ISSN 1678-0701
Número 70, Ano XVIII.
Março-Maio/2020.
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No. 70 - 20/03/2020
ABORDAGEM EPISTEMOLÓGICA SOBRE A PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO CIENTÍFICO: CONTRIBUIÇÕES DE LACEY E LEFF  
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ABORDAGEM EPISTEMOLÓGICA SOBRE A PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO CIENTÍFICO: CONTRIBUIÇÕES DE LACEY E LEFFi



Áurea da Silva Garcia

Turismóloga, doutoranda em Ensino de Ciências, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS)

e-mail: aureasgarcia@gmail.com

Suelen Regina Patriarcha-Graciolli

Bióloga, doutoranda em Ensino de Ciências, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS)

Docente da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB)

e-mail: suelenpatriarcha@yahoo.com.br



Icléia Albuquerque de Vargas

Geógrafa, Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Professora e Orientadora do Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências da UFMS.

E-mail: icleiavargas12@gmail.com



Angela Maria Zanon

Doutora em Ciências Biológicas (Zoologia), Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências

E-mail: amzanon@terra.com.br







Resumo

A epistemologia da ciência é o estudo aprofundado e crítico sobre o universo científico, que procura identificar as especificidades da ciência e em quais razões ela fundamenta suas técnicas, seus resultados e procedimentos de pesquisa. Desse modo, por meio de revisão de bibliográfica, objetivou-se nesse artigo pensar sobre os valores e a racionalidade da ciência a partir dos pressupostos de Lacey e as reconexões das relações sociedade-natureza de Leff. Como resultado, foi possível observar que Lacey apresenta a análise da racionalidade a partir de um conjunto de valores, cognitivos e não cognitivos (sociais e éticos) e aponta que a distinção entre os valores é o que permite subordinar a imparcialidade (objetividade) da ciência. Faz advertência sobre as ameaças dos interesses do crescimento econômico sobre a tecnociência, os valores democráticos e sobre a própria ciência. Critica as abordagens descontextualizadas nas estratégias científicas, defendendo o pluralismo metodológico como prática científica. Leff afirma que o ambiente é um saber que questiona o conhecimento, que emerge da ordem do não pensado pelas ciências, mas também do efeito do conhecimento que tem desconhecido e negado a natureza e que hoje se manifesta como uma crise ambiental. Para o autor a questão ambiental surge como uma problemática social ecológica generalizada de alcance planetário, o qual induz um amplo e complexo processo de reorientação e transformação do conhecimento e do saber, das ideologias teóricas e práticas, dos paradigmas científicos e das práticas de pesquisa. Desse modo, embora abordem aspectos diferentes, os ideais de Lacey e Leff se complementam, à medida que encontram na relação socioambiental, possibilidades de práticas científicas mais coerentes com as questões atuais. Os dois autores enfatizam, de modo particular, que a construção de conhecimento deve considerar as interfaces dos diferentes saberes. Lacey e Leff criticam as bases de manutenção do sistema capitalista a partir das ciências aportando à necessidade de mudança de comportamento, valores e a reconexão dos diversos saberes – científicos e tradicionais –, em busca de novas possibilidades para a melhoria da qualidade de vida. Novos diálogos e novos olhares a partir de suas teorias certamente contribuirão para o entendimento da ciência e a construção do conhecimento, atrelados a relação com o ambiente.



Palavras-chave: pesquisa científica, pluralismo metodológico, crise ambiental, diálogo de saberes.



EPISTEMOLOGICAL APPROACH ON SCIENTIFIC KNOWLEDGE PRODUCTION: LACEY AND LEFF CONTRIBUTIONS



abstract

The epistemology of science is the in-depth and critical study of the scientific universe which aims to identify the specificities of science as well as on what reasons it bases its techniques, results and research procedures. Thus, through a bibliographic review, the objective of the present article was to think about the values ​​and rationality of science based on the assumptions of Lacey and the reconnections of Leff's society-nature relations. As a result, it was possible to observe that Lacey presents the analysis of rationality from a set of values, which can be cognitive and non-cognitive (social and ethical) as he points out that the distinction between values ​​is what allows us subordinating the impartiality (objectivity) of science . Leff affirms that environment is knowledge that questions knowledge itself, that it emerges from the order of not thought by the sciences, but also from the effect of knowledge that has unknown and denied nature and that today it manifests as an environmental crisis.

Thus, although they approach different aspects, the ideals of Lacey and Leff complement each other, as they find in the socio-environmental relationship, possibilities for scientific practices which are more coherent with current issues. Both authors emphasize, in a particular way, that the construction of knowledge must consider the interfaces of different types of knowledge. Lacey and Leff criticize the bases for maintaining the capitalist system from the sciences, therefore contributing to the need to change behavior, values ​​and the reconnection of different types of knowledge - scientific and traditional - in search of new possibilities for improving the quality of life. New dialogues and new perspectives based on their theories will certainly contribute to the understanding of science and the construction of knowledge, linked to the relationship with the environment.



Keywords: scientific research, methodological pluralism, environmental crisis, knowledge dialogue.



ENFOQUE EPISTEMOLÓGICO SOBRE LA PRODUCCIÓN DE CONOCIMIENTOS CIENTÍFICOS: CONTRIBUCIONES DE LACEY Y LEFF



Resumen

La epistemología de la ciencia es el estudio profundo y crítico del universo científico, que busca identificar las especificidades de la ciencia y en qué razones se basan sus técnicas, resultados y procedimientos de investigación. Por lo tanto, a través de una revisión bibliográfica, el objetivo de este artículo fue pensar en los valores y la racionalidad de la ciencia basados ​​en los supuestos de Lacey y las reconexiones de las relaciones sociedad-naturaleza de Leff. Como resultado, fue posible observar que Lacey presenta el análisis de la racionalidad a partir de un conjunto de valores, cognitivos y no cognitivos (sociales y éticos) y señala que la distinción entre valores es lo que permite subordinar la imparcialidad (objetividad) de la ciencia . Leff afirma que el medio ambiente es conocimiento que cuestiona el conocimiento, que emerge del orden de no pensamiento de las ciencias, pero también del efecto del conocimiento que ha desconocido y negado la naturaleza y que hoy se manifiesta como una crisis ambiental.Por lo tanto, aunque abordan diferentes aspectos, los ideales de Lacey y Leff se complementan, ya que encuentran en la relación socioambiental, posibilidades de prácticas científicas que son más consistentes con los problemas actuales. Ambos autores enfatizan, de manera particular, que la construcción del conocimiento debe considerar las interfaces de los diferentes conocimientos. Lacey y Leff critican las bases para mantener el sistema capitalista basado en las ciencias, lo que contribuye a la necesidad de cambiar el comportamiento, los valores y reconectar diferentes conocimientos, científicos y tradicionales, en busca de nuevas posibilidades para mejorar la calidad de vida. Los nuevos diálogos y las nuevas perspectivas basadas en sus teorías ciertamente contribuirán a la comprensión de la ciencia y la construcción del conocimiento, vinculado a la relación con el medio ambiente.



Palabras clave: investigación científica, pluralismo metodológico, crisis ambiental, diálogo de conocimiento.



INTRODUÇÃO

A epistemologia exerce papel fundamental na reflexão e crítica sobre as filosofias dos cientistas implícitas nas ciências (TESSER,1995). É o estudo aprofundado e crítico sobre o universo científico. A epistemologia da ciência procura identificar as especificidades da ciência e em quais razões ela fundamenta suas técnicas, seus resultados e procedimentos de pesquisa (OLIVA, 2003).

De acordo com Lacey (2009b) a ciência é a investigação empírica para gerar e solidificar o conhecimento. As aplicações do conhecimento científico implicam nas avaliações éticas, de valores, bem como nos métodos e estratégias de pesquisa. Os valores cognitivos e sociais apontados por Lacey (2003) evidenciam a necessidade de se pensar sobre a ciência e a produção do conhecimento científico. Além disso, a pesquisa científica tem valor ético, pois aparentemente, contribui para a cultura do bem-estar humano.

Leff aponta a crise ambiental como uma crise do conhecimento: a epistemologia ambiental derruba os muros de contenção da ciência e transcende todo conhecimento que se converte em sistema de pensamento (2012, p. 19-20), uma crise civilizatória, consequência da racionalidade capitalista: as forças produtivas fundam-se no predomínio dos processos tecnológicos que alimentam o processo de acumulação do capital (2010, p. 90), em que volta para as questões econômicas e tecnológicas, aponta o diálogo entre os saberes para resolver a crise ambiental, perpassado pela interdisciplinaridade em “um processo de reconstrução social através de uma transformação ambiental do conhecimento” (2010, p. 168).

Outros autores, destaque para Jacobi (2003), Pádua (2010) e Floriani (2006), contribuem para esse embasamento de Lacey e Leff, destacando a produção de conhecimento e as inter-relações do meio natural e social.

Jacobi (2003, p. 190) defende que a dimensão ambiental como uma “questão que envolve um conjunto de atores do universo educativo, potencializando o engajamento dos diversos sistemas de conhecimento, a capacitação de profissionais e a comunidade universitária numa perspectiva interdisciplinar”. Jacobi, que se aporta em Leff (2001), trata da impossibilidade de “resolver os crescentes e complexos problemas ambientais e reverter suas causas sem que ocorra uma mudança radical nos sistemas de conhecimento, dos valores e dos comportamentos gerados pela dinâmica de racionalidade existente, fundada no aspecto econômico do desenvolvimento” Jacobi (2003, p. 190). Defende uma “reflexão acerca das práticas existentes e das múltiplas possibilidades de, ao pensar a realidade de modo complexo, defini-la como uma nova racionalidade e um espaço onde se articulam natureza, técnica e cultura”, apoiando-se “numa lógica que privilegia o diálogo e a interdependência de diferentes áreas de saber” (idem Jacobi, 2003,191), bem como a necessidade de diálogo com outros atores sociais.

Pádua (2010) destaca que para refletir sobre a gênese e evolução desse campo de conhecimento, é preciso levar em conta fatores sociológicos e epistemológicos. Existem questões emergentes que têm desafiado e estimulado os saberes acadêmicos, dentre elas a discussão ambiental, que para ao autor “se tornou ao mesmo tempo criadora e criatura do processo de globalização. A própria imagem da globalidade planetária, em grande parte, é uma construção simbólica desse campo cultural complexo”, dado que as “produções científicas influenciaram e foram influenciadas pelas ações públicas” (PÁDUA, 2010, p. 81-82).

Floriani (2006) afirma que: “as condições estruturais que possibilitam a emergência do conhecimento científico tornam-se mais cruciais hoje do que no decorrer de boa parte do último século” e ainda que: por sua vez, “o sistema de crenças (valores) e de saberes (tecnociências) tornaram-se solidariamente prisioneiros desse sistema de produzir, consumir e conhecer o mundo, reforçando os mecanismos desse círculo vicioso”, para mudar isso, espera-se que a produção e usos dos conhecimentos científicos incorram em uma avaliação ética, tanto pelas comunidades científicas, como pelas sociedades (FLORIANI, 2006, p. 77-78).

Desse modo, objetivou-se neste artigo pensar sobre os valores e a racionalidade da ciência a partir dos pressupostos de Lacey e as reconexões das relações sociedade-natureza de Leff. Para isso, foi elaborada revisão bibliográfica, e foram utilizados os pressupostos propostos pelos autores, disponíveis nos referenciais: Lacey (2003; 2006; 2007; 2008; 2009a; 2009b; 2010) e Leff (2009a; 2009b; 2010; 2011; 2012).

1. ABORDAGEM TEÓRICA SOBRE OS VALORES DA CIÊNCIA E ATIVIDADE CIENTÍFICA: HUGH LACEY

Hugh Lacey critica a ciência positivista, que refuta a influência dos valores na atividade científica, e também a relatividade pós-moderna, que se abstém das diferenças entre os valores cognitivos e os valores éticos e sociais. Para ele, a visão intermediária entre esses dois pontos significa unir questões epistemológicas e implicações concretas da ciência na sociedade atual. O autor critica a ciência quando refuta o paradigma da racionalidade científica, que de modo sucinto, gera conhecimento objetivo e universalmente válido que de modo incontestável contribui para o progresso material da humanidade (SALVI; BATISTA, 2007).

Lacey (2010) apresenta a análise da racionalidade a partir de um conjunto de valores, cognitivos e não cognitivos (sociais e éticos). Para Lacey, a distinção entre os valores é o que permite subordinar a imparcialidade (objetividade) da ciência. Cabe esclarecer que, para o autor, a ciência não é livre de valores e apresenta as teses da imparcialidade, da neutralidade, e da autonomia, como valores constituintes das práticas e instituições científicas.

A imparcialidade (objetividade) implica uma distinção entre valores cognitivos e outros. Uma teoria é aceita se manifesta os valores cognitivos em alto grau, “de acordo com os padrões mais elevados, à luz dos dados empíricos disponíveis” (LACEY, 2009a, p.41). E é rejeitada se outra teoria incompatível com ela for aceita. O conhecimento é aceito como científico, ou uma teoria torna-se bem confirmada quando, a partir de critérios estritamente cognitivos (que não refletem valores sociais e éticos particulares), se considera que está sustentada pelas evidências empíricas disponíveis, e após ter sido testada por meio de um rígido e rigoroso programa de pesquisa experimental (empírica) (Lacey, 2007).

Para a neutralidade, Lacey (2007) esclarece que os resultados científicos não favorecem um aspecto em detrimento de outros, seja por meio de suas aplicações lógicas, seja por meio das consequências de suas aplicações. De outro modo, Lacey (2010) indica que a neutralidade do valor da ciência não incide em favorecimento de posições morais, isto é, que a aplicação da ciência possa ser atendida no que se refere a cada perspectiva de valor (boas ou más).

Sobre a autonomia, Lacey (2007) aponta que as práticas científicas não dependem de preferências pessoais; e as prioridades da pesquisa não devem ser ajustadas por alguma perspectiva valorativa particular; e as instituições científicas devem resistir às interferências externas durante sua constituição.

No entanto, o próprio autor, depois de se delongar sobre os preceitos de autonomia, imparcialidade e neutralidade, e sobre a aplicabilidade deles para a ciência, conclui que, não de maneira simplificada, a ciência não é livre de valores e é preciso discernir sobre as maneiras como ela se faz. Aponta ainda que a autonomia não é realizável; que a neutralidade é passível de questionamentos sobre as práticas científicas dominantes; e que a imparcialidade se mantem como um valor primordial nas práticas científicas orientadas de acordo com qualquer estratégia (Lacey, 2010). O autor ainda conclui que a ciência nem sempre vive de acordo com seus ideais, mas que mesmo assim torna-se precoce constatar que “os valores representam ideais ilusórios que desviam a atenção sobre o fato de que as práticas científicas estão associadas a interesses particulares” (LACEY, 2008, p. 302).

O autor defende que os cientistas e as instituições científicas devem considerar os contextos sociais, ecológicos e humanos em meio às escolhas das estratégias de pesquisa, em vez de priorizar o crescimento da ciência a partir de interesse privado, conduzida em associação com interesses comerciais, e auxiliada por fontes de financiamento público (Lacey, 2008).

Lacey evidencia que a pesquisa científica tem três momentos: a escolha da estratégia; a avaliação da teoria; e a aplicação dos resultados. O autor acredita que existem papeis de validação para valores éticos e sociais desde a aplicação dos resultados científicos, até a escolha de estratégias de pesquisa, perpassando pela validação da teoria, e que esse modelo resguarda a possibilidade de objetividade do conhecimento científico, e ainda permite fazer crítica ética e política da pesquisa científica. Desse modo, resultados objetivamente confirmados não obrigam que eles sejam aplicados, a partir de interesses previamente modelados, por qualquer configuração de valores éticos e sociais (Lacey, 2003; 2009a).

Em continuidade, o autor questiona “os usos para os quais o conhecimento científico é efetivamente posto e os interesses que ele serve” (LACEY 2008, p. 298). Faz alusão ao comprometimento da ciência com os valores de respeito à natureza e ao bem-estar humano, e aponta a condução da pesquisa como de fundamental importância para as questões éticas relevantes em virtude da aplicação do conhecimento científico (Lacey, 2008).

Lacey (2009a) questiona a abordagem descontextualizada da ciência – em escritos menos recente também chamada de estratégias materialistas – “quando existe um esforço mútuo entre a pesquisa conduzida segundo estratégias materialistas e o compromisso com a valorização moderna do controle” (LACEY, 2010, p. 48). O autor aponta que essas estratégias são limitadas, representando apenas estruturas ocultas, a interação, o processo e a lei dos fenômenos, desintegrados dos seus contextos ecológico, social e humano. Ele afirma que essas abordagens científicas levam à inovação tecnológica, mas são incapazes de investigar adequadamente os riscos da implementação de tais inovações, e a exploração de possibilidades de alternativas práticas que derivam ou se fundamentam na inovação tecnológica (Lacey, 2009a; 2006).

De modo enfático, Lacey (2008) aponta as inovações tecnocientíficas associadas aos interesses comerciais – como exemplo a obtenção de patentes sobre descobertas e alimentadas com financiamento público – como contribuinte para a crise ambiental, com substanciais consequências devastadoras, em seus aspectos sociais. Lacey critica o progresso tecnocientífico à medida que não tem sido de modo uniformemente distribuído entre as diferentes classes sociais, e enfatiza que isso tem enfraquecido valores democráticos essenciais, em especial o respeito aos direitos humanos e a capacidade crítica dos cidadãos em assumirem papeis participativos, responsáveis e ativos sobre suas necessidades básicas.

Lacey (2009a) argumenta que a tecnociência está se desenvolvendo de modo a priorizar o crescimento econômico e que isso ameaça os valores democráticos, já que a pesquisa científica vem sendo cada vez mais colocada sob o controle das corporações e em agências vulneráveis aos interesses corporativos. O autor acrescenta que a pesquisa que é importante para consolidar a democracia não está sendo conduzida e os recursos não estão sendo direcionados de maneira adequada. Assim, ele faz uma advertência sobre as ameaças dos interesses do crescimento econômico sobre a tecnociência, os valores democráticos e sobre a própria ciência.

Quanto às responsabilidades dos cientistas sobre a ciência, Lacey (2008) aponta que, em algumas situações, e com alguma frequência, apoiamos uma visão distorcida sobre as crises e parcialidades da ciência, atribuindo também aos cientistas as responsabilidades sobre como o conhecimento científico é utilizado. Lacey sugere que o cientista assegure-se de que todo o conhecimento relevante a uma aplicação seja considerado e produzido, e caso não o seja, saliente sobre a necessidade de pesquisa adicional. O autor acrescenta que não considerando enxergar sua própria responsabilidade sobre o conhecimento científico produzido, o cientista se serve dos valores do capital e do mercado, contrários aos valores da sustentabilidade e da justiça social.

Lacey (2008) critica a metodologia científica de modo único, reduzido a abordagens descontextualizadas. O autor valoriza o pluralismo metodológico, investigações empíricas que considerem, integralmente, as dimensões ecológicas, sociais e culturais dos fenômenos e práticas (LACEY, 2006).

2. A CONSTRUÇÃO DO SABER AMBIENTAL: ENRIQUE LEFF

Enrique Leff (2009a, 2009b, 2010, 2011, 2012) delineia a partir do “ambiental” – epistemologia, saber, racionalidade, crise, problemática, complexidade, interdisciplinaridade, educação, socioambiental, entre outros – voltando-se para as pressões e possíveis alternativas de forma que a humanidade se reconecte com aspectos socioambientais para o enfrentamento da crise civilizatória hora instalada, destacando: “a “crise ecológica” que mobiliza um amplo processo de produção, apropriação e utilização de conceitos “ambientais” que se reflete nas estratégias para o aproveitamento sustentável dos recursos” (2011, p. 317).

Leff na publicação Epistemologia Ambiental destaca a necessidade de “justificar a coerência do pensamento epistemológico desenvolvido em diferentes momentos de reflexão na transição e nos saltos epistêmicos desde seus fundamentos no estruturalismo teórico e no racionalismo crítico até o pensamento pós-estruturalista e pós-moderno” (LEFF, 2010, p. 9). Para a conformação das questões ambientais emergentes, o autor aporta-se em Althusser em referência à articulação das ciências; para as estratégias de poder no saber ambiental na arqueologia de Foucault; em Weber, quanto à categoria de racionalidade; em Heidegger, na ontologia existencial; em Lévinas, na ética da alteridade; Derrida, no pensamento desconstrucionista; Bachellard, Canguilhem, Althusser, Foucault e Kuhn, no estudo da história das ciências (LEFF, 2010, p. 10). Defendendo:

A construção do saber ambiental aparece assim como uma estratégia teórica oposta ao projeto unificador da ciência “normal”. A articulação de lógicas, de conhecimento e de saberes que a construção de uma racionalidade ambiental requer confronta o reducionismo teórico ao qual levam as analogias conceituais, os isomorfismos estruturais e a unificação terminológica de diversas formalizações científicas (LEFF, 2009b, p. 171).

O autor destaca que a epistemologia ambiental “derruba os muros de contenção da ciência e transcende todo conhecimento”, que “chega a questionar o Marxismo e o estruturalismo, mas ao mesmo tempo usa suas armaduras teóricas contra o projeto positivista (universalista, coisificador, reificante) do conhecimento”, que entremeia na epistemologia empirista e racionalista “que confunde o ser com o ente, o real com a realidade, o objeto empírico e o objeto de conhecimento” estabelecendo bases epistemológicas para a “articulação teórica das ciências e abre o conhecimento para um diálogo de saberes” (LEFF, 2012, p. 20).

De forma que, para o autor, a complexidade ambiental marca o limite do pensamento unidimensional, da razão universal, da ciência objetivante e coisificante, sendo que a epistemologia ambiental busca estabelecer vínculos entre o conceito e o real (LEFF, 2012).

O autor destaca a atualidade como a era do conhecimento: “nunca antes ele havia construído e transformado o mundo com tanta intensidade sobre a base do conhecimento”. Essa nova etapa civilizatória dá-se “graças à modernidade, à Revolução Científica e ao processo de globalização impulsionado pela revolução cibernética e informática”, entretanto, a dimensão e a crescente exploração dos recursos naturais para atender a demanda coloca em risco a própria existência da humanidade. Para o autor, a “ciência e a tecnologia se converteram na maior força produtiva e destrutiva da humanidade” (LEFF, 2011, p. 312). Essa “civilização do conhecimento é, ao mesmo tempo, a sociedade do desconhecimento, da alienação generalizada, da deserotização do saber e do desencantamento do mundo”. Como resultante, o distanciamento, a desconexão, a exclusão dos seres humanos dos processos e das decisões, os saberes subjugados, alienação da vida, perda do controle, condução e sentido de sua existência, comprometendo a qualidade de vida, que passa pelo desemprego, perda de territórios, da cultura e da identidade.

Emerge a necessidade de reaproximação, reconexão e reencantamento do conhecimento científico e tradicional, das relações sociedade-natureza; o socioambiental.

Leff afirma que o ambiente é um saber que questiona o conhecimento: “o ambiente emerge da ordem do não pensado pelas ciências, mas também do efeito do conhecimento que tem desconhecido e negado a natureza e que hoje se manifesta como uma crise ambiental” (LEFF, 2012, p. 30).

Leff apresenta a relação da evolução da sociedade e atual crise, como resultante da racionalidade econômica e tecnológica a serviço do capitalismo, que leva à problemática ambiental, induzindo a “um processo mais complexo do conhecimento e do saber para apreender os processos materiais que configuram o campo das relações sociedade-natureza” (LEFF, 2011, p. 317), apontando que a questão ambiental é uma “problemática de caráter eminentemente social: essa foi gerada está atravessada por um conjunto de processos sociais” (LEFF, 2010, p. 111), de forma que, para o enfrentamento dessa problemática ambiental faz-se necessária a “internalização do saber ambiental emergente em todo um conjunto de disciplinas, tanto das ciências naturais como sociais” (LEFF, 2010, p. 109).

Para Leff (2010), a questão ambiental surge como uma problemática social ecológica generalizada de alcance planetário, a qual induz um amplo e complexo processo de reorientação e transformação do conhecimento e do saber, das ideologias teóricas e práticas, dos paradigmas científicos e das práticas de pesquisa. O autor destaca a interdisciplinaridade não como somatório de conhecimento disciplinar, mas como uma oportunidade para a transformação dos paradigmas estabelecidos do conhecimento, como caminho para a internalização do saber ambiental (Leff, 2011).

As relações sociedade-natureza foram se dissociando e o autor aponta como desafio, a complexidade e interdisciplinaridade ambiental como a abertura do círculo das ciências para um diálogo de saberes (Leff, 2011, 2012). Para ele, o saber ambiental – não científico, o saber tradicional dos povos das florestas, quilombolas, entre outros – foi excluído para um campo de externalidade dado ao “sistema econômico, político e científico-tecnológico dominante” (LEFF, 2011, p. 318). Os apontamentos de Leff destacam a interdisciplinaridade como uma chamada para a complexidade, de forma a:

Restabelecer as interdependências e inter-relações entre processos de diferentes ordens de materialidade e racionalidade, a internalizar as externalidades (condicionamentos, determinações) dos processos excluídos dos núcleos de racionalidade que organizam os objetos de conhecimento das ciências (de certos processos ônticos e objetivos) (LEFF, 2011, p. 319).

Leff apresenta cinco órbitas principais do saber ambiental dentre elas: a racionalidade epistemológica; a exteriorização do saber ambiental; a construção da racionalidade ambiental; a formação do saber ambiental e a emergência da complexidade ambiental. A quinta órbita destaca: “a reemergência do ser, a reinvenção das identidades e a ética da outridade, que abrem um futuro sustentável através de um diálogo de saberes, dentro de uma política da diversidade e da diferença que transcende o projeto interdisciplinar” (LEFF, 2012, p. 27-28).

Para o autor, o saber ambiental está estabelecido em bases polissêmicas e contraditórias, dada a complexidade ambiental, na qual a proposta de diálogo de saberes de diferentes matrizes - racionalidade-identidade-sentido - não se apresenta como um relaxamento disciplinar na ordem do conhecimento para dar lugar à aliança de lógicas antinômicas (LEFF, 2012, p. 55).

As contribuições de Leff quanto ao saber, à complexidade e à interdisciplinaridade ambiental apresentam subsídios para a reconexão das relações sociedade-natureza, por meio do diálogo de saberes – científicos e tradicionais – para o enfrentamento da “chamada” crise civilizatória, da crise ambiental, da crise do conhecimento, apontando emergência para tal.

3. O PLURALISMO METODOLÓGICO DE LACEY E O DIÁLOGO DOS SABERES DE LEFF: INTERPRETAÇÕES DAS INTERAÇÕES DA PESQUISA CIENTÍFICA COM O MEIO SOCIOAMBIENTAL

De acordo com Lacey (2010), o pluralismo metodológico da ciência deve ser concebido a partir da visão de que: (I) a pesquisa fecunda – pesquisa que considera a imparcialidade e manifesta os valores cognitivos em alto grau de respeito – pode ser direcionada a partir da aplicação de diversos tipos de estratégias; e (II) a investigação de diferentes tipos de objetos, a partir do uso da imparcialidade, pode necessitar do emprego de tipos de estratégias fundamentalmente diferentes. O autor esclarece que o engajamento científico deve acontecer por meio de uma multiplicidade de estratégias, ou seja, por meio do pluralismo metodológico, buscando uma reestruturação das atividades científicas para a promoção do bem estar humano. Para Leff (2011) a ciência e a tecnologia se converteram na maior força produtiva e destrutiva da humanidade. As mudanças ambientais globais revolucionaram os métodos de pesquisa e as teorias científicas para poder aprender uma realidade em vias de complexização que ultrapassa a capacidade de compreensão e explicação dos paradigmas teóricos estabelecidos (Leff, 2010).

Ao longo da história, a dimensão da ciência e os avanços tecnológicos despontaram o conhecimento da natureza, na mesma velocidade, levaram ao distanciamento das relações sociedade-natureza, com o aumento de demandas pelos recursos naturais, com a valorização do conhecimento científico em detrimento dos tradicionais.

Estas relações, o socioambiental, os diferentes saberes, como ponto de convergência, têm se estabelecido como importante reflexão, dado que o próprio conhecimento científico se dá a partir de elementos sociais e naturais. Este conhecimento científico, muitas vezes, rotula, patenteia, controla, tecnifica e/ou mercantiliza os conhecimentos e saberes tradicionais, bem como os recursos naturais, sem que as comunidades – o objeto de pesquisa – sejam beneficiadas. Lacey aponta que o progresso das pesquisas e inovações tecnologias, muitas vezes, tem priorizado interesses comerciais – a serviço das grandes corporações, sem observar ou em detrimentos das questões socioambientais, até mesmo com financiamento público. Leff ressalta a quantidade de conhecimentos científicos que tem sido produzido, emergindo como força produtiva, entretanto, essa produção ao dissociar o científico e “não científico”, coloca em risco e torna-se uma força destrutiva para a humanidade.

Para Leff (2012), o diálogo de saberes emerge no cruzamento de identidades na complexidade ambiental, sendo necessária a reconexão sociedade-natureza na busca de alternativas para o enfrentamento da crise ambiental. É o repensar as contribuições e relações do conhecimento científico e os tradicionais, não os dissociando. O autor acrescenta:

É a abertura do ser constituído por sua história, para o inédito, o impensado; para uma utopia enraizada no ser e no real, construída desde os potenciais da natureza e os sentidos da cultura. O ser, para além de sua condição existencial geral, penetra no sentido das identidades coletivas que se constituem na diversidade cultural e numa política da diferença, mobilizando os atores sociais através dos sentidos diferenciados e muitas vezes antagônicos da sustentabilidade, para a construção de estratégias alternativas de reapropriação da natureza (LEFF, 2012, p. 64-65).

Soma-se Lacey (2010), que aponta que os valores éticos, sociais e culturais influenciam nos objetos de estudo e são prioritários para a investigação científica e consequentemente nas estratégias de pesquisa. O autor ainda acrescenta que não deveriam ser descartados: os valores culturais que podem ter impactos construtivos sobre as estratégias empregadas, podendo haver variações legítimas de base cultural nas abordagens da prática científica; e que o conhecimento tradicional e indígena pode não estar em oposição ao conhecimento científico, mas aberto a interpretações descontextualizadas das práticas de aquisição de conhecimento.

Embora abordem aspectos diferentes, os ideais de Lacey e Leff se complementam, à medida que encontram, na relação socioambiental, possibilidades de práticas científicas mais coerentes com as questões atuais. Os dois autores enfatizam, de modo particular, que a construção de conhecimento deve considerar as interfaces dos diferentes saberes.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A palavra epistemologia, em um primeiro momento, nos remete aos filósofos clássicos voltados a caracterizar e categorizar as ciências, entretanto, Lacey e Leff abordam questões atuais e cotidianas que têm afligido a sociedade contemporânea. Os dois autores contribuem para que possamos repensar os conhecimentos e valores científicos conjuntamente com os conhecimentos tradicionais como preponderantes para o enfrentamento da crise atual instalada.

Leff acredita no entendimento e na interpretação da atual crise ambiental a partir da construção de novas racionalidades e na construção de um saber ambiental. Considera ainda, o questionamento dos paradigmas estabelecidos pela ciência, refletindo sobre a importância dos diálogos entre os saberes, sua hibridação e integração. Lacey aponta a necessidade do pluralismo metodológico na multiplicidade de estratégias das práticas científicas em busca da promoção do bem estar humano.

Lacey e Leff criticam as bases de manutenção do sistema capitalista a partir das ciências aportando à necessidade de mudança de comportamento, de valores e a reconexão dos diversos saberes – científicos e tradicionais –, em busca de novas possibilidades para a melhoria da qualidade de vida. Novos diálogos e novos olhares a partir de suas teorias certamente contribuirão para o entendimento da ciência e a construção do conhecimento, atrelados a relação com o ambiente.

REFERÊNCIAS

FLORIANI, D. Ciências em trânsito, objetos complexos: práticas e discursos socioambientais. Ambiente & Sociedade – v. 9, n. 1, jan./jun. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/asoc/v9n1/a04v9n1.pdf>. Acesso em: 24 jun. 2019.

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iO presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (Capes) – Código de Financiamento 001.



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