em espaços educacionais não formais com enfoque na ética e na formação de cidadãos cônscios do espaço que ocupam no mundo, de forma com que se sintam integrados ao meio. Assim de acordo com Bacci e Pataca (2008) tornam-se parte de um processo maior, real e dinâmico, compreendendo a complexidade dos contextos sociais regionais.

Acreditamos que educar os indivíduos para o meio em que estão inseridos a partir de ações locais, sensibilizando-os para com o ambiente, e consequentemente, para com os recursos hídricos, se dá início a um processo de construção de uma sociedade com poder de modificar o destino ambiental que caminha nosso planeta (BRAGA, et. al, 2003), promovendo assim, um espaço de não tão somente disseminação do conhecimento, mas de transformações por meio da auto confrontação e reflexividade.



Considerações finais



Tendo como premissa que as problemáticas ambientais estão diretamente associadas as desigualdades sociais, e EA firma-se como alternativa para a construção de uma sociedade justa, legítima e igualitária. Este objetivo é mais facilmente alcançado quando trabalhado de forma interdisciplinar e não tradicionalista nos campos não-formais de educação.

O desenvolvimento de uma consciência ambiental e crítica voltada para o uso racional dos recursos hídricos propicia responsabilidade coletiva, pois os indivíduos - que estão sendo educados para com o ambiente - sentem-se parte do meio em que vivem, de forma a compartilhar conscientemente os recursos disponíveis. Além disto, a reavaliação da forma de pensar e trabalhar com questões ambientais expandindo-as para com dimensões sociais, históricas, políticas e culturais, são objetivos de ações como esta, realizadas pela Prefeitura Municipal de Guarapuava por meio Secretaria Municipal do Meio Ambiente, que acredita no potencial transformador do ser humano.



Referências bibliográficas



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