ISSN 1678-0701
Número 64, Ano XVII.
Junho-Agosto/2018.
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14/06/2018REFLEXÕES SOBRE O AMBIENTE E A ESCOLA: UMA EXPERIÊNCIA EM PESQUISA  
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TÍTULOS


Reflexões sobre o ambiente e a escola: uma experiência em pesquisa



Autor 1: Marcos A. R. Mahaut

Autora 2: Maylta Brandão dos Anjos ²

Autora 3:Valéria da Silva Lima³



1.Mestre em Ensino de Ciências pelo IFRJ

2.Doutora em Ciências Sociais do IFRJ

3.Mestre em Ensino de Ciências pelo IFRJ



RESUMO



O consumo dos recursos finitos da natureza é cada vez maior, causando grandes impactos sociais, ambientais e políticos na sociedade atual. Tendo por aporte bibliográfico autores que tratam dessa problemática sob a visão da crítica, a pesquisa teve como objetivo apresentar estudos sobre uma proposta de atividade interativa de educação ambiental numa escola, promovendo reflexões a partir de observações coletivas sobre a realidade escolar e seu entorno, tendo em vista a promoção de multiplicadores de ações ambientais. Por se tratar de um estudo que leva em consideração a participação ativa dos sujeitos, foi adotada a pesquisa-ação, que permitiu maior planejamento, desenvolvimento e flexibilidade na consumação das etapas da pesquisa. Os resultados mostraram a situação da educação ambiental escolar, bem como a importância de ações interativas críticas sobre as questões ambientais locais. Entendemos que reflexões e ações coletivas sobre questões ambientais podem se estender para outros espaços, bem como culminar em transformações sociais.

Palavras-chave: Espaço formal de ensino; Educação Ambiental; Escola.



I-INTRODUÇÃO



O processo de globalização da economia e o recuo do Estado de suas responsabilidades com a questão do ensino e do ambiente são temas trabalhando nessa pesquisa, tendo em vista o consumo dos recursos finitos da natureza que são cada vez maiores, causando impactos sociais, ambientais e políticos no mundo.

Diante disso, propomos estudar com Paulo Freire, sobre esses aspectos, que tem por aporte bibliográfico autores que tratam dessa problemática sob a visão da crítica e a reflexão sobre a realidade social tendo em vista ações coletivas que visam a transformação.

Anjos (2003), analisando os problemas ambientais lembra que estes são antigos, mas sua complexidade gerada pelo desenvolvimento industrial e pela ocupação desordenada cada vez maior dos espaços pelo homem, os quais merecem atenção redobrada e, principalmente, maiores incentivos em termos de conscientização. Através da educação e do conhecimento que acarretam responsabilidades e mudanças, os indivíduos poderão adquirir condições de participarem da sociedade de modo consciente, reflexivo e transformador, e ver o ambiente integrado à sua vida.

A crise ambiental problematiza os paradigmas estabelecidos do conhecimento, e demanda novas metodologias capazes de orientar um processo de reconstrução do saber que permita realizar uma noção integrada da realidade. Daí, ser necessário implementar uma estratégia de desenvolvimento com uma concepção integrada dos processos históricos, econômicos, sociais e políticos, que geraram a problemática ambiental, bem como, dos processos ecológicos, tecnológicos e culturais que permitam um aproveitamento produtivo e sustentável dos recursos (LEFF, 2002).

Leff (2002) considera importante fundar a concepção da problemática ambiental, assim como novas práticas de uso integrado dos recursos numa correta teoria sobre as relações sociedade-natureza. Isto abre uma reflexão sobre as bases epistemológicas para preservar a articulação das ciências e da produção do conhecimento requerida por esta teoria para a construção de uma nacionalidade ambiental voltada para o desenvolvimento sustentável e igualitário, uma vez que “todo modo de produção determina processos de intercâmbio material com a natureza (LEFF, 2002, p. 31).

Sendo assim, o presente trabalho tem como objetivo apresentar estudos sobre uma proposta de atividade interativa de educação ambiental numa escola, promovendo reflexões a partir de observações coletivas sobre a realidade escolar e seu entorno, tendo em vista a promoção de multiplicadores de ações ambientais para a transformação.

Por se tratar de um estudo que leva em consideração a participação ativa dos sujeitos, o tipo de pesquisa foi a pesquisa-ação. Uma das vantagens desse tipo de pesquisa está no fato de ter em seu planejamento uma maior flexibilidade para a realização das etapas desenvolvidas, tendo em vista ações coletivas que desencadearão em mudanças sociais.

A pesquisa-ação é primordial para obtenção de resultados onde a realidade é mostrada, bem como a situação da educação ambiental no ensino formal, dessa forma o pesquisador e público da pesquisa se apropriam de estudos, reflexões e ações que a sociedade apresenta tendo em vista a sua transformação.

A educação como processo de longo prazo e enraizado no saber teórico e no saber prático, se apoia no que diz Freire (2000), os conteúdos devem ser expressivos para o aluno, a fim de que haja aprendizagem, uma vez que não há fruto no que se lê ou se ensina na escola, se esta aprendizagem não fizer parte do cotidiano do aluno. Não terá havido aprendizagem de fato, apenas uma aprendizagem superficial, mecânica, que é aquela que se estabelece apenas para se livrar de uma tarefa - testes, provas etc.

Nesse sentido, a escola deve se tornar presente como um espaço de promoção da cultura e reflexões sobre a problemática, e, pensando nisso que essa pesquisa foi desenvolvida com o objetivo de desenvolver junto à comunidade escolar atividades, ações que aliado a um projeto de educação ambiental possa alcançar o maior número de pessoas disponível, formando-as, informando-as, transformando-as em multiplicadores sociais críticos.

Concordando com Freire (2000), o conteúdo passará a ter significado concreto para ele, tornando-se não uma aprendizagem mecânica, mas uma aprendizagem de fato, integrada e desenvolvida segundo os interesses envolvidos no trabalho, que são sociais.

Em busca de respostas aos questionamentos sobre como a escola poderia intervir e ajudar na solução dos problemas ambientais mais urgentes do entorno escolar, e tendo-se pensado na possibilidade de aceleração da influência do processo educativo nos resultados futuros e desejáveis sobre tais questões.

Os trabalhos que envolvem projetos, associados aos conteúdos de sala de aula, são bastante pertinentes, pois, segundo Sato (2003), a orientação educacional mais recente é ir ao encontro de múltiplos meios para o atingimento da educação ambiental nos mais diferentes setores da sociedade e sob diversos aspectos, devendo-se respeitar a especificidade de cada segmento, mas tendo sempre em vista a questão ambiental. Portanto, os horizontes do ensino devem ser abertos para fora da sala de aula e por além dos muros escolares, colocando os interesses dos conteúdos em contato com as realidades vivenciadas pelos educandos.

A educação da criança e do jovem na escola poderá trazer mudanças profundas e seguras para as futuras gerações, visto ser a escola um instrumento de disseminação da cultura, ela forma gerações mais jovens. Segundo Grossi (2000), a escola é o local das transformações e adaptações humanas pelo conhecimento, é o lugar do convívio de bagagens históricas e cultuais diferentes, incentivando a busca, a descoberta, a criação e a aquisição do novo. As atividades realizadas percorreram este caminho.

Os alunos também ensinam seus pais, familiares e demais convivas e, através delas, suas comunidades poderão ser alcançadas. Dessa maneira, formam-se guardiões da vida por meio da conscientização e da educação ambiental, possibilitando mudanças radicais de comportamento, e sensos observador e crítico aguçados, além da promoção da inclusão social, dos sentidos mais amplos de cidadania, do sentimento de pertencimento e de preservação.

No fundo, passa despercebido a nós que foi aprendendo socialmente que mulheres e homens, historicamente, descobriram que é possível ensinar. Se estivesse claro para nós que foi aprendendo que percebemos ser possível ensinar, teríamos entendido com facilidade a importância das experiências informais nas ruas, nas praças, no trabalho, nas salas de aula das escolas[...](FREIRE, 1996.p.44)



Pensar na educação como algo construído coletivamente é refletir em ações culturais de modificação de comportamentos tendo em vista a criticidade para a transformação que se processa na ação coletiva, que é historicamente construída e ensinada.

Nas linhas a seguir, apresentaremos, brevemente, a metodologia desenvolvida na pesquisa, assuntos referentes a educação ambiental, as ações desenvolvidas no campo da pesquisa, os resultados obtidos e as conclusões.



II-METODOLOGIA: A PESQUISA AÇÃO REALIZADA NO CENÁRIO ESCOLAR



O desenvolvimento de ações educativas dirigidas ao envolvimento espontâneo em mecanismos de transformação social por meio de estratégias de aprendizagem dialógicas, construídas por meio de atividades de campo, tendo como viés a pesquisa-ação que conduz a uma forma de se produzir estabilidade entre a ação e a reflexão coletiva, visto que:

A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e participantes representativos da situação ou solução do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo. (THIOLLENT, 2003, p. 14)



Entendemos que a pesquisa-ação congrega a comunidade escolar a compreender as questões ambientais como um fenômeno social, a enfrentar as situações-problema tecidas pelo conjunto de atividades humanas e seus pontos de equilíbrio e de desequilíbrio, a construção de argumentações que expliquem e/ou justifiquem os conflitos socioambientais, vividos pela comunidade, a elaborar propostas de intervenção na realidade, gerando conhecimento e sistematizando a experiência.

A metodologia da pesquisa com base social, como se caracteriza neste trabalho, tem como possibilidade de unidade entre teoria e a prática pedagógica, favorecendo o envolvimento do pesquisador com o processo contínuo de investigação com sua própria prática educativa com o objetivo de promover uma ação, aqui entendida como mudança comportamental e atitudinal, nos planos educacional, social e político.

O educador-pesquisador ao trabalhar temas emergentes, torna-se sujeito de pesquisa de sua própria investigação, sendo professor na qualidade de pesquisador que atua como mediador das práticas socioambientais e educativas, colocando em pauta o seu conhecimento escolar e acadêmico, identificando os saberes empíricos latentes a uma pesquisa desta natureza. Assim, realizamos a ação que se transforma em pesquisa, e a pesquisa que se transforma em ação.

O intuito do pesquisador, ao realizar entrevistas foi o de diagnosticar os conhecimentos e as ações práticas e teóricas desenvolvidas na instituição de ensino com relação às práticas de educação ambiental, tendo em vista a transformação fundamentada na crítica.

O cenário da pesquisa foi em uma escola localizada no município de São Gonçalo, Estado Rio de Janeiro. Apesar de grande necessidade de se estar abrangendo todos os discentes, esta pesquisa restringiu-se a duas turmas do 9° Ano do Ensino Fundamental , compostas inicialmente por 30 alunos, com idade entre 13 e 16 anos, os quais foram os multiplicadores das ações desenvolvidas, em sala de aula, no entorno escolar.

A escolha aconteceu por percebermos maior afinidade e interesse das turmas na temática em questão, e possibilidade de melhores oportunidades dialógicas com essas turmas selecionadas para as ações.

A política de Educação Ambiental que se reflete no estado, aponta para o abandono que a região do entorno escolar, juntamente com o ambiente da escola encontrava-se inserida. Diversos exemplos desse estado de abandono puderam sser observados, tais como: salas de aulas com mesas e paredes pichadas; lixo por todos os lados; banheiros depredados; falta de respeito com os profissionais que trabalham na escola; residências da localidade sem saneamento básico; áreas de preservação ambiental sendo degradadas pela invasão imobiliária; a falta de fiscalização por parte dos órgãos competentes e o desabrigo das autoridades públicas com relação ao desenvolvimento de projetos educacionais que estimulem a educação ambiental. Os exemplos acima caracterizam parte dos problemas que foram encontrados na área onde nos propusemos a desenvolver esta pesquisa e entorno.

A partir dessas questões, buscamos desenvolver atividades teórico-práticas reflexivas críticas que pudessem sensibilizar, informar e tornar o conhecimento mais próximo dos atores sociais aos locais que os circundam como conversas, diálogos discursivos, visitas de observação no entorno escolar e trilhas.

Assim, os envolvidos neste trabalho teriam a oportunidade de conhecer e refletir sobre as problemáticas observadas, para que as vivências servissem de veículo para o desenvolvimento de uma cidadania ambiental e planetária consciente e crítica, pois um dos saberes indispensáveis a quem propõe atividades de emancipação é saber que a localidade investigada é uma possibilidade de investigação crítica e não como algo determinado(FREIRE, 1996).

No transcorrer da pesquisa foi caracterizado, coletivamente, todo o entorno escolar, universo escolar onde os sujeitos envolvidos na pesquisa estudavam, todas as etapas da atividade investigativa ambiental, como observações coletivas no campo, entrevistas com a comunidade vizinha a escola, discussões e expectativas para melhorias.

Iniciamos os trabalhos, na escola, fazendo o reconhecimento do entorno escolar, onde traçamos um panorama dos conhecimentos prévios que nossos alunos já tinham sobre a problemática ambiental que ocorre em toda área a ser analisada no presente estudo, pois um dos saberes essenciais que não podemos duvidar na prática-educativa crítica é de que a educação é uma maneira de intervenção no mundo tendo em vista a transformação(FREIRE, 1996).

Apesar do entorno escolar não ser novidade para os alunos da turma, pois a maioria deles mora próxima da escola, fazer uma visita de reconhecimento da área foi uma das atividades mais prazerosas de toda a atividade. A saída da sala de aula para observação mais atenta do meio ambiente fez com que os alunos despontassem seus conhecimentos, e também que eram capazes de identificar os problemas e reconhecer o quanto é difícil mudar os modos pessoais e coletivos, pois o educador não deve poupar momentos seguros de discutir um tema , analisar um fato, expondo a situação real da própria experiência alicerçada na inconclusão...(FREIRE, 1996)

Dessa forma, os alunos observaram criticamente todo o entorno escolar, fazendo um levantamento das condições ambientais da área onde a escola está situada, levando em consideração a biodiversidade encontrada, a situação organizacional ambiental (iluminação pública, calçamento das ruas, saneamento básico nas residências); e as alterações antrópicas nocivas à manutenção da sustentabilidade ambiental. Procuramos incentivar o desenvolvimento de caráteres que levassem os discentes a interações construtivas e ambientalmente sustentáveis. Tais ações possibilitam a formação de uma consciência política que procura contestar as atitudes da população e dos governantes quanto à preservação do meio ambiente, do entorno escolar e do próprio bairro.

Incentivamos o pensar crítico pois, toda comunicação é comunicação de algo, não neutro, feita a favor de grupos específicos, por isso a postura crítica não pode deixar de existir, por fundamento de transformação social(FREIRE, 1996).

Percebemos, durante a realização de discussões, os alunos se distanciaram de diálogos e trocas acerca de si e do mundo, principalmente no que diz respeito a questão ambiental, não conseguindo relacionar determinadas atividades realizadas em coletivo às suas respectivas consequências.

Entendemos que a educação ambiental vem contribuir como elo interativo entre as diversas áreas do conhecimento humano, servindo-lhes de ponte, ligando-as, conectando-as, permitindo, assim, que a educação deixe de ser fragmentada e sem comunicação entre os diversos saberes. Ao unir os saberes, faz-se crer não haver supremacia de uma área do conhecimento sobre as outras. A educação ambiental, portanto, vem promover essa inter-relação, fazendo da educação um só corpo. E, por sua abrangência, vem promover, também, as relações humanas com o ambiente biofísico, deixando para trás o modelo de educação tradicional, que simplesmente promova o repasse dos conteúdos. A lógica é de formação. O sentido é de participação. O caminho é o da ação. O resultado a transformação.

Observamos que a maioria das pessoas, sejam elas crianças, adultos ou adolescentes, estudantes ou não, não consegue, de modo geral, distinguir a relação entre suas ações e o ambiente, por um desconhecimento, ou por conhecimento equivocado. Portanto, é crucial a conscientização, sensibilização que as envolvem nas questões ambientais, de forma a que se sintam incentivadas a buscar soluções não apenas para as questões ambientais naturais, porém, também para um desenvolvimento social que seja harmônico e equânime. Diante disso, relataremos a seguir, algumas ações coletadas no campo da pesquisa.

II- Práticas de Educação Ambiental: O projeto vivido na escola

Segundo Carvalho (2002), a complexidade progressiva das questões ambientais, aprofundadas por um modelo de desenvolvimento exacerbado, levou aos surgimentos de muitos trabalhos, pesquisas e projetos voltados para comunidades de ação comunitária, ação social, organização de comunidades, desenvolvimento de comunidades.

Ainda conforme o mesmo autor, para o desenvolvimento de um projeto voltado para a comunidade são importantes a contextualização e o mapeamento dos problemas ambientais, consideramos tal fato ao realizar nossas atividades na Escola. Através de projetos suscitamos a ajuda mútua, a reciprocidade, a solidariedade, a cooperação, a elevação da auto-estima, o sentimento de pertencimento ao lugar e o aprofundamento da consciência a partir das condições de vida da comunidade. Tal desenvolvimento atinge a população local, bem como os estudantes envolvidos no projeto, como relataremos a seguir as falas de alguns alunos envolvidos na pesquisa, após entrevista dialógica.

C, aluno do 9° ano do Ensino Fundamental II:

“A partir do momento em que tivemos a oportunidade de participar do projeto de educação ambiental no nosso colégio, podemos perceber a importância de nossas ações e como elas podem ou não mudar a realidade de cada um e da própria comunidade”.



G, aluno do 9° ano do Ensino Fundamental II:

“É muito legal sabermos que podemos até mudar nossa realidade, só depende da gente”.



W, aluno do 9° ano do Ensino Fundamental II:

“É importante que cada um tenha a consciência do seu papel e que também saiba que é importante cobrar do governo atitudes que possam melhorar o bairro.”



A, aluno do 9° ano do Ensino Fundamental II:

‘É uma vergonha o descaso do governo com o nosso bairro, a minha rua por exemplo, quando chove muito, vira um verdadeiro rio, e o nosso imposto vai para onde? Gostaria de saber.”

Ao expandir o ensinamento de dentro da sala de aula, para o desenvolvimento de um programa de educação ambiental junto à comunidade, geram-se “oportunidades para os alunos observarem e obterem mais informações sobre o ambiente, associando emoções e pensamento crítico” (SATO, 2003, p. 42), sendo o entorno da escola o melhor local para o início de um estudo sobre questões reais. Fazem parte da comunidade do entorno escolar, segundo Branco (2002), o conjunto formado pelos moradores, famílias, comércio, indústrias, instituições etc. , que estão “logo ali”, ao alcance de todos, para observação e análise crítica, e de onde se pode extrair muito e variado conhecimento, considerando-se seu contexto histórico, social, cultural, ambiental; percebendo e entendendo como se formou e como funciona.

Ao desenvolver-se um projeto, Branco (2002) aconselha testar o entendimento que as pessoas têm sobre o tema, saber o que elas conhecem a seu respeito, verificar o que elas acham importante para a sua realidade local, e o que elas pensam que cabe a elas fazer.

Segundo Sato (2003, p. 42), o trabalho de campo contribui para a compreensão das questões ambientais, pela sensibilização “através das observações diretas, do contato e da imersão na natureza em si”, mostrando aos alunos que todos os elementos interagem, e que eles mesmos são partes integrantes desta mesma natureza.

É neste pensamento que embasamos as atividades da nossa pesquisa, cujo objetivo foi de apresentar estudos sobre uma proposta de atividade interativa de educação ambiental numa escola situada no município de São Gonçalo, Estado do Rio de Janeiro, promovendo reflexões a partir de observações coletivas sobre a realidade escolar e seu entorno, tendo em vista a promoção de multiplicadores de ações ambientais.

Uma atividade utilizada na prática da educação ambiental foi a trilha que, segundo Branco (2002), desenvolve a socialização, a observação da natureza e de si próprio. A trilha pode desenvolver-se em parques, florestas, morros das cidades etc. As aulas-passeio de Freinet são perfeitas para a observação urbana, por exemplo, e da natureza humana nesse meio. Após uma trilha ou uma aula-passeio pode-se promover uma troca de experiências e impressões vivenciadas pelos participantes, o que possibilita, além do enriquecimento do conhecimento adquirido do meio, do outro e de si, é um incentivo à participação, ao questionamento, à atividade crítica do pensamento.

No nosso caso é importante ressaltar que antes de iniciarmos nossa caminhada investigativa no entorno da escola, buscamos desenvolver junto aos alunos um olhar histórico-ambiental com aulas dialógicas e informativas sobre o assunto a ser observado. Realizamos um breve estudo desde a Revolução Industrial na Inglaterra, no século XVIII, e como os recursos naturais passaram a ser cada vez mais explorados e a natureza, cada vez mais agredida e como hoje esses recursos são mais e mais escassos, chegando ao município trabalhado, que de cidade operária hoje tornou-se cidade dormitório, quase esquecida pelas autoridades que praticamente se perpetuaram no poder, muitas vezes, empobrecendo o futuro dos jovens e da sociedade em geral.

Ainda em diálogo com Freire(1996) compreendemos que nenhuma pedagogia pode ficar distante dos oprimidos, fazendo-lhes de meros objetos exemplificando moldes que receberão promoção, a função educativa é promover, a partir do exemplo coletivo, a libertação que inicia na observação da realidade por meio da criticidade.

Dentre as atividades propostas, a pesquisa empírica observou que os entrevistados afirmaram que a situação do bairro é péssima de uma maneira geral, chegando a ser crítica em alguns aspectos específicos. Atribuíram, ainda, esta situação ao absoluto abandono das autoridades locais (governo e prefeitura), e relataram que “o que falta é boa vontade”, até mesmo pela proximidade com a sede municipal.

Dentre os problemas apontados por alguns entrevistados, pode-se relacionar:

  • Falta de pavimentação – as ruas do bairro são em grande maioria ainda de barro vermelho, e se não bastasse, são “esburacadas”; as calçadas, simplesmente não existem.

  • Saneamento básico – abastecimento de água ineficiente e precário.

  • Iluminação pública – quase não há iluminação nas ruas.

  • Assistência médica – o bairro não possui hospitais, e os postos de saúde não têm capacidade para atendimento de urgência e/ou emergência.

  • Transporte – além da iluminação da condução para entrada e saída de bairro, o intervalo entre um ônibus e outro é muito grande.

  • Coleta de lixo – é feita de maneira insuficiente.

De todos os problemas levantados nas entrevistas, os mais citados foram os problemas de transporte e do calçamento, o que nos leva a imaginar o nível de dificuldade que esta comunidade enfrenta para locomoção no bairro.

Segundo um dos entrevistados, os principais problemas no bairro são a “péssima condição das ruas”; o “abastecimento de água insuficiente e precário”; “má iluminação”.

Não obstante, foi o relato de um outro entrevistado que ao ser questionado sobre os problemas da região afirmou que a falta de saneamento também é uma agravante para a péssima condição das estradas, “muita lama na chuva e poeira, quando sol”, mas adverte também sobre a carência do sistema de saúde, pois “se passa mal à noite, só podemos resolver no dia seguinte, pela manhã”.

Segundo outro jovem morador, os problemas mais urgentes são, sem dúvida, a precariedade da infraestrutura das ruas e, consequentemente, as falhas no sistema de transporte local.

É importante observar que os problemas listados pelos entrevistados focam bastante as condições básicas, sem mesmo observarem que a falta de saneamento básico ou infraestrutura conduz a um problema ambiental.

Quando perguntamos qual movimento que gostaria de participar, caso tivesse oportunidade, as respostas mais citadas foram:

  • Associações, desde que ‘tivessem por finalidade trabalhar as questões ambientais da região’”.

  • Qualquer movimento para preservação do meio ambiente”.

Quando perguntado sobre a responsabilidade de cada um dos moradores da região nos problemas locais, as respostas foram:

  • Poderiam manter suas frentes limpas e organizadas, as casas pintadas, buscar auxílio junto à Prefeitura”.

  • Só podemos nos responsabilizar com condições, se você não tem, não há o que fazer”.

  • Não jogar lixo nas ruas nem em terrenos baldios, pois há coletas por semana, ninguém deveria deixar seus lixos a céu aberto. É uma questão de consciência. Existem palestras em escolas, na comunidade, mas mesmo assim o lixo continua nas ruas”.

A seguir estão relacionadas as respostas dadas quando perguntado sobre possíveis soluções para os problemas apontados:

  • Maior participação da prefeitura nas questões ambientais”.

  • Melhoria das condições das estradas e no transporte”.

  • Melhoria da iluminação e no saneamento básico”.

  • Conscientização da população nas questões ambientais. ”

Solicitou-se que fosse citada alguma sugestão de solução para os problemas apontados e as respostas de alguns foram as seguintes:

  • Um suporte dado pela Prefeitura Municipal em caráter mais intenso”.

  • Conscientização de cada habitante através de instituições já estabelecidas no bairro”.

  • Amizade entre todos os bairros, porque juntos conseguiremos alguma coisa”.

  • Parceria com a Associação de Moradores”.

  • Primeiro, melhoria da estrada, em seguida, os ônibus e iluminação; para o morador se sentir confortável, o saneamento, com local para os moradores jogarem seus lixos”.

Com base nas respostas dadas, os entrevistados da comunidade deixaram clara a carência com relação ao poder público, permitindo o abandono da prefeitura na região.

Os entrevistados acreditam que se for feito um trabalho junto à comunidade, e com a participação das autoridades, pode ser possível reverter o quadro de poluição e abandono. Muitos entendem que falta apelo por parte da prefeitura sobre este aspecto, fazendo com que, deste modo, também se acomodem a situação.

De acordo com as palavras de Freire (2000), deveríamos insistir mais nos conhecimentos que nos levam a fazer reflexões de nossas ações enquanto indivíduos-cidadãos. Ações estas que ao longo da curta existência humana vem destruindo tudo o que levou milhões de anos para se formar em nosso planeta. No tempo de uma vida, observamos um passivo ambiental que cresce a cada dia.

Segundo Dias (2003, p. 112), após a Conferência de Estocolmo, a concepção de meio ambiente sofreu profundas modificações, como o entendimento de que faz parte do meio ambiente não só os seres vivos e os fatores abióticos, como também a cultura do ser humano. Tais mudanças transformam a Educação Ambiental em princípios indispensáveis para que se possa compreender seu verdadeiro papel dentro do nosso planeta. Por fazerem parte de uma abordagem sistêmica, os preceitos teóricos da Educação Ambiental deveriam ser desenvolvidos dentro do ambiente escolar por todas as áreas do conhecimento, num viés de transversalidade.



III-EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CIDADANIA: A CONSTRUÇÃO DA DÍADE NO CENÁRIO DA PESQUISA

Sendo a educação um processo de vida, um espaço de tempo determinado entre o nascimento e a morte de um ser humano, ela se dá de maneira formal, nas instituições que se propõem ao ensino e não-formal no cotidiano da própria sociedade.

Esta pesquisa se delimita ao espaço formal de ensino, onde a partir da escola e em seu entorno ela acontece, envolvendo professores, alunos e o público em geral. Assim, o tipo de educação que se confere a alguém refletirá não apenas na sua própria vida, mas também na vida da sociedade a que pertence. Consequentemente, cada ato de cada ser que forma a sociedade reflete-se na vida dos outros seres e da coletividade.

Portanto, se se concorda que a vida no planeta está em perigo por causas diversas e, principalmente, pelas modificações trazidas ao ambiente pelas ações do ser humano, nada mais importante do que oferecer uma educação ambientalmente preocupada para a formação desse ser. É necessário formar cidadãos ambientalmente preocupados, a fim de se construir uma cidadania ambiental global.

Nesse sentido, a escola deve estar envolvida nesse processo na medida em que o nosso planeta será amanhã o que fizermos hoje, sendo a educação ambiental fundamental e absolutamente necessária, assim como, a academia que reúne as pessoas responsáveis pela formação e capacitação daqueles que trabalharão junto a essas comunidades na busca por possíveis soluções.

Nesse sentido, para Sato (2003), a educação ética e ambientalmente preocupada pode despertar tal preocupação nos homens, vindo modificar-lhes as atitudes e mesmo seus valores. E isso é o se objetiva. Para tal, o acesso à educação deve ser garantido a todos os cidadãos a partir de momentos de estudos, observações e participações no ambiente da pesquisa. E tal acontecerá com inclusão e justiça social. Aí está, pois, a amplitude da educação ambiental, inseridos nela os fatores socioeconômicos e não apenas a visão simplista de conservação, preservação ecológica e prevenção a acidentes, como se tem visto disseminada, inclusive na própria Constituição Federal Brasileira – art. 225, § 1°, VI, da Constituição Federal: “promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente”.

O primeiro passo na direção da transformação é a atitude, que está intimamente relacionada à ação; e em ação, os sujeitos sociais se edificam e fundamentam sua prática, modificando em conhecido o desconhecido, avaliando seus caminhos, adequando-se, interatuando, analisando (BRANCO, 2002). Segundo a pesquisa, é possível a todos alcançarem esse estágio de desenvolvimento desde que haja um investimento nesse sentido, principalmente no que diz respeito a educação formal e não-formal.

Pode-se depreender que os caráteres devem estar embasados em procedimentos ambientalmente aceitos, a fim de que possam traduzir-se em soluções para as questões ambientais. Observa-se assim a importância da mudança de paradigmas que, sob a visão de Soffiati (apud LOUREIRO at al¸2002) só ocorre mediante mudança de caráter. Assim é que o atual paradigma da organização da sociedade exige um novo relacionamento entre as sociedades humanas e a natureza não-humana. A conseqüência deste novo relacionamento, segundo o mesmo autor, serão “novas formas de exercício da cidadania que incorporem e redimensionem a antiga cidadania”. Neste contexto, há necessidade de “formação de um novo educador que atue a partir de novas premissas”, como afirma Morin (op. cit., p. 62).

Nas atividades dialógicas, os assuntos trabalhados permeavam essa questão no sentido de possibilitar ao aluno, a partir do que foi discutido em sala de aula, perceber-se como um ser histórico, um cidadão ativo na busca de soluções para os problemas pelos quais passa, atuando junto à sociedade e aos órgãos governamentais; entretanto, para que isso verdadeiramente venha a acontecer, é necessário que se estabeleçam fóruns na escola para que os atores sociais envolvidos possam estar sempre debatendo a respeito dos reveses que os atingem e consequentemente buscando possíveis soluções.

A importância da escola na figura dos pesquisadores foi, pois, primordial na formação de cidadãos capazes de ampliar e colocar seus conhecimentos e habilidades a serviço da sociedade, dando, com isto, equilíbrio aos impactos ambientais causados pelas ações do homem. Nesse processo, pesquisadores e sujeitos foram agências e agentes engajados na sua autocrítica e na crítica “de suas relações com outros, tomando decisões e transformando as sociedades” (SATO, 2003, p. 29).

IV-Resultados

No cenário estudado quando analisamos o resultado da pesquisa-ação verificamos que a capacidade de estar disposto a, de alguma forma, colaborar na busca de alternativas que possam minimizar problemas cotidianos é elemento fundamental para atuação e análise; o que parece na verdade é que faltam oportunidades, políticas públicas realmente voltadas para esse grupo social e consequentemente senso crítico e consciência por parte do cidadão comum.

No que diz respeito a tal fato, e particularmente no caso da nossa escola, podemos constatar desinformações, na medida em que os sujeitos sociais não tinham se envolvido nas questões ambientais, mesmo tendo a convicção que é o próprio sujeito o principal responsável pelo estrago dos recursos naturais; além disso, não existia um esclarecimento em relação à legislação ambiental, e o poder público é omisso. No entanto, existe uma luz no fim do túnel na medida em que, praticamente, todos perceberam que o ensino de Ciências do Ambiente poderia ajudar no conhecimento e possíveis soluções dos problemas que os cercam.

Nas falas dos nossos sujeitos da pesquisa ficou clara a impressão de que não basta contemplar a natureza e o meio a volta, da mesma maneira como se observa um quadro que era belo e deteriorou-se com o tempo, pela falta de cuidado e de interesse de seu dono. Há de se fazer o trabalho do restaurador cuidadoso, que irá pesquisar sua história, suas cores, seus traços, seu material, respeitando assim suas características originais, e restaurá-lo com precisão. Terá ele pesquisado para fazer seu trabalho e recorrido às causas que lhe danificaram para melhor prepará-lo, a fim de que não venha a sofrer novos danos. Portanto, no caso das questões ambientais deverá fazer-se o mesmo tipo de trabalho, indo à pesquisa das causas – causa dos danos e causa das atitudes humanas que os provocaram – para que se as restaurem com maior segurança.

Para que se atinja um tal estágio, a educação deverá levar à conscientização e à formação do sentido de cidadania do cidadão em formação. Segundo Branco (2002), chama-se consciência a discussão das consequências e a busca das causas; e cidadania à alteração de comportamento.

Freire (2000, pp. 33-34) questiona:

Por que não discutir com os alunos a realidade concreta a que se deva associar a disciplina cujo conteúdo se ensina (...)? Por que não estabelecer uma necessária “intimidade” entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos? Por que não discutir as implicações políticas e ideológicas de um tal descaso dos dominantes pelas áreas pobres da cidade?( p. 33-34)



O autor afirma que a curiosidade humana é histórica e socialmente construída e reconstruída, pois a passagem da ingenuidade para o pensamento crítico não se processa automaticamente, mas, por meio de ações de curiosidades críticas(FREIRE, 2000).

Freire (2000), entende que a tarefa da escola é propiciar a construção dos conteúdos que, por sua complexidade, não se faz na informalidade do dia-a-dia. A escola precisa dar conta de planejar, organizar, sistematizar saberes e conhecimentos, cumprindo assim seu papel de formadora e capacitadora do indivíduo para a vida em sociedade.

Dessa forma, indagamos com Freire(1996) nas inquietações;

Por que não discutir com os alunos a realidade concreta a que se deva associar a disciplina cujo conteúdo se ensina, a realidade agressiva em que a violência é constante e a convivência das pessoas é muito maior com a morte do que com a vida?Por que não estabelecer uma “intimidade” entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos? Por que não discutir as implicações políticas e ideológicas de um tal descaso dos dominantes pelas áreas pobres da cidade? (FREIRE,1996.p.30)



Refletindo assim, percebemos que o ambiente escolar é um espaço propício para inúmeras discussões concretas e reais dos problemas ambientais, as quais precisam ser trazidas para o campo do debate, tendo em vista a participação coletiva.

No entendimento de Grossi (2000), a escola é, portanto, o local das transformações e adaptações humanas pelo conhecimento, local onde convivem bagagens históricas e culturais diferentes, incentivando a busca, a descoberta, a criação e a aquisição do novo.

Grossi (2000), explica ainda que a função social da escola é garantir a difusão de um patrimônio, através das gerações, de determinados conhecimentos e valores de que a sociedade precisa apropriar-se para ser um cidadão participante. A escola do terceiro milênio não pode abrir mão do universalismo, ela tem que garantir essa apropriação, não podendo perder de vista o fato de que a sociedade se transformou.

Nesse sentido, é importante ressaltar que a escola tem um papel fundamental no processo de formação da cidadania, já que é papel do educador levar a todos a oportunidade para que cada um possa desenvolver um senso crítico capaz de permitir suas próprias opções e que estas possam estar de acordo com os interesses da coletividade.

Somente entendendo as transformações havidas é que se poderá chegar a propostas pedagógicas que se baseiem nas contribuições científicas dos vários campos do conhecimento, a essa nova e necessária visão holística, que entende que todas as coisas existentes se conectam, se interligam, se encontram, se ajustam e se completam.



CONSIDERAÇÕES



Essa pesquisa desenvolvida numa escola e comunidade local do município de São Gonçalo, Estado do Rio de Janeiro não se furtou de trazer para o cenário de análise algumas ações, com foco em práticas ambientais, que mesmo ainda de forma incipiente, tem buscado desenvolver noções e reflexões do que seria um ambiente apropriado para o desenvolvimento sustentável que garanta a comunidade um futuro saudável.

Tendo como objetivo apresentar estudos sobre uma proposta de atividade interativa de educação ambiental numa escola situada no município de São Gonçalo, Estado do Rio de Janeiro, propomos reflexões coletivas a partir de observações sobre a realidade escolar e seu entorno, tendo em vista a promoção de multiplicadores de ações ambientais.

Percebemos, neste estudo, o quanto atividades de observação, investigação e entrevistas escolares e entorno são cruciais para reflexões críticas sobre questões ambientais locais e particulares.

Permitir que alunos apropriem de conhecimentos e sejam sujeitos investigativos, forneceu-nos oportunidades para repensarmos a responsabilidade de trazermos para o ambiente escolar os temas geradores que despertem posicionamentos e ações críticas emancipatórias.

Ao longo da atividade desenvolvida o processo de “identificação do sujeito” nos fez ver que o cenário da pesquisa na construção ambiental apontou que, apesar da maioria dos entrevistados acusarem o próprio homem de causar os maiores danos ambientais, a população não se envolve com possíveis soluções e nem tem conhecimento de nenhum projeto ambiental, seja por parte da comunidade, seja por parte da Prefeitura, muito menos no que diz respeito a uma legislação ambiental. Sobre o que pode ser feito, normalmente as pessoas se colocam a disposição para ajudar naquilo que for possível, apesar de acharem que isso é dever do poder público; e também concordam que o ensino de Ciências do Ambiente pode ajudar muito no conhecimento dos problemas que os cercam.

Numa nova pintura, cada aparente detalhe, insignificante para um olhar apressado ou na busca exclusiva dos grandes contornos, adquiriu valor e significado na rede de relações plurais de seus múltiplos elementos constitutivos, assim, adolescentes entre 13 e 16 anos de idade tiveram a oportunidade de atuar como agentes sociais que buscaram multiplicar as experiências aprendidas na escola; viam que o ato de tomar um refrigerante e jogar a lata ou a garrafa Pet no chão poderia colaborar enormemente para entupir as galerias pluviais e causar as enchentes, que foram uma das maiores causas de reclamação dos pesquisados.

A histórica local não se opôs à história ambiental, muito pelo contrário. Ao eleger o local como circunscrição de análise, como escala própria de observação, não abandonamos as margens, os constrangimentos e as normas, que, regra geral, ultrapassam o espaço local ou circunscrições reduzidas. A escrita da história local costurou ambientes intelectuais, ações políticas, processos econômicos que envolvem comunidades regionais, nacionais e globais que se entrelaçam no desenho ambiental local. Sendo assim o aprendizado da questão ambiental e dos projetos realizados em Escolas, incidiram na descrição dos mecanismos de apropriação – adaptação, resposta e criação – às normas que ultrapassam as comunidades locais.

Em tempos onde fronteiras de pensamentos são cada vez mais largas, se desloca numa vertiginosa circulação de idéias, valores, práticas e procedimentos, que nos parece relevante enfocar as análises sobre as relações do local como um dos espaços importantes para discussões.

Nesses termos, podemos concluir que a ênfase sobre as redes de interdependência e sociabilidade entre determinados atores, no espaço social escolhido não simplifica variantes e interferentes de uma trama socioambiental, muito pelo contrário, observa a complexificação dessas relaçoes. No recorte dado a essa pesquisa, finalizamos com a certeza da importância de se priorizar o local para entender o global, cada detalhe mais ou menos aparente pode adquirir significação própria.



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