ISSN 1678-0701
Número 70, Ano XVIII.
Março-Maio/2020.
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No. 70 - 20/03/2020
SOS MACACO-PREGO-GALEGO: UM INSTRUMENTO EDUCATIVO PARA SENSIBILIZAÇÃO DA CONSERVAÇÃO DE POPULAÇÕES SAPAJUS FLAVIUS  
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SOS MACACO-PREGO-GALEGO: UM INSTRUMENTO EDUCATIVO PARA SENSIBILIZAÇÃO DA CONSERVAÇÃO DE POPULAÇÕES SAPAJUS FLAVIUS



Carla Soraia Soares de Castro1, Thereza Patrícia Pereira Padilha2, Eduardo E. B. do Nascimento3

1Departamento de Engenharia e Meio Ambiente, Mestrado acadêmico PROFBIO/UFPB, Centro de Ciências Aplicadas e Educação, Universidade Federal da Paraíba, Campus IV Email: csscastro9@gmail.com, carlasoraia@ccae.ufpb.br

2Departamento de Ciências Exatas, Centro de Ciências Aplicadas e Educação, Universidade Federal da Paraíba, Campus IV. Email: thereza@dcx.ufpb.br

3Bacharelado em Ciências da Computação, Centro de Ciências Aplicadas e Educação, Universidade Federal da Paraíba, Campus IV. Av. Santa Elizabete, 160, Rio Tinto - Paraíba - Brasil, 58297-000. Email: eduardo.esterferson@dce.ufpb.br



Resumo: Este trabalho apresenta o desenvolvimento da ferramenta SOS Macaco-prego-galego, cujo propósito é subsidiar ações de Educação ambiental nas escolas públicas do Litoral Norte da Paraíba, visando a sensibilização de alunos para conservação das populações de macaco-prego-galego (Sapajus flavius) que se encontra em risco de extinção. SOS Macaco-prego-galego é uma aplicação desenvolvida com o Construct 2 e retrata um fragmento de Mata Atlântica, tomando como base a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Engenho Gargaú, localizada no município de Santa Rita, litoral norte da Paraíba onde habita uma população de macaco-prego-galego. Para fins de validação, esta ferramenta foi aplicada para uma amostra de alunos do 8º ano de uma escola pública localizada em Mamanguape-PB. Os alunos a avaliaram com base na técnica de Mucchielli e os resultados revelaram eficácia na sensibilização para conservação do macaco-prego-galego e, também, apontaram o aperfeiçoamento de algumas funções.

Palavras-chave: Sapajus flavius, floresta Atlântica, conservação.



Abstract: This paper presents the development of an educational tool, called SOS Macaco-prego-galego, to subsidize environmental Education actions in public schools on the North Coast of Paraíba. The goal is to sensitize students for the conservation of endangered capuchin monkeys (Sapajus flavius) populations. SOS Macaco-prego-galego is an application developed with Construct 2 and depicts a fragment of the Atlantic Forest, based on the Engenho Gargaú Natural Heritage Private Reserve, located in Santa Rita, north coast of Paraiba, where inhabits a capuchin monkey population. The developed tool was analyzed by a student’s sample enrolled in the 8th grade of a school located in Mamanguape-PB. Students evaluated it based on Mucchielli's technique and the results revealed effectiveness in raising awareness for the conservation of the capuchin monkey and pointed the improvement of some functions.

Keywords: Sapajus flavius, Atlantic forest, conservation



1. Introdução

A floresta Atlântica tem sido devastada para ocupação territorial e exploração desordenada dos recursos naturais, reduzindo sua cobertura vegetal e resultando em paisagens dominadas por atividades antrópicas (FONSECA, 1985; DEAN, 1997; CÂMARA, 2003; HIROTA, 2003; MITTERMEIER et al., 2004). Na Paraíba, a floresta Atlântica abrangia uma área de 6.743 km², mas vem sendo reduzida pela expansão da monocultura de cana-de-açúcar e exploração madeireira, restando pequenos fragmentos que correspondem a 0,4% da área do estado da Paraíba (BARBOSA, 1996). Os municípios de Santa Rita, Rio Tinto e Mamanguape, no litoral norte, apresentaram maior redução das áreas de florestas (TABARELLI et al., 2006).

Nos fragmentos de floresta, no litoral norte da Paraíba, habita o macaco-prego-galego (Sapajus flavius Schreber, 1774), espécie classificada na categoria Em Perigo (EN) pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio, 2018) e Criticamente Ameaçada (CR), de acordo com a International Union for Conservation of Nature (IUCN, 2010), correndo sério risco de extinção (VALENÇA-MONTENEGRO et al., 2018). A espécie ficou desconhecida por mais de 200 anos, sendo redescoberta por Oliveira e Langguth (2006), por meio da análise de características morfométricas de alguns indivíduos. Os autores constataram ser diferente das duas outras espécies de macaco prego, Sapajus xanthostermos e Sapajus libidinosus, já descritas e que, também, eram mais próximas do Sapajus flavius, morfologicamente.

As populações da espécie Sapajus flavius estão distribuídas em remanescentes de floresta Atlântica, ao norte do rio São Francisco, nos estados Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Na Paraíba, foram localizadas 15 populações da espécie em pequenos fragmentos de floresta Atlântica (SILVA JUNIOR 2009; CAMPANILLI; SCHAFFER, 2010; COSTA, 2012). É uma espécie onívoro, pois sua dieta é composta por frutos, insetos e vertebrados, mas também se alimenta de fontes provenientes do meio antrópico, como a cana-de-açúcar (VALENÇA-MONTENEGRO, 2011).

A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Engenho Gargaú, localizada no município de Santa Rita, Paraíba, propriedade da Japungu Agroindustrial S/A, é um destes fragmentos que abriga uma população de Sapajus flavius (RODRIGUES, 2013). Assim, é muito importante atentar-se a implantação e o desenvolvimento de ações para a conservação desta população a fim de evitar uma extinção local, como a registrado para espécie Alouatta belzebul no litoral norte da Paraíba. Em função disso, a Reserva Biológica Guaribas foi criada com o compromisso de repovoar a área com indivíduos da espécie (IBAMA, 2003). As primeiras reintroduções ocorreram em 1994 pelo Programa de Conservação Guaribas do Nordeste.

Diante da expansão das monoculturas de cana-de-açúcar e o desmatamento das florestas, faz-se necessário sensibilizar as gerações futuras para conservação da espécie Sapajus flavius. Considerando que a escola é um dos locais mais propícios para abordar temas como este e que a informática vem mostrando sua importância por meio de novas possibilidades de aprendizagem, se faz necessário seu uso na prática escolar. Os softwares educativos inseridos nas escolas contribuem para tais mudanças e sua utilização cresce a cada dia, tanto na área administrativa quanto na área pedagógica. Seu uso adequado promove o desenvolvimento e a organização na construção do pensamento, bem como desperta o interesse e a curiosidade dos alunos, elementos fundamentais para a construção do conhecimento (MATTEI, 2014).

Para utilizar a informática na educação, é fundamental entender suas vantagens, descobrir novas possibilidades a partir dos recursos que ela oferece para obter o máximo de aproveitamento no aprendizado. As imagens, cores, textos digitais e animações, por exemplo, atraem a atenção do usuário, trazendo uma abordagem que foge do tradicional (LACERDA, 2012). Os softwares caracterizam-se como educacionais se for possível sua inserção no contexto de ensino-aprendizagem, ou seja, mesmo não sendo desenvolvidos para a educação, um software pode assumir este papel. Dentre as modalidades de softwares educacionais existentes, destaca-se a simulação e modelagem, que possibilita a representação ou modelagem de um objeto real, de um sistema ou evento, por meio de um modelo simbólico ou representativo da realidade (PINTO; CYBIS, 2000).

Diante do exposto, foi desenvolvida uma ferramenta, denominada SOS Macaco-prego-galego, abordando, de forma lúdica, as principais ameaças à espécie Sapajus flavius, conhecida popularmente por macaco-prego-galego, visando sensibilizar aos alunos e fomentar mudança de atitudes para conservação da natureza. Assim, neste trabalho, serão apresentadas algumas telas desta ferramenta e mostrados os resultados obtidos das avaliações realizadas.

2. Metodologia

O cenário escolhido da ferramenta SOS Macaco-prego-galego foi uma representação da área da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Engenho Gargaú onde habita uma população de Sapajus flavius. A RPPN Engenho Gargaú fica localizada no município de Santa Rita, Paraíba, sendo de propriedade da empresa Japungu Agroindustrial S/A, criada em 1994. Esta reserva é uma preservação de Mata Atlântica, com extensão de 1.058,62 hectares que abriga uma elevada diversidade de espécies vegetais, logo há muitas árvores.

A área passa por estágios de regeneração da vegetação e, nesta região, predomina plantações de cana-de-açúcar (Saccharum spp.). Sabe-se da ocorrência de populações de três espécies de primatas no seu interior: o guariba-de-mãos-ruivas (Alouatta belzebul), o macaco-prego-galego (Sapajus flavius) e o sagui-do-nordeste (Callithrix jacchus) (FIALHO; GONÇALVES, 2008).

Para a criação da ferramenta, foi utilizado o software de desenvolvimento de jogos Construct 2 (SCIRRA, 2019), destinado para construção de jogos 2D orientado a eventos. O Construct 2 permite ao desenvolvedor se concentrar exclusivamente na lógica, programando condições, eventos e ações. Os elementos da interface são adicionados clicando e arrastando o objeto selecionado para o cenário. O desenvolvedor dispõe, também, de uma ferramenta de edição de imagens, o que facilita a alteração do tamanho das imagens inseridas no projeto, recorte, giro, bem como outras ações.

Outro recurso que auxilia o desenvolvimento é a opção pré-visualização, que possibilita acompanhar e testar cada alteração feita em seu projeto. A facilidade e a agilidade do Construct 2 foram fatores determinantes para a escolha do uso desta tecnologia. Para a criação do cenário e dos personagens, foi utilizada a ferramenta Adobe Illustrator cc 2016, permitindo a geração de imagens vetoriais.

Antes de projetar o enredo da ferramenta educacional, foi necessário especificar, juntamente com o especialista do domínio, os tipos de ameaça que seriam disponibilizados. Dentre as ameaças existentes, três foram escolhidas por serem pressões antrópicas presentes nos habitats onde vivem populações da espécie na Paraíba. São elas: desmatamento (perda e fragmentação do habitat), avanço das monoculturas de cana-de-açúcar e a caça. Como a ferramenta desenvolvida é do tipo simulação, os usuários interagem com as ameaças disponibilizadas e os resultados são propagados automaticamente no ambiente de forma dinâmica.

Para a avaliação da ferramenta educacional SOS Macaco-prego-galego, utilizou-se a técnica proposta por Mucchielli que consiste em analisar o potencial global do software com o público para o qual ele foi desenvolvido (ANDRES; CYBIS, 2000; SILVA, 1998). Esta técnica propõe dez critérios a serem avaliados a partir de um checklist, cujos itens estão relacionados numa escala numérica variando de 1 (avaliação negativa) até 5 (avaliação positiva). Uma breve descrição dos critérios aplicados é apresentada a seguir: 1. Avaliação das aquisições permitidas (concernentes aos elementos de conhecimento retido ou a medida das performances evolutivas, resultado dos testes de avaliações); 2. Qualidade do modelo pedagógico adotado (objetivos educacionais claros); 3. Qualidade da ideia geral do software (originalidade e interesse dos usuários); 4. Qualidade e variedade dos procedimentos de interatividade utilizadas (forma de interação com as ações); 5. Qualidade da flexibilidade do software (adaptação a variedade de respostas); 6. Natureza e qualidade das ajudas (recurso para auxiliar o usuário no seu uso); 7. Grau de flexibilidade software (facilidade do usuário de retornar de onde parou); 8. Qualidade das telas (harmonia na apresentação dos conteúdos); 9. Qualidade do documento de acompanhamento (documentação de como usar); 10. Avaliação contínua do produto (evoluções). O resultado da aplicação desta técnica é, basicamente, uma média simples dos valores atribuídos pelos avaliadores para cada critério.

3. Resultados e discussão

Nesta seção serão apresentadas algumas telas da ferramenta desenvolvida e os resultados obtidos pela avaliação. Ao iniciar a ferramenta SOS Macaco-prego-galego, o usuário se depara com duas opções: “JOGAR” e “SAIBA MAIS”, conforme mostra a Figura 1.

Figura 1: Tela Inicial da Ferramenta SOS Macaco-prego-galego.



Ao clicar na opção “JOGAR”, o usuário visualizará o cenário principal do ambiente, que consiste em uma representação da Mata Atlântica, uma população de Sapajus flavius (com seu contador de indivíduos localizado no canto superior direito) e as ameaças desmatamento, monocultura de cana-de-açúcar e caça (localizadas na parte superior). Para executar as ameaças desmatamento e monocultura de cana-de-açúcar, o usuário pode aumentar (botão “+”) ou diminuir (botão “-”) a quantidade de áreas desmatadas e de monocultura, respectivamente. A ameaça caça, por sua vez, somente poderá ser acionada quando houver diversas áreas com plantações de cana-de-açúcar e uma estrada de acesso ao fragmento de mata e ao canavial.

Na Figura 2, por exemplo, é possível visualizar uma situação em que já houve desmatamento, plantação de cana-de-açúcar (lado esquerdo) e tamanho reduzido da população Sapajus flavius (4). Caso a população de Sapajus flavius diminua, uma mensagem de sensibilização será apresentada e, também, uma orientação de como reverter o cenário, que é por meio do reflorestamento.



Figura 2: Cenário Principal da Ferramenta SOS Macaco-prego-galego.



Por outro lado, caso o usuário clique na opção “SAIBA MAIS”, este terá acesso a diversas informações sobre a espécie, tais como características morfológicas, a classificação de conservação e tempo de vida. Através desta tela, o aluno pode aprender mais sobre a espécie em questão, principalmente, conhecendo informações sobre peso, comprimento e pelo de animais machos e fêmeas, como apresentado na Figura 3.