ISSN 1678-0701
Número 70, Ano XVIII.
Março-Maio/2020.
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Entrevistas

No. 70 - 20/03/2020
ENTREVISTA COM DANIELA PEREIRA BRAUNER PARA A 70ª EDIÇÃO DA REVISTA VIRTUAL EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AÇÃO – Por Bere Adams  
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ENTREVISTA COM DANIELA PEREIRA BRAUNER PARA A 70ª EDIÇÃO DA REVISTA VIRTUAL EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AÇÃO – Por Bere Adams

Entrevistada: Daniela Pereira Brauner

Apresentação – A entrevistada desta edição é Daniela Pereira Brauner, ativista e ambientalista que atua na área da comunicação há muito tempo. Trabalhou no maior jornal de circulação do Estado de Santa Catarina, o Diário Catarinense - DC, e vive no meio do mato há 18 anos. Fundou a Editora Raízes em São Bonifácio (SC), e edita o Jornal da cidade, hoje veiculado pela Internet. É em São Bonifácio que ela desenvolve diversas atividades relacionadas com questões ambientais e fomenta a atividade de Ecoturismo, sendo ela mesma, condutora de trilhas. Sonha em ver os jovens retornando ao ambiente rural com oportunidades de emprego e renda na área do ecoturismo. Atua, também, na área da Educação Ambiental, unindo estas duas paixões, o ecoturismo e a comunicação social. Foi convidada a dar oficinas de mídias na Escola Estadual de São Bonifácio, EEB São Tarcísio. Destas oficinas surge a revista “Mais Educação“. Administra o Sítio AmanheSER e foi lá que tive o prazer de conhecê-la e de vivenciar, de forma intensa, um pouco do que tanto se “prega” para termos uma vida equilibrada: conectar-se de corpo e alma à natureza, para vivermos mais próximo da nossa essência. Vamos conhecer um pouco mais da sua trajetória?

Bere – Daniela, é uma grande satisfação tê-la como entrevistada desta edição e agradecemos muito por aceitar o nosso convite. Inicio te perguntando: Como surgiu o interesse pelo meio ambiente e como foi esta mudança de ir morar no meio da mata, em São Bonifácio/SC?

 Daniela – Acho que já nasci bicho do mato! Adorava estar os meus avós paternos que viviam em uma casa muito simples perto da fronteira com o Chuy e a Reserva do Taim. Mesmo ainda muito pequena, já entendia no âmago e a importância das “reservas naturais”. Vivi momentos intensos lá naqueles descampados, os pampas, onde sopra forte o vento minuano, entre as histórias, contadas á luz de velas, por minha avó Haydée (não havia luz elétrica naquela época). Eu preferia estar com eles no campo, do que na praia! Aquela horta mágica, cheia de morangos e folhas em mil tons de verde. As galinhas adoradas de minha avó, e toda esta poesia no ar. Acordar cedo com cheiro de café feito no fogão a lenha, o frio congelante do sul do meu país, pão feito em casa, minha avó sempre feliz cantado na cozinha e a noite bebericando um vinho com meu avô. Ficávamos na cozinha, com o fogão crepitante, cantando a música que só o fogo faz, e com uma lamparina a querosene. O rádio ligado na Hora do Brasil. Depois disto, ouvia histórias embaixo do cobertor de penas e dormir mais cedo ainda. Acho que ninguém entendia este meu amor pela natureza, mas minha avó sim! Ela teve três filhos, guerreiros, meu pai e meu tio, foram estudar na cidade, meu pai formou-se em Agronomia e meu tio Odontologia, o irmão mais novo, quis seguir no campo e plantou arroz por anos. Sinto orgulho deles três, “venceram” as adversidades, e as distâncias entre a cidade e o rural. Acho que ser filha de um homem criado na área rural e que escolheu estudar agronomia, também diz muito. Todos amam jardins na minha família. As casas onde morei com meus pais eram cheias de plantas, e boa parte do tempo de meus pais, era gasto cuidando dos jardins.

Bere – Você teve uma infância linda e muito privilegiada no que se refere à conexão com uma vida integrada ao ambiente. No seu relato percebe-se uma sensibilidade à flor da pele. E depois?

Daniela – Aos 19 anos fui viver o contraponto disso, queria correr mundo, e conhecer o “berço da civilização“, o velho Mundo. Cheguei em Londres em junho no ano de 1987. Aí conheci o pai de meu primeiro filho e voltamos ao Brasil juntos, diretamente para Maceió/nordeste. Eu, depois de viver na grande metrópole e cosmopolita, Londres, só reafirmei minha sede e fome pela natureza, estava claro, que não era pra mim, aquele mundo de corre-corre. Eu não conseguia achar sentido. Foi no nordeste, em 90, que nasceu Yuri, meu filho adorado. Naquela época eu me envolvi com a luta dos colonos sem terra - não existia ainda o MST. E no nordeste entendi o que significa fome e desolação que a seca promove. Foi duro conhecer este lado do meu país. O abandono, a sede. Com um filho de dois anos nos braços, e amedrontada com a consciência do perigo em envolver-me com questões tão antigas e arraigadas deste país - e ainda o poderio do coronealismo, voltei pro RS com Yuri. Foi quando fundei a Editora 7. Por mais 8 anos tentei conviver entre as máscaras impostas para viver-se “em harmonia” em sociedade, uma coisa quase impossível para mim - já que as máscaras me asfixiam, sou claustrofóbica. Novamente corri em direção ao mato, e quando Yuri tinha 7 anos, em 97, aportei na ilha da magia, Floripa. Aí ficamos por mais 7 anos, e, de novo o jornal se apresenta no meu caminho, e, de novo, se apresentaram as velhas lutas sociais. Fundamos uma ONG, Sociedade Civil Amanhecer. Amanhecer em homenagem ao “despertar da consciência ambiental”. Fui eleita presidente e logo em seguida, catapultada para a Agenda 21 (ONU).

Bere – E como foi esta experiência com a ONG?

Daniela – Por 5 anos participei com uma cadeira na organização dos Fóruns mensais da Agenda 21 e, cedida pelo DC - meu emprego na época - ficava todas as quintas-feiras na FLORAM – Fundação do Meio Ambiente de Florianópolis. Acumulei mais uma incumbência, o de assessora de Imprensa da Agenda 21/Local. E assim, por 5 anos, lutamos por um pouco mais de sustentabilidade e planejamento, para esta ilha tão frágil, mas perdemos para a exploração imobiliária sem limite. Então, cansada de tantas buscas e de tanto procurar por soluções a este mundo, desiludida da humanidade e com mais um filho a caminho, resolvi abandonar tudo para alcançar a minha paz interior e fazer, na prática, o que tanto se discursa por aí.

Bere - Não deve ter sido nada fácil para você tomar esta atitude, porém, você fez o que muitos gostariam de fazer e não o fazem por falta de coragem. E sem dúvida, esta sua coragem vem do seu propósito maior que é o de viver uma vida com sentido, com significado, independente do que teve que abrir mão para isto. Então, como foi este encontro com a paz?

Daniela – Quando Téo estava com 3 meses de vida adquiri uma pequena casa,por um preço muito em conta, em uma pequena chácara, e foi lá, nesta casinha mágica, com um riachinho doce no quintal, que encontramos a paz e a liberdade. Eu já não suportava mais pagar aluguéis altíssimos e supervalorados. Neste pequeno paraíso, uma ilha, no meio do nada, ou melhor, no meio de tudo e de todo o verde que se possa imaginar, nasceu Violeta. E com meus três filhos, iniciamos outra grande aventura. Yuri, aos 15 anos foi viver com seus avós na ilha para estudar e eu fiquei com Téo e Violeta, quando tinham dois e três anos respectivamente. Senti-me forte para seguir para um lugar mais “selvagem”, com menos acesso e, de verdade, fazer a minha busca. Encontrei um sítio, com 90% de floresta e nele, com pouquíssimos recursos, vindos do sítio que vendi, construí uma cabana de 24 metros quadrados no meio do mato. Foi nesta etapa que me separei de um casamento abusivo e assumi 4 hectares de mata com duas nascentes de águas cristalinas e dois filhos pequenos, sozinha. Foi quando me encontrei e foi este lugar que chamei e sigo chamando de casa. E tudo isto só foi possível graças ao apoio do Sr. Lucindo, que foi o único que aceitou o desafio de construir aqui no alto da montanha. Aproveito para agradecer muito a ele, que colocou a mão na massa, que construiu as cabanas, que ajudou a trazer todo material quando os caminhões não conseguiam subir (que ainda me ajuda muito cuidando do Sítio) e graças a ele, estamos aqui.

Os irmãos no sítio, Yuri e Téo.

Bere - Daniela, eu e o Pedro sentimos na pele o quão acolhedor e cheio de paz é este lugar. Percebo os reflexos deste período de imersão que vivenciamos aí até hoje, e sempre que sinto algum aperto, me “transporto” para o Sítio AmanheSER. A paz mora na simplicidade! E nesta trajetória, como surgiu a ideia de disponibilizar este espaço para que mais pessoas pudessem dele usufruir?

Daniela - Hoje Téo tem 18 anos e Violeta 17. Yuri faz 30 anos este ano. E ano passado, uma pessoa muito especial, chamada Fernanda Lena, uma brasileira que vive a 30 anos na Austrália, acompanhou um pouco desta aventura pela minha conta no Facebook e veio ao Brasil em 2018, para me doar uma quantia em dinheiro, para que eu pudesse investir neste projeto de preservação ambiental, abrindo minha porteira a visitantes, conectados a esta causa e com estes aportes, cobrados em forma de aluguel, poder seguir protegendo este bioma\mata atlântica e tudo que aí viceja, principalmente meus bugios. Fernanda me deu - além de condições financeiras para reformar a cabaninha e alugar, porque verdade seja dita, sem dinheiro, nada feito! Apoio moral é bom, mas infelizmente, sem recursos e sem apoio financeiro impossível - Fernanda me deu a firmeza para avançar um pouco mais neste caminho. Foi ela quem me disse que meu projeto é lúcido, e que meu sonho é uma realidade urgente deste planeta. Com este recurso, reformei um pouco a cabaninha e coloquei para alugar no Airbnb. Foi assim que tive o imenso prazer de receber você, Bere, e seu companheiro, pessoas incríveis que entenderam rapidamente a intenção e mimetizaram-se á floresta. Hoje, com apoio de alguns amigos que acreditaram em mim, minha família e principalmente meus filhos, meus grandes parceiros de jornada, seguimos desbravando e cada vez mais firmes nesta trilha!

 Bere – Você definiu exatamente o que vivenciamos, uma integração plena, uma conexão com toda mata que nos envolvia, nós nos mimetizamos, sim, que lindo! (Sem dúvida, pretendemos voltar!) E hoje, depois de toda esta caminhada, qual é a sensação, valeu a pena?

 Daniela – A sensação é de paz. De entender que palavras bonitas, toda teoria, toda a reza, toda pesquisa científica e tantos palavrórios, de nada servem, se não houver Ação. Eu costumo dizer que vivo em ORAção, que vivo em um templo e que é neste templo que ajoelho e rezo. Discursos já não me emocionam mais. Como dizem por aí, o inferno está cheio de boas intenções. E sim, valeram todas as penas, as chuvas torrenciais que nos ilhavam na montanha por dias. As noites em claro e muitas vezes sem luz elétrica, cuidando duas crianças com febre, sozinha, e sem comunicação com o mundo. Valeu a pena, porque aprendi a curar meus filhos com as plantas, com a imposição de mãos, com puro amor. Aprendi a ter humildade a “descer do salto”. Porque, de verdade, quem manda é a mãe natureza.

 Bere – Você e sua trajetória é um verdadeiro exemplo, e daí veio o motivo de convidá-la para esta entrevista, para que mais pessoas possam se encorajar, “descer do salto” e partir para a ação, pois as palavras são sim, importantes, mas não mais que as ações, pois são as ações que promovem as mudanças tão necessárias para a construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna, e integrada com a mãe natureza!Você transformou a sua propriedade em uma área de reserva legal. Conte-nos como foi este processo e por que isto é importante no que se refere às questões ambientais.

 Daniela – Sim, eu transformei uma parte da minha pequena propriedade em Reserva Legal. Tive a sorte de conhecer Gilberto Pitz, engenheiro ambiental, que me orientou como fazer tudo “direitinho” em relação a este bioma tão frágil que é a Mata Atlântica. Até hoje agradeço muito a ele por tantos ensinamentos poderosos. E o processo é lento, com muita burocracia para documentar uma área rural, além de custoso. Os governos ainda não entenderam a importância em apoiar iniciativas privadas, como esta, no caso. Eu estou aqui pra “plantar água “, por mais que isso ainda não seja reconhecido ou valorizado.

 Bere – Mas você mostrou que sim, que é possível enfrentar – e continuar enfrentando - as burocracias, a falta de apoio, a falta de valorização para seguir a sua determinação de viver em harmonia com a mãe natureza, o que para muitos é uma utopia, para ti é uma realidade. Hoje seus filhos estão crescidos. De que forma você acha que crescer neste espaço natural impactou na vida deles, já que cresceram com muito mais contato com a natureza do que a maioria das crianças que vivem em áreas urbanas. As influências deste ambiente são palpáveis?

 Daniela – Sim são palpáveis. Os 3 são extremamente calmos e contemplativos, Seres preparados para adversidades. Yuri, o mais velho, é fotógrafo formado. Tem um olhar muito especial sobre tudo, crítico, mas sem perder a doçura jamais. Ele saiu com esta veia política minha, com a gana de mudar o status quo deste mundo, lutar por mais igualdade e justiça social. Téo, tem domínio do meio. Não caminha,salta. Se criou subindo em árvores e lidando com os bichinhos, tem muito equilíbrio corporal e sabe reconhecer o perigo. Não entra em pânico e tem frieza pra encarar desde jararacas venenosas a tempestades violentas. Ele nunca perde a calma. Violeta apurou a escuta. De tanto ouvir passarinhos e as cantorias dos bugios, virou música. Toca divinamente o violão e canta como uma “passarinha” de verdade. Tenho muito orgulho deles, são corajosos, destemidos e meus parceiros de vida. Acho até que são os únicos que, de verdade, me entendem. Todos os 3 tem uma saúde de ferro, são fortes em todos sentidos. E têm muito equilíbrio mental e corporal. O solo acidentado, subidas e descidas, obrigam a encontrar o equilíbrio corporal e coordenação motora, além de sentidos apurados.

Filhos de Daniela desfrutando diferentes momentos e crescendo em conexão direta com a natureza.

Téo plantando mudas de pitanga.

Violeta nas cordas.

Téo e Violeta antes de irem pra escolinha rural, abraçando a árvore mãe.

Atividade cultural de Violeta.

Biopiscina com carpas e bichinhos.