ISSN 1678-0701
Número 64, Ano XVII.
Junho-Agosto/2018.
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14/06/2018EDUCAÇÃO AMBIENTAL POR MEIO DO TEATRO DE FANTOCHES: CONTRIBUIÇÕES NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM  
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EDUCAÇÃO AMBIENTAL POR MEIO DO TEATRO DE FANTOCHES: CONTRIBUIÇÕES NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM

Priscila de Paula Ferreira Menino1

Márcia Francineli da Cunha Bezerra2

Luiza Nakayama3

1Pedagoga – Instituto de Ciências da Educação (ICED/UFPA). E-mail: priscilamenino@gmail.com.

2Doutora em Ciência Animal pelo PPGCA, NCADR/UFPA. Integrante da Sala Verde Pororoca/ICB/UFPA. E-mail: m.francineli36@gmail.com.

3Doutora em Genética Bioquímica e Molecular. Orientadora no PPGEMCI, coordenadora da Sala Verde Pororoca. Av. Augusto Correa, 01 – Campus Universitário do Guamá, Setor Básico. 66075-110. Belém-PA. lunaka@ufpa.br. sverdepororoca@ufpa.br.

RESUMO

Com o objetivo de sensibilizar os alunos de uma escola pública de Belém- PA (EMEIF Edson Luís), sobre os problemas ambientais existentes na comunidade, realizamos atividades sequenciadas na escola. O Prof. Bruno Sales afirmou que o teatro de fantoches foi o ponto chave deste trabalho.

Palavras-chave: Educação Ambiental. Problemas Ambientais. Ensino e aprendizagem.

ABSTRACT

With the aim of sensitizing the students of public school of Belém, Pará State, about on environmental problems in the community, we carry out activities sequenced in the school. The teacher Bruno Sales stated that puppet theater was the culmination of this work.

Keywords: Environmental Education. Environmental problems. Teaching and learning.

INTRODUÇÃO

De acordo com Parâmetros Curriculares Nacional da Educação (BRASIL, 2001, p. 57):

O teatro, no processo de formação da criança, cumpre não só função integradora, mas dá oportunidade para que ela se aproprie crítica e construtivamente dos conteúdos sociais e culturais de sua comunidade mediante trocas com os seus grupos. No dinamismo da experimentação, da fluência criativa propiciada pela liberdade e segurança, a criança pode transitar livremente por todas as emergências internas integrando imaginação, percepção, emoção, intuição, memória e raciocínio.

Ferreira; Caldas (1998) consideram o teatro de fantoches uma ferramenta muito eficiente no processo de ensino e aprendizagem, por educar as crianças a prestarem mais atenção ao mundo sonoro, e por estimulá-las a ouvir com interesse o que os outros falam, e desta forma possibilitando o desenvolvimento cognitivo, a partir da apropriação de frases, versos, músicas e ritmos inerentes a esse recurso didático.

Coll; Teberosky (2000) ressaltam que as crianças enquanto encenam uma peça, inconscientemente utilizam seu imaginário e as suas vivências, sendo muito difícil separar os dois parâmetros.

Neste contexto, Baía et al. (2009) afirmam que o teatro de fantoches deve ser introduzido nas práticas pedagógicas das escolas, enfatizando que para tanto é necessário que o educador esteja em sintonia com os alunos, dispondo-se não somente a ensinar, como também aprender com eles, participando ativamente de seu imaginário e fantasias.

Dantas et al. (2012, p. 723) concluíram que o teatro de fantoches é, dentre os recursos didáticos lúdicos o mais facilmente assimilável, sendo “essencial a inclusão dessa metodologia de ensino-aprendizagem na formação continuada docente” por seu potencial reflexivo associado à Educação Ambiental (EA) que oportuniza abordagens de temas igualmente relevantes, tais como diversidade cultural, família, educação para cidadania e outros.

Baldin et al. (2010) salientaram que, nesta forma lúdica de ensino aprendizagem, as crianças aproveitaram bastante o teatro de fantoches e se sensibilizaram com os prejuízos causados ao meio ambiente pelo desmatamento ilegal.

Neste contexto, o nosso objetivo foi sensibilizar os alunos da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Edson Luís (EMEIF Edson Luís), localizada na zona urbana de Belém – PA, sobre como os problemas ambientais interferem na sua qualidade de vida cotidiana e como resolvê-los pelo trabalho conjuntos de todos.

CAMINHOS METODOLÓGICOS

No dia 18/04/2017 procuramos os gestores da EMEIF Edson Luís, para apresentar nossa proposta de atividades a serem desenvolvidas com crianças do Ensino Fundamental I, sobre a temática EA. A coordenação nos informou sobre o Projeto “O click da sustentabilidade” e sugeriu que procurássemos o responsável, prof. Bruno Sales. Na conversa com prof. Sales, decidimos pela apresentação de um teatro de fantoches para abordar os assuntos: preservação do meio ambiente, lixo, queimada e cooperação, com uma turma de 3º ano do ensino fundamental (antiga segunda série do ensino fundamental).

A escola disponibilizou 1h para o desenvolvimento das atividades, por esta razão escolhemos a fábula “O Beija-flor e a Floresta” (com duração de 3 a 5 minutos), utilizada por Herbert de Souza (Betinho) como metáfora de solidariedade, disponível em: <http:// www.truco.com.br>. Cabe destacar, que realizamos uma adaptação na fábula para viabilizar a contação, a partir do teatro de fantoches e acrescentamos na trama mais dois personagens de nossa região: a onça pintada e o macaco-prego.

Menino et al. (2016/2017a, p. 53) objetivando favorecer o desenvolvimento de ações que garantissem práticas alimentares mais saudáveis por crianças do Maternal I, dentro e fora do âmbito escolar, realizaram atividades segundo os momentos: “1. Planejar; 2. Implementar e 3. Descrever e avaliar”, observando que esta metodologia favoreceu o processo de ensino e aprendizagem nessa faixa etária. Em vista do exposto, utilizamos a metodologia de momentos, dividindo as atividades em: 1. Apresentação dos participantes e ensaio do refrão da música; 2. Roda de conversa com todas as crianças da turma do 3º. ano; 3. Exibição do teatro, culminando com a música do Chico Buarque: “Todos juntos somos fortes” da peça de teatro Saltimbancos, de 1977 e 4. Roda de conversa em pequenos grupos com a utilização dos fantoches (reconto), como recurso para desinibir e favorecer o diálogo com as crianças.

Diversos autores (Nakayama et al., 2007; Figuêiredo et al., 2012 e Silva et al., 2012), consideram que as rodas de conversa são experiências pedagógicas que contribuem para a reflexão e diálogo, propiciando condições de pensamentos autônomos e curiosidade, favorecendo a aprendizagem contextualizada, conduzida a partir dos conhecimentos, argumentos e ações dos próprios alunos, desde que o professor seja mediador e estimulador desta atividade.

Para entendermos quais os resultados alcançados, a partir das atividades realizadas na EMEIF Edson Luís no dia 07/05/2017, com o teatro de fantoches no ensino de EA, efetivamos entrevista com o responsável pelo projeto “O click da sustentabilidade”, prof. Bruno Sales na própria escola, no dia 08/02/2018. Na ocasião, partimos de um questionário semiestruturado e entrevista livre, a fim de verificar se a nossa atividade com teatro de fantoches foi efetiva para o ensino e aprendizagem de crianças do ensino fundamental I.

Escolhemos a abordagem triangular que articula: leitura, fazer artístico e a contextualização do espetáculo apresentado, possibilitando a (re) apresentação do teatro de fantoches pelos próprios espectadores que deverão aliar suas ideias a uma nova forma de representá-lo, que de acordo com Brasil (2015, p. 79) tem objetivos de “avaliar o entendimento acerca do tema em questão”.

Esse trabalho se configura como uma pesquisa ação participativa, que em consonância com Tozoni-Reis (2008, p.167):

Propõe investigar a ação, criando oportunidades reais de participação das pessoas envolvidas no processo, garantindo-lhes tomada de decisões coletivas no decorrer da aplicação do método, possibilitando investigar a ação coletiva entre o saber cientifico e o senso comum em função de desenvolver ações educacionais de forma emancipatória visando superar o tradicionalismo no processo de ensino e aprendizagem.

Além disso, uma pesquisa de cunho qualitativo, que segundo Minayo (2000, p. 10) deve ser entendida “como aquela capaz de incorporar a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, às relações, e às estruturas sociais, sendo essas últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação como construções humanas significativas”, com o tema gerador EA, que Tozoni-Reis (2007, p. 104) o identifica como “ponto de partida para o processo de construção da descoberta”.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Antes de iniciar as atividades, confeccionamos em feltro os principais personagens do conto (beija-flor e elefante) e acrescentamos um toque regional agregando na fábula os personagens amazônicos: a onça-pintada e o macaco.

No dia 07/05/2017, para nossas ações de EA na EMEIF Edson Luís, chegamos ao local com uma hora de antecedência, para organização do espaço disponível e todos os detalhes essenciais para execução das atividades, acreditando que desta forma teríamos mais tempo para sanarmos imprevistos, que por ventura viessem a ocorrer, no momento das práticas. Esta atitude está embasada em nossa metodologia de trabalho (MENINO et al., 2016/2017a,b) por considerar que atividades sequenciais organizadas com antecedência no espaço escolar, são essenciais para o sucesso de ações com crianças, ao transmitir tranquilidade e segurança, mesmo quando ministradas por professores não pertencentes à rotina escolar.

Iniciamos as atividades às 8:00h, com a presença de 27 alunos do 3º ano, com idade variando de 8 a 11 anos. Fizemos uma breve apresentação da equipe coordenadora do evento, seguida de uma roda de conversa com esta turma sobre o tema gerador EA, explicando alguns conceitos básicos.

Quando comentamos sobre doenças causadas por proliferação de vetores, um aluno se manifestou: “Quando meus irmãos pequenos ficam doentes e vão ao médico, ele diz que é porque leva picada de carapanã, porque tem muito lixo jogado na rua e causa alergia e também têm muitos ratos que dão doença”.

Durante a apresentação do teatro cabe destacar que um aluno, portador de Síndrome de Down (Figura 1), aqui denominado de Aluno X, conseguiu ficar sentado durante toda a atividade, fascinado com “os pequenos animais falantes”. Segundo os professores da escola, essa experiência possibilitou a visão de um caminho alternativo a ser trabalhado com crianças especiais da escola, pois esse aluno “que não consegue ficar parado um minuto, assistiu atentamente todo o espetáculo”, reforçando ainda mais a percepção de que o teatro de fantoches é um instrumento de ensino-aprendizagem muito eficaz, de acordo com Dantas et al. (2012).

No momento em que apresentávamos o teatro de fantoches, os professores da escola ficaram muito entusiasmados ao perceberem que o Aluno X, que segundo eles não parava quieto, parou para assistir ao espetáculo. No final da encenação um dos professores trouxe o estudante até nós, nos contando o ocorrido. Sabe-se que crianças com Síndrome de Down são mais espontâneas, assim, o menino ao se sentir mais seguro, entrou no teatro e interagiu com os bichinhos revelando muito de seu aprendizado, se divertindo.

Figura 1. Aluno X, portador de síndrome de Down, na atividade do Teatro de Fantoches, turma de terceiro ano da EMEIEF Edson Luís, Belém – PA

Destacamos, ainda, a importância de termos incluído os fantoches do macaco e da onça pintada. Apesar de considerarmos o elefante e o beija-flor os personagens centrais da estória, os alunos se identificaram com os outros dois personagens, os quais não existem na versão original. O macaco, talvez pelos alunos estarem acostumados a vê-lo pulando solto nas árvores do Bosque Rodrigues Alves-Jardim Zoobotânico da Amazônia e a onça pintada em jaula, no Museu Paraense Emílio Goeldi, ambas instituições públicas, localizados na região Metropolitana de Belém. Além disso, muitos alunos têm parentes e amigos que moram no interior do Pará, onde ainda é possível encontrar macacos de diferentes espécies e onça, soltos na natureza. Os alunos logo exclamaram ao reconhecerem o personagem: “Olha a onça do Museu! ”, e já no final das atividades os dois personagens já eram tratados carinhosamente de “bichos que moram no Museu”. Chamou nossa atenção, o Aluno X que exclamou: “onta” e praticamente monopolizou o fantoche, durante as atividades.

Na encenação do espetáculo, optamos por acrescentar o refrão de uma música “Todos juntos somos fortes” - composição: Bardotti/Chico Buarque/Enriquez-, da peça Saltimbancos. Destacamos que a música escolhida, por ser tratar de uma canção antiga, era desconhecida pelas novas gerações; por esta razão, fizemos um ensaio com o auxílio da letra impressa, para que os alunos pudessem aprendê-la.

No final da estória, momento em que os personagens (beija-flor, elefante, onça-pintada e macaco) abraçados comemoravam a batalha vencida (incêndio debelado), tendo como pano de fundo a música, o refrão foi cantado “aos berros” pelos alunos da plateia, ficando evidente que a música do Saltimbancos deixou a trama ainda mais animada e reforçando a ideia principal da peça.

Um dos alunos conseguiu verbalizar que “sozinho pouco conseguimos fazer, mas juntos, somos mais fortes”, comprovando que o uso de música no processo de ensino, possibilita o entendimento de mensagens complexas através da assimilação, por meio da ludicidade sonora, em consonância com Brasil (2015): “pesquisas científicas realizadas nas últimas décadas do século XX, demonstram que os bebês ainda na barriga da mãe, conseguem ouvir muitos sons, especialmente as músicas”, fator que nos permite ter familiaridade com os ritmos funcionando como agente facilitador, quando inserido no processo de ensino aprendizado.

A roda de conversa inicial (Figura 2) se deu a partir das perguntas semiestruturas, momento em que direcionamos o diálogo. Começamos com a pergunta: Existe coleta de lixo no seu bairro seguida por: Quantas vezes por semana? e por “Que sugestões vocês podem me dar, para evitar o acúmulo de lixo, no bairro?

Como a maioria das crianças mora no bairro do Guamá, próxima a uma área de invasão do Igarapé Tucunduba e a EMEIEF Edson Luís se localiza nesta área, as crianças responderam que as coletas ocorriam três vezes por semana, por esse motivo alguns vizinhos praticavam queimadas, fora do dia de coleta. Uma criança complementou: “acho muito perigoso quando meus vizinhos queimam lixo na rua, porque na minha rua as casas são de madeira”.

Silva et al. (2013) entrevistaram o Prof. MSc. Paulo Fernando Norat Carneiro, carinhosamente conhecido por seus alunos do curso de Engenharia Sanitária da UFPA como prof. Norat, devido a sua atuação em vários projetos de pesquisa em nível local relacionado à temática dos resíduos sólidos. Sobre o bairro do Guamá, ele comenta:

Tem algumas características específicas que influenciam na própria alteração do resíduo, primeiramente por ter elevada densidade populacional com condições socioeconômicas de média pra baixo, interferindo assim nos serviços prestados, visto que ‘um bairro central tem um melhor trato por parte do poder público do que um bairro de periferia’. [...] ‘o depósito de lixo gerado pela população no canal do Tucunduba e em um ponto de lixo que foi gerado do lado do muro da UFPA [...]’ (SILVA et al., 2013, p. 32).



Figura 2. Roda de Conversa com alunos da turma de terceiro ano da EMEIEF Edson Luís, Belém – PA

As sugestões para evitar que o lixo se espalhe, por causa de cachorros que rasgam os sacos foram: “pendurar os lixos em local alto”; “em grades”; “pintar nos muros avisos de que não pode jogar lixo no local”. Um aluno denunciou: “tem um senhor que é da outra rua, mas joga o lixo por cima do murão” e o outro complementou dizendo “têm pessoas que recebem dinheiro para tirar os entulhos das casas, lixos, sofá e depois joga tudo perto desse muro”. Consideramos que as perguntas semiestruturadas estimularam as crianças a se manifestarem, uma vez que sabemos que nessa faixa etária, elas podem temer a exposição em público.

Na roda de conversa em pequenos grupos, pudemos focar mais nos alunos, individualmente, permitindo que optassem onde gostariam de desenvolver este momento e eles se agruparam entorno das duas mesas da Brinquedoteca. Colocamos os fantoches sobre a mesa, sem fazer qualquer comentário. Não demorou muito para que uma das crianças perguntasse se poderia usar os fantoches para falar uma mensagem sobre o cuidado com o meio ambiente (Figura 3). Esta iniciativa causou alvoroço e formou-se uma fila, para que cada criança tivesse oportunidade de escolher o seu personagem favorito, para falar sobre os cuidados com: a cidade e atitudes perigosas em relação ao cuidado com o lixo.

Nos pequenos grupos, oportunizamos o reconto da estória, uma vez que Guerra et al. (2007, p. 7) enfatizam: “Apesar de haver um roteiro básico como guia a ser seguido, as falas e o comportamento de cada personagem podiam ser diferentes de acordo com a reação dos espectadores”. Neste contexto lembramos de Coll; Teberosky (2000) que verificaram que a criança durante suas interpretações e tentativas de ser outra pessoa, naturalmente modificam as falas embasada no seu imaginário e as suas vivências. A maioria manipulava os fantoches tentando imitar o tom da voz do seu animal preferido, expondo suas ideias de cuidados com o meio ambiente.

No reconto, verificamos, pelas falas dos alunos, que a onça pintada era o ser mais solidário em relação aos outros personagens, em vista das crianças demonstrarem grande orgulho e identidade com o animal mais imponente de nossa região. Já o macaco foi reconhecido pelas suas estripulias, por exemplo, para catar o lixo, lá ia o macaco pulando desengonçado e rapidinho, e falando com voz engraçada.



Figura 3. Alunos da turma de terceiro ano da EMEIEF Edson Luís, Belém – PA, utilizando os fantoches como instrumento para dar voz às suas ideias e aos seus sentimentos.

Neste contexto, notamos que duas crianças, cada uma com seu personagem preferido travavam um diálogo improvisado, tentando transmitir para os ouvintes o seu entendimento da peça assistida. Por exemplo, no diálogo do elefante com o beija-flor, na fábula apresentada para turma do 3º ano, inicialmente o elefante não se importou com o incêndio que estava ocorrendo na floresta, chamando o beija-flor de louco por arriscar sua própria vida tentando apagar o fogo; já no reconto pelas crianças, o elefante mostrou-se solidário ao beija-flor, desde o início da trama, na árdua missão de debelar o terrível incêndio. Portanto, percebemos que os (as) alunos (as) recontaram a estória de forma mais simplificada, porém, caracterizando o elefante como um personagem solidário, preocupado com seu meio ambiente, permanecendo a essência da peça com modificações no comportamento do personagem.

O OLHAR DE QUEM VIVENCIA A PRÁTICA PEDAGÓGICA EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL, POR MEIO DE PROJETO

É necessário salientar que pensamos em entrevistar o Prof. Bruno Sales dada sua experiência com EA, visando conhecer sua opinião a respeito de nossa atividade realizada na EMEIF Edson Luis durante a culminância de seu projeto, com objetivo de conhecer suas percepções críticas e os reflexos no comportamento dos alunos após a realização de nosso trabalho. Mesmo porque no dia da apresentação foram tantas as providências a serem tomadas, como manipular os fantoches ao mesmo tempo em que precisávamos modular a voz, perceber as reações da plateia e improvisar diálogos...

Na primeira questão: Por que concordou com a introdução do teatro de fantoches no seu projeto “Click da Sustentabilidade”?

Segundo o entrevistado:

Eu queria algo que os alunos pudessem ter um entendimento mais aprofundado e ao mesmo tempo prazeroso. [...]. Porque foi feita a sensibilização, através do vídeo, através da escrita, da fala e outras atividades na sala de informática, nos computadores, mas eu queria algo que fosse mais lúdico.

Neste contexto, o professor queria algo mais para os alunos, pois já havia realizado a construção do jardinzinho da escola e passado vídeos. Assim, considerou a ideia de fazer o teatro de fantoche “fantástica”, pois trazia a história que ele havia trabalhado no laboratório de informática por meio da leitura, reforçando a teoria, de forma lúdica e mais didática: “algo fora do cotidiano daquelas crianças”.

O professor percebeu todas as etapas anteriores antes da encenação, fazendo questão de citá-las como: “confeccionou os fantoches, todos em feltro, ficou tudo muito incrível” e que considerou importante que “os alunos tiveram a oportunidade de manuseá-los ao fim de cada apresentação [...] colocavam nas mãos refazendo as falas e falando sobre suas preocupações com o meio ambiente”.

Ao comentar sobre a apresentação do teatro, se referiu à Priscila, pois foi ela que realizou esta atividade:

O espetáculo do teatro foi interativo. Priscila ficou dentro daquela casinha, um pequeno teatro organizado por professores da escola. Ela fazia interação com eles (alunos), perguntando sobre a temática meio ambiente. Uma parte que achei muito interessante do teatro, foi que ela trouxe uns lixos: garrafas, papel, sacolas [...] e foi jogando pra fora da casinha com um dos fantoches e o outro fantoche já repreendia logo. O amigo exemplificando as posturas mais adequadas para o bem de todos. Nessa hora as crianças vibravam, gritando e participando bastante. No final do teatro eles procuraram a Priscila para pegar mais nos bichinhos, todos queriam experimentar os fantoches. As crianças têm isso: gostam de refazer de tocar, imitar as falas (complementação nossa).

Assim o professor Sales conclui: “Pela primeira vez conseguimos perceber tudo o que eles aprenderam durante todo o projeto” e reforça: “Foi muito entusiasmante ver os alunos todos sentados e atentos para as falas importantes dos pequenos bichinhos” e “o teatro foi considerado o ponto chave do projeto que fechou com “chave de ouro”.

Na pergunta dois: O senhor notou novas posturas na escola, após utilizarmos o teatro de fantoches?

O professor comenta que os alunos perguntam muito sobre a questão do lixo e complementa:

O interessante é que são crianças, passando esses ensinamentos para os pais. Percebemos que os pais às vezes não têm essa sensibilidade com o lixo [...] mas que os pais, agora, após o projeto, já separam as garrafas pet para transformarem em outras coisas. Eles (os alunos) trazem os brinquedos feitos de garrafinha, lata de leite Ninho; isso foi fruto do nosso projeto, porque foi trabalhada essa questão com eles em sala de aula, sobre reciclagem, reforçado no teatro durante a fala do beija-flor, que aconselhava o elefante a fazer um vaso de flores em vez de ficar poluindo a rua. Sentimos que os pais estão mais sensíveis com o lixo, as crianças comentam que há menos acúmulo de lixo nas portas das casas e que seus pais estão procurando levar o lixo nos dias e horários (estipulado pela prefeitura). O projeto ficou marcado na vida deles, que passaram a praticar coisas simples mais que ajudam a amenizar os problemas de lixo no entorno da escola (complemento nosso).

Na terceira pergunta: Como você analisou a nossa prática de educação ambiental usando fantoches também para Educação Infantil?

O professor considerou a linguagem do teatro de fácil entendimento, bastante didática especialmente para crianças da educação infantil, comentando:

Tínhamos (coordenação pedagógica) a necessidade de incluí-los (os alunos da educação infantil) no projeto [...]. Essa prática se tornou possível através da dinâmica do teatro de fantoches. Com eles (os fantoches) conseguimos trabalhar conceitos importantes sobre os cuidados com o meio ambiente, mesmo com os nossos alunos menores, que conseguiram entender todas as informações [...] o projeto “O click da sustentabilidade” era para educação fundamental I [...]. Apesar disso, sentimos a necessidade de chamar os alunos da educação infantil a participarem do projeto, já que a linguagem do teatro é de fácil entendimento, sendo muito proveitosos para as crianças os conhecimentos sobre educação ambiental abordado na peça (Complemento nosso).

O prof. Sales ressaltou: “Os professores da educação infantil falaram bastante sobre os comentários que as crianças fizeram em sala de aula: “não sujar, jogar lixo no lixo, ajudar sempre os coleguinhas e não queimar lixo nas ruas ou perto das casas”, concluindo: “Ao falarem de cuidados com o ambiente os alunos estão sempre lembrando os personagens do teatro apresentado na escola”. O professor considerou a metodologia:

Muito importante: algo fundamental por se tratar de um método que consegue abordar assuntos complexos, através de uma linguagem simples e acessível. Isso nós, aqui na escola, pudemos perceber na prática; o entendimento de nossas crianças com a representação do teatro, algo que eles comentam até hoje e que não vão esquecer. Devo ressaltar que senti muito desejo de aplicar o método com temas mais complexos, em outros trabalhos desenvolvidos fora da escola, na comunidade.

A partir de suas falas, o professor Sales contribui qualitativamente para nossa prática pedagógica, demonstrando a eficiência do teatro de fantoches para o ensino e aprendizagem.

O prof. Sales comentou que a repercussão do teatro de fantoches foi imediata, após o término da atividade, por isso considera que “as experiências de cuidados com o meio ambiente, praticada por alunos no âmbito escolar, estão diretamente associadas às mensagens apresentada na peça. Algo importante a ser considerado por pessoas que visem ministrar ensinamentos complexos com alunos em diferentes níveis de desenvolvimento cognitivo”.

CONCLUSÃO

Consideramos que as atividades sequenciadas e organizadas com antecedência no espaço escolar, foram essenciais para o sucesso de ações com crianças, transmitindo a elas tranquilidade e segurança, mesmo sendo ministradas por professores diferentes de sua rotina escolar. Destacamos que um aluno, portador de Síndrome de Down, ficou fascinado pelo teatro de fantoches apresentado, possibilitando diferentes caminhos a serem trabalhados no ensino de crianças especiais. Através do espetáculo encenado conseguimos tratar em um curto espaço de tempo sobre temas importantes como: preservação do meio ambiente, lixo, queimada, reciclagem, doenças causadas por proliferação de vetores, cooperação e outros problemas ambientais presente no bairro, onde está localizada a escola alvo desta pesquisa.

O uso do refrão da música possibilitou o entendimento de mensagens complexas através da assimilação, por meio da ludicidade sonora e a roda de conversa inicial, a partir das perguntas semiestruturas, estimulou às crianças a se manifestarem uma vez que nessa faixa etária, elas podem temer exposição em público. Encerramos a atividade, com sugestões dos próprios estudantes, visando amenizar os problemas ambiente existentes no lugar.

Nas rodas de conversa em pequenos grupos, os (as) alunos (as) recontaram a estória de forma mais simplificada, mas permanecendo a essência da peça e também manifestarão suas opiniões e sugestões de cuidado e preservação demonstrando que a simples atividade com fantoches pode produzir comportamentos mais solidários, no cuidado com o meio ambiente, tornando essas crianças em agentes de mudança da realidade desfavorável.

Na entrevista com o Prof. Bruno Sales, ele afirmou que o teatro de fantoches foi o ponto chave do seu projeto, avaliando a linguagem teatral de fácil entendimento, bastante didática, julgando a metodologia importante e fundamental por abordar assuntos complexos, a partir de uma linguagem simples e acessível. Com suas falas o professor contribuiu qualitativamente para nossa prática pedagógica, demonstrando a eficiência do teatro de fantoches para o ensino e aprendizagem. Algo importante a ser considerado por pessoas que visem ministrar ensinamentos complexos com alunos em diferentes níveis de desenvolvimento cognitivo.

AGRADECIMENTO

Ao professor Bruno Sales por ter aceitado a nossa participação no projeto “O Click da Sustentabilidade” e à EMEIF Edson Luis, na figura da diretora professora Sandra Parente, pelo apoio logístico para a realização das atividades, com os alunos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

REFERÊNCIAS

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TOZONI-REIS, M. F. C. Pesquisa-ação em educação ambiental. Pesquisa em educação ambiental, v. 3, n. 1, p.155 -169. São Paulo, 2008.



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