ISSN 1678-0701
Número 72, Ano XIX.
Setembro-Novembro/2020.
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Artigos

No. 72 - 03/09/2020
CONCEPÇÕES DE “SAUDÁVEL” POR ESTUDANTES DO ENSINO FUNDAMENTAL: ALIMENTAÇÃO, LAR, NATUREZA E TRANSPORTE  
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PERCEPÇÕES DE “SAUDÁVEL” POR ESTUDANTES DO ENSINO FUNDAMENTAL



Jerônimo de Oliveira Loureiro – Centro Educacional La Salle – loureirojeronimo@gmail.com

Rossano André Dal-Farra – Universidade Luterana do Brasil - rossanodf@uol.com.br





RESUMO

O trabalho investigou as percepções de “saudável” de estudantes do ensino fundamental pela avaliação de imagens com escores de 1 a 5. Os resultados demonstraram que eles possuíam elevado conhecimento sobre alimentação saudável e atribuíam grande importância ao ambiente natural.



ABSTRACT

The article investigated the perceptions of “healthy” of elementary school students by evaluating images with scores from 1 to 5. The results showed that they had high knowledge about healthy eating and attributed great relevance to the natural environment.



INTRODUÇÃO

A expansão urbana que caracterizou as últimas décadas do século XX causou um distanciamento crescente da população das áreas naturais, assim como da própria produção de alimentos. Nesse âmbito, as mudanças nas habitações e as aglomerações nos espaços urbanos têm ocasionado impactos ambientais de elevada magnitude, gerando inúmeros desafios educacionais e uma elevada complexidade no que diz respeito à convivência do ser humano com o ambiente natural. Diante desse cenário, surgem questionamentos que demandam a reflexão contínua na contemporaneidade, tais como:

O que caracteriza uma habitação saudável?

Como se compõe uma refeição saudável?

Os modais de transporte urbano atuais são saudáveis?

Como se caracteriza uma convivência saudável com o ambiente natural?

Com base nos princípios educacionais voltados para o desenvolvimento humano em sua integralidade, incluindo a relação com a natureza, o presente artigo aborda um conjunto de práticas educativas realizadas em uma escola de Porto Alegre cujo currículo é construído a partir de projetos de estudos e vivências, propondo ações de reconhecimento do ser humano como parte integrante do ambiente. Para tanto, a transversalidade de temáticas como a agroecologia, as artes visuais e a nutrição representam aspectos fundamentais no cotidiano escolar.

Na referida escola, educar representa a possibilidade de expansão da consciência e da percepção dos estudantes, contribuindo para o desenvolvimento de um ser mais criativo, reflexivo, autônomo e solidário, respeitando as particularidades de cada aluno e trabalhando a expansão de habilidades físicas, emocionais, cognitivas e éticas. Com base em tais premissas, foi delineado um estudo com estudantes do ensino fundamental voltado para a integração de saberes permeados pela questão ambiental e suas interfaces com a vida contemporânea, sendo o presente artigo decorrente da avaliação de imagens pelos estudantes a partir de suas percepções de “saudável” em relação a cinco aspectos distintos: alimentação, vegetação, habitação, ação/hábito e transporte.



AGROECOLOGIA, TRANSVERSALIDADE E PRÁTICAS EDUCATIVAS



A agroecologia tem sido reafirmada como ... um campo de conhecimento de caráter multidisciplinar que apresenta uma série de princípios, conceitos e metodologias que nos permitam estudar, analisar, dirigir, desenhar e avaliar agroecossistemas – unidades fundamentais para o estudo e planejamento das intervenções humanas (CAPORAL; COSTABEBER; 2002, p. 13-16).



Diante das múltiplas possibilidades oferecidas pela agroecologia, as temáticas trabalhadas em componentes curriculares dedicados à ela se ramificam de forma transversal em muitas áreas, incluindo, a Biologia, a Geografia, a História, a Física e a Química, compondo um campo de saberes cujos princípios permitem estudar os ecossistemas e os reflexos do efeito antrópico sobre o ambiente natural. As múltiplas possibilidades incluem a construção de hortas nas escolas, suscitando práticas educativas que ampliam a percepção dos estudantes a respeito dos efeitos da agricultura sobre o ambiente natural, assim como dos hábitos alimentares na educação em saúde, demonstrando os possíveis entrelaçamentos desses componentes no cotidiano (SILVA; FONSECA, 2013; STERN et al., 2014).

Discorrem Lopes et al. (2013) que a horta comunitária proporciona a ressignificação do fazer científico por meio de indagações, observações, estudos, ponderações, negociações e deliberações, permitindo a compreensão e a interpretação das relações entre o ser humano e o seu entorno. Nessa perspectiva, incentivar atitudes saudáveis proporciona a emergência de valores socioambientais, construindo uma aprendizagem voltada para a integralidade, tal como assinalado por Silva e Fonseca (2011), mobilizando e ampliando as percepções dos estudantes.

Conforme articula Yus (1998), a transversalidade possui um papel fundamental na construção do currículo escolar. Para o autor, o planejamento metodológico baseado em temas que possam se desdobrar para outros assuntos proporciona uma maior abrangência dos conhecimentos nos processos de ensino e aprendizagem.

Quando falamos em temas transversais, não se pode pretender uma metodologia única para todas as situações. No entanto, há estratégias globalizantes que podem contribuir para o processo, entre elas, a participação dos alunos na construção das práticas educativas e o incentivo à atuação em prol da sociedade. Nesse cenário, o ambiente escolar precisa promover uma postura crítica, incentivando a descoberta das potencialidades dos estudantes, respeitando as individualidades e promovendo a solidariedade e a autonomia reflexiva (YUS, 1998; LOUREIRO; DAL-FARRA, 2018).

Desse modo, através de atividades práticas, é possível ampliar o olhar dos estudantes sobre o ambiente natural, fomentando o desenvolvimento harmonioso do ser humano com a natureza, ampliando o senso crítico no que tange aos efeitos nocivos de uma cultura responsável pela degradação dos recursos naturais (UNO, 2013; STERN et al., 2014; LOUREIRO; DAL-FARRA; 2018).

Dyment e Bell (2008), em estudo exploratório, verificaram que a presença das crianças em espaços verdes promove o aprimoramento integral dos estudantes. Os espaços nos quais há abundância de vegetação são convidativos no sentido da realização de práticas saudáveis com atividades físicas, cognitivas e emocionais prazerosas. Tais ações desenvolvem os âmbitos cognitivo e afetivo do aluno para que ele se sinta um elemento integrante da natureza, sensibilizando as crianças para a relevância da biodiversidade e das interações entre os componentes bióticos e abióticos (MILLER, 2005; PALÁCIOS et al., 2011; STERN et al., 2014).



Metodologia



O estabelecimento de ensino no qual foi realizado o estudo possui uma área com mais de 3.600 m2 fortemente arborizada com espécies nativas e exóticas do Brasil, incluindo Allophyilus edulis, Annona crassiflora, Araucaria angustifolia, Bauhinia forficata, Calliandra tweediei, Cedrela odorata, Erythrina crista-galli, Eugenia uniflora, Inga marginata, Myrcia cauliflora, Ocotea odorífera, Psidium cattleyanum, Araucaria heterophyla, Archontophoenix cunninghamiana, Callistemon viminalis, Cinnamomum zeylanicum, Grevillea robusta, Hibiscus rosa-sineni, Licula grandis, Manguifera indica, Morus nigra, Persea americana, entre outras.

O espaço representa uma espécie de “ilha florestal” em meio à uma densa área urbana, com salas de aula “indoor” e “outdoor”, aves nativas que utilizam a área de forma tanto fixa como migratória, espaços culturais, incluindo hortas, cisternas, laguinho com peixes e tartarugas, telhados vivos, sementeiras, estufas e composteiras. Na escola em questão, a agroecologia é trabalhada na educação infantil e no ensino fundamental por meio do aprimoramento das técnicas de plantio e dos cuidados com a terra dentro da proposta de uso sustentável, aliado às bases teóricas do ensino de ciências (LOUREIRO; DAL-FARRA, 2018).

O conjunto de atividades desenvolvidas na escola está vinculada aos interesses e/ou necessidades que emergem espontaneamente ou a partir de uma saída ao campo ou leitura de um livro, suscitando curiosidades e questionamentos por parte do grupo. A partir de tais motivações são definidos os assuntos e os propósitos do projeto de estudo, sendo realizado o planejamento cooperativo ou mapa mental como base nas seguintes questões:

  • O que sabemos?

  • O que queremos?

  • Para que queremos?

  • Como faremos?



No presente artigo, são apresentados os resultados obtidos com base na avaliação da percepção dos estudantes a respeito do que é considerado saudável em cinco aspectos distintos: alimentação, habitação, vegetação, ação/hábito e transporte.

Participaram crianças do Ensino Fundamental com idades entre 6 e 12 anos de idade em processo educacional realizado no ano de 2015. As atividades envolveram trabalhos em campo com plantas no âmbito da transversalidade, com abordagens a respeito dos aspectos morfofisiológicos, das relações com os animais, dos aspectos nutricionais e da relevância das plantas para o ambiente.

A coleta de dados foi realizada por meio da aplicação de um questionário no qual as crianças atribuíram escores em escala Likert (1 a 5) para cada uma das 15 figuras apresentadas, sendo uma imagem considerada pelos pesquisadores como, MENOS saudável, uma considerada MÉDIO e outra como MAIS saudável para cada um dos aspectos. Os escores foram compilados e analisados estatisticamente com o Teste não-paramétrico de Kruskal-Wallis. Análises adicionais com correlações de Spearman foram realizadas visando verificar se a idade e o tempo da criança na escola geravam diferenças na atribuição dos escores.

O presente estudo consiste em uma Pesquisa com Métodos Mistos com Design Convergente mediante a integração por junção (“merge”) dos dados quantitativos dos escores com os qualitativos obtidos com as conversas e entrevistas anotadas no diário de bordo (CRESWELL; PLANO CLARK, 2011; DAL-FARRA; FETTERS, 2017).





RESULTADOS E DISCUSSÕES

A Tabela 1 apresenta os escores médios obtidos para cada imagem, assim como o desvio-padrão associado a cada um deles em relação aos valores atribuídos pelos estudantes ao observar as imagens descritas no Quadro 1.



Quadro 1 – Descrição sucinta das imagens apresentadas aos estudantes



HABITAÇÃO SAUDÁVEL



MAIS - Casa no campo



MÉDIO - Edifícios altos em um centro urbano



MENOS - Casa de população de baixa renda com esgoto à céu aberto



ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL



MAIS – Prato com grande variedade de vegetais, cereais integrais e frango



MÉDIO – Prato com arroz, feijão e frango



MENOS – Pacote de salgadinho industrializado



AÇÃO/HÁBITO SAUDÁVEL



MAIS – Pessoas correndo em rua asfaltada



MÉDIO – Pessoas vendo televisão



MENOS – Uma pessoa fumando



VEGETAÇÃO SAUDÁVEL



MAIS – Mata com plantas diferentes



MÉDIO – Pastagem no campo



MENOS – Árvores em um centro urbano



TRANSPORTE SAUDÁVEL



MAIS – Pessoas realizando ciclismo em via urbana



MÉDIO – Trem urbano



MENOS – Engarrafamento de automóveis



Tabela 1: Média e desvio padrão dos escores atribuídos pelos estudantes sobre “o que saudável”

Comparação

Média

Desvio Padrão

p

Alimentação




Alimentos MENOS

1,125

0,40

0,000**

Alimento MÉDIO

3,900

1,08


Alimento MAIS

4,700

0,76


Habitação

 

 

 

Habitação MENOS

1,400

1,15

0,000**

Habitação MÉDIO

3,975

1,21


Habitação MAIS

3,275

1,20


Vegetação

 

 

 

Vegetação MENOS

2,725

1,24

0,000**

Vegetação MÉDIO

4,550

0,71


Vegetação MAIS

4,875

0,56


Ação/hábito

 

 

 

Ação/hábito MENOS

1,225

0,89

0,000**

Ação/hábito MÉDIO

2,650

1,33


Ação/hábito MAIS

4,775

0,48


Transporte

 

 

 

Transporte MENOS

1,475

1,04

0,000**

Transporte MÉDIO

2,975

1,35


Transporte MAIS

4,500

0,99

 

** diferença altamente significativa p < 0,01.

Fonte: A Pesquisa.



Em relação aos alimentos, as diferenças significativas entre os escores corroboram as ações realizadas na escola em relação às questões nutricionais, tendo em vista que a imagem de menor média foi aquela na qual estava um pacote de salgadinhos industrializados (1,13), seguida da imagem que mostrava um prato de comida com cereais e carne de frango (3,90) e de um prato com vegetais e fontes diversificadas de nutrientes (4,70). Inclusive, os alunos mencionaram a diferença entre arroz branco e arroz integral, além da diversidade de cores também ter sido comentada pelo grupo durante a atividade. Acredita-se que o contato recorrente com as aulas de agroecologia e com a alimentação oferecida pela escola possibilitaram esses resultados. A imagem que apresentava um prato constando apenas feijão, arroz branco e frango recebeu um valor intermediário provavelmente por não apresentar salada e arroz integral.

No contexto da Agroecologia, a questão alimentar se coaduna diretamente com as questões ambientais, especialmente se considerarmos a relação do ser humano com a natureza e as formas pelas quais são produzidos os alimentos (KOCH et al., 2006; SILVA; FONSECA, 2011).

Em relação à habitação, a imagem com prédios de um centro urbano caracterizado pela expansão vertical (MÉDIO) recebeu escores elevados por parte dos estudantes (3,98), fato que contrariou as expectativas prévias dos pesquisadores. Acredita-se que tal resultado seja um efeito da identificação com o lugar onde os alunos moram, já que a maior parte deles habita em construções similares. A habitação representada por uma pequena casa no meio de uma vegetação (MAIS) apresentou uma média inferior à imagem anterior (3,28). Alguns estudantes alertaram possíveis problemas de saúde gerados pela chaminé da casa, por “emitir fumaça”, outros citaram a presença de fios de eletricidade que passavam atrás da residência, e um estudante mencionou a “distância de algum supermercado para conseguir alimentos”. O lar com menor aceitação foi o que apresentava a imagem de uma casa de moradores de baixa renda, com paredes sujas, sem estrutura visível de saneamento básico e ausência de calçamento (1,40). Nos relatos obtidos com as entrevistas foram feitas alusões às possíveis doenças a serem transmitidas nesses ambientes:



- Pode ter Aedes aegypti transmitindo Zika, Dengue e Chikungunya.

- Tem esgoto aparente.



Desse modo, ao integrar os dados quantitativos obtidos com os escores com as falas dos estudantes houve uma associação direta entre as condições de habitação e as possibilidades de problemas de saúde oriundos da localidade.

Aplicando e avaliando práticas educativas voltadas ao saneamento básico com estudantes do ensino fundamental, Valduga e Dal-Farra (2015) assinalam que a construção de tais ações de forma contextualizada e integrada com os componentes curriculares trabalhados na escola contribui para o desenvolvimento de uma maior criticidade a respeito das condições de habitação e de uma melhor relação com o ambiente natural (VALDUGA; DAL-FARRA, 2015).

Na análise da vegetação, a imagem de um bosque com elevada biodiversidade apresentou a média mais elevada (4,88). A propósito, a referida fotografia apresentada é semelhante ao espaço encontrado na escola, no qual, além das aulas de agroecologia, são desenvolvidas demais atividades educacionais e de lazer, permitindo aos alunos uma profunda intimidade com as plantas e suas possibilidades educacionais. Na sequência, os alunos elegeram uma imagem que representava um ambiente de pastagem cultivada pela ação antrópica para a criação bovina (4,55). Em terceiro lugar foi escolhida a imagem de uma avenida asfaltada contendo um número reduzido de árvores no canteiro central (2,73), representando a expansão urbana em nossas cidades. Tais resultados corroboram os obtidos por Loureiro e Dal-Farra (2018) a respeito da relevância da articulação de temáticas ambientais por meio da transversalidade.

Pesquisas demonstram que a proximidade com os espaços naturais proporciona benefícios às crianças em relação ao desenvolvimento de saberes proeminentes para a sua saúde, assim como possibilitam o reconhecimento de elementos bióticos com a maior percepção do entorno, proporcionando o respeito e a sensação de pertencimento ao ambiente natural (MILLER, 2005; DYMENT; BELL, 2008; ROCHA et al., 2015).

No que tange à categoria “ação/hábito”, houve congruência entre os parâmetros esperados pela pesquisa e os resultados obtidos junto aos alunos. A imagem considerada mais saudável (4,78) representava pessoas praticando atividade física (corrida) em um ambiente próximo à vegetação. O menor índice médio foi atribuído à imagem de uma pessoa fumando cigarro (1,23). Em todas as turmas houve ênfase no fato do tabagismo ser uma ação muito prejudicial à saúde. Com escore médio intermediário ficou a imagem de pessoas assistindo televisão sentadas em uma sala (2,65). É importante relatar que um aluno do segundo ano demonstrou seu espírito crítico ao indagar:



O que era assistido na televisão?



A classificação dos escores relacionados ao transporte saudável apresentou similaridade com as questões discutidas na escola, tendo em vista que a bicicleta foi apontada como mais saudável (4,50). Todavia, alguns alunos relataram que este tipo de transporte poderia ser perigoso, devido à possibilidade de quedas e acidentes, discurso permeado por um conjunto de narrativas a respeito de ocorrências vivenciadas pelos estudantes no meio urbano. O escore intermediário (2,98) foi atribuído ao transporte por trem elétrico, com relatos de se constituir em perigo por apresentar “contaminações”, ser sujo no seu interior, e a possibilidade de alguém ser atropelado ao “cair na frente dele”. Interessante observar que o automóvel (carro) apresentou o menor escore (1,48) com relatos a respeito das emissões de “fumaça”, assim como dos engarrafamentos nas vias públicas.

É importante observar que, mesmo obtendo resultados esperados, os conceitos mais técnicos sobre mobilidade pública, emissões atmosféricas e uso de fontes limpas e renováveis de energia ainda não haviam sido aprofundados com os grupos dos anos iniciais. No entanto, tais problematizações tem se tornado cruciais para o desenvolvimento de um pensar ambiental mais acurado e dotado de um caráter sistêmico, diante das interações entre os elementos que compõem o ambiente em que vivemos (PALÁCIOS et al., 2011; ROCHA et al., 2015).

Visando verificar as possíveis associações entre o tempo de permanência na escola (em meses) e a idade com os escores atribuídos para as imagens MAIS saudáveis, foram calculadas as correlações entre esses dados (Tabela 2).



Tabela 2: Correlações do tempo de escola e da idade com os escores atribuídos às imagens consideradas pelos pesquisadores como MAIS saudáveis


Tempo de escola

Idade

r

p

r

p

Alimentação MAIS

0,428**

0,006

-0,273

0,089

Habitação MAIS

0,227

0,159

-0,045

0,782

Vegetação MAIS

0,322*

0,043

0,167

0,304

Ação/hábito MAIS

0,081

0,618

-0,418**

0,007

Transporte MAIS

-0,022

0,893

0,039

0,812

*Correlações significativas (p < 0,05) **correlações significativas (p < 0,01)

Fonte: A Pesquisa.



Verifica-se que houve correlações positivas, de grau mais elevado e estatisticamente significativas entre os escores e o tempo de escola para alimentação (0,428) e vegetação (0,322) quando comparados com as correlações entre os escores e a idade dos estudantes (-0,273 e 0,167). Portanto, o tempo de permanência no ambiente de ensino foi mais importante do que a idade no momento de avaliar as imagens apresentadas, evidenciando que a proposta desenvolvida nos diferentes componentes curriculares estava sendo assimilada pelos estudantes. Assim sendo, a vivência diária e a imersão nas práticas educativas contribuíram para a construção de conhecimentos e valores, demonstrando a importância de tais ações para o contexto escolar, tal como assinalam os princípios da educação ambiental propostos por Stern et al. (2014).

De forma mais ampla, a riqueza de possibilidades observadas nas ações dos alunos permitiram a busca de novos caminhos para o planejamento das aulas e o atendimento das demandas por eles propostas. Como já comentado anteriormente, torna-se importante salientar que a presente escola possui o planejamento de ensino baseado em projetos, nos quais a participação dos alunos é fundamental.

Entende-se que a continuidade das pesquisas pode confirmar essas constatações, tal como indicado por estudos do American Institutes for Research (2005) indicando que as escolas que utilizam espaços naturais para a realização de práticas educativas contribuem para a construção da aprendizagem e das competências sociais.



CONSIDERAÇÕES FINAIS



O presente estudo, um recorte de um processo mais amplo de ensino e aprendizagem voltado à agroecologia na transversalidade, apontou que as práticas educativas realizadas com essa finalidade contribuíram para o desenvolvimento dos estudantes no que tange à percepção de saúde na alimentação, habitação, ações/hábitos, vegetação e transporte.

Nessa perspectiva, torna-se importante que os estudantes construam conhecimentos e valores que proporcionem uma vida mais harmônica com o ambiente natural, por meio da articulação entre uma alimentação mais saudável e uma vida mais próxima das plantas e dos animais que coabitam o planeta conosco.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



American Institutes for Research, Effects of Outdoor Education Programs for Children in California. Califórnia. 2005. Disponível em: http://www.air.org/resource/effects-outdoor-education-programs-children-california. Acesso em: 12 de 06 de 2016.

CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Agroecologia. Enfoque científico e estratégico. Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, v. 3, n. 2. 2002.

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DAL-FARRA, R. A.; FETTERS, M. D. Recentes avanços nas pesquisas com métodos mistos: Aplicações nas áreas de educação e ensino. Acta Scientiae, v. 19, n. 3, p. 466-492, 2017.

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Lopes, B. P. C. S; PAVESI, A.; FREITAS, D. A horticultura comunitária como ferramenta de aprendizagens múltiplas para o fortalecimento da capacidade adaptativa e da resiliência de Sistemas socioecológicos sustentáveis. Anais... IX ENPEC. Águas de Lindóia, SP, 2013.

LOUREIRO, J. O.; DAL-FARRA, R. A. Botany and environmental education in elementary school in Brazil: articulating knowledge, values, and procedures. Enviromental Education Research, v. 24, n. 12, 2018.

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PALÁCIOS, C. M.; DAL-FARRA, R. A.; GELLER, M. Concepções sistêmicas na educação ambiental: uma experiência com alunos do ensino fundamental. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, v. 11, n. 1, p. 211-229, 2011.

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SILVA, E. C. R.; FONSECA, A. B. Hortas em escola urbanas, complexidade e Transdisciplinaridade: Contribuições para a educação ambiental e para educação em saúde. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, v. 11, n. 3, p. 35-53, 2011.

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