ISSN 1678-0701
Número 72, Ano XIX.
Setembro-Novembro/2020.
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Relatos de Experiências

No. 72 - 03/09/2020
O ESTADO DE HUMOR DOS ESTUDANTES DE UM CURSO TÉCNICO EM ENFERMAGEM NO INTERIOR DA BAHIA: RELATO DE EXPERIÊNCIA  
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­­­O ESTADO DE HUMOR DOS ESTUDANTES DE UM CURSO TÉCNICO EM ENFERMAGEM NO INTERIOR DA BAHIA: RELATO DE EXPERIÊNCIA.



Maria Emília dos S. Gonçalves.

Enfermeira docente. Mestre em Gestão Social Educação e Desenvolvimento Regional. Faculdade vale do Cricaré, São Mateus. emiliasam.ifba@gmail.com



Resumo: Trata-se do relato de experiência a partir da aplicação de um método para detectar o estado de humor de estudantes de um Curso Técnico em Enfermagem na fase inicial do distanciamento social para contenção do novo coronavírus e a suspensão das aulas presenciais. O estudo teve como objetivo geral: “Detectar o estado de humor dos estudantes e como objetivos específicos: (i) identificar os estudantes com maior vulnerabilidade para sofrimento mental; (ii) discutir e propor ações com o corpo docente para minimizar o problema. Como metodologia foi utilizada a Escala de humor de Brunel (Brunel (Brazil Scale Mood - BRUMS). A coleta de dados se deu entre o dia 08 e 20 de abril de 2020 por meio do e-mail e envolveu 34 (85%) estudantes. Os dados foram agrupados, representados em gráficos e analisados. Como resultado foi identificado que em relação ao humor negativo,67,6% dos estudantes apresentaram alto score para ansiedade e 73,5% para preocupação. Para o estado de humor positivo ,61,75% apresentaram baixo score, demonstrando sentimento de desâmino e falta de disposição. Como conduta, foi proposto atividades interdisciplinar, maior espaçamento para o envio de atividades on-line, atendimento e escuta ativa por aplicativos e acompanhamento da turma, e, em especial os mais vulneráveis por meio do e-mail e aplicativo.



Palavras-chave: Educação; Estudantes; Coronavírus; Pandemia; Estado de humor

The mood of students in a Technical Nursing Course in the countryside of Bahia: Experience report

Maria Emília dos S. Gonçalves.

Enfermeira docente. Mestre em Gestão Social Educação e Desenvolvimento Regional. Faculdade vale do Cricaré, São Mateus. emiliasam.ifba@gmail.com

Abstract: This is an experience report based on the application of a method to detect the mood of students of a Technical Course in Nursing in the initial phase of social withdrawal to contain the new coronavirus and the suspension of face-to-face classes. The study had as its general objective: “To detect the mood of the students and as specific objectives: (i) to identify students with greater vulnerability to mental suffering; (ii) discuss and propose actions with the faculty to minimize the problem. As a methodology, the Brunel Mood Scale (Brunel (Brazil Scale Mood - BRUMS) was used. Data collection took place between April 8 and 20, 2020 through e-mail and involved 34 (85%) students The data were grouped, represented in graphs and analyzed.As a result, it was identified that in relation to negative mood, 67.6% of students had a high score for anxiety and 73.5% for concern. , 75% had a low score, demonstrating a feeling of dismay and lack of disposition As a conduct, interdisciplinary activities were proposed, more space for sending online activities, service and active listening by applications and class monitoring, and in particular the most vulnerable through email and the app.

Keywords: Education; Students; Coronavirus; Pandemic; Mood



INTRODUÇÃO



O fim do ano de 2019 foi marcado por casos de uma pneumonia na China, ainda de etiologia desconhecida. Inicialmente acreditava ser mais uma Severe acute respiratory syndrome (SARS) mas, aos poucos foi se revelando como uma doença altamente infectocontagiosa, podendo tomar grandes proporções de disseminação, como aconteceu com a gripe espanhola em1918.

Causada pelo o novo coronavírus (SARS COV2) a doença foi denominada de “Corona virus disease 2019” ou Doença de coronavírus (COVID-19). Com a grande capacidade que temos nos dias atuais para cruzar as fronteiras, rapidamente o vírus se espalhou para os outros países se tornando uma pandemia, sendo que o Brasil não ficou imune a esse processo. A doença que poderia se manifestar de forma leve à extremamente grave, foi minimizada pela a população e pela maior autoridade do país e se e disseminou rapidamente. O primeiro caso foi notificado em São Paulo no dia 26/02/2020 em um idoso proveniente da Europa e faleceu em consequência à Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARG).

Considerado um vírus com alto poder de transmissibilidade, rapidamente em vários estados foi declarada a transmissão comunitária, demonstrado que o vírus poderia infectar qualquer pessoa e não se restringia àqueles que retornavam da Europa ou Ásia. Nesse sentido se tornou importante medidas de contenção, prevenção e tratamento da população, buscando a proteção das pessoas consideradas do grupo de risco para complicações, entre elas, idosos e indivíduos com doenças cardiovascular, respiratória diabetes, fumantes, obesos e imunodeprimidos.

Conhecer e quebrar a cadeia de transmissão do vírus é primordial para a prevenção de novos casos. De acordo com o Ministério da Saúde (2020) a transmissão se dá majoritariamente por via respiratória por meio das gotículas expelidas da boca e nariz ao tossir, espirrar e a falar. O vírus pode ainda se depositar nas superfícies e ao ser carreado pelas mãos, pode contaminar o indivíduo ao levar as mãos à boca, nariz e olhos. Assim, as mãos se tornam um dos principais meios de transmissão, bem como as demonstrações de carinho como o aperto de mão, abraço e beijo, o compartilhamento de copos, talheres e toalhas e ainda, destacando as aglomerações, como meios de propagação do vírus.

Ainda de acordo com o Ministério da Saúde (2020), uma vez o vírus instalado no organismo, ele tem um período médio de incubação entre 5.2 dias podendo chegar até 12.5 dias. O indivíduo infectado pode transmitir aproximadamente em até 7 dias após o início dos sintomas, sendo ainda possível a transmissão, mesmo sem o aparecimento dos sinais e sintomas.

Além disso, devemos considerar a capacidade de letalidade do vírus que de acordo com o Boletim epidemiológico n.07 de 06/04/2020 do Ministério da Saúde, no mundo até aquela data [...] foram confirmados 1.210.956 casos de COVID-19 e 67.594 óbitos, com taxa de letalidade de 5,6%. No Brasil, até o dia 06 de abril de 2020, foram confirmados 12.056 casos de COVID-19 e 553 óbitos, com taxa de letalidade de 4,6%.

Nessa perspectiva, ao considerarmos a capacidade de infectividade e a letalidade do COV2, reconhecemos a importância das medidas de contenção por meio do distanciamento social, a suspensão de aulas, fechamento do comércio, trabalho remoto, fechamento de fronteiras, limitação de viagens aéreas e terrestres por ônibus e a definição das atividades essenciais. Assim, os países que olharam para o que estava acontecendo na Europa, com alta taxa de mortalidade e de infectividade e, rapidamente estabeleceram o distanciamento social, a quarentena e isolamento domiciliar puderam reduzir a transmissibilidade e a letalidade.

Dessa forma, considerando que as complicações são graves, não há um tratamento específico, e se torna imprescindível a internação em Centro Tratamento Intensivo (CTI) se torna igualmente importante levar em conta que o sistema de saúde não conseguiria atender à demanda, diante do baixo quantitativo de leitos de CTI e a busca pelo pronto socorro e Unidades de Pronto Atendimento (UPA), gerando um grande colapso com mortes, não apenas entre os chamados grupos de riscos, como os idosos, mas também entre jovens, crianças, adolescentes e gestantes. Assim, a frase “Fique em casa” se tornou um lema, buscando a sensibilização e tomada de consciência para cuidar de si e da coletividade.

Nessa direção, a escola profissionalizante suspendeu suas atividades teóricas e práticas a partir de meados do mês de abril, sendo as turmas informadas sobre a determinação com base na orientação do Ministério da Saúde. Foi realizado o esclarecimento das dúvidas, orientação e estímulo para as atividades remotas e a prática do estudo em domicílio.

Novas palavras, conceitos e expressões como: quarentena, distanciamento social, isolamento social, Equipamento de proteção individual (EPI), CTI, entubação, ventilador mecânico, esterilização, máscara, desinfecção, técnica de lavagem das mãos, entre outras, foram rapidamente introduzidas no vocabulário dos leigos que tentam incorporar e aplicá-las. Entre essas novas expressões, destacamos a quarentena que de acordo com a lei Nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020 é definida como:

[...] restrição de atividades ou separação de pessoas suspeitas de contaminação das pessoas que não estejam doentes, ou de bagagens, contêineres, animais, meios de transporte ou mercadorias suspeitos de contaminação, de maneira a evitar a possível contaminação ou a propagação do coronavírus (BRASIL, 2020).

A quarentena tem assim um prazo definido, estando relacionado ao período de incubação do vírus, devendo ser aplicada também em pessoas que tiveram contatos com doentes ou provenientes de áreas de risco. Nessa condição o indivíduo deve ficar em casa e em um cômodo separado dos demais, devendo utilizar máscara e os cuidados com a lavagem das mãos.

No que tange ao conceito de isolamento, ele diz respeito à

[...] separação de pessoas doentes ou contaminadas, ou de bagagens, meios de transporte, mercadorias ou encomendas postais afetadas, de outros, de maneira a evitar a contaminação ou a propagação do coronavírus [...] (Idem, 2020).

O isolamento poderá ocorrer em uma unidade hospitalar, de acordo com o estado da pessoa, sendo instituídas medidas de precaução padrão, respiratória e de contato. Para os casos leves e estando o indivíduo em bom estado geral, o isolamento poderá ser realizado em casa, devendo a família manter as medidas de precaução semelhantes à quarentena.

O termo distanciamento social só começa a ser utilizado posteriormente, sendo que o Ministério da saúde, inicialmente adotou o termo quarentena na Portaria nº 356, de 11 de março de 2020 ao determinar no Art.4º.

§ . A medida de quarentena será adotada pelo prazo de até 40 (quarenta) dias, podendo se estender pelo tempo necessário para reduzir a transmissão comunitária e garantir a manutenção dos serviços de saúde no território.

§ 3º A extensão do prazo da quarentena de que trata o § 2º dependerá de prévia avaliação do Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE-n CoV) previsto na Portaria nº 188/GM/MS, de 3 de fevereiro de 2020. (BRASIL,2020)

Os termos se assemelham ao ter como objetivo final quebrar a cadeia de transmissão do vírus, porém, diferentemente das outras restrições, o distanciamento social é recomendado para as pessoas que não estão doentes, envolvendo a restrição de atividades nas áreas acadêmicas, laborais em atividades não essenciais, lazer, esporte, cultura e prática de atividade física em academias, além do deslocamento não essencial entre cidades, estados e países.

No Brasil, diferentemente de alguns países, o distanciamento social com a recomendação de ficar em casa, embora previsto na legislação de enfrentamento à pandemia, é uma ação voluntária que demanda de cada um o senso de responsabilidade com o outro, a solidariedade e a preservação da vida, considerando a possibilidade do colapso do sistema de saúde e a contaminação dos grupos vulneráveis.

No contexto atual, no qual já se passaram mais de 30 dias em distanciamento social e considerando o perfil dos estudantes, que passa pela a vulnerabilidade social, o potencial risco de desemprego, a suspensão do trabalho informal, as características de estudantes com alto nível de auto exigência, ansiedade, processo de depressão, violência doméstica e relações familiares conflituosas. Tornou-se instigante a reflexão sobre o impacto na saúde mental dos estudantes do Curso técnico em enfermagem.

Embora não se tenha ainda estudos sobre o impacto dessa pandemia e do distanciamento social na saúde mental das pessoas, o Ministério da saúde estabeleceu recomendações gerais que ajudam a pessoa compreender o momento atual, reconhecer suas necessidades em saúde mental e medidas de enfrentamento, tanto individual, como no coletivo, envolvendo pessoas do círculo de amizade, família, trabalho e a comunidade.

De acordo com a médica psiquiatra Fernanda Benquerer Costa (2020), as pessoas reagem de forma diferente ao stress, de acordo com sua história de vida, a formação, as características individuais, as relações estabelecidas, as características da comunidade onde se vive, entre outras. Dessa forma, o impacto na vida de cada um dependerá não só de suas características, mas também da faixa etária, a capacidade de manter a renda anterior, o suporte do poder público por meio da condução das medidas de contenção da doença e sua cura, a transparência dos dados epidemiológicos, a coerência entre os Poderes públicos e o atendimento aos grupos em vulnerabilidade social, garantido às pessoas o atendimento às suas necessidades básicas não apenas para a satisfação das necessidades fisiológicas e de segurança, mas também as necessidade sociais. Podemos assim inferir que só a comida na mesa e a casa para morar, não impedirá que um sofrimento mental se instale, mesmo entre os abastados. A partir dessas reflexões, relato tem como objetivo: “Divulgar a experiência da utilização de um método para a avaliação do estado de humor dos estudantes diante da pandemia e suas consequências”.

O estudo para a detecção do estado de humor dos estudantes envolvidos teve como objetivos específicos: (i) identificar os estudantes com maior vulnerabilidade para sofrimento mental e (ii) discutir e propor ações junto com o corpo docente para minimizar o problema.

Para alcançar os objetivos foi utilizada a Escala de humor de Brunel (Brunel (Brazil Scale Mood - BRUMS), originada do Perfil dos Estados de Humor (POMS - Profile of Mood States), que de acordo com Rohlfs (2006), foi idealizada em 1971 e era composta de 65 itens de avaliação distribuídos em: tensão, depressão, raiva, vigor, fadiga, confusão e amabilidade com o objetivo inicial de estado de humor de adultos com problemas psiquiátricos e posteriormente se mostrou adequada para ser utilizado em outras áreas, tendo sido validada para avaliação entre os adolescentes (POMS-A) e em seguida teve sua validação para ser utilizada no público adulto. No Brasil, a BRUMS foi validada em 2006 por Rohlfs.

A Escala de Humor de Brunel possibilita sua aplicação na área da saúde (STIES 2014), do trabalho (OLIVEIRA et al, 2019) e ainda, na aérea do esporte (ROHLFS, 2014). A escala é composta por 24 adjetivos que traduzem os sentimentos do indivíduo naquele momento, sendo agrupados em 06 dimensões: Tensão, Depressão, Raiva, Vigor, Fadiga e Confusão, cada dimensão é agrupada por 04 adjetivos que expressam os sentimentos.

A BRUMS (Anexo A) é um instrumento de fácil aplicabilidade, bastando a devida orientação dos sujeitos investigados que deverão atribuir um score de 0 a 4 a partir da escala Likert, na qual a pontuação 0 = nada; 01 = um pouco; 02 = moderadamente; 03= bastante e 04 = extremamente.

A coleta de dados envolveu 34 estudantes regularmente matriculados no Curso Técnico em Enfermagem e foi realizada por meio de e-mail das enviado no dia 08/04/2020, esclarecendo a justificativa, objetivo e o preenchimento do instrumento. O retorno da solicitação se estendeu até o dia 20 de abril. Para análise dos resultados, os 24 adjetivos foram distribuídos nas 06 dimensões compostas por 04 itens em cada uma, como mostra o quadro 1.

TENSÃO

DEPRESSÃO

RAIVA

VIGOR

FADIGA

CONFUSAO

Apavorado

Deprimido

Zangado

Com disposição

Exausto

Inseguro

Ansioso

Triste

Com raiva

Com energia

Sonolento

Indeciso,

Preocupado

Desanimado

Mal humorado

Animado

Esgotado

Desorientado

Tenso

Infeliz

Irritado

Alerta

Cansado

Confuso

Quadro 1.Dimenssões da BRUMS

Torna-se importante lembrar que em cada dimensão, o score total estará entre 0 a 16, considerando que cada uma tem 04 adjetivos que serão pontuados numa escala de 0 a 4 pelos sujeitos. Para a análise dos resultados os dados foram organizados em gráficos em frequência de classe e média aritmética simples. Os scores obtidos foram distribuídos em classes com intervalo de 4, assim demonstrado: (0 a 4); (4 a 8); (8 a 12) e de (12 a 16) e (16 a 20).

Diante da situação atual com a pandemia foi instalado um sentimento que passa pelo medo da perda das pessoas queridas, de ficar doente, a falta de trabalho e de dinheiro, as limitações para a demonstração física de carinho e o confinamento. Toda a rotina foi modificada, assim como os planos. De acordo com a condição econômica, da rede de relação social, a postura positiva e da espiritualidade, cada indivíduo reagirá de forma diferente frente ao stress, que é definido aqui como sendo “[...] uma consequência de uma situação na qual um indivíduo entende que as exigências ambientais estão além do que ele é capaz de atender [...] (PAGGIARO E CALAIS, 2009, p.99, apud LAZARUS, R; FOLKMAN, S. 1984).

Nessa perspectiva, o stress desencadeia mecanismos de respostas e entre elas, a tensão, na qual o indivíduo fica em estado de preparação para a ação. O prolongamento da situação estressora aumentará o sentimento de ansiedade, pavor, preocupação. Em sua face mais negativa, a tensão poderá causar problemas físicos como a hipertensão arterial e mentais como a crise de ansiedade. Assim foi importante refletir sobre o nível de tensão observado no gráfico.

Gráfico 1.Distribuição dos estudantes de acordo com a dimensão Tensão



De acordo com ALVES (2017), a dimensão “Tensão” se refere à: “[...] alta tensão musculoesquelética, agitação e inquietação, não necessariamente sendo acompanhada por manifestações psicomotoras [...]”. Ao avaliar o gráfico, podemos constatar que há um equilíbrio entre os estudantes, na qual a dimensão “Tensão” está na média representando 49,99% de estudantes nas classes de (0 a 8) e de (8 a 16). Por outro lado, precisamos lançar um olhar para os 49, 99% de estudantes com nível de sentimento de tensão elevado, considerando os números apontam que eles se sentem bastante (score 3) ou extremamente (score 4) apavorados, ansiosos, preocupados e tensos.

Ainda pautada em ALVES (2017), no que tange à dimensão “Depressão”, esta representa o humor deprimido com o sentimento de desânimo, tristeza e infelicidade, porém é importante frisar que não se trata de depressão clínica. Assim como na dimensão “Tensão”, a depressão do humor somada às outras características do indivíduo e do meio externo poderão desencadear a depressão clínica, sendo que o autoconhecimento se torna um grande desafio para superar os momentos difíceis.



Gráfico 2. A distribuição dos estudantes de acordo com a dimensão Depressão.



No gráfico podemos constatar que a somatória das classes de (0 a 4 e de 4 a 8), alcança 64,7% dos estudantes com o nível da dimensão “Depressão” abaixo da média. A nossa atenção agora deve ser voltada para os estudantes que apresentaram a dimensão “Tensão” acima da média e se encontram entre o grupo dos 35,28% que estão com o nível elevado da dimensão “Depressão”. Devemos considerar que a intensidade e permanência da tensão podem contribuir para depressão do humor e potencializar outros sentimentos. Por lado, os estudantes com o nível de “Tensão” e de “Depressão” abaixo da média agregam um fator de proteção e podem ter uma postura mais positiva e criativa diante da crise.

No que diz respeito à dimensão “Raiva”, ainda de acordo com ALVES (2017), esta envolve o sentimento de estar zangado, mau humor e irritação com hostilidade contra si ou contra as outras pessoas. No cenário atual, os planos são adiados, as questões socioeconômicas e a limitação da mobilidade, são situações que podem fazer com que o indivíduo se sinta com raiva diante dos obstáculos que interferem em sua vida.

Gráfico 3.Distribuição dos estudantes de acordo com a dimensão Raiva

No gráfico podemos constatar que a somatória das classe de (0 a 4 e da classe de 4 a 8), alcança 82,35% dos estudantes com o nível da dimensão “Raiva” abaixo da média, significando que os scores estão entre a pontuação 0 (nada),1 (um pouco) e 2 (moderado). Assim, podemos inferir que mesmo diante das adversidades, os estudantes estão conseguindo elaborar as emoções e ao mesmo tempo, podem fazer o uso da raiva positiva, que confere energia e vigor, impulsionando para superar os obstáculos.

No que concerne à dimensão “Vigor”, esta diz respeito aos estados de energia, animação e atividade, sendo caracterizada pelos adjetivos :com disposição; com energia; animado e alerta, sendo a única que traz o aspecto de humor positivo. Assim, diferentemente das demais, quanto menor o score, maior atenção se deve ter com os sujeitos, principalmente se apresentam elevados níveis de humor negativo. Como é possível avaliar no gráfico a seguir.

Gráfico 4.Distribuição dos estudantes de acordo com a dimensão “Vigor”

O gráfico nos aponta que 61,75% dos estudantes apresentam o nível da dimensão “Vigor” abaixo da média. Devemos lembrar, que isso significa que estes estudantes se sentem com falta de disposição, falta de energia, com desânimo e estão em alerta. Dessa forma, ao levarmos em conta que a dimensão “Vigor” está relacionada ao humor positivo, e, quanto maior o score, menor é a força do estudante para o enfrentamento dos problemas. Assim, se deve ter maior atenção àqueles que apresentaram altos scores nas dimensões relacionadas ao humor negativo, como a depressão.

Embora nessa reflexão não se traga outras variáveis relacionadas à renda da família, constituição familiar, número de habitantes na residência, questões de gênero e trabalho, podemos inferir que estes fatores somados aos efeitos da pandemia podem influenciar no sentimento expressado pelos estudantes.

No que tange à dimensão “Fadiga”, o indivíduo pode se sentir exausto, sonolento, esgotado e cansado, podendo este fato estar relacionado a vários fatores.

Gráfico 5. Distribuição dos estudantes de acordo com a dimensão “Fadiga”.

O gráfico 5, nos aponta que a somatória das classes de (0 a 4 e da classe de 4 a 8), alcança um total de 67,63% dos estudantes com o nível da dimensão “Fadiga” abaixo da média. Obstante, temos um percentual de 32,37% de estudantes que referem o sentimento de fadiga acima da média. Nessa dimensão também, a falta de outras variáveis não nos possibilita inferir sobre a motivação da fadiga acima da média referida pelos os estudantes. Por outro lado, ao considerarmos o momento atual podemos inferir que a mudança brusca na vida das pessoas com a pandemia, proporcionou a mudança na rotina, modificando o ritual para dormir, alterando o ciclo do sono, levando à inversão do horário, com mais sono diurno e insônia à noite. Esse ciclo precisa ser restabelecido, pois sua constância pode interferir na saúde mental, principalmente entre os estudantes que apresentaram scores altos nas dimensões do estado de humor negativo, podendo interferir em sua saúde física.

Para ALVES (2017) na dimensão “Confusão”, o indivíduo pode se sentir inseguro, indeciso, desorientado e confuso, sendo que o prolongamento desse estado pode gerar instabilidade das emoções, afetar as relações e a tomada de decisão.



Gráfico 6. Distribuição dos estudantes de acordo com a dimensão “Confusão”.



Podemos observar que entre as classes de (0 a 4 e da classe de 4 a 8), 67,64% dos estudantes apresentam o nível da dimensão “Confusão” abaixo da média.

Este sentimento de confusão pode estar associado ao momento atual, no qual existe uma intensa divulgação de informações na rede de televisão, nas redes sociais da internet com vários especialistas e não especialistas se posicionando de formas diferentes, assim como as divergências entre o Poder Público, levando à desconfiança, medo e desesperança nas pessoas. Somado a isso estão as questões de vulnerabilidade social, a configuração familiar, o medo da morte e da doença e o histórico e potencial para desenvolver de transtorno mental. Nesta dimensão, também devemos considerar os 32,34% dos estudantes que apresentam score acima da média.

Em um panorama geral podemos visualizar no gráfico as dimensões de humor negativo entre os estudantes.



Gráfico7.Distribuição dos estudantes de acordo com scores entre 3 e 4



O humor negativo é representado por 20 adjetivos que expressam os sentimentos dos estudantes, a partir da escala de Likert numa variação de pontuação de 0 a 4 pontos, destacando que quanto maior o score, pior é o estado de humor dos sujeitos. Desse modo, os dados acima comungam com os gráficos anteriores, apontando para a maior frequência do score do humor negativo nas dimensões “Tensão” e “Depressão”.

No que se refere ao humor positivo, embora seja representado por apenas 04 adjetivos do total, como refletimos anteriormente, ele se torna muito importante por possibilitar aos sujeitos uma nova postura diante dos problemas e a possibilidade de reelaborar os sentimentos negativos. Como mostrado no gráfico 8.

Gráfico 8 .Distribuição dos estudantes de acordo com scores entre 3 e 4



Nesse gráfico, podemos observar que entre os 4 adjetivos que compõem a dimensão “Vigor”, 50% das respostas dos estudantes está relacionada à “Alerta”. Em uma situação de stress, o estado desacerbado de alerta pode ser prejudicial para a saúde física e mental. Por outro lado, no “Vigor” estar em alerta é positivo na medida em que o sujeito consegue ter uma visão do todo e pode perceber as dificuldades e reelaborar os planos.

Para finalizar essas ponderações realizadas no texto, o quadro 2 possibilita uma visão geral do estado de humor dos estudantes, podendo contribuir para o acompanhamento e intervenção.


Abaixo da média

Acima da média

DIMENSÃO

n.

%

n

%

Tensão

17

49,49

17

49,49

Depressão

22

64,70

12

35,28

Raiva

28

82,35

06

17,64

Vigor

21

61,75

13

38,23

Fadiga

23

67,63

11

32,25

Confusão

23

67,63

11

32,25

Quadro 2. Distribuição das dimensões de acordo com média de frequência.

Considerações

Ao término desta reflexão, que teve como objetivo detectar o estado de humor dos estudantes de um Curso Técnico em Enfermagem, o estudo foi compartilhado entre os professores e estudantes. Para os professores, foram sinalizados os estudantes mais vulneráveis e que necessitavam de melhor acompanhamento. No que tange aos estudantes, foi realizado contato por e-mail e pelo o aplicativo WhatsApp, especialmente para os mais vulneráveis, com o propósito de estabelecer um canal de comunicação e escuta ativa. Além disso, os docentes da área da saúde mental e psicologia realizaram atividades por meio de vídeos, que ajudaram no autoconhecimento e na compreensão do atual momento e o desenvolvimento da resiliência. Buscou-se ainda, divulgar e estimular a procura por medidas de auxílio emergencial oferecida pelo o Governo Federal e também a identificação de bancos de alimentos na cidade. As atividades de estudos à distância, foram replanejadas na perspectiva da interdisciplinaridade e com maior espaço de tempo entre o envio e o retorno. Os estudantes atendidos por e-mail agradeceram a consideração e relataram não se sentirem sozinhos e com maior força.

Não sabemos ao certo até quando a pandemia irá ainda durar, mas já podemos vislumbrar suas marcas em todo o mundo, principalmente nos países pobres, e em especial, no Brasil. A pandemia do COVID-19 trouxe à tona o fosso da desigualdade social no qual os sociólogos e estudiosos da Saúde coletiva nos alertam sobre a importância de se ter a “saúde como condição de cidadania”, em um país cuja grande parte da população não tem acesso à água potável, saneamento básico, a educação de qualidade, ao trabalho digno, lazer e cultura e vivendo abaixo da linha de pobreza.

As pessoas não podem ser vistas como números nos indicadores sociais e/ou invisíveis para as políticas públicas. De acordo com IBGE (2018), entre os anos de 2016 e 2017, 54,5 milhões de pessoas eram consideradas pobres, ou seja, sobreviviam com apenas R$ 406,00 por mês e em se tratando da extrema pobreza, no ano de 2017, 15,2 milhões de brasileiros sobreviviam com R$ 140,00 por mês. Se entre 2016 e 2017 houve um aumento de 7,4% da extrema pobreza, o que poderemos esperar no período da pandemia e no pós-pandemia?

Neste contexto, considerando os dados do IBGE, as reflexões anteriores, os dados coletados e interpretados o caminho ainda a ser percorrido até o final da pandemia, se torna necessário manter ou implementar medidas para que mesmo diante da crise, os estudantes possam fortalecer a capacidade de enfrentamento dos problemas, desenvolver a resiliência e o autoconhecimento para solicitar ajuda. À medida que o quadro da pandemia piorar, possivelmente os dados da sondagem realizada com os estudantes irão se modificar, tanto para pior, como para melhor, o que esperamos que aconteça.

Assim, se torna importante acompanhar os estudantes que tiveram altas pontuações nas dimensões do humor negativo e baixa pontuação na dimensão do humor positivo. No entanto, só o bem querer dos professores não bastará, sendo imprescindível, políticas públicas para a redução da pobreza no país, de forma que o topo da pirâmide não seja tão pequeno, cabendo aos poucos mais ricos do Brasil e a base da pirâmide não seja formada pelos invisíveis da sociedade.

Referências



ALVES, Carlos Gilberto de Sousa. Alterações no estado de humor e a influência no sucesso competitivo Em atletas de taekwondo. 2017. 35f. Monografia (Graduação) Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br . Acesso em: 11 abr. 2020

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Departamento de Atenção Hospitalar, Domiciliar e de Urgência. Protocolo de manejo clínico da Covid-19 na Atenção Especializada [recurso eletrônico]. – 1. ed. rev. – Brasília: Ministério da Saúde, 2020. Disponível em: https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2020/fevereiro/05/Protocolo-de-manejo-clinico-para-o-novo-coronavirus-2019. Acesso em: 08 abr. 2020.

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Indicadores Sociais. - Rio de Janeiro: IBGE, 2018. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101629.pdf. Acesso em: 12 abr. 2020

COSTA, Fernanda Benquerer . A saúde mental em meio à pandemia COVID-19. Disponível em: http://www.saude.df.gov.br/. Acesso em: 11 abr. 2020

OLIVEIRA FJS, Almeida LY, Jaqueline L.O, Almeida LC, Souza J. Trabalho e estado de humor de funcionários de uma universidade pública. Disponível em : https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/enfermagemuerj/article/download/41794/30982 . Acesso em:10 abr.2020

PAGGIARO, Patrícia Bergantin; SOARES Calais; Sandra Leal. Estresse e escolha

Profissional: um difícil problema para alunos de curso pré-vestibular. Contextos Clínicos, vol. 2, n. 2, julho-dezembro 2009. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo. Acesso em :11 abr. 2020

ROHLFS, Izabel Cristina Provenza de Miranda. Validação do teste de BRUMS para atletas e não atletas brasileiros. 2006.111f. Dissertação (de Mestrado). Universidade de Santa Catarina. Florianópolis, 2006. Disponível em: http://www.tede.udesc.br/. Acesso em:06 abr. 2020.

______. Izabel Cristina Provenza Miranda et al. Aplicabilidade do BRUMS: estados de humor em atletas de voleibol e tênis no alto rendimento. Ver. Bras. Med Esporte – Vol. 20, No 6 – Nov/Dez, 2014 Disponível em: http://www.scielo.br/scielo . Acesso em:06 abr. 2020.

STIES, Sabrina Weiss et al. Validação da escala de humor de Brunel para programa de reabilitação cardiovascular. Revista Brasileira de Medicina do Esporte [online]. 2014, vol.20, n.4, pp.281-284. ISSN 1517-8692. Disponível em:< https://doi.org/10.1590/1517-86922014200401999 

Acesso em: 08 abr.2020.





ANEXO A.

Orientação para preencher o quadro. Analisem cada palavra que representa um sentimento e para cada uma, você irá assinalar de 0 (zero) a 4 pontos Sendo que:

0 (Zero) é igual a NADA

1 é igual a UM POUCO

2 é igual a MODERADAMENTE

3 é igual a BASTANTE

4 é igual a EXTEMAMENTE

Importante: Para cada palavra (sentimento), vocês só podem dar uma nota, assinalando um X. Não esqueçam de ver a tabela de nota acima que vai da nota 0 (Zero) a 4.

Exemplo:

Sentimento

0

1

2

3

4

1.Apavorado

X


X



2. Animado








Vamos começar para valer?


0

1

2

3

4

1.Apavorado






2.Animado






3.Confuso






4.Esgotado






5.Deprimido






6.Desanimado






7.Irritado






8.Exausto






9.Inseguro






10.Sonolento






11. Zangado






12.Triste






13.Ansioso






14.Preocupado






15.Com disposição






16.Infeliz






17.Desorientado






18.Tenso






19.Com raiva






20.Com energia






21.Cansado






22.Mal humorado






23.Alerta






24. Indeciso














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