ISSN 1678-0701
Número 64, Ano XVII.
Junho-Agosto/2018.
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14/06/2018EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA EJA: UM RECORTE DO CURRÍCULO CAPIXABA  
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EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA EJA: UM RECORTE DO CURRÍCULO CAPIXABA

Roseane Caitano da Silva

Especialista em Educação Profissional e Tecnológica pelo IFES

Professora de Geografia da SEDU

E-mail: rcaitanos@yahoo.com.br

José Geraldo Ferreira da Silva

Doutor em Engenharia Agrícola e Docente do Mestrado em Ciências, Tecnologia e Educação da Faculdade Vale do Cricaré, São Mateus/ES

RESUMO

O Currículo consiste em um documento norteador para que professores possam desenvolver suas atividades em sala de aula. Os Currículos dos estados, municípios, bem como, o Projeto Político Pedagógico (PPP) de cada unidade escolar devem seguir o que está estabelecido nas leis de amplitudes nacionais como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) e Parâmetros de Currículos Nacionais (PCN). A Educação Ambiental está inserida nestes documentos como tema transversal, devido à importância de se trabalhar o tema em todas as disciplinas da matriz curricular. Nesse sentido, a investigação das diretrizes curriculares tem como objetivo analisar Educação Ambiental na proposta curricular da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da rede de ensino estadual do Espírito Santo, indagando-se: Quais as expectativas de aprendizagem previstas para os estudantes? Tais expectativas contribuem para a emancipação do sujeito, como também para a formação do aluno crítico, atento para as demandas do meio ambiente na sociedade contemporânea? O artigo inicia com o resgate histórico da legislação educacional a cerca deste documento. No segundo momento relata sobre a Educação Ambiental. Os resultados demonstram que apesar da relevância do tema, o Currículo Básico Comum da Rede Estadual do Espírito Santo, não fomenta o desenvolvimento do assunto de forma emancipatória e crítica na sala de aula.

Palavras-chave: Educação Ambiental, Currículo, Diretrizes Educacionais e Educação de Jovens e Adultos.

ABSTRACT

The Curriculum consists of a guiding document for teachers to develop their classroom activities. The Curricula of the States, municipalities, and the Political Pedagogical Project (PPP) of each school unit must follow what is established in the laws of national amplitudes such as the National Education Guidelines and Bases (LDBEN) and National Curriculum Parameters (NCP). Environmental Education is inserted in these documents as a transversal theme, due to the importance of working the theme in all the disciplines of the curricular matrix. In this sense, the investigation of the curricular guidelines aims to analyze Environmental Education in the curriculum proposal of the Education of Young and Adults (EJA) of the state education network of Espírito Santo (Holy Spirit), with the following questions: What are the expected learning planned for students? Do such expectations contribute to the emancipation of the subject, as well as to the formation of the critical student, attentive to the demands of the environment in contemporary society? The article begins with the historical rescue of educational legislation about this document. In the second moment it reports on Environmental Education in education (redundant). The results show that despite the relevance of the theme, the Common Core Curriculum of the State of Espírito Santo Network does not promote the growth of knowledge in environmental subject in an emancipatory and critical way in the classroom.

Keywords: Environmental Education, Curriculum, Educational Guidelines, and Education for Youth and Adults.

INTRODUÇÃO

A EJA possui uma trajetória de lutas ao longo da história, pois traz consigo muitas peculiaridades que precisam ser repensadas, levadas em conta na organização do currículo dessa modalidade de ensino. As características latentes apresentadas na realidade escolar nos dias atuais exigem dos responsáveis, reflexões e ações para alavancarem a qualidade do ensino, promovendo práticas de uma educação para a cidadania.

A educação deve ter por meta a construção do sujeito como ser social, permitindo que esses seres ainda inconclusos protagonistas da própria história, agem como sujeitos participantes, na medida em que passa a integrar o contexto de ensino-aprendizagem, contribuindo para que ajam comprometidamente, tomando consciência do seu desenvolvimento intelectual.

Nessa perspectiva, os sujeitos aprendentes tomam ciência de seus conhecimentos intelectuais, sociais e históricos que influenciarão nas concepções morais e éticas, inclusive na forma de lidar com o seu entorno. A Educação Ambiental tem como objetivo auxiliar nessa tomada de consciência em relação as problemáticas do nosso planeta.

Os alunos da EJA trazem na sua história, bagagens de descontentamento social e econômico, que os fazem/desafiam a ir em busca de novos aprendizados. Todavia, esses sujeitos já possuem uma interessante leitura de mundo que poderá ser ampliada com os saberes propostos pela Educação Ambiental.

Debater sobre essas problemáticas auxiliará muito na mudança de atitude, com os filhos, cônjuge e também em sua vizinhança. Conforme Brutti et al, “nessa modalidade, o conhecimento está ligado ao processo de conscientização e ao nível de importância e a facilitação da aprendizagem é sempre inacabado, contínuo e progressivo”. Por isso, a Educação Ambiental “deve ser uma aproximação crítica da realidade que vai desde as formas de consciência mais primitiva até a mais crítica” (BRUTTI, et al, p.2).

Segundo os autores, toda a ação educativa, para que seja válida deve ser precedida tanto de uma reflexão sobre o homem como do meio que o leva, enaltecendo a questão dos seus direitos. Falar sobre o meio ambiente é fazer valer a ação educativa em prol de mudança de atitudes sobre o planeta e em seu torno, abarcando o estímulo, o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a problemática ambiental e social, como descreve o Art. 5º, inciso III da Lei 9.795/1999.

Uma organização curricular que abranja tais princípios dialoga com essa validação do ato educativo em prol da humanidade, isto é, promoção de ações coletivas que beneficiarão uma comunidade. Promover mudança atitudinais em adultos impulsiona modificações em tempo real, a curto, médio e longo prazo, pois causará impacto rápido no manejo profissional para a sustentabilidade.

Ao mesmo tempo em que se pensa na transformação do hoje, tem-se em mente a recuperação da natureza com impactos futuros. Nesse sentindo, ter-se-á uma proposta curricular inserida numa política educacional com vistas na prática educativa voltada para a construção de uma escola, visando situar os alunos como participantes da sociedade, na comunidade e na escola de modo que o conhecimento aprendido resulte em maior compreensão, integração e inserção no mundo dialogando com enfoque humanista, holístico, democrático e participativo conforme preconiza o art 4º dos princípios da Educação Ambiental.

Os debates sobre as temáticas ambientais são fatores de suma importância, tendo em mente que o empoderamento do sujeito passa pelo domínio do discurso da apropriação de saberes sobre a própria realidade. Tal assertiva tem a ver com o reconhecer-se criticamente como cidadão atuante na sociedade, tendo a percepção da realidade, o que implica em assumir a sua situação de lutar para transformar radicalmente a situação, entendida como transformação da realidade da qual vivemos. Isto é, ter a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural o socioeconômicos e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade. No Art.4º, inciso II, PINTO ressalta que:

A educação é substantiva, altera o ser do homem. A não ser assim seria apenas adjetiva, meio ornamento da inteligência. O homem que se adquire o saber passa a ver o mundo e a si mesmo deste outro ponto de vista. Por isso se torna um elemento transformador de seu mundo. Esta é a finalidade essencial da educação. Tal é a razão de que todo movimento educacional tenha consequências sociais e políticas (PINTO, 2010, p. 52-53).

Partindo desse pressuposto, reflete sobre a construção de um conhecimento que seja capaz de modificar a realidade dos educandos, pois a educação problematiza, amplia visões, a partir de um constante ato de desvelamento da realidade do aluno de EJA, inclusive do meio ambiente. Nessa perspectiva,

É preciso que a educação esteja em seu conteúdo, em seus programas e sem seus métodos, adaptada ao fim que se persegue: permitir ao homem chegar: ser sujeito, construir-se como pessoa, transformar o mundo e estabelecer com os homens as relações de reciprocidade, fazer a cultura e a história (FREIRE,1974, p. 42).

Um currículo bem estruturado conforme preconiza a Lei de nº 9.795/1999 como qualquer outro tipo de ação pedagógica deve comprometer-se constantemente, os alunos com suas problemáticas e situações existentes. Crer nisso é fazer com que o diálogo seja desenvolvido ao mesmo tempo em que se oportunize a cooperação, a união, a organização, a solução em comum dos problemas. Lançando mão do pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade (Art. 4º inciso III), princípios básicos da Educação Ambiental. O ensino-aprendizagem da Educação Ambiental implica em duas dimensões: Reflexão e Ação - que estão intimamente interligados ao processo contínuo de tomada de decisão, de consciência e de modificações das próprias atitudes e sua ação no mundo.

Ao se trabalhar sob uma perspectiva educacional voltada para a Educação Ambiental, levam-se os educandos ao desejo de conhecer, possibilitando o desenvolvimento da consciência de que suas ações tem influência nos rumos de uma sociedade com sustentabilidade. Ou seja, promoção da cidadania, autodeterminação e solidariedade como fundamentos para o futuro da humanidade, como estabelece o art. 5º inciso VII dos objetivos da Educação Ambiental.

Nesse sentido, justifica-se esta pesquisa, pois, pensa-se que a educação transforma o ser humano e conforme reza a Lei 9.795/99, a Educação Ambiental auxilia a sociedade como um todo, manter a atenção permanente à formação de valores, atitudes e habilidades que propiciem a atuação individual e coletiva voltada para a preservação, a identificação e a solução de problemas ambientais.

METODOLOGIA

A metodologia de pesquisa se baseou na coleta de dados secundários por meio de estudo de documentos como artigos científicos, publicações acadêmicas. Além da LDBEN, CBEE e PCN, ao quais norteiam o trabalho docente. No estudo foram priorizados a definição e histórico da Educação Ambiental, Currículo e análise da matriz curricular da EJA da rede estadual do Espírito Santo. Por meio desses documentos, é possível ponderar como a Educação Ambiental tem sido trabalhada no contexto escolar, mediante a ação executada e a metodologia aplicada, para somente então permitir a compreensão dos aspectos da formação dos alunos em Educação Ambiental.

CURRÍCULO

A cada momento histórico exige-se uma prática educativa que prepare os cidadãos conforme a realidade precisa, a sociedade necessita e o mercado impõe que assim seja. Assim sendo, a formação para a cidadania e para o mercado profissional se constrói um currículo que abarque as competências e habilidades que prepare o sujeito conforme a essas demandas existentes.

O currículo que prepare sujeitos para a cidadania precisa ser bem pensado, bem discutido, alicerçado nos princípios e objetivos básicos dos pilares da Ciência, Cultura, Tecnologia e Trabalho, saberes esses necessários à formação holística do ser humano. Conhecimentos esses fundamentados na ética, valores necessários às práticas sociais, inclusive na forma de vivência no coletivo, no trato consciente com o meio ambiente.

Quando se pensa na EJA, no público dessa modalidade educacional, revisitando o contexto histórico que essas pessoas estão inseridas e precisam ser redirecionadas por meio do ato educacional, o debate e a reflexão sobre o conteúdo contemplado no currículo deverá ser estruturado de forma que promova a criticidade, como também uma formação transformadora. Trata-se de forjar uma política educacional desafiadora que consiga resgatar um compromisso histórico da sociedade brasileira além de contribuir para equiparar a igualdade de oportunidades, inclusão e de justiça social em busca de ampliação da leitura de mundo e da melhoria da qualidade de vida.

A Constituição Federal do Brasil de 1988 teve como princípio básico o pleno desenvolvimento da pessoa, bem como o seu preparo para o efetivo exercício da cidadania e qualificação para o trabalho (CF. art. 205), o que reforça o art. 2º da LDBEN 9.394/96 no que diz respeito a uma formação de sujeitos como um universo de referencia sem limitações.

Parte-se do pressuposto de que a EJA use ações educativas, com práticas pedagógicas efetivas em prol de uma igualdade de acesso à educação como bem social. Além das funções Reparadora e Equalizadora para EJA, temos a função Qualificadora que além de consistir numa função permanente na EJA, tem como base o caráter incompleto do ser humano cujo potencial de desenvolvimento e de adequações pode se atualizar de maneira formal ou não formal.

Nessa visão do princípio qualificador dialoga com a Lei 9.795/1999 e Resolução Nº 25/2012 que aborda a Educação Ambiental e Saúde, conforme o art. 13:

IV- à sensibilização da sociedade para a importância das unidades de conservação:

V- à sensibilização ambiental das populações tradicionais ligadas às unidades de conservação.

VI- à sensibilização ambiental dos agricultores.

VII- o ecoturismo.

São formações necessárias à qualidade de vida coletiva que implicarão no pensar nessas políticas para “a consolidação de práticas sustentáveis no interior de uma sociedade capitalista, cujas características estão na base das preocupações ambientais contemporâneas” (HIRATA e MOURA, 2013, p. 2). Os autores reafirmaram a importância da formação de cidadãos participativos na construção de sociedade sustentáveis.

A proposta formativa da Educação Ambiental do Decreto Nº 4.281/2002, dentro da concepção formativa qualificadora essencial e permanente da educação nacional, almeja articulação em todos os níveis e modalidades do processo educativo. E a EJA não pode ficar fora dessa concepção de formação emancipatória. HIRATA e MOURA (2013) ressaltam que:

As práticas de Educação Ambiental estão fundamentadas na construção de sociedades justas e sustentáveis, nos valores da liberdade, igualdade, solidariedade, democracia, justiça social, responsabilidade, sustentabilidade educação como direito de todos e todas (HIRATA e MOURA, 2013, p. 6).

Visando esses princípios norteadores, a EJA consiste num processo pelo qual se constrói valore, hábitos e atitudes necessárias ao convívio social em equilíbrio com os ambientes, conforme assinala HIRATA e MOURA. Esses estudiosos afirmaram que essa proposta não deve ser desenvolvida fora dos avanços mais amplos. Porém, numa perspectiva holística, propõe-se uma análise integradora, do meio ambiente na íntima relação entre seus elementos, considerando o homem como parte deste (HIRATA e MOURA, 2013, p. 6-7).

Para tanto, o direito à educação é garantido aos cidadãos brasileiros pela Lei Maior e nas leis específicas da educação de âmbito nacional, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), Lei nº 9.394/1996. No que tange ao estado do Espírito Santo, o planejamento curricular das escolas estaduais, municipais e, inclusive, a rede particular deve está em consonância como a Resolução nº 3.777/2014, do Conselho Estadual de Educação (CEE).

Na LDBEN, no inciso IV do seu artigo 9º, atribui à União estabelecer, em colaboração com os estados, o Distrito Federal e os municípios, competências e diretrizes para a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, que orientarão os currículos e seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar formação básica comum.

Em 2009, a Secretaria de Educação do Espírito Santo (SEDU), organizou o Currículo Básico Escola Estadual (CBEE) das escolas pertencentes à rede estadual de educação, que visa instituir um documento orientador para a ação educativa. Dessa forma,

A construção de um currículo estadual para a educação básica busca garantir que os estudantes capixabas tenham acesso de escolarização nos níveis Fundamental e Médio, reconhecendo ainda as diversidades humanas que caracterizam as modalidades de Educação de Jovens e Adultos – EJA, Educação Especial e Educação do Campo, que serão contempladas com diretrizes curriculares próprias (CBEE, p. 11).

De acordo com o CBEE, será assegurado um mínimo de unidade na Rede Estadual de Ensino, mas as particularidades em cada unidade escolar serão garantidas por meio do Projeto Político Pedagógico (PPP).

O CBEE, apesar de suas adaptações com o passar dos anos, ainda permanece sendo o documento base para a elaboração dos planos de ensino para o Fundamental, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA) das escolas estaduais capixaba. No entanto, em 2017 com a mudança de modalidade de ensino da EJA de presencial para semipresencial, um novo documento orientador foi elaborado pela SEDU – matriz de conhecimento – com objetivo de estabelecer a equidade no processo de ensino- aprendizagem dessa modalidade de ensino.

A base de elaboração deste documento foi o CBEE. Desta forma, ele continua sendo o currículo oficial da Secretaria de Estado da Educação do Espírito Santo. Cada módulo do alinhamento está dividido por etapas (EF II Regular, EM Regular e EJA Semipresencial) e disciplinas da Base Nacional Comum, definindo os conhecimentos que devem ser trabalhados e o aprendizado esperado para cada trimestre letivo. É a referência para a elaboração e acompanhamento do trabalho do professor ao longo do ano letivo. (Orientações curriculares para as escolas da rede estadual de Ensino, p. 21).



EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL

A industrialização no Brasil inicializada em meados de 1930 provocou considerável mudança na organização da sociedade brasileira. O país migrou de uma população predominante rural e economia agrária para um país tipicamente urbano-industrial.

Essa transformação estrutural na sociedade alterou a relações de consumo como também a forma da relação com o meio ambiente. O crescimento das cidades criou a sensação de distanciamento da natureza em si, esta, passou a ser apenas fonte de matéria-prima.

Na década de 1970, influenciado pelos movimentos internacionais ecologistas mundiais, principalmente da Europa e dos EUA, surge no Brasil algumas correntes ideológicas ambientalistas. Mas, somente na década de 80 que ocorre uma sistematização do pensamento mais crítico e a organização de movimento voltado para a Educação Ambiental.

A educação deveria contemplar todos os aspectos do conhecimento e dos valores que ajudam a harmonizar a vida. Mas, as crises socioambientais mostraram falhas no processo educacional, pois deram margem à indagação sobre o tipo de educação que estava sendo oferecida para se ter resultados como os que se apresentavam. Foi neste cenário de crise que surgiu a educação ambiental (PADUA; SÁ, 2002).

No sistema educacional, a sistematização do pensamento voltado para a educação ambiental se concretiza com o PCN, que consiste em documento oficial que começou a ser elaborado a partir de 1995 pelo Ministério da Educação (MEC), para dar subsídio aos professores quanto aos conteúdos e metodologias a serem desenvolvidas em sala de aula para toda a educação básica.

De acordo com Loureiro,

[...] os Parâmetros Curriculares Nacionais, produzidos com base na LDB e lançados oficialmente em 15 de outubro de 1997, documento que definiu como temas transversais, em função da relevância social, urgência e universalidade: saúde, ética, pluralidade cultural, orientação sexual e meio ambiente (apud BRASIL, 1997).

Portanto, o PCN – Meio Ambiente e Saúde, definem que:

Os conteúdos de Meio Ambiente serão integrados ao currículo através da transversalidade, pois serão tratados nas diversas áreas do conhecimento, de modo a impregnar toda a prática educativa e, ao mesmo tempo, criar uma visão global e abrangente da questão ambiental (1997, p. 36).

Perante tais fatos, PCN - Meio Ambiente, trás a temática ambiental para ser desenvolvida num âmbito escolar. Portanto, a transversalidade da Educação Ambiental e Saúde implica que esses temas permeiam em todas as áreas do conhecimento, para auxiliar a escola a cumprir seu papel na sociedade: educar os alunos para a vida.

CURRÍCULO DA EJA SEMIPRESENCIAL DA REDE ESTADUAL DO ESPÍRITO SANTO E MEIO AMBIENTE

Que a educação possui o papel de contribuir para a formação do cidadão, isso não é novidade. É através dela que se almeja a transformação do homem em ser humano, em ser crítico, em ser autônomo, em ser consciente e atento com as transformações ocorridas a sua volta.

Portanto, para que a educação seja efetivamente plena, existem os documentos orientadores que norteiam a elaboração do currículo. Visando a unidade do trabalho nas escolas da rede estadual de educação do Espírito Santo a SEDU elaborou em 2009 o Currículo Básico Comum para todas as modalidades etapas da educação básica, inclusive a EJA.

O instrumento “Orientações curriculares para as escolas da rede estadual de ensino” salienta a importância de compreender cada elemento que constitui a matriz curricular, de forma que o professor aproveite todo o seu potencial no planejamento das atividades pedagógicas na sala de aula (Orientações curriculares para as escolas da rede estadual de ensino, p. 21):

  • Competências Gerais: Segundo o CBEE (2009), referem-se às formas de agir em situações previstas e não previstas, com rapidez e eficiência, articulando conhecimentos tácitos e científicos a experiências de vida acumuladas nas diferentes dimensões do saber, sintetizadas nas disciplinas da Base Nacional Comum (p. 28).

  • Habilidades: Desdobramento das competências gerais de cada série/etapa/disciplina. [...] Segundo o CBEE, as habilidades expressam a "forma de o aluno conhecer, fazer, aprender e manifestar o que aprendeu” (2009, p. 28).

  • Conhecimentos: Conteúdos estruturados trimestralmente com o objetivo de garantir o desenvolvimento das competências, habilidades e expectativas de aprendizagem em cada disciplina da Base Nacional Comum Curricular.

  • Expectativas de aprendizagem: São as operações cognitivas desenvolvidas ao longo do processo educativo, decorrentes da atuação do professor em sala de aula. É a meta estipulada para uma sequência didática, tarefa ou procedimento didático com foco nos conhecimentos elencados pelo professor em sala de aula. A partir delas, é esperado que o estudante desenvolva as habilidades e competências propostas pelo currículo da rede.

Todavia, nas habilidades e competências definidas para os alunos desenvolverem, são objetivos passivos, isto é, tem caráter informativo. Neste caso, o aluno toma ciência dos problemas ambientais da sociedade contemporânea, mas pouco promove a criticidade dos estudantes, tampouco estimula o espírito empreendedor na busca de soluções para os problemas ambientais que permeia a sociedade do século XXI.

Na Carta de Belgrado de 1975, por exemplo, foi apontado um objetivo bem maior do que informar ou transmitir conhecimentos (CZAPSKI, 1998):

[...] a juventude precisa receber uma nova educação, o que requer um novo tipo de relacionamento entre estudantes e professores, entre escola e comunidade, entre sistema educacional e a sociedade. É nesse sentido, que devem ser lançadas as fundações para um programa mundial de Educação Ambiental que torne possível o desenvolvimento de novos conhecimentos e habilidades, valores e atitudes, visando à melhoria da qualidade ambiental e, efetivamente, à elevação da qualidade de vida para as gerações presentes e futuras.

Já segundo Stapp et al. (1996), o ‘empoderamento’ se dá quando a educação permite que educador e educando participem de processos que os conscientizem de suas opções e os encorajem a agir, exercitando seu papel de cidadãos. “Precisamos desenvolver uma abordagem de aprendizagem que estresse a compreensão de risco e habilidades como pensamento crítico, resolução de problemas e trabalhos grupais” (STAPP et al., 1996, p. 13).

Na material referência para a EJA Ensino Médio semipresencial denominado matriz de conhecimento, a situação necessita de um estudo minucioso, pois, por se tratar de um público adulto, já inserido no mercado de trabalho, o conceito de sustentabilidade deve ser trabalhado de maneira emancipatória, de maneira que promova a criticidade do alunado, distanciando-se do caráter meramente informativo.

Devido às mudanças na maneira de ofertar das aulas da EJA, o conteúdo da matriz curricular está estruturada em dois tópicos: conteúdos para as aulas presenciais e para as aulas não presenciais. E como sugestões para o desenvolvimento das competências e habilidades tecnológicas o guia contém dicas de plataformas como o Sedu Digital, Sala de aula virtual, Pré-Enem digital, no desenvolvimento das habilidades tecnológicas propostas pelas Orientações Curriculares.

Vale ressaltar que a precariedade dos laboratórios de informática e internet banda larga de má qualidade nas escolas da rede pública, como também a falta de qualificação dos professores interfere na utilização desses recursos no processo ensino-aprendizagem (SILVA et al., 2017).

A seguir estão listadas as expectativas de aprendizagem, ou seja, as competências e habilidades que os educandos deverão desenvolver durante o processo de ensino- aprendizagem. Para as etapas do ensino médio foram elencados tais objetivos para a disciplina de Geografia:

  • Analisar as relações entre os impactos ambientais e as práticas de preservação e conservação em diferentes contextos e escalas geográficas (Matriz de conhecimento por bimestre, p. 112).

  • Analisar os impactos das transformações no meio ambiente pelas organizações políticas, econômicas, sociais e culturais (Matriz de conhecimento por bimestre, p. 111).

  • Analisar os impactos das transformações no meio ambiente pelas organizações políticas econômicas, sociais e culturais (Matriz de conhecimento por bimestre, p. 112).

  • Compreender o papel do cidadão na preservação do meio ambiente (Matriz de conhecimento por bimestre, p. 113).

  • Conhecer as causas e consequências dos impactos ambientais causados pela ação humana (Matriz de conhecimento por bimestre, p. 116).

Estes objetivos estão definidos tanto no primeiro quanto no segundo bimestre. Vale destacar que a modalidade EJA está organizada em semestre, sendo que cada semestre é dividido em dois bimestres. Já na disciplina de Biologia, estão listados os seguintes objetivos:

  • Compreender a evolução histórica do conhecimento biotecnológico aplicado à melhoria da qualidade de vida da população e à solução de problemas socioambientais (Matriz de conhecimento por bimestre, p. 63).

  • Reconhecer e diferenciar as relações de interdependência entre os seres vivos e as interações com o ambiente (Matriz de conhecimento por bimestre, p. 56).



CONSIDERAÇÕES FINAIS



Nota-se, ao tentar responder ao questionamento: Quais as expectativas de aprendizagem (referente à Educação Ambiental) previstas para os estudantes?, que, no documento referência para a EJA semipresencial, a Educação Ambiental está disposta em apenas duas disciplinas: Biologia e Geografia. Com isso, ocorre uma divergência com o que se propõe no PCN que trata o tema em sua transversalidade, definindo que o assunto perpasse por todas as disciplinas do currículo.

Freire (1979) considera o ser humano inacabado, o que torna o processo educativo constante e contínuo. Segundo o autor, a reflexão deve ser parte inerente da educação, pois só assim o ser humano deixa de ser objeto e passa a ser sujeito. “Quando o homem compreende sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções. Assim, pode transformá-la e com seu trabalho pode criar um mundo próprio: seu eu e suas circunstâncias” (FREIRE, 1967, p. 30).

Muitas atividades econômicas nos quais essas pessoas então empregadas, podem ser altamente degradantes do meio ambiente. A Educação Ambiental, nessa modalidade de ensino, tem a possibilidade de mudar paradigmas, transformando a maneira de pensar do cidadão, como também mudando a sua relação com o meio ambiente. Mais que identificar o fazer cotidiano que causam malefícios ao meio ambiente, a educação ambiental pode contribuir na busca de soluções empreendedoras. Desenvolver no aluno a consciência da sustentabilidade cidadã.

Dessa forma as expectativas da educação ambiental contribuem para a emancipação do sujeito, como também para a formação do aluno crítico, atento para as demandas do meio ambiente na sociedade contemporânea. Porém, carece de maior participação de todas as disciplinas, bem como maior utilização de recursos e melhoria dos recursos tecnológicos já existentes.



REFERÊNCIAS

BRASIL. MEC. SEF. Parâmetros Curriculares Nacionais: meio ambiente: saúde. 3ª ed. Brasília: MEC/SEF, 1997.

BRUNEL, Carmem. Jovens cada vez mais jovens na Educação de Jovens e Adultos. Porto Alegre. Mediação, 2004.

BRUTTI et al. Educação de jovens e adultos: discutir para redimensionar suas particularidades. XVII Seminário internacional de Educação no Mercosul. Unicruz. Acessado em: 05 nov. 2017.

CZAPSKI, S. A implantação da educação ambiental no Brasil. Brasília: MEC. 1998.

FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. São Paulo: Editora Paz e Terra. 1992.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 5. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1995, p.150.

_____________. Pedagogia do oprimido. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1975. 218 p.

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LIMA, Kátia Ketmen. Reflexões sobre a educação ambiental como tema transversal na escola: os parâmetros curriculares nacionais (PCNs). Consciência Política. Amazonas, 2014. Disponível em:<http://www.portalconscienciapolitica.com.br/products/reflex%C3%B5es-sobre-a- educa%C3%A7%C3%A3o-ambiental-como-tema-transversal-na-escola%3A-os- par%C3%A2metros-curriculares-nacionais-%28pcns%29/>. Acessado em: 05 nov.2017.

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PINTO, V. Sete lições sobre educação de jovens e adultos. São Paulo: Cortez, 2005.

SEDU. Currículo Básico da Escola Estadual. Espírito Santo. 2009.

SEDU. EJA Semipresencial Ensino Médio: Matriz de conhecimentos por bimestre. Espírito Santo. 2017.

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<http://www.sodebras.com.br/edicoes/N142.pdf>. Acesso em: 10 nov. 2017.

STAPP, W.; WALS, A.E.J.; STANKORB, S.L. Environmental education for empowerment: action research and community problem solving. Iowa: Kenda//Hunt Publishing Company. 1996.



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