ISSN 1678-0701
Número 72, Ano XIX.
Setembro-Novembro/2020.
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Relatos de Experiências

No. 72 - 03/09/2020
PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES DA ALDEIA CANUANÃ/ETNIA JAVAÉ SOBRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA AÇÃO MUTIRÃO DA LIMPEZA  
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PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES DA ALDEIA CANUANÃ/ETNIA JAVAÉ SOBRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA AÇÃO MUTIRÃO DA LIMPEZA

José Antônio Pereira1, Welington Francisco2

1Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Química, Universidade Federal do Tocantins – Gurupi. joseantonioquimica@gmail.com

2Professor do Instituto Latino-Americano de Ciências da Vida e Natureza, Universidade Federal da Integração Latino-Americana. welington.francisco@unila.edu.br



Resumo: Apoiando-se nas ideias da Educação Ambiental Crítica (EAC) e na realização de ações ambientais socioparticipativas, o objetivo desse trabalho foi identificar a percepção dos estudantes da Escola Indígena Tainá sobre a ação “Mutirão da Limpeza” realizada na comunidade indígena. Trata-se de uma pesquisa-ação realizada em quatro fases, cujos 34 estudantes da comunidade que participaram da ação responderam um questionário elaborado com quatro perguntas. A ação Mutirão da Limpeza possibilitou a identificação da quantidade de lixo descartada inadequadamente, assim como uma intervenção em conjunto para solucionar ou minimizar essa problemática. Essa ação promoveu um contato maior com o ambiente, ampliando as compreensões e sentimentos de pertencimento ao meio ambiente, corroborando com a importância da EA.

Palavras-chaves: Educação ambiental; comunidade indígena; compromisso social.

Perception of students from the Canuanã village/Ethnic Javaé about Environmental Education in the cleaning effort action



Abstract: Based on the ideas of Critical Environmental Education and on the realization of socio-participatory environmental actions, the goal in this article is to identify the perception of students from the Tainá Indigenous School about the “Cleaning Effort” action realized in the indigenous community. It is an action research conducted in four phases, whose 34 indigenous students who participated in the action answered a questionnaire with four questions. The Cleaning Effort allowed the identification of the amount of waste improperly disposed by the community, as well as a joint intervention to solve or minimize this problem. This action promoted greater contact with the environment, expanding the understanding and feelings of belonging to the environment, corroborating the importance of Environmental Education.

Keywords: Environmental education; indigenous community; social commitment.

Introdução

A noção de Educação Ambiental (EA) surge como consequência de uma crise ambiental oriunda do avanço tecnológico desenfreado, que se deu no fim do século XX. Todas as discussões e preocupações foram pautadas em demandas para um olhar de minimizar os impactos ambientais que apareciam. Nesse primeiro momento, a EA era tida como um saber e uma prática fundamentalmente conservacionista (Layrargues; Lima, 2011).

Essa vertente conservadora é caracterizada por possuir uma visão mecanicista e utilitarista da ciência, simplificando os fenômenos presentes da realidade. Além disso, a EA conservadora é conhecida por ignorar ou não querer mostrar o conhecimento sobre as relações de poder que estruturam a sociedade atual, tais como luta de classes, relações de gênero, minorias étnicas e culturais entre outros. No entanto, com o passar do tempo floresceu outra visão para a EA, conhecida como vertente crítica (Layrargues; Lima, 2011).

De acordo com Loureiro (2004, p. 4), a EA Crítica é entendida pela:

Valorização da democracia e do diálogo na explicitação dos conflitos ambientais, em busca de alternativas que considerem o conhecimento científico, as manifestações culturais populares e uma nova ética nas relações sociedade-natureza pautada e construída em processos coletivos de transformação social, enquanto condição básica para se estabelecer patamares societários que requalifiquem nossa inserção na natureza.

Desta forma, o interesse desse estudo advém da identificação de diversos problemas socioambientais após sucessivas visitas na Aldeia Canuanã, etnia Javaé, onde moram aproximadamente 488 índios sob a chefia do cacique Tehambi Javaé. Essa aldeia se distancia em 385 km de Palmas (TO) e 65 km do município de Formoso do Araguaia, localizando-se dentro da Ilha do Bananal, onde possui uma grande biodiversidade que é protegida pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio). Realizando percursos pelas margens do Rio Javaés e pelas praias naturais que são formadas, foram observados problemas relacionados com o desmatamento da vegetação da mata ciliar e, sobretudo, com o excesso de lixo.

Nesse sentido, o objetivo do trabalho é identificar a percepção dos estudantes da Escola Indígena Tainá sobre a ação “Mutirão da Limpeza” realizada na comunidade indígena. A identificação do que os estudantes participantes pensam sobre essa ação é parte fundamental para responder a seguinte questão de pesquisa da dissertação de mestrado: O quanto que ações ambientais participativas podem provocar transformações socioculturais na comunidade indígena?

Princípios da Educação Ambiental Crítica

Diversos autores reforçam formulações teóricas que consolidam, no campo da educação, a Educação Ambiental numa perspectiva crítica como forma de intervenção no/para o mundo (Lima, 2002; Layrargues, 1999, 2003, 2004; Loureiro et al., 2002b e 2006); Tozoni-Reis, 2006).

A Educação Ambiental Crítica (EAC) objetiva promover ambientes educativos de mobilização e de intervenção sobre a realidade dos problemas socioambientais. Esse caminho busca superar as armadilhas paradigmáticas e propiciar um processo educativo em que todos os envolvidos procurem soluções que contribuam para a transformação da grave crise socioambiental que vivenciamos (Loureiro, 2004). Assim, passa a ser entendida como um processo educativo de dimensão política que pode ser explicada numa:

Práxis educativa e social que tem por finalidade a construção de valores, conceitos, habilidades e atitudes que possibilitem o entendimento da realidade de vida e atuação lúcida e responsável de atores sociais individuais e coletivos no ambiente (Loureiro, 2002a, p. 69).

Pelo seu teor e vigor, a EAC pode ser um instrumento que reforce e incentive a viabilidade da inserção das discussões ambientais no âmbito da educação. É com essa perspectiva, que o sujeito reflete e age, almejando a transformação da realidade socioambiental com vistas à construção de sociedades sustentáveis. Isso permite compreender que é possível pensar sobre o papel social de todos, sobretudo da escola, quanto a construção de um futuro melhor.

Por isso que Reigota (2009) defende a educação ambiental como uma educação política comprometida com: a ampliação da cidadania, da liberdade, da autonomia e da intervenção direta dos cidadãos e das cidadãs na busca de soluções e alternativas que lhes permitam a convivência digna e voltada para o bem comum. Para Carvalho (2004, p. 20), a formação dos cidadãos nessa perspectiva:

Incide sobre as relações indivíduo sociedade e, neste sentido, indivíduo e coletividade só fazem sentido se pensados em relação. As pessoas se constituem em relação com o mundo em que vivem com os outros e pelo qual são responsáveis juntamente com os outros. Na Educação Ambiental crítica, esta tomada de posição de responsabilidade pelo mundo supõe a responsabilidade consigo próprio, com os outros e com o ambiente, sem dicotomizar e/ou hierarquizar estas dimensões da ação humana.

Na EAC é necessário que os participantes estejam envolvidos no processo de criar e solidarizar com o princípio de participação social na resolução de um problema ambiental local, partindo do princípio dos núcleos de emersão. Esse princípio se define como “um eixo estruturante das práticas de educação ambiental... essencial para a transformação das relações entre sociedade e ambiente (Jacobi, 2005, p. 233). Além desse princípio, existem outros para nortear o desenvolvimento de ações educativas relacionadas com as questões ambientais. Loureiro (2004, p. 139) considera que:

É absolutamente crucial para a concretização de um novo patamar societário que a produção em educação ambiental aprofunde o debate teórico-prático acerca daquilo que pode tornar possível ao educador discernir uma concepção ambientalista e educacional conservadora e tradicional de uma emancipatória e transformadora, e as variações e nuances que ambas se inscrevem problematizando-as, relacionando-as e superando-as permanentemente.

Layrargues (2003) afirma que muitos dos modos de fazer e pensar a EA enfatizam a dimensão ecológica da crise ambiental como se os problemas ambientais independessem das práticas sociais. Um novo olhar sobre as abordagens de conceitos sobre educação ambiental deve permitir que a “seja compreendida não apenas como um instrumento de mudança cultural ou comportamental, mas também como um instrumento de transformação social para atingir a mudança ambiental” (Layrargues, 2003, p. 14).

Nessa perspectiva, o meio ambiente é conjunto, é sistêmico e precisa ser percebido em sua totalidade complexa. Layrargues (2003, p. 16) ainda destaca que:

A reflexão a respeito do problema ambiental, sem estar articulada com a contextualização social, cultural, histórica, política, ideológica e econômica, resulta na reprodução de uma visão de mundo dualista, que dissocia as dimensões social e natural. Assim, a luta pela proteção da natureza sobressai como algo hierarquicamente prioritário sobre a luta por justiça e igualdade social, em vez de serem percebidas como intrinsecamente vinculadas.

Assim, se a educação é mediadora na atividade humana, a EAC é mediadora da apropriação, pelos sujeitos, das qualidades e capacidades necessárias para à ação transformadora diante do ambiente em que vivem. Pode-se dizer que a gênese do processo educativo ambiental é o movimento de fazer-se plenamente humano pela apropriação crítica e transformadora da totalidade histórica e concreta da vida dos homens no ambiente (Tozoni-Reis, 2004).

Ao se trabalhar a EA na escola, o ponto de partida é estabelecer relações entre a sociedade, educação e a escola. Por meio da educação é que a formação consciente do ser humano vai sendo construída, tendo como objetivo principal o conhecimento da realidade e a participação atuante no processo de solucionar ou minimizar determinados problemas ambientais. Daí surge a tendência de a educação ambiental estar associada com a responsabilidade social, o que se torna um desafio complexo. Dessa complexidade emerge as mútuas relações de causalidade multidimensional entre os fatores ecológicos, sociais, culturais, econômicos, políticos, territoriais, éticos (Layrargues, 2004).

Metodologia

O desenho metodológico desta pesquisa concentra-se nas ideias de uma pesquisa-ação, com a perspectiva de reflexão, ação, geração de conhecimento e mudança social. Essa abordagem promove a compreensão da problemática, o mútuo envolvimento, mudanças e crescimento pessoal (Kidd; Kral, 2005).

De acordo com Green (2008), a pesquisa-ação é considerada um processo no qual os pesquisadores e os participantes trabalham embasados na produção de conhecimento e promoção de uma ação útil para a comunidade, primeiramente, para depois buscar o empoderamento por meio de “afloramento da conscientização”. Tripp (2005) sumariza sua realização em quatro fases: (i) PLANEJAR ações; (ii) AGIR para alcançar resultados; (iii) MONITORAR e DESCREVER os efeitos; (iv) AVALIAR os resultados.

PLANEJAR ações

Esta etapa consistiu no planejamento de ações em conjunto voltadas para os principais problemas ambientais que a comunidade indígena Javaé possui. Para isso foi realizada uma primeira reunião com os principais líderes da aldeia (cacique, diretor, professores, pais e outros funcionários) no dia 28 de março de 2018 às 18h com duração de 1 hora na Escola Indígena Tainá, localizada dentro da aldeia, com a finalidade de apresentar a proposta da pesquisa e conhecer alguns anseios locais.

A segunda reunião foi feita no dia 18 de outubro de 2018 às 13h e teve duração de 2h. Participaram desse encontro: comunidade escolar (alunos, professores, diretor, coordenador e auxiliar de serviços gerais), o cacique e vice cacique e os pais dos alunos (parte da comunidade), em que foi conversado acerca dos problemas ambientais que vem acontecendo no Brasil pela própria ação do homem. Os participantes relataram os impactos ambientais na própria aldeia. O problema ambiental mais comentado foi sobre o lixo. Após a reunião foi realizada uma caminhada a convite dos professores da escola por vários pontos da Aldeia (lixão, ruas, campo de futebol e nas proximidades do Rio Javaé).

A partir da caminhada, observou-se que o excesso de lixo era uma problemática na aldeia e que a agressão à natureza era causada tanto pelos indígenas como não indígenas. Assim, as sugestões de ações feitas pela comunidade em um planejamento coletivo foram: mutirão da Limpeza na coleta do lixo nas redondezas da aldeia; revitalização de um barracão de palha para ser o ponto de triagem; oficina de coleta seletiva e de reciclagem.

AGIR para alcançar resultados

Foi o momento do desenvolvimento e execução das ações propostas e definidas em conjunto. Como o principal problema ambiental apontado por toda a comunidade foi o lixo, sugeriu-se a realização de um “Mutirão da Limpeza”.

No dia 07 de novembro de 2018 às 13h, na aldeia Canuanã, alunos, professores e comunidade foram reunidos em frente à Escola Indígena Tainá e o Posto de Saúde para a realização da ação “Mutirão da Limpeza”. Esse mutirão foi realizado com o objetivo de retirar o lixo que estava espalhado em torno da Aldeia e principalmente na margem do Rio Javaé.

Durante a reunião foi comentado sobre a importância do projeto e do compromisso sociocultural participativo. Adicionalmente, foi ressaltado sobre as orientações quanto aos riscos decorrentes da ação, como por exemplo: os métodos de acondicionamento, coleta, transporte, tratamento e destinação final adequados do lixo na aldeia de Canuanã.

O cacique e o vice cacique doaram um barracão para ser reformado e revitalizado pela comunidade para ser o Ponto Central de Triagem dos resíduos sólidos. Ao término da reunião, todos foram direcionados ao barracão para revitalizá-lo. No primeiro momento, as ações do mutirão da limpeza iniciaram-se com a limpeza dentro do barracão e em seguida, foram definidos os lugares para cada tipo de material que seria coletado (vidro, metal, plástico e papel).

A triagem manual demanda pouco investimento, mas não deixa de ser uma etapa importante para o processo de reciclagem. Esse local foi escolhido porque fica mais distante do centro da comunidade e por apresentar um grande espaço para a realização do trabalho. Foi necessário todo o uso de equipamentos de segurança e orientado que andassem pelo menos calçados, principalmente para não ter o contato direto com os resíduos sólidos no solo, pois poderiam adquirir algum tipo de patologia ou se machucarem.

Os alunos foram divididos em 6 grupos de 10 participantes supervisionados por três professores, a coordenadora, o diretor da unidade escolar e o vice cacique. A distância percorrida durante o Mutirão da Limpeza pelos envolvidos foi de aproximadamente 2,5 km totalizando uma área aproximada de 152.000 m2 (Figura 1). Cada equipe seguiu pelas proximidades da margem do Rio Javaés coletando os 04 tipos básicos de recicláveis em saco plástico de 200 litros. Quando o recipiente ficava cheio, a equipe voltava ao barracão para a entrega, enquanto outra equipe fazia a triagem do que foi coletado. Os alunos usaram carrinho de mão para transportar motos carbonizadas, fogões, geladeiras, freezers, pneus, portas e grades metálicas descartadas.

A classificação dos resíduos sólidos foi feita manualmente por uma equipe de 10 alunos. Quando os demais chegavam ao barracão, após percorrer o trajeto, também contribuíam para a segregação. Todo o material chegava misturado e era colocado no centro do barracão para que a triagem fosse realizada. Os materiais foram classificados em: PET incolor, PET verde, latinhas de alumínio, outros metais como o ferro, vidros, papel e papelão.

Todo o material coletado foi triado, classificado, ensacado e guardado. Dentre os resíduos sólidos coletados verificou-se que o alumínio e o plástico foram os com maior quantidade. Por volta das 16h todos se encontraram no barracão central para fechamento da ação.

Figura 1 -- Mapa do Percurso feito pelo Mutirão da Limpeza.