Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos. Eduardo Galeano
ISSN 1678-0701 · Volume XXIII, Número 94 · Março-Maio/2026
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16/03/2026 (Nº 94) AGRICULTOR CHINÊS SEM SUAS DUAS PERNAS PLANTOU MAIS DE 17 MIL ÁRVORES AO LONGO DE 19 ANOS EM REGIÃO AFETADA PELA DESERTIFICAÇÃO
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AGRICULTOR CHINÊS SEM SUAS DUAS PERNAS PLANTOU MAIS DE 17 MIL ÁRVORES AO LONGO DE 19 ANOS EM REGIÃO AFETADA PELA DESERTIFICAÇÃO



Escrito por

Horticultura

Valdemar Medeiros

Publicado em16/02/2026

Idoso chinês sem as duas pernas plantou 17 mil  árvores em 19 anos e transformou deserto em floresta ‘para gerações futuras’



A trajetória de Ma Sanxiao no plantio de 17 mil árvores e na recuperação de uma região ameaçada pela desertificação

Todos os dias Ma Sanxiao acorda, coloca suas próteses desgastadas, pega suas ferramentas, uma pá e uma picareta, e começa a caminhada de uma hora até o pé da montanha. Ele não toma café da manhã. Leva apenas alguns pães cozidos no vapor (mantou) embrulhados em pano para comer durante as pausas. A caminhada é apenas o começo. À frente dele está uma montanha rochosa e íngreme no Condado de Jingxing, Província de Hebei, no norte da China. Para subir centenas de metros, Ma leva mais de 40 minutos. Às vezes precisa rastejar através de valas. Outras vezes, atravessa encostas cobertas de espinhos que rasgam suas luvas grossas em questão de dias. Ma Sanxiao tem 74 anos. E não tem pernas.

Horticultura

Ambas foram amputadas, a perna direita em 1985, a esquerda em 2005, devido a septicemia (envenenamento do sangue) que contraiu enquanto servia como soldado de reconhecimento no Exército Popular de Libertação da China.

Mas desde 2000, Ma subiu essa montanha quase todos os dias. Cavou buracos. Plantou mudas. Carregou água. Rastejou quando necessário. E ao longo de 19 anos, transformou 800 mu (aproximadamente 53 hectares) de colinas áridas em uma floresta exuberante com mais de 17.000 árvores.

Para mim, elas não são árvores”, diz Ma, olhando para a paisagem verde que criou com suas próprias mãos. “Eu as considero como os soldados que comandei. Elas me fazem sentir muito realizado.”

Água Engarrafada

A história de um soldado: do campo de batalha à mesa de cirurgia

A tragédia de Ma Sanxiao começou décadas antes de ele plantar sua primeira  árvore. Em 1974, aos 23 anos. Ma servia como soldado de reconhecimento (scout) no exército chinês quando contraiu septicemia — uma resposta extrema do corpo a uma infecção que pode levar rapidamente à falência múltipla de órgãos e morte. Segundo algumas fontes, a infecção começou com uma picada de sanguessuga que não foi tratada adequadamente.

A septicemia forçou Ma a se aposentar do serviço militar ainda jovem. Ele tentou viver como civil normal, trabalhando como professor e agricultor. Mas a doença nunca o abandonou completamente.

Ao longo dos anos seguintes, Ma passou por sete cirurgias maiores. Os custos médicos devastaram sua família financeiramente. Venderam tudo que tinha valor. Acumularam dívidas que pareciam impossíveis de pagar. Segundo reportagens chinesas, em determinado ponto, “sua família não conseguia nem comprar uma caixa de fósforos”.

Em 1985, depois de anos de tratamento sem sucesso, os médicos não tiveram escolha: amputaram sua perna direita.

Ma estava com 34 anos. Tinha uma família para sustentar. Sem perna, com dívidas esmagadoras, e vivendo em uma aldeia rural pobre, suas perspectivas eram sombrias.

Mas pior ainda estava por vir. Em junho de 2005, após mais 20 anos lutando contra complicações da septicemia, Ma perdeu sua segunda perna. A esquerda foi amputada. Aos 54 anos, Ma Sanxiao era um duplo amputado.

Sua família se desfez sob o peso emocional e financeiro. Ele ficou sozinho. Desesperado e sem esperança, Ma começou a construir seu próprio caixão.

A decisão que mudou tudo: plantar para sobreviver

Em 2000, ainda com uma perna, Ma assistiu a um programa de televisão sobre uma pessoa que havia plantado árvores e as vendeu com lucro. Uma ideia começou a germinar em sua mente.

As colinas ao redor da Vila Mayu, onde morava, eram completamente áridas, terra deserta e rochosa onde quase nada crescia. Mas talvez, pensou Ma, ele pudesse plantar árvores ali. E quando crescessem, poderia vendê-las para pagar suas dívidas médicas. Não era um plano ambicioso ou nobre. Era simplesmente sobrevivência.

Originalmente em 2000, eu queria cultivar  árvores e depois vendê-las para ganhar a vida”, admitiu Ma anos depois. “Naquela época, minha família havia se desfeito devido à minha doença e deficiência.”

Então, com uma perna, muletas, uma pá e uma picareta, Ma Sanxiao começou a subir a montanha.

Plantar árvores em colinas áridas é difícil para pessoas saudáveis. Para Ma, era quase impossível. Levava mais de 40 minutos para escalar apenas algumas centenas de metros. Cada buraco cavado na terra rochosa exigia esforço imenso. Carregar água da nascente mais próxima era uma provação.

Mas ele persistiu. Dia após dia. Mês após mês. Ano após ano.

Água Engarrafada

A transformação: de negócio a missão de vida

Algo inesperado aconteceu enquanto Ma plantava suas árvores. Ele começou a vê-las crescer. Pequenas mudas se tornaram árvores jovens.  Árvores jovens cresceram fortes e verdes. As colinas áridas começaram a mudar de cor de marrom empoeirado para verde vibrante.

E algumas das árvores morreram. As condições eram duras — solo rochoso, pouca água, invernos rigorosos. Quando Ma via uma árvore que havia plantado meses antes murchar e morrer, sentia dor genuína.

Horticultura

Depois de ver as árvores crescendo diante de meus olhos todos os dias e lidar com a tristeza de algumas delas morrerem devido às condições severas na área”, Ma ficou tão apegado à sua pequena floresta que tomou uma decisão radical.

Ele não venderia as árvores. Nunca. Por volta de 2005, a situação financeira de Ma melhorou ligeiramente. O governo chinês aumentou as pensões para veteranos feridos em áreas rurais. Pela primeira vez em décadas, Ma tinha renda suficiente para cobrir seus medicamentos e necessidades básicas.

Água Engarrafada

E então ele decidiu: continuaria plantando árvores, mas não mais para lucro pessoal. Plantaria para as gerações futuras. Para melhorar o meio ambiente. Para deixar um legado verde.

Eu nunca venderei essas árvores”, declarou Ma. “É uma grande sensação de realização. Continuarei plantando árvores até meu último suspiro e deixarei essa riqueza verde para o país e para as gerações futuras.”

A rotina brutal: como plantar árvores sem pernas

Para entender o que Ma Sanxiao realiza todos os dias, é preciso entender a logística física de seu trabalho.

5h00: Ma acorda antes do amanhecer. Primeiro, precisa preparar os cotos de suas pernas — aplicar proteção extra onde foram amputadas para evitar feridas. Depois, calça suas próteses desgastadas. O processo leva tempo.

6h00: Coloca luvas grossas, pega sua pá, picareta, e mudas de árvores. Enche uma garrafa com água. Embrulha alguns pães cozidos no vapor. Não come café da manhã — prefere economizar tempo.

7h00: Chega ao pé da montanha após caminhar uma hora da aldeia. A verdadeira jornada começa aqui.

7h00-8h00+: Sobe a montanha usando muletas. Cada movimento é calculado. Centenas de metros levam mais de 40 minutos. Às vezes as muletas escorregam em pedras soltas. Às vezes ele precisa rastejar através de valas ou subir encostas íngremes cobertas de espinhos.

8h00-17h00: Trabalho. Cavar buracos na terra rochosa. Plantar mudas. Rastejar até a nascente mais próxima para buscar água. Voltar. Regar as árvores. Repetir. Durante o dia, faz pausas curtas para comer seus pães e descansar.

Um par de luvas grossas dura apenas cinco dias antes de ser destruído pelas rochas e ferramentas. Ma usa dezenas de pares por ano.

As próteses frequentemente precisam de manutenção. Seu corpo sofre — dores constantes nos cotos das pernas, nas costas, nos braços. Mas ele não para.

Algumas vezes tenho que rastejar para atravessar uma vala e subir encostas cobertas de espinhos”, diz Ma. Não é metáfora. É literal.

Os números: de 3 mil a 17 mil árvores

A jornada de Ma Sanxiao é bem documentada ao longo dos anos, permitindo ver sua progressão:

2011 (10 anos de trabalho):

Mais de 3.000 árvores plantadas

Ma tinha 62 anos

Trabalhava sozinho

2019 (19 anos de trabalho):

Mais de 17.000  árvores plantadas

Ma tinha 70 anos

Havia começado a receber ajuda de voluntários

2023 (23 anos de trabalho):

Número exato não divulgado, mas provavelmente mais de 20.000 árvores

Ma tinha 74 anos

Continuava subindo a montanha diariamente

A matemática é impressionante: mesmo usando a estimativa conservadora de 17.000 árvores em 19 anos, Ma plantou em média 895 árvores por ano, ou aproximadamente 2,5 árvores por dia — todos os dias, durante quase duas décadas, enquanto rastejava por montanhas rochosas sem pernas.

A transformação da paisagem: de deserto a floresta

A Província de Hebei, onde Ma vive, tem um problema sério de poluição. Segundo o South China Morning Post, Hebei abriga seis das dez cidades mais poluídas da China, em grande parte devido à indústria siderúrgica pesada. Como a província circunda Pequim, a poluição produzida em Hebei afeta diretamente a qualidade do ar na capital do país.

As colinas áridas ao redor da Vila Mayu eram parte do problema, terra deserta que não filtrava poluição do ar nem prevenia erosão.

Mas hoje, graças ao trabalho de Ma, essas colinas são verdes.  Árvores de parasol (wutong) crescem densamente onde antes havia apenas rochas e poeira. A floresta que Ma criou:

Melhora a qualidade do ar na região

Previne erosão do solo

Fornece habitat para vida selvagem

Regula temperatura local

Sequestra carbono

Inspira outros moradores locais

O reconhecimento: de solitário a herói nacional

Por anos, Ma trabalhou completamente sozinho. Ninguém o ajudava. Ninguém parecia se importar. Mas lentamente, conforme sua floresta crescia e sua história se espalhava, as coisas mudaram.

Em 2011, a Xinhua (agência de notícias estatal chinesa) e o China Daily publicaram as primeiras reportagens sobre Ma. Fotos dele usando próteses desgastadas, escalando montanhas com muletas, e mostrando luvas rasgadas circularam nacionalmente. A reação foi imediata. Doações começaram a chegar não muito, mas o suficiente para comprar mais mudas e melhores ferramentas.

Mais importante: voluntários apareceram. Em 2018, mais de 30 pessoas se voluntariaram para ajudar Ma com seu trabalho difícil. “O homem que antes ia sozinho plantar árvores agora está em boa companhia”, relatou uma reportagem. Mas Ma não parou. Mesmo com ajuda, continua subindo a montanha sozinho quase todos os dias.

Enquanto eu viver, continuarei plantando árvores para as gerações futuras”, diz ele. “Elas me fazem sentir realizado.”

As árvores são seus soldados

Para entender Ma Sanxiao, é preciso entender como ele vê suas árvores.

Para mim, elas não são árvores”, explica. “Eu as considero como os soldados que comandei.”

É uma metáfora poderosa de um ex-soldado que perdeu a capacidade de servir seu país de forma convencional, mas encontrou uma nova forma de servir — através de um exército verde.

Se é assim”, escreveu um jornalista, “ele tem cerca de 17.000 soldados sob seu comando.”

Cada  árvore é um soldado. Cada linha de árvores é um batalhão. Cada encosta coberta de verde é uma brigada. E Ma, o comandante duplo amputado, lidera seu exército verde de muletas e de joelhos. É uma forma de ressignificar sua perda. Ele perdeu as pernas servindo seu país. Perdeu sua família devido à doença. Perdeu quase tudo.

Mas ganhou 17.000 soldados que nunca o abandonarão, nunca morrerão prematuramente (se ele cuidar bem deles), e continuarão de pé muito depois que ele partir.

A família que implora para ele parar

Nem todos aplaudem a dedicação de Ma.

Sua família, o que resta dela, implora para ele parar, ou pelo menos desacelerar. “Relaxe e passe mais tempo em casa”, eles dizem. “Você já fez o suficiente. Você já tem 74 anos. Você não tem pernas. Por favor, descanse.”

Mas Ma recusa.

Enquanto eu puder respirar, continuarei plantando”, responde ele teimosamente.

Há algo quase obsessivo em sua dedicação. Algo que vai além de racionalidade ou autocuidado. É uma missão que se tornou identidade. Uma forma de dar significado a décadas de sofrimento. Uma recusa absoluta a ser definido por suas limitações.

Ma Sanxiao não tem pernas. Mas tem propósito. E para ele, isso é suficiente.

O legado de Ma Sanxiao que crescerá por séculos

Árvores de parasol podem viver 100 anos ou mais. Isso significa que as primeiras  árvores que Ma plantou em 2000 estarão vivas até pelo menos 2100. Suas últimas árvores — se ele continuar plantando — podem viver até o século 22.

Muito depois que Ma morrer, seu exército verde continuará de pé. Continuará filtrando poluição do ar. Continuará prevenindo erosão. Continuará fornecendo sombra e habitat.

Crianças que ainda não nasceram brincarão sob essas árvores. Famílias farão piqueniques. Pássaros construirão ninhos. E talvez — se a história for preservada — alguns visitantes pararão e pensarão: “Um homem sem pernas plantou tudo isso. Um homem que perdeu tudo, mas se recusou a desistir.”

Ma Sanxiao: uma inspiração além das fronteiras

A história de Ma Sanxiao não está isolada. Ela ecoa outra história igualmente extraordinária, a de Jadav Payeng, o “Homem Floresta” da Índia, que sozinho plantou uma floresta de 550 hectares ao longo de 40 anos.

Ambos demonstram o mesmo princípio: uma pessoa comum, com determinação extraordinária, pode mudar literalmente a paisagem. Não através de tecnologia avançada ou investimento massivo, mas através de trabalho manual persistente, dia após dia, ano após ano, década após década.

Novidades Ciência Tecnologia

Eu planto mais árvores para tornar as montanhas mais verdes”, diz Ma simplesmente.

Não há retórica grandiosa. Não há filosofia complexa. Apenas ação. Persistência. Recusa a aceitar que limitações físicas definem o que é possível.

A lição de um homem sem pernas que não para de subir montanhas

A história de Ma Sanxiao não é apenas sobre ecologia ou reflorestamento. É sobre dignidade humana diante da adversidade.

Ele poderia ter permanecido em casa, vivendo de sua pensão de veterano, aceitando ajuda do governo como pessoa com deficiência severa. Ninguém o julgaria. Ele perdeu ambas as pernas servindo seu país. Ele sofreu décadas de dor e tratamento médico. Ele perdeu sua família. Ele tem todas as desculpas do mundo para não fazer nada.

Mas em vez disso, todos os dias às 5 da manhã, ele sobe uma montanha.

É uma grande sensação de realização”, diz Ma sobre seu trabalho. “Continuarei plantando árvores até meu último suspiro.”

E quando esse último suspiro finalmente chegar, quando Ma Sanxiao plantar sua última árvore e descansar pela última vez, ele deixará para trás mais do que 17.000 árvores.

Deixará para trás uma lição: que o valor de uma vida não é medido pelo que você perdeu, mas pelo que você construiu com o que restou. Que limitações físicas podem restringir movimentos, mas não propósito. Que um homem sem pernas pode subir montanhas — literalmente — se estiver disposto a rastejar.

E que às vezes, quando você perde tudo, a melhor resposta não é desistir, mas começar a plantar. Uma  árvore de cada vez. Até ter um exército.

Fonte: https://abrelink.me/pGI





Ilustrações: Silvana Santos