ISSN 1678-0701
Número 72, Ano XIX.
Setembro-Novembro/2020.
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No. 72 - 03/09/2020
A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL PERPASSANDO PELA CONCEPÇÃO CRÍTICA E EMANCIPATÓRIA  
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A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL PERPASSANDO PELA CONCEPÇÃO CRÍTICA E EMANCIPATÓRIA



Leandro Costa Fávaro1, Letícia Rodrigues da Fonseca2, Sérgio Ricardo Silva Magalhães3 Daiane Fernandes Pereira 4



1 Mestre em Sustentabilidade em Recursos Hídricos, Universidade Vale do Rio Verde, E-mail: leandro.favaro@unis.edu.br

2 Docente dos Programas de Mestrado Sustentabilidade em Recursos Hídricos e Gestão, Planejamento e Ensino, Universidade Vale do Rio Verde, E-mail: leticia.rodrigues.vga@gmail.com

3 Pós-doutor em Educação, Universidade de Flores, E-mail: serimagbh@gmail.com

4 Mestra em Sustentabilidade em Recursos Hídricos, Universidade Vale do Rio Verde, E-mail:, E-mail: daianeviannajunior@gmail.com



Resumo: Resumo em português.



Sabe-se que a Educação Ambiental - EA vem desenvolvendo-se como resposta aos inúmeros problemas ambientais decorrentes da exacerbada produção advinda do sistema capitalista que está colocando em risco a manutenção da vida humana no planeta Terra.  Sendo assim, a EA associa-se aos inúmeros movimentos de luta, resistência e preservação ambiental, sendo vista por estudiosos e pesquisadores como uma possível solução para a reversão da crise ambiental planetária, por meio da formação de cidadãos críticos, conscientes e sensíveis às questões humanas. Considerando este contexto este estudo que trata-se de uma revisão de literatura possui, como objetivo geral, descrever como ocorreu o surgimento e a evolução do conceito de EA. Já, como objetivos específicos: (i) explicitar o conceito de EA; (ii) descrever as proposições teóricas e metodológicas da EA Crítica Emancipatória. Os resultados   permitiram   identificar que a EA trata-se de um campo de conhecimento inacabado, fértil e que está em constante transformação para atender ao surgimento de novas demandas sociais, porém, mantém-se firme ao propósito de estabelecer reflexões e construir conhecimentos em relação a forma como os seres humanos interagem com os recursos ambientais, segundo uma postura sustentável. 





Abstract: Resumo em inglês



It is known that Environmental Education - EA has been developing in response to the countless environmental problems arising from the exacerbated production resulting from the capitalist system that is putting at risk the maintenance of human life on planet Earth. Thus, EA is associated with the countless movements of struggle, resistance and environmental preservation, being seen by scholars and researchers as a possible solution for the reversal of the planetary environmental crisis, through the formation of critical, aware and sensitive citizens to issues human. Considering this context, this study, which is a literature review, has the general objective of describing how the concept of AE appeared and evolved. As for specific objectives: (i) explain the concept of AE; (ii) describe the theoretical and methodological propositions of Emancipatory Critical EA. The results made it possible to identify that the AE is an unfinished, fertile field of knowledge that is constantly changing to meet the emergence of new social demands, however, it remains firm to the purpose of establishing reflections and building knowledge in relation to way human beings interact with environmental resources, according to a sustainable posture..



Introdução



Pela primeira vez na história da humanidade percebe-se claramente que o crescimento econômico está comprometendo a vida humana no planeta Terra. Nesta conjuntura, pode-se afirmar que a sociedade vem evoluindo do modo de produção para uma situação de destruição e alerta, sendo que nos próximos 50 anos, deve-se buscar reconstruir o planeta a partir da implantação de um novo paradigma que valorize acima de tudo a preservação da Terra (GADOTTI, 2005). 

Este discurso pautado na busca pela conservação da vida, não limita-se a um único estudioso e pesquisador, mas vem ecoando no meio científico e gerando inúmeros adeptos nos mais diferentes setores da sociedade, principalmente, naqueles que a apresentam como essencial para a existência da humanidade, como ocorre na área de Educação. 

Cita-se, como exemplo, o crescente debate a partir do final da década de 70 a respeito da existência de políticas públicas e métodos de ensino que sejam capazes de conduzirem adequadamente a formação humana por meio de uma vertente holística que busque promover o desenvolvimento de um cidadão planetário, conforme denominado por Boff (1999).

Sendo assim, verifica-se que a sociedade vem se organizando a ponto de propor a efetivação de eventos que promovam debates e discussões governamentais a nível mundial acerca da temática ambiental, como por exemplo, as Conferências Internacionais do Meio Ambiente. 

É notório que mudanças significativas ocorreram, transformando as reflexões iniciais que a princípio valorizavam apenas o desenvolvimento econômico, em uma perspectiva que prioriza a integridade ambiental e o bem-estar social no presente e futuro, tratando a ideia de desenvolvimento sustentável como uma maneira de garantir a manutenção da vida na Terra, principalmente, por meio da Educação Ambiental (EA) (SACHS, 2007). 

Dessa forma, o termo EA foi cunhado e consolidado, assumindo diferentes significados e formas, passando a ser compreendido como fundamental para a conscientização, mobilização e divulgação de conhecimentos ambientais e, para inúmeros pesquisadores, como essencial no processo de reversão dos problemas ambientais do planeta Terra. 

Diante deste contexto, este estudo que trata-se de uma revisão de literatura possui, como objetivo geral, descrever como ocorreu o surgimento e a evolução do conceito de EA. Já, como objetivos específicos: (i) explicitar o conceito de EA; (ii) descrever as proposições teóricas e metodológicas da EA Crítica Emancipatória.

Acrescenta-se que este artigo é parte de um estudo mais amplo, decorrente de uma dissertação de mestrado que buscou compreender a efetivação da EA Crítica Emancipatória na modalidade de ensino a distância.  Espera-se que este trabalho possa contribuir para a compreensão da EA como um processo contínuo de transformação, além de subsidiar a efetivação de ações concretas de EA, seja no ambiente escolar, organizacional e nas comunidades onde estamos inseridos. 



Metodologia



  Considerando os objetivos deste trabalho, optou-se por uma abordagem qualitativa que possibilitou, por meio de uma revisão de literatura, atender aos propósitos desta investigação. 

Segundo Gil (2008), a pesquisa bibliográfica investiga parte do registro disponível acerca de um tema e envolve a análise de pesquisas anteriores em documentos impressos, livros, artigos, teses, entre outros. Os artigos selecionados foram identificados por meio das bases de dados: Business Source Complete; Scielo; Portal da Capes.

Os resultados foram estruturados em três tópicos: Histórico da EA; Definição de EA; EA Crítica e Emancipatória. 



Resultados (Discussão Teórica)



História da Educação Ambiental 



A história da EA está relacionada com o surgimento e consolidação dos movimentos Ambientalistas pelo mundo. De acordo com Silva e Carneiro (2017), a EA se originou entre as décadas de 60 e 70 com a tentativa de ecologistas chamarem a atenção para os problemas ambientais ocasionados pelo uso descontrolado dos recursos naturais, em específico, a destruição das florestas e com isso promover o envolvimento da sociedade, de forma geral, em ações ambientalmente corretas. Os autores explicam ainda, que o primeiro registro de preocupação envolvendo educação e meio ambiente a nível mundial data-se de 1968, em Roma, quando alguns cientistas discutiram temas sobre o consumo e as reservas de recursos naturais não renováveis e o crescimento populacional.

Segundo Sato (2004), a primeira definição para a EA surgiu somente no ano de 1971, sendo divulgada pela Internacional Union for the Conservation of Nature (União Internacional pela Conservação da Natureza). Dias (2003) acrescenta que foi no ano de 1972 que ocorreram os eventos mais decisivos para a evolução da abordagem ambiental no mundo, incluindo o debate acerca da EA. 

A Organização das Nações Unidas - ONU, estimulada pela repercussão internacional do Relatório do Clube de Roma, realizou no período de 5 a 16 de junho na Suécia a “Conferência de Estocolmo” (como ficou mundialmente conhecida) e que contou com a participação de 113 (cento e treze) representantes de diferentes países. Entre os temas abordados destacam-se a poluição dos oceanos, ar e águas, o crescimento desordenado das cidades e o bem-estar das populações de todo o mundo.

Neste momento, conforme Ramos (2001), oficializou-se para o mundo a ideia de EA devido a necessidade de uma consciência “esclarecida” do indivíduo sobre sua relação com a natureza e o meio ambiente para garantir a sua preservação e conservação. Para isso, segundo Pedrine (1997), a participação de professores na identificação de novos métodos e recursos que possibilitassem colocar em prática esta abordagem seria fundamental. 

Ao final de 1975, aconteceu um novo evento com a participação de sessenta e cinco (65) países em Belgrado na Iugoslávia, e que ficou conhecido como Encontro Internacional de Educação Ambiental. Silva e Carneiro (2017) relatam que nesse momento vários temas foram abordados, entretanto, destaca-se a criação de um Programa Mundial de Educação Ambiental registrado por meio da Carta de Belgrado.

Dois anos após, em 1977, ocorreu em Tbilisi no estado da Geórgia nos Estados Unidos, o primeiro Congresso Internacional de Educação, considerado por Tozoni-reis (2002) como o evento mais marcante sobre o tema para a nossa sociedade. Rodrigues (2008) afirma, que essa Conferência estabeleceu a natureza da EA, definindo seus princípios, objetivos, características, bem como as estratégias a serem adotadas para sua efetivação e se propôs a seguinte descrição:



A Educação Ambiental é um processo de reconhecimento de valores e clarificação de conceitos, objetivando o desenvolvimento das habilidades e modificando as atitudes em relação ao meio, para entender e apreciar as interrelações entre os seres humanos, suas culturas e seus meios biofísicos. A Educação Ambiental também está relacionada com a prática das tomadas de decisões e a ética que conduzem para a melhoria da qualidade de vida (TOZONI-REIS, 2002, p. 23).



Portanto, a década de 70 é um período que se destaca no contexto histórico da EA e é marcado por dois grandes marcos, sendo o primeiro a Conferência de Estocolmo considerada como o momento em que se recomenda a EA a nível mundial e o segundo, a Conferência de Tbilisi, que se caracterizou como o evento mais importante para a definição e evolução da sua institucionalização (RAMOS, 2001).

Após aproximadamente 10 (dez) anos da última Conferência Internacional Ambiental, ocorreu no mês de agosto em Moscou, a Conferência Internacional da UNESCO-PNUMA. De acordo com Dias (2003), este evento estabeleceu discussões a respeito dos progressos alcançados pelos países por meio da efetivação da EA. No entanto, o contexto mais significativo refere-se ao estabelecimento da responsabilidade pela promoção da conscientização, transmissão de informações, desenvolvimento de critérios e padrões, além de orientações para a resolução de problemas e tomada de decisões conforme os propósitos da EA. Sendo assim, passou-se a entender que a EA agiria sobre aspectos cognitivos e afetivos, provocando mudanças no comportamento do homem.

Em 1992 no Rio de Janeiro - Brasil, ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92) e que contou com a participação de cento e setenta (170) países. A pauta, de acordo com Tannous e Garcia (2008), envolveu a elaboração de um plano de ação para o século XXI e possibilitou o desenvolvimento de cinco (5) documentos, sendo eles: Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, Agenda 2112, Princípios para a Administração Sustentável das Florestas, Convenção da Biodiversidade e Convenção sobre Mudança do Clima. Silva e Carneiro (2017) apresentam como principais ganhos ocasionados por esta Conferência a intensificação das discussões sobre o dilema da relação homem – natureza e o combate às desigualdades sociais, além da EA ser incluída no processo de gestão ambiental. 

É notável que as discussões ao longo do tempo foram se intensificando e abrindo campo para a realização de inúmeros eventos para debate. Segundo Tannous e Garcia (2008), destaca-se: o Congresso Sulamericano Continuidade Eco/92 na Argentina (1993); a Conferência dos Direitos Humanos em Viena na Áustria (1993); a Conferência Mundial da População em Cairo no Egito (1994); a Conferência para o Desenvolvimento Social na China (1995); a Conferência Mundial do Clima em Berlim na Alemanha (1995); a Conferência Habitat II em Istambul na Turquia (1996); o II Congresso Iberoamericano de Educação Ambiental em Guadalajara no México (1997); e a Conferência sobre Educação Ambiental em Nova Delhi (1997).

Em 2002, com o intuito de promover a manutenção e o resgate das propostas configuradas durante a Rio 92, aconteceu em Johannesburgo na África do Sul, a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável que ficou conhecida como a Rio+10. O evento trouxe como temas centrais, de acordo com Tannous e Garcia (2008), questões relacionadas às mudanças climáticas, ao crescimento da pobreza e de seus efeitos sobre os recursos ambientais, ao avanço de doenças como a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), à escassez de recursos hídricos e de condições sanitárias mínimas em algumas áreas do Planeta, às pressões sobre os recursos pesqueiros, à conservação da biodiversidade e ao uso racional dos recursos naturais das diversas fontes de energia. Ribeiro (2002) afirma que a conferência encerrou com poucos avanços, inclusive no âmbito da luta por recursos vitais do planeta como no caso da água doce.

Em novembro de 2007 aconteceu em Ahmedabad na Índia, a IV Conferência Internacional de EA. Nesta ocasião, segundo Sorretino et al. (2007), foi aprovada a ‘Declaração de Ahmedabad 200715: uma chamada para ação. Educação para a vida: a vida pela educação’. De acordo com Tannous e Garcia (2008), as mudanças climáticas foram o grande tema do congresso e foram consideradas como o grande desafio da EA para a época. 

A mais recente de todas as conferências foi a Rio+20 que ocorreu no Rio de Janeiro no período de 13 a 22 de julho de 2012 e foi considerada por muitos críticos da área, como sendo um grande desastre. Guimarães e Fontoura (2012) afirmam que neste evento ficou explícito que o maior desafio da atualidade para o desenvolvimento sustentável é a incapacidade de ações concretas de atores específicos e claramente identificáveis.

Em suma, os principais aspectos da história da EA no mundo combinam-se com os processos de idealização, concretização e manutenção dos movimentos ambientalistas de forma que se tornam indissociáveis, e por consequência, assumem o caráter dinâmico da contínua construção a partir dos cenários planetários que vão se consolidando. O quadro 1, a seguir, permite a visualização dos principais momentos históricos associados as principais tendências e características da EA.

Quadro 1: Tendências e Características da Educação Ambiental

Ano

Cidade / País

Conferência

Enfoque

1972

Estocolmo/ Suécia

Conferência de Estocolmo

Políticas de gerenciamento do ambiente, reconhecimento da educação ambiental como elemento crítico para combater a crise ambiental.

1974

Haia/ Holanda 

I Congresso Internacional da Ecologia

Uso indiscriminado dos Clorofluorcarbonos – CFCs 

1975 

Belgrado/ Iugoslávia

Conferência de Belgrado

Princípios e orientações para o Programa Internacional de Educação Ambiental – PIEA. 

1977

Tbilisi/ Geórgia

Conferência de Tbilisi

Conceito de meio ambiente - conceito de Educação Ambiental.

1992

Rio de Janeiro/ Brasil 

Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD)- Rio-92

Combate ao analfabetismo ambiental - reconhecimento da insustentabilidade do modelo econômico vigente. 

1997 

Thessaloniki/ Grécia

Conferência da Tessalônica

Papel crítico da educação - conscientização para se alcançar a sustentabilidade 

2002 

Johannesburgo/ África do Sul

Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável ou Rio+10

Balanço de dez anos da Agenda 21 - reafirmação da insustentabilidade do modelo econômico vigente - problemas associados à globalização. 

2012

Rio de Janeiro/Brasil

Rio + 20

A economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza e a estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável. 

Fonte: elaborado pelos autores (2020)



Definição de Educação Ambiental



Apresentar uma definição para EA corresponde a uma iniciativa delicada que exige uma análise cautelosa, estabelecendo relação principalmente entre o momento temporal e o cenário global, ou seja, nunca se trata de uma percepção exclusivamente cartesiana, é um processo holístico que requer percepção apurada e visão de mundo. De acordo com Resende e Lício (2016), os diferentes períodos da história da humanidade foram marcados por processos diversificados de exploração dos recursos naturais que, simplificando, traduzem maneiras diferentes da sociedade entender, interpretar e interagir com o mundo. Sendo assim, conforme Sato (2004), a EA surge como uma resposta aos problemas ambientais vivenciados principalmente ao longo das décadas de 50 e 60, e que sofreu inúmeras modificações para atender as demandas contemporâneas. 

Entretanto, o conceito de EA se mantém firme a um propósito, que segundo Silva (2012), trata-se de possibilitar a adequada interação entre o homem e a natureza que possibilita compreender a existência de uma coluna de sustentação que vem se apresentando de forma fixa ao longo deste processo evolutivo. Dessa forma, ao explanar sobre as definições referentes a EA tem-se como foco da discussão as características generalistas que a mantém viva enquanto área de conhecimento e estudo. Portanto, pode se afirmar que: 



Educação Ambiental é um vocábulo composto por um substantivo e um adjetivo, que envolvem, respectivamente, o campo da Educação e o campo Ambiental. Enquanto o substantivo Educação confere a essência do vocábulo “Educação Ambiental”, definindo os próprios fazeres pedagógicos necessários a esta prática educativa, o adjetivo Ambiental anuncia o contexto desta prática educativa, ou seja, o enquadramento motivador da ação pedagógica (LAYRARGUES,2004, p. 07)



Logo, infere-se que EA é o termo que tornou-se usual para designar todos os processos educativos que visam a formação dos seres humanos em relação a forma de interação com o meio ambiente. Ressalta-se que essa perspectiva não se limita aos contextos formais de educação, mas agrega todas as possibilidades educacionais existentes na sociedade. De acordo com Magozo (2005), este processo busca concretizar o real sentido do termo latino educare que se refere à extração do que os indivíduos têm de melhor em si. 

Outro aspecto relevante, refere-se a explicitação da interação entre duas áreas de conhecimento, tornando evidente que a EA perpassa pela concepção multi e transdisciplinar. Para Fazenda (2002), deve-se entender interdisciplinaridade como o processo de colaboração existente entre áreas distintas ou setores heterogêneos da mesma ciência. 

Portanto, no cerne da questão que tange o conceito de EA, encontra-se estabelecida a existência de uma relação entre processos educacionais, respeitando as singularidades da área, com todos os debates e discussões relativas as questões Ambientais. Sendo assim, a EA não é apenas uma “ferramenta” da educação cuja o objeto de estudo seja o meio ambiente, trata-se de um novo paradigma em que educação e o meio ambiente encontram-se inseparáveis (SUAVÉ, 2005). É importante acrescentar que segundo Silva (2012), a EA está presente na vida de todos os seres desde o início de sua existência na Terra, mesmo que de forma subjetiva, uma vez que para garantir a sobrevivência torna-se fundamental ao homem saber relacionar-se com o meio ambiente.



Educação Ambiental Crítica e Emancipatória



A EA apesar de ser historicamente recente, possuindo pouco menos de 50 anos, vem apresentando-se como um terreno fértil com uma grande variedade de iniciativas e procedimentos. Este cenário deve-se a apropriação dos conhecimentos pedagógicos que se encontram intimamente conectados aos seus propósitos, permitindo sua aplicabilidade nos mais distintos contextos. Logo, torna-se comum a percepção da existência de “Educações Ambientais”, ou seja, a crença na concretização de uma grande variedade de ações que seguem os mesmos objetivos de levar até a sociedade todos os debates e reflexões relativos às questões do meio ambiente, porém, que se diferem com a presença de características muito específicas. 

Sendo assim, torna-se possível dentro do universo da EA, apresentar subdivisões pautadas em diferentes aspectos, incluindo o momento histórico, a natureza da atividade ou a ideologia presente. Sorrentino (1995) desenvolveu estudos específicos na área, com o intuito de analisar práticas expressivas e classificá-las. O mais significativo de seu trabalho foi a comprovação de que todas elas procuram, de alguma forma, contribuir para a conservação da biodiversidade, para a autorrealização individual e comunitária e para a autogestão política e econômica. 

Entre as muitas formas de classificar as práticas de EA, a mais comum e utilizada refere-se a dois grandes grupos: Práticas Conservadoras e Práticas Emancipatórias, também denominadas de Críticas. Lima (2002) explica que toda prática educacional pode apresentar-se como conservadora quando reproduz e propõe ideologias de classes dominantes, assumindo o papel de conservação e manutenção da ordem social, enquanto as que se contrapõe, demonstram comprometimento pela modificação cultural, política e ética, desenvolvendo e valorizando as potencialidades do ser humano, sendo denominadas emancipatórias. 

Segundo Loureiro (2004), a concepção conservadora apresenta como foco a adequação do sujeito ao sistema, limitando-se às mudanças comportamentais sem a preocupação com a compreensão da dinâmica existencial. Já a vertente emancipatória, visa a transformação integral do sujeito a partir da problematização da realidade. O quadro 2 possibilita um comparativo entre as características existentes em cada uma das concepções. Ribeiro (2017) ressalta que essas concepções “divergem em posturas, objetivos, interesses e ideologias”.

Quadro 2: Comparativo entre Educação Ambiental Conservadora e Emancipatória

Educação Ambiental Conservadora

Educação Ambiental Emancipatória

- Concepção reducionista, fragmentada e unilateral da questão ambiental; 

- Compreensão naturalista e conservacionista da crise ambiental;

 - Tendência a sobrevalorizar as respostas tecnológicas diante dos desafios ambientais; 

-Leitura comportamentalista e individualista da educação e dos problemas ambientais; 

- Abordagem despolitizada da temática ambiental; 

- Baixa incorporação de princípios e práticas interdisciplinares; 

-Perspectiva crítica limitada ou inexistente; 

- Separação entre as dimensões sociais e naturais da problemática ambiental; 

- Banalização das noções de cidadania e participação que na prática são reduzidas a uma concepção liberal, passiva e disciplinar. 

- Atitude crítica diante dos desafios que a crise civilizatória nos coloca, partindo-se do princípio de que o modo como vivemos não atende mais aos nossos anseios e compreensão de mundo e sociedade e de que é preciso criar caminhos;

 - Preocupação concreta em estimular o debate e o diálogo entre as ciências, redefinindo objetos de estudo e saberes; 

- Entendimento da democracia como condição para a construção de uma sustentabilidade substantiva;

 - Convicção de que o exercício da participação social e o exercício pleno da cidadania são práticas indispensáveis à democracia e à emancipação socioambiental;

 - Busca de ruptura e transformação dos valores e práticas sociais contrários ao bem-estar público e à equidade. 

Fonte: elaborado pelos autores (2018).

Silva (2012), ao comparar as duas abordagens de educação, afirma que durante muitos anos a vertente conservadora veio distorcendo o real papel da ciência, mantendo a sociedade arraigada aos pensamentos ideológicos de classes dominantes dentro do modelo capitalista. Texeira (2003) concorda ao afirmar que a concepção emancipatória pode ser vista como a “chave” capaz de reduzir o pensamento capitalista propiciando a formação de cidadãos mais reflexivos e conscientes. Já, Gomes (2014), é categórico ao afirmar que a prática Emancipatória pode amenizar o impacto socioambiental de um desenvolvimento voltado somente para o econômico em um futuro próximo.

Portanto, existem grupos distintos de EA mas se dará continuidade às reflexões e discussões segundo a vertente Emancipatória, uma vez que conhecê-la de forma mais profunda é um dos objetivos propostos neste trabalho. 

A consolidação da perspectiva emancipatória na EA dentro de instituições de ensino, se faz a partir da efetivação de metodologias que visam atribuir o protagonismo do processo de construção do conhecimento para os estudantes. Percebe-se um leque vasto de possibilidades para que sua efetivação seja de fato eficiente. No entanto, Loureiro (2002) ressalta a importância da problematização da realidade neste processo e identifica algumas etapas que considera fundamentais, sendo elas: (1) identificação e definição do conflito existente, (2) compreensão do que é o conflito a partir do entendimento dos envolvidos, (3) construção de processos que resultem em ideias e alternativas, (4) avaliação coletiva das propostas anteriormente discutidas, (5) negociação entre os envolvidos, (6) efetivação das ações planejadas. 

1. Identificação e definição do conflito existente – Corresponde a primeira fase destinada ao levantamento do contexto sociocultural vivenciado pelo indivíduo. É a etapa responsável por elucidar a forma com que as interações entre indivíduo e meio ambiente ocorrem. 

2. Compreensão do que é o conflito a partir do entendimento dos envolvidos – Trata-se da análise dos problemas e conflitos a partir da busca de entendimento de todas as dimensões envolvidas. Corresponde ao mapeamento da situação elucidando as conexões existentes. 

3. Construção de processos que resultem em ideias e alternativas – Refere-se ao processo reflexivo em que se busca pensar sobre possíveis formas de resolução ou amenizar os problemas. 

4. Avaliação coletiva das propostas anteriormente discutidas – Corresponde ao momento de apresentar as sugestões de intervenções para um grupo maior, oportunizando diversas ponderações e reflexões. 

5. Negociação entre os envolvidos – Trata-se do momento inicial da concretização das intervenções, o qual as ações realizadas buscam garantir a possibilidade de efetivação. Normalmente, envolve o estabelecimento de diálogos na busca pela sensibilização e conscientização da importância do processo.

6. Efetivação das ações planejadas – É a etapa final destinada a concretização das ações, visa a eliminação ou a redução do problema anteriormente identificado. 

A efetivação de uma prática de EA focada na transformação social que respeita o ser humano nas suas múltiplas dimensões é denominada de Emancipatória ou Crítica, sendo desenvolvida, necessariamente, a partir de escolhas metodológicas apropriadas e condizentes aos princípios ideológicos da educação dialogada.

Conclusões



Mediante a pesquisa realizada percebe-se que o termo EA trata-se de uma expressão relativamente recente e que objetivou interligar dois campos do conhecimento distintos, sendo um a educação e o outro o ambiental. Seu surgimento esteve relacionado a inúmeros movimentos sociais de caráter ecológico que por meio da luta e resistência veio difundindo a ideia de preservação da vida humana, opondo-se à cultura da produtividade e do consumismo exacerbado que compõem a ideologia do sistema capitalista. Dessa forma, a EA pode ser compreendida como um fenômeno advindo do reflexo das mazelas sociais em relação a inadequada forma de interação entre homem e recursos ambientais. 

Nota-se que a EA, apesar de manter-se firme ao propósito de concretização de uma postura sustentável, vem adquirindo formas variadas ao longo da história, demonstrando-se flexível e inacabada, de forma que alguns estudiosos chegam a tratá-la no plural, deixando clara a ideia de multiplicidade e pluralidade. No entanto, existe uma tendência em classificá-la em dois grandes grupos, sendo um preso às ideologias das classes sociais dominantes, considerada como conservadora e o outro, que preza pela formação e o empoderamento de cidadãos crítico e sensíveis às questões ambientais, denominado de EA Crítica Emancipatória. 

A EA Crítica Emancipatória ganha destaque mediante o contexto planetário atual que não mais se satisfaz com ações que visam os processos de conscientização, pois apresenta demandas concretas, estando necessariamente associadas à ideia de mobilização social por meio do empoderamento das questões ambientais pelos indivíduos. Para isso, mantém o caráter multi, inter e transdisciplinar, sendo necessariamente sistematizada e planejada conforme etapas fundamentais, sendo: identificação e definição do conflito existente; compreensão do conflito; construção de processos que resultem em ideias e alternativas; avaliação coletiva das propostas; negociação entre os envolvidos; e efetivação das ações planejadas. 

Portanto, a EA possui um histórico que não pode ser desconsiderado mas que deve servir como base sólida para que novas práticas e tendências continuem sendo idealizadas e concretizadas, garantindo um processo de formação de cidadãos planetários, conforme proposto por Boff (1999).



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