ISSN 1678-0701
Número 70, Ano XVIII.
Março-Maio/2020.
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Relatos de Experiências

No. 70 - 20/03/2020
PROCESSO EDUCATIVO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL: O USO DA MANDALA SENSORIAL COMO FERRAMENTA DE ENSINO COM ALUNOS ESPECIAIS  
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PROCESSO EDUCATIVO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL: O USO DA MANDALA SENSORIAL COMO FERRAMENTA DE ENSINO COM ALUNOS ESPECIAIS



Carla Marins Santos Santana Viana1, Jonas Jacir Minuzzo2 Bruna Schneider Guimarães3, Eduardo Verdi Scabeni3, Henrique Minikowski3 Anelize Queiroz Amaral4, Daniela Macedo de Lima4





1Discente de Engenharia Florestal – Bacharelado, bolsista PIBIS, Fundação

Araucária, Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Câmpus Dois Vizinhos

(UTFPR-DV), santosclarice323@gmail.com

2Discente de Ciências Biológicas – Licenciatura, UTFPR-DV, jminuzzo@hotmail.com

3Discente de Agronomia – Bacharelado, bolsista PIBIS, Fundação Araucária, UTFPR-DV, bruna_guimaraes_@hotmail.com

3Discente de Agronomia – Bacharelado, UTFPR-DV, eduardo.scabeni@hotmail.com

3Discente de Agronomia – Bacharelado, UTFPR-DV, minikowski01@gmail.com

4Docente de Ciências Biológicas – Licenciatura, UTFPR-DV, anelizeamaral@utfpr.edu.br

4Docente de Ciências Biológicas – Licenciatura, UTFPR-DV, danielamlima@utfpr.edu.br



Resumo: A construção da Mandala Sensorial na Universidade foi uma alternativa para que processos educativos de Educação Ambiental fossem realizados no Câmpus e mais do que isso, para que tais processos passassem a ser um elo entre a Universidade e a comunidade local. Assim, o projeto Mandala Sensorial foi desenvolvido na Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Câmpus Dois Vizinhos com o objetivo de desenvolver conhecimentos relacionados à temática ambiental, especificamente com pessoas que possuem necessidades especiais, envolvendo vários tipos de deficiência. Portanto, as ações realizadas envolveram várias maneiras de condução respeitando as peculiaridades de cada indivíduo, utilizando-se diferentes formas de sensibilização, paladar, audição e principalmente tato e olfato. Assim avaliou-se que a melhor forma de levantamento de dados seria a avaliação qualitativa, levantando informações por meio de entrevista sobre a opinião relacionada ao trabalho realizado. Os dados demonstraram um grande interesse e envolvimento dos alunos especiais da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – APAE com as práticas realizadas, proporcionando a eles novas ideias e visões do meio em que vivem, entendendo as relações solo-planta-água-ar e luz e principalmente plantas-pessoas, efetivando a compreensão da dinâmica da natureza e a importância para todos de repensar a nossa relação com ela.

Palavras-chave: Educação Ambiental. Inclusão Social. Plantas Sensoriais.

Abstract: The construction of the Sensory Mandala at the University was an alternative for educational processes of Environmental Education to be carried out in the Câmpus and more than that, so that these processes became a link between the University and the local community. Thus, the Sensory Mandala project was developed at the Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Câmpus Dois Vizinhos with the objective of developing knowledge related to environmental issues, specifically with people with special needs, involving various types of disabilities. Therefore, the actions carried out involved several ways of conducting respecting the peculiarities of each individual, using different forms of sensitization, taste, hearing and mainly touch and smell. Thus, it was evaluated that the best way to collect data would be the qualitative evaluation, raising information through an interview about the opinion related to the work performed. The data showed a great interest and involvement of the APAE special students with the practices carried out, giving them new ideas and visions of the environment in which they live, understanding the soil-plant-water-air and light relationships and especially plants-people, the understanding of the dynamics of nature and the importance for all of rethinking our relationship with nature.

Keywords: Environmental Education. Social inclusion. Sensory Plants.

Introdução



A Educação Ambiental se apresenta como um processo educativo baseado em uma infinidade de ferramentas para sensibilizar a sociedade sobre questões relacionadas ao meio ambiente e sobretudo sobre o nosso atual modelo de relação sociedade-natureza, que vêm provocando diversas injustiças e crimes socioambientais por ações antrópicas.

Pode-se dizer que na década de 1960 com a intensificação dos impactos ambientais, consolidaram-se, também, os movimentos ambientalistas, alertando para os efeitos da globalização, principalmente desaparecimento de espécies e aumento da população, época essa dotada de diversos trabalhos e ações ambientalistas com grande reverberação na sociedade (POTT; ESTRELA, 2017, p. 272).

Segundo Layrargues e Lima (2014, p. 27) os danos causados ao ambiente eram tratados por integrantes da sociedade capitalista, como efeitos colaterais gerados por implantação de projetos inevitáveis, utilização de produtos e novas tecnologias, dentre outros.

Apesar de existirem diversos movimentos ambientalistas, até os anos 1970 diversas lutas e conflitos ocorreram para que esses pudessem ser ouvidos e muitas dessas tentativas foram frustradas e marcadas por um período de ditadura militar no Brasil. Foi somente ao final da década de 1970 que diversos ambientalistas e pesquisadores do campo ganharam força, iniciando a realização de conferências mundiais, marcada pela Primeira Conferência das Nações Unidas sobre meio Ambiente, em Estocolmo, 1972 (GRÜN, 2012, p.17; POTT; ESTRELA, 2017, p. 273).

No Brasil essa abertura aconteceu somente nos anos de 1990 após uma abertura política ao final da ditadura militar, porém, o quadro continua sendo de intensas buscas e movimentos de reflexão acerca desse campo.

Dessa forma, os processos educativos relacionados à Educação Ambiental são de extrema importância para realização de ações no campo da Educação, incluindo a diversidade, para formações de diferentes pessoas, como, por exemplo, aquelas que possuem necessidades especiais (MOHR et al., 2012, p. 22).

Com a responsabilidade de incluir as pessoas com algum tipo de deficiência física ou intelectual, pais e educadores têm articulado algumas ações com o intuito de favorecer o pleno desenvolvimento e o acesso as diversas reflexões propostas por esse tema para tais pessoas, que desde as primeiras interações sociais da humanidade sofrem com a marginalização, esquecimento e discriminação.

Salientando aqui, que não é responsabilidade apenas do estado garantir a inclusão e formular políticas públicas que garantam o bem-estar, igualdade, justiça e o pleno desenvolvimento destes cidadãos, mas sim algo que compete a toda a sociedade e que, segundo os seus valores, há de se organizar afim de garantir relações mais fraternas pluralistas e sem preconceitos (MOHR et al. 2012, p. 29).

Além da responsabilidade social da inclusão de pessoas com necessidades especiais, é necessário abordar os temas ambientais em todas as áreas da Educação, uma vez que essa temática deve ser tratada de forma interdisciplinar e em todos os níveis de ensino.

No processo de inclusão social é imprescindível a participação de universidades contribuindo com novas alternativas, para auxiliar no desenvolvimento de pessoas com necessidades especiais. Para Mohr et al. (2012, p. 47) “à medida que a pessoa convive com as demais, passa a encontrar valores, traçar metas e encontrar perspectivas que podem fazer, de cada dia, um período em que qualquer diferença é superada”.

De acordo com Figueiredo (2013, p. 468) o contato com a natureza influencia na construção de mais valores e ações a favor do meio ambiente, o nosso lugar comum. Dentro desse contexto, a Mandala Sensorial atua como uma ferramenta de ensino importante para transpor o conhecimento de uma maneira diferenciada da usual em sala de aula.

Assim sendo, a Mandala é considerada uma horta em formato circular que visa um melhor aproveitamento do solo e da água para a irrigação, onde as espécies estarão dispostas conforme as suas necessidades e afinidades, esta não serve, apenas, para a produção de condimentos e plantas medicinais, mas vem para fazer uma integração da sociedade com a universidade, uma vez que pode-se desenvolver várias práticas didáticas e conhecimentos acerca do solo, água, energia solar, crescimento vegetal, ciclo de vida das plantas, interações entre as espécies, produção e benefícios relacionados ao uso de cada espécie.

Segundo Cunha (2014, p. 39),

A implantação de hortas didáticas é uma forma de se trabalhar diversas atividades pedagógicas de Educação Ambiental, sendo um laboratório vivo que auxilia não só no contexto ambiental como no ensino como um todo”, sendo uma forma de passar o conhecimento teórico na prática e promover maior integração social.

Dessa forma, o trabalho teve por objetivo utilizar a Mandala Sensorial como ferramenta de ensino para o desenvolvimento de ações de Educação Ambiental e Inclusão Social no ambiente Universitário, juntamente com a comunidade.



Material e Métodos



Considerando as questões e os objetivos propostos nesse projeto, concluiu-se que a perspectiva da abordagem qualitativa de pesquisa é a que mais atenderia aos nossos interesses. Para o embasamento teórico, buscou-se auxilio em autores como Lüdke e André (2012, p. 12), Denzin e Lincoln (2006, p. 20), Gibbs (2009, p. 118), Devechi e Trevisan (2010, p. 150), entre outros.



Abordagem de pesquisa qualitativa



O princípio da abordagem de pesquisa qualitativa possibilita compreender e aproximar do contexto das pessoas com relação a pesquisa. No caso dessa pesquisa, as informações adquiridas não podem ser quantificadas e avaliadas numericamente e coletas de forma escrita por se tratar de pessoas com necessidades especiais.

Para tanto, com auxílio de um instrumento de coleta de dados, a pesquisa foi realizada por meio de entrevistas que buscaram entender conceitos e vivências dos entrevistados, seguidas de uma análise qualitativa das respostas de cada indivíduo.

O entendimento do discurso de cada entrevistado é um processo importante, pois não se pode quantificar ou medi-lo e sim compreender o significado do contexto do discurso e usar este entendimento para alimentar a pesquisa em questão.

Nesse sentido, a Mandala Sensorial desenvolveu papel fundamental para abordar o processo de investigação qualitativa dessa pesquisa ao despertar diversas compreensões relacionadas à temática ambiental e a Educação Ambiental por meio de um processo educativo.

Assim sendo, optou-se pelos princípios da abordagem qualitativa de pesquisa para o desenvolvimento da investigação, essa, que na concepção de Denzin e Lincoln (2006, p. 20), se define:

A pesquisa qualitativa, como um conjunto de atividades interpretativas [...] implica uma ênfase sobre as qualidades das entidades e sobre os processos e os significados que não são examinados ou medidos experimentalmente (se é que são medidos de alguma forma) em termos de quantidade, volume, intensidade ou frequência (DENZIN; LINCOLN, 2006, p. 20).

Portanto, para poder usá-la, é necessário, primeiramente, conhecer os propósitos dessa abordagem de pesquisa.



Procedimento de pesquisa



Com a finalidade de alcançar os objetivos propostos, primeiramente foi planejada e realizada a construção da Mandala Sensorial, localizada na Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Câmpus Dois Vizinhos que contou com o apoio da comunidade acadêmica de forma interdisciplinar. Essa ação foi um projeto relacionado à Sala Verde Nas Ondas do Rio Iguaçu Esse projeto é uma chancela do Ministério do Meio Ambiente concedida a Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Câmpus Dois Vizinhos desde o ano de 2013. Nos anos de 2018 e 2019 o presente projeto recebeu o Selo Sesi dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Para a realização da construção a princípio foi efetuada limpeza do local, retirada da vegetação e a demarcação da área pelo Departamento de Serviços Gerais – DESEG e por estudantes dos cursos de graduação. Para a construção em si foi executada uma ação em conjunto com os alunos integrantes da Sala Verde e dos diversos Grupos de Programa de Educação Tutorial - PET do Câmpus (Conexão de saberes – Agricultura Familiar, Engenharia Florestal, Zootecnia e Produção Leiteira). Em seguida, foram montados os canteiros em formato circular utilizando blocos de meio fio cedidos pela Direção Geral do Câmpus (Figura 1). Para o preenchimento dos canteiros foi utilizado solo da Unidade de Ensino e Pesquisa (UNEPE) Compostagem e foram recebidas diversas espécies de mudas doadas por outras Universidades, como a Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNIOESTE) - Câmpus Marechal Cândido Rondon e Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Câmpus Santa Helena. Além disso, mudas de várias espécies foram produzidas por estaquia em casa-de-sombra da UNEPE Viveiro Florestal do próprio Câmpus. As plantas foram cultivadas em casa de sombra até atingir o tamanho necessário para serem transplantadas para os canteiros da Mandala.

Com a intenção de favorecer o acesso de pessoas com necessidades especiais, os canteiros foram dispostos com corredores espaçados em 110 cm de largura, principalmente para facilitar o acesso a cadeirantes, um dos objetivos do Projeto. Para o plantio, foram utilizadas plantas medicinais como a hortelã (Mentha suaveolens Ehrh.), hortelã pimenta (Mentha piperita L.), hortelã de leite (Mentha spicata L.), melissa (Melissa officinalis L.), capim limão (Cymbopogon citratus Stapf), lavanda (Lavandula spp), orégano (Origanum vulgare L.), penicilina (Alternanthera brasiliana (L.) Kuntze), alecrim (Rosmarinus officinalis L.), boldo (Peumus boldus Molina), babosa (Aloe vera L.), manjericão (Ocimum basilicum L.), ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata Miller), erva-cidreira (Lippia alba (Mill.) N.E. Br. ex P. Wilson), mil-folhas (Achillea millefolium L.), aranto (Kalanchoe daigremontiana Cambess), kalanchoe (Kalanchoe blossfeldiana Poelln), espinheira-santa (Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek) e guaco (Mikania glomerata Spreng) (VILLAVERDE, J. M et al, p. 22, 2013; VÁSQUEZ; MENDONÇA; NODA, p. 461, 2014; ALVES, J. J. P. et al, p. 143, 2015).

No dia 12 de novembro de 2018 aconteceu uma primeira ação na UTFPR-DV desenvolvida pelos acadêmicos da disciplina de Educação Ambiental do Curso de Ciências Biológicas do Câmpus, incluindo alunos dos cursos de Agronomia e Engenharia Florestal, acompanhados por professores e participantes do Projeto Sala Verde. Nesse momento da disciplina, os alunos passaram a desenvolver os projetos que foram elaborados no decorrer do semestre.



Figura 1 – 1A. Limpeza e construção da Mandala; 1B. Preenchimento dos canteiros e plantio das mudas.

Fonte: Equipe de Educomunicação da Sala Verde, 2018.



Nessa etapa do projeto, realizou-se um movimento de aproximação com a comunidade que nesse caso foi uma parceria com a Direção, professores e alunos da APAE (Associação de Pais e Amigos de Excepcionais), no sentido de possibilitar que alunos realizassem uma visita técnica ao espaço da universidade para desenvolver processos educativos de Educação Ambiental e inclusão na Mandala Sensorial, juntamente com os estudantes de graduação.

Em um primeiro momento foi realizada a recepção dos alunos e, em uma roda de conversa ocorreu uma breve introdução sobre as atividades que seriam desenvolvidas durante a tarde, incluindo os objetivos do projeto Sala Verde e Mandala Sensorial. Nesse contexto, foram considerados assuntos como a injustiça socioambiental, a desvalorização das classes de baixa renda, principalmente os catadores de resíduos que são menos valorizados tanto pela falta de consideração da sociedade na hora do processo de separação e descarte dos resíduos, como pelo baixo salário pago aos mesmo e a falta de subsidio que recebem, pois atuam em ambientes com alto risco de vida e em condições precárias (Figura 2A).

Em seguida a Mandala foi apresentada aos visitantes e cada acadêmico do grupo comentou sobre um dos fatores essenciais para a sobrevivência das plantas, mais conhecidos como fatores externos, referentes a água, luz, nutrientes, temperatura, umidade, entre outros. Estes, são um conjunto de fatores que atuam diretamente no crescimento, desenvolvimento, vitalidade e saúde das plantas, e a escassez de um dos fatores citados, ou a deficiência dos nutrientes, podem acarretar estresse nas plantas, e torná-las, mais vulneráveis a pragas e doenças, podendo levar o indivíduo a morte.

Também foi mencionada a importância da irrigação diária das plantas e recomendado o período da manhã ou o final da tarde para realizar as irrigações diárias. Esses horários são recomendados principalmente para evitar perdas de água das plantas para atmosfera, por excesso de transpiração nos períodos de intenso calor. Dessa forma é necessário ter cuidado com a falta de irrigação que pode acarretar déficit hídrico, e também com o excesso de irrigação, pois não é interessante, e pode acarretar morte de alguns indivíduos pela falta de oxigenação nas raízes, possibilitando o surgimento de fungos.

Figura 2 – 2A. Apresentação da Mandala e introdução sobre as atividades a serem realizadas. 2B. Introdução sobre importância da Mandala.

Fonte: Equipe de Educomunicação da Sala Verde, 2018.



As falas abordaram a importância das plantas, principalmente daquelas com propriedades medicinais, que foram trabalhadas no ambiente da Mandala, especialmente pelas características que as mesmas apresentam e pelos inúmeros benefícios que trazem a saúde, tendo diversas finalidades terapêuticas, incluindo a produção de medicamentos e ainda, por muitas serem utilizadas economicamente como condimentos in natura e/ou desidratados, entre outros.

No segundo momento, novamente na roda de conversa, as professoras e os estudantes da UTFPR apresentaram várias espécies de plantas aromáticas aos visitantes, explanando sobre as propriedades medicinais e o uso de cada uma delas, dando um enfoque nas características sensoriais como aromas, sabores e características das folhas que poderiam ser percebidas pelo tato e olfato (Figura 3A e 3B). Posteriormente, os alunos da APAE foram novamente levados até a Mandala Sensorial, aos diferentes canteiros para o plantio de mudas que foi efetuado por eles mesmos, momento esse que permitiu o contato direto com o solo e com as plantas (Figura 3C e 3D).



Figura 3 – 3A e 3B. Percepção sensorial das características das plantas por meio da visão, tato e olfato; 3C e 3D. Plantio de espécies medicinais realizado pelos visitantes na Mandala Sensorial.

Fonte: Equipe de Educomunicação da Sala Verde, 2018.



Em um terceiro momento, foram realizadas as entrevistas com os alunos da APAE para a coleta de dados. Em relação ao instrumento de coleta de dados (questionário), as perguntas elaboradas para serem utilizadas nas entrevistas, foram utilizadas para investigar o entendimento que os alunos possuíam, após o contato com a Mandala Sensorial e o processo de Educação Ambiental, sendo elas:

Você já participou de alguma ação de Educação Ambiental? Conte-me.

Comente sobre o que você achou do projeto?

O que você mais gostou na Mandala? Se não gostou comente o porquê.

Comente brevemente qual sua sensação de estar presente na Mandala Sensorial?

O que você acha que pode ser feito para melhorar a Mandala?

Num quarto momento, os visitantes foram divididos em dois grupos e foram realizadas duas dinâmicas de grupo denominadas, “Teia da vida” e “Andando sobre a copa das árvores”, ambas do autor Genebaldo Freire Dias (2010, p. 58) (Figura 4A). No decorrer dessas atividades foram feitos questionamentos, levando os alunos a uma reflexão sobre a importância da conexão com a natureza, a qual resultou em intensa participação nessas atividades propostas. E para findar a tarde de atividades foi realizada uma roda de conversa sobre os temas apresentados e abordados e apresentação da música “Tocando em frente”, do cantor Almir Sater, que nos leva à reflexão sobre a vida e viver é uma aprendizagem, fruto da observação atenta as alegrias e sofrimentos pelos quais passamos, mas que também temos o dom e a capacidade de construir a nossa história e assim podemos nos tornar mais fortes e ser mais felizes (SABER CEEC, 2012) (Figura 4B).



Figura 4 - 4A. Dinâmica Andando sobre a copa das árvores; 4B. Encerramento das atividades com música ao som do violão.

Fonte: Equipe de Educomunicação da Sala Verde, 2018.



Resultados e discussão



Com a construção da Mandala Sensorial, a UTFPR-DV ganhou um novo espaço para a realização de processos educativos interdisciplinares, um local onde os sentidos como olfato, tato e visão são melhor explorados, local de aprendizagem sobre como tratamos a natureza e como ela nos responde, bem como sobre os cuidados necessários para preparar o solo e para que cada espécie encontre sua melhor forma de sobrevivência. As espécies foram selecionadas por serem sensoriais ou aromáticas, por apresentarem diversidade de formas e cores de suas folhas e caule, além dos seus aromas agradáveis e propriedades medicinais.

O trabalho teve um caráter crítico, abordando questões sobre como devemos cuidar da natureza, dos fatores de importância para o cultivo de plantas e promover uma reflexão sobre o atual modelo de relação sociedade-natureza.

A realização do trabalho teve vários pontos positivos, primeiramente pela inserção de alunos de vários cursos na atividade promovendo a troca de conhecimentos de forma interdisciplinar, entre Agronomia, Engenharia Florestal e Ciências Biológicas, possibilitando uma construção dinâmica de várias áreas do conhecimento e uma relação com membros da comunidade acadêmica, entre eles Departamento de Serviços Gerais e Técnicos administrativos. A implantação do projeto Mandala Sensorial se tornou possível devido ao espírito de cooperação, persistência e colaboração para atingir os objetivos traçados, uma vez que exigiu muito empenho e dedicação de acadêmicos, professores e servidores em geral.

As perguntas realizadas durante as entevistas foram variadas não havendo a possibilidade de ser seguido um padrão, devido à diversidade do grupo, pois cada um dos visitantes da APAE apresentava algum tipo de limitação, visual, auditiva, motora, síndrome de Down, dentre outras.

O trabalho mostrou que os alunos já participaram de atividades de Educação Ambiental na APAE de Dois Vizinhos, mostrando o comprometimento desse campo da Educação com a inclusão desses alunos e a reflexão em relação às questões ambientais. Dessa forma, percebeu-se que é fundamental que haja a inclusão de pessoas com deficiência em atividades relacionadas à natureza (Figura 5), como a realização de atividades físicas, recreação e a contemplação da natureza com técnicas adequadas com as adaptadas à diversidade de deficiências que existem (MACIEL, 2015, p. 5).

Figura 5 – Acadêmico da UTFPR mostrando uma das espécies de plantas medicinais ao visitante da APAE.

Fonte: Equipe de Educomunicação da Sala Verde, 2018.

Para melhor compreensão do alcance desse projeto, questionamos por meio de entrevista uma aluna envolvida no processo educativo realizado, sobre como ela se sentiu participando dele. A fala da entrevistada é apresentada a seguir:

Muito bom para o espaço de vocês né e para nós foi um aprendizado a mais para nós sermos, por que a gente não é diariamente. Ambiente puro, amigos, com as amizades né, com todos”.

Observamos que apesar da limitação, isso não interfere em absolutamente nada, às vezes percebe-se a falta de ordem em algumas palavras, mas entendemos o quão profundo é o sentido dessa resposta quando diz: “por que a gente não é diariamente”, além de demonstrar o quanto se sentiu acolhida e a alegria que sentiu em poder fazer outras amizades e vivenciar outros ambientes.

Outro exemplo que pode ser destacado foi a fala de um aluno com deficiência visual, conforme segue:

Foi gostoso, foi bem legal para gente conhecer, como é de um lugar do outro”.

Apesar da limitação visual, esse aluno participou de todas as atividades propostas, foi um dos primeiros a querer fazer o plantio das mudas e ainda participou da rega das plantas (Figura 6).