ISSN 1678-0701
Número 71 (volume 19, série 2)
Junho-Agosto/2020
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No. 71 - 08/06/2020
O DESPERDÍCIO DE ALIMENTOS NA CENTRAL DE ABASTECIMENTO DO PARÁ – CEASA: ALTERNATIVAS POSSÍVEIS  
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O DESPERDÍCIO DE ALIMENTOS NA CENTRAL DE ABASTECIMENTO DO PARÁ – CEASA: ALGUMAS REFLEXÕES



Janise Maria Monteiro Rodrigues Viana, Doutoranda em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental. Núcleo de Altos Estudos Amazônicos. (NAEA). Universidade Federal do Pará. janise_viana@hotmail.com



In memorian: Sérgio Cardoso de Moraes, Doutor em Educação, Núcleo de Meio Ambiente, Universidade Federal do Pará, scmoraes@ufpa.br



RESUMO

A Central de Abastecimento do Pará – CEASA, situada no Município de Belém enfrenta, atualmente, muitos problemas com a grande quantidade de alimentos, tais como, frutas, verduras, hortaliças, desperdiçados dentro de seus domínios. Quantidades estas potencialmente aproveitáveis, que são enviadas para o lixo diariamente, além do convívio de situações como: acúmulo de lixo, bueiros entupidos, água suja e lama no local. O desperdício alimentar gera consequências desastrosas para a economia e principalmente para a sociedade; visto que, o cenário mundial, assim como a Amazônia paraense, é marcado pela fome e miséria abundante. Diante disso, o trabalho tem como objetivo analisar de que forma os alimentos hortifrutigranjeiros desperdiçados na Ceasa, em Belém do Pará, podem ser reaproveitados. Este estudo está composto em cinco seções: na primeira realiza-se um debate acerca da sociedade de risco existente. Na segunda, apresenta-se a metodologia utilizada para o estudo. Na terceira seção, promove-se reflexões sobre a CEASA e o desperdício alimentar nesse contexto. Em seguida, discute-se a respeito de possíveis alternativas voltadas para gestão sustentável e por fim, na última seção são apontadas algumas conclusões.



PALAVRAS-CHAVE: Desaproveitamento. Alimentos. Sustentabilidade. CEASA.



ABSTRACT

The Supply Center of Pará - CEASA, located in the Municipality of Belém currently faces many problems with the large amount of food, such as fruits, vegetables, vegetables, wasted within their domains. These are potentially usable quantities, which are sent to the garbage daily, in addition to the coexistence of situations such as: accumulation of garbage, clogged culverts, dirty water and mud in the place. Food waste has disastrous consequences for the economy and especially for society; since, the world scenario, like the Amazon of Pará, is marked by hunger and abundant misery. Given this, the work aims to analyze how the fruits and vegetables wasted at Ceasa, in Belém do Pará, can be reused. This study is composed of five sections: in the first, a debate is held about the existing risk society. In the second, the methodology used for the study is presented. In the third section, reflections on CEASA and food waste are promoted in this context. Then, it discusses possible alternatives for sustainable management and finally, in the last section, some conclusions are pointed out.



KEYWORDS: Waste. Food. Sustainability. CEASA . Alternatives.

1 A sociedade de risco existente

A sociedade em que os sujeitos encontram-se inseridos, produtora de riscos, em especial os ambientais e tecnológicos de graves consequências, torna-se cada vez mais, reflexiva, mais autocrítica, e o conceito de risco passa a ocupar um papel estratégico para entender as características, os limites e as transformações do projeto histórico da modernidade (Beck, 1997). A nova realidade globalizada da modernidade resulta em crescente incerteza, mutabilidade e reflexividade.

Para Veiga (2007) Vive-se sobretudo ainda, desde a I Conferência da Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, em Estocolmo (1972), uma emergência socioambiental, que sinaliza para a necessidade de compatibilizar as atividades humanas e o crescimento econômico com a manutenção. A visibilidade da problemática ambiental tem contribuído para fazer emergir no cenário mundial, várias reflexões que colocam em destaque as formas de relações sociais, meio ambiente e produção.

Considera-se que a sociedade pós-industrial, segundo Beck, (1997) confronta-se com uma crise, que mais do que ecológica ou material, é uma crise de valores, do estilo de pensamento, dos imaginários sociais, dos pressupostos epistemológicos e do conhecimento que sustentaram a modernidade. Hoje, a sociedade caracteriza-se como pós-racional, no sentido de que perdeu-se a certeza na razão instrumental, embora os riscos tenham sua origem na ordem instrumental da razão (Tristão, 2005).

Num contexto marcado pela degradação permanente do meio ambiente, e dos seus ecossistemas, destaca-se a prevalência da racionalidade cognitivo-instrumental que agravou a situação ambiental do planeta. Expandiu-se a ideia de dominação da natureza e do seu uso, ignorando a função do contexto num processo linear compartimentado e compartimentalizador do conhecimento e das práticas sociais (Jacobi, Tristão e Franco, 2009).

O desfio da crise ambiental não se resume a economizar a vida e a natureza, mais sim, de pensar e construir outra Economia. A construção de uma nova economia requer a construção do objeto do conhecimento pela junção de várias disciplinas, a incorporação dos saberes desconhecidos e subjugados, ignorados das externalidades econômicas que se transformam nas condições de sustentabilidade do processo econômico e que constituem a complexidade ambiental (Leff, 2010).

Diante do paradigma da crise ambiental existente, marcada pelas frequentes agressões ao meio ambiente, como as queimadas, os lixos químicos domésticos, industriais e hospitalares, que são diariamente depositados no solo e nos rios de forma inadequada, sem o devido tratamento. O aumento do efeito estufa, o desmatamento desenfreado, a escassez de recursos hídricos, o aumento do consumismo exacerbado e da miséria humana, o desperdício alimentar também compõe essa crise ambiental existente. E se faz presente em um mundo, que contraditoriamente, ainda não foi capaz de alimentar todos os seus habitantes. Quando comparado a imensa capacidade de produzir alimentos, em praticamente todas as regiões do planeta, fica ainda mais contraditório.

Enquanto sujeitos individuais e coletivos, é possível exigir práticas sustentáveis para a produção, comercialização e reaproveitamento dos alimentos. Segundo dados das Organizações das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), ano 2013, estima-se a perda de 1,3 bilhão de toneladas de alimentos, ou seja, um terço do que é produzido no mundo. Isso reflete o desperdício também de águas, adubo, combustível e o esforço de milhares de trabalhadores para a produção desses alimentos. Ressalta-se ainda que quando vão para os aterros sanitários, esses alimentos produzem o gás metano, contribuindo para o aquecimento do planeta (http://issuu.com/ideiasnamesa/docs/revistaideiasnamesa1).

Assim, o presente estudo busca refletir acerca dos alimentos hortifrutigranjeiros desperdiçados na CEASA, localizada na Amazônia paraense e promover reflexões acerca de alternativas possíveis para o reaproveitamento dos mesmos. O trabalho está dividido em cinco seções. Na primeira seção há um debate acerca da sociedade de risco existente. Na segunda é apresentada a metodologia utilizada para o estudo. Por conseguinte, promove-se reflexões sobre a CEASA e o desperdício alimentar nesse cenário. Em seguida, discute-se a respeito de possíveis alternativas voltadas para gestão sustentável e por fim, na última seção são apontadas algumas conclusões.



2 Caminho metodológico percorrido

O objetivo desta pesquisa não está dado na realidade empírica, precisa ser construído pelo olhar sensível do pesquisador. Nesse sentido, pesquisar não significa simplesmente descrever o real, mas buscar compreender o movimento da realidade à luz de uma organização teórica (Araújo, 2008).

O presente trabalho caracteriza-se como uma Pesquisa Qualitativa, pois o cientista é ao mesmo tempo sujeito e o objeto de sua pesquisa e o desenvolvimento da pesquisa é imprevisível. O objetivo da amostra é de produzir informações aprofundadas e ilustrativas: seja ela pequena ou grande, o importante é que a mesma seja capaz de produzir novas informações (Araújo, 2008).

A pesquisa é do tipo Estudo de caso, pois trata-se de uma abordagem metodológica de investigação especialmente adequada quando procura-se compreender, explorar ou descrever acontecimentos e contextos complexos, nos quais estão simultaneamente envolvidos diversos fatores.

O lócus da pesquisa é a CEASA – PA (Centrais de Abastecimento do Pará), localizada no município de Belém, uma vez que este espaço, por se tratar de um centro de distribuição de hortifrutigranjeiros para comercialização, os itens que não estão em perfeitas condições para venda nos centros comerciais são descartados, mesmo que ainda possam ser consumidos.

Os procedimentos metodológicos contemplam técnicas de coleta de dados como: pesquisa bibliográfica, levantamento e análise de documentos que retratem acerca do desperdício de alimentos, no contexto brasileiro e paraense, no que se refere as Centrais de Abastecimento e a observação participante. Por fim é feita análise dos dados observados e coletados.



3 A Ceasa: aspectos conceituais, características e desperdícios

As CEASAS (Centrais Estaduais de Abastecimentos) foram criadas pelo Governo Federal Brasileiro na década de 60 com o intuito de solucionar o problema no sistema de comercialização de produtos hortifrutigranjeiros em todo território nacional.

São empresas estatais ou de capital misto cujo objetivo é a promoção, desenvolvimento, regulação, dinamização, organização e comercialização da hortifruticultura a nível de atacado em uma determinada região. Essas Centrais de Abastecimento alugam seus armazéns, conhecidos como boxes, para empresas privadas que comercializam seus produtos diretamente com o consumidor final (Vilela, 2003).

O funcionamento da CEASA caracteriza-se pela participação efetiva de 3 agentes principais: 1-comerciantes; que são as empresas privadas que alugam os boxes com o objetivo de comercializar e armazenar os produtos. 2- produtores (fornecedores); são os interessados em comercializar seus produtos na CEASA através do envio de cargas aos comerciantes e 3- compradores (varejistas); qualquer pessoa ou empresa pode comprar na CEASA, pois o acesso ao local é livre. Entretanto, a CEASA é destinada a venda no atacado, sendo que as quantidades mínimas de compra são estabelecidas em volumes de atacado. Quanto maior o volume a ser comprado, maior a capacidade de negociação de preços (Vilela, 2003).

No Brasil estima-se que 2% dos 18 milhões de toneladas de alimentos comercializados nos 70 postos de CEASAS (Centrais de Estado de Abastecimento) do país são desperdiçados no processo de comercialização ainda nas Centrais de Abastecimento. Isso equivale a 360 mil toneladas de alimentos desperdiçados por ano (http://issuu.com/ideiasnamesa/docs/revistaideiasnamesa1).