ISSN 1678-0701
Número 64, Ano XVII.
Junho-Agosto/2018.
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14/06/2018PERCEPÇÃO AMBIENTAL, ETNOBOTÂNICA E ETNOFARMACOLÓGICA DE UM FRAGMENTO COMUNITÁRIO DO POVOADO SÃO JORGE, EM CIDELÂNDIA, MA, BRASIL  
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PERCEPÇÃO AMBIENTAL, ETNOBOTÂNICA E ETNOFARMACOLÓGICA DE UM FRAGMENTO COMUNITÁRIO DO POVOADO SÃO JORGE, EM CIDELÂNDIA, MA, BRASIL

Jackson da Costa Barros, Biólogo, Mestrando em Agricultura e Ambiente UEMASUL-MA

Zilmar Tmoteo Soares, Biólogo, Dr. Em Educação e Professor Adjunto II da UEMASUL-MA

Aline Dias Horas, Bióloga, UEMASUL – MA

Resumo

Nesta investigação, realizou-se uma pesquisa de campo em um fragmento comunitário do povoado São Jorge, localizado no município de Cidelândia, MA. Com o intuito de coletar informações ambientais acerca do conhecimento tradicional sobre as espécies vegetais nativas da comunidade e suas eventuais propriedades medicinais. Foi utilizado um questionário semiestruturado com questões avaliativas sobre o grau de percepção ambiental, etnobotânica e etnofarmacológica dos moradores, além do registro fotográfico de algumas das plantas citadas. Foram entrevistados 10 habitantes, dentre eles 9 mulheres e 1 homem, com a faixa etária de 24 a 73 anos de idade. Ao todo foram listadas 59 plantas utilizadas pelos entrevistados. As plantas mais citadas para fins medicinais pelos moradores da comunidade São Jorge são popularmente conhecidas como: capim santo, erva cidreira, folha santa, arruda, hortelã, boldo sete dores, alfavaca, jardineira, babosa, quebra pedra, boldo e jucá.

Palavras-chave: Etnobiologia. Plantas medicinais. Conhecimento farmacológico.

ABSTRACT

In this investigation, a field survey was carried out in a community fragment of the São Jorge settlement, located in the municipality of Cidelândia, MA. With the purpose of collecting information about the traditional knowledge about the native vegetal species of the community and its possible medicinal properties. A semi - structured questionnaire was used with evaluative questions about the degree of ethnobotanical and ethno - pharmacological perception of the residents, besides the photographic record of some of the cited plants. Ten people were interviewed, among them 9 women and 1 man, with the age group from 24 to 73 years of age. In total, 59 plants were used by the interviewees. The plants most commonly mentioned for medical purposes by the residents of the São Jorge community are popularly known as: holy grass, lemon grass, holy leaf, rue, mint, seven pains, alfavaca, jardineira, slug, stone break, boldo and jucá.

INTRODUÇÃO

Produtos naturais são utilizados há muito tempo pela civilização humana. Até hoje, produtos vegetais, animais e minerais são a principal fonte de substâncias que podem ser utilizadas na indústria farmacêutica (RATES, 2001). Cerca de 80% da população mundial utiliza preferencialmente a medicina tradicional nos cuidados primários da saúde, sendo que a maior parte das terapias tradicionais envolve o uso de plantas in natura ou produtos manufaturados a partir de seus extratos ou princípios ativos (WHO, 2006).

Estima-se a existência de, aproximadamente, 250.000 espécies de plantas no mundo e, provavelmente, as eventuais propriedades de grande parte ainda é desconhecida. No Brasil, assim como em muitos outros países de clima tropical, a abundância de plantas medicinais oferece acesso a diversos produtos utilizados, através da automedicação, na prevenção e no tratamento de doenças, bem como no combate de pragas (MATOS et al., 2001).

Dentro desse contexto, a Etnobotânica e Etnofarmacologia se posicionam como importantes ferramentas no resgate de saberes tradicionais e sua aplicabilidade científica, aliando informações adquiridas junto a usuários da flora medicinal (SALES, 2015).

As observações populares e as investigações científicas sobre o uso e a eficácia de plantas medicinais de todo mundo mantêm em voga a prática do consumo de fitoterápicos, tornando válidas as informações terapêuticas que foram sendo acumuladas durante séculos. A Etnobotânica e Etnofarmacologia são consideradas importantes ferramentas no resgate de saberes tradicionais das sociedades humanas, passadas e presentes, e suas interações ecológicas, genéticas, evolutivas, simbólicas e culturais com as plantas (SALES, 2015).

Localizado na Pré-Amazônia Maranhense, integrante do bioma Amazônia, o município de Cidelândia, Maranhão, está situado na mesorregião do Oeste Maranhense e na Microrregião Tocantina, com área geográfica de 1.464 km2 (IBGE, 2018). O município se destaca na pecuária e agricultura familiar, sendo conhecido também pela importante vegetação nativa de sua região, possuindo, inclusive, em seu território a Reserva Extrativista do Ciriaco, protegida pelo poder público com jurisdição específica, sendo um importante polo de extrativismo sustentável na região. O povoado São Jorge fica localizado no interior de uma grande área preservada, com grande potencial para abrigar espécies de fauna e flora. Diante disso, este trabalho etnobotânico e etnofarmacológico objetivou conhecer as espécies vegetais e eventuais propriedades medicinais de plantas do Povoado São Jorge, com base no conhecimento popular da comunidade local.

METODOLOGIA

O estudo foi realizado no Povoado São Jorge, localizado em Cidelândia, Maranhão. A região é habitada por comunidades que vivem da agricultura e pecuária em um ambiente característico de uma área de preservação permanente, uma vez que o povoado fica localizado dentro de uma região de mata preservada (Fig. 1).

Como metodologia de estudo, foram aplicados 10 questionários semiestruturados com questões avaliativas do grau de percepção ambiental, etnobotânica e etnofarmacológica dos entrevistados acerca das plantas nativas da região. Algumas plantas citadas foram fotografadas nas mediações do local de estudo (Fig. 2 a 9).

Figura 1: Mapa de localização do local de estudo.

Figuras 2 a 5 – Plantas cultivadas e utilizadas para fins medicinais por moradores do Povoado São Jorge, Cidelândia, MA. (2 – Folha Santa: Kalanchoe pinnata. 3 –Urucum: Bixa orellana. 4 –Romã: Punica granatum. 5 – Boldo Sete do­res: Plectranthus barbatus.

Figuras 6 a 9: 6 – Malva Santa: Plectranthus amboinicus. 7 – Boldo verdadeiro: Plectranthus barbatus. 8 – Capim Santo: Cymbopogon citratus. 9 – Erva cidreira: Melissa officianalis.



RESULTADOS

Foram aplicados 10 questionários semiestruturados a 10 moradores da comunidade São Jorge, sendo 9 mulheres e 1 homem, na faixa etária de 24 a 73 anos. As questões do questionário tinham a intenção de investigar sobre a flora nativa do povoado e suas eventuais propriedades medicinais. Ressalta-se que a comunidade não realiza atividade de compra e venda dos produtos nativos da região, utilizando-os unicamente para fins de tratamentos terapêuticos, preservando assim, os aspectos ambientais da região. Foram citadas 59 plantas de uso medicinal, sendo elas: abacateiro, abóbora, abracinta, alfavaca, algodão, alho, amora, angico, aroeira, arruda, assa peixe, ata, babosa, bacurau, boldo, cajueiro, camará, capim santo, cebola, coquinho, cordão de São Francisco, erva cidreira, eucalipto, farmicetina, folha santa, gengibre, jenipapo, graviola, hortelã, inharé, jardineira, jervã, jucá, laranjeira, limão, malva do reino, mamão, mangueira, maracujá, mastruz, melão de São Caetano, milho, pega pinto, pimenta de macaco, pimenta do reino, pinhão roxo, quebra pedra, quemicetina, romã, rosa madeira, boldo sete dores, tamarindo, tangerina, tipi, urucum, vick, xanana, ipê amarelo e ipê roxo.

As plantas mais citadas para fins medicinais pelos moradores da comunidade São Jorge foram: capim santo, erva cidreira, folha santa, arruda, hortelã, boldo sete dores, alfavaca, jardineira, babosa, quebra pedra, boldo e jucá. De acordo com o conhecimento popular dos moradores da comunidade, as plantas citadas possuem princípios ativos para tratamento de diversos problemas de saúde, alguns deles listados na tabela abaixo.

Tabela 1 - Relação das plantas mais citadas por moradores da comunidade São Jorge, Cidelândia, MA, e suas principais aplicações para fins terapêuticos.


 

 

Nome popular

Família

Principais aplicações (medicinal)

CAPIM SANTO

Poaceae

Calmante, pressão arterial, dor de barriga.

ERVA CIDREIRA

Lamiaceae

Calmante, pressão arterial, dores intestinais.

FOLHA SANTA

Crassulaceae

Inflamação, gripe, gastrite.

ARRUDA

Asteraceae

Má digestão, dor de cabeça, alergia.

HORTELÃ

Lamiaceae

Gripe, verminoses, febre.

SETE DORES

Lamiaceae

Dores de cabeça, barriga e mal estar.

ALFAVACA

Labiateae

Banhos.

JARDINEIRA

Zingiberiaceae

Banhos.

BABOSA

Aloaceae

Gastrite

QUEBRA-PEDRA

Euphorbiceae

Problemas renais e do fígado.

BOLDO

Minimiaceae

Má digestão, febre.

JUCÁ

Fabaceae

Tuberculose, inflamação, pneumonia.






Quando entrevistados e questionados sobre a utilização de medicamentos caseiros ou oriundos da indústria farmacêutica, 60% (6 pessoas) dos entrevistados afirmaram utilizar mais medicamentos manipulados do que remédios caseiros, 30% (3 pessoas) afirmaram utilizar primariamente remédios caseiros produzidos a partir de plantas do povoado, enquanto 10% (1 pessoa) afirmou utilizar ambas as formas de tratamento na mesma proporção.

Silva, Quadros & Neto (2015), em estudo realizado em Matinhos, PR, constata a utilização de hortelã, babosa, alfavaca, aroeira, boldo, arruda e outras plantas também encontradas no presente estudo, sendo utilizadas para meios semelhantes aos aqui listados. Observou-se, através do conhecimento popular dos moradores, que muitos dos vegetais do povoado são utilizados para tratamento de inflamação, febre, problemas respiratórios e de outros agravos, fato corroborado por Battisti e colaboradores (2013).

Observamos em nossa investigação que os idosos da comunidade possuem maior conhecimento etnobotânico e etnofarmacológico em comparação com os mais jovens, fato que mostra a notoriedade deste grupo social no que se refere ao conhecimento local e, por conseguinte, no que tange a multiplicação do saber empírico. Tal fato, também é constatado por Albuquerque & Lucena (2004) e Salgado & Guido (2006).

Os entrevistados afirmaram utilizar as folhas como principal meio de extração dos fármacos caseiros, seguido das cascas, sementes e frutos, produzindo principalmente chás e banhos, fato também observado por Monteles & Pinheiro (2007), em estudo realizado em um quilombo maranhense.

CONCLUSÃO

Concluímos que a pesquisa voltada para os aspectos ambiental, etnobotânica e etnofarmacologia tem se mostrado uma importante ferramenta para o conhecimento do arsenal terapêutico de comunidades pouco conhecidas ou investigadas. De acordo com os dados levantados neste trabalho e, partindo do princípio de que a comunidade São Jorge está localizada no interior de uma área de preservação permanente, podemos concluir que o arsenal medicinal do local seja superior ao observado neste estudo. Assim, torna-se evidente a importância da realização de estudos científicos na comunidade, a fim de melhor conhecer e comprovar a eficácia dos princípios ativos presentes nas plantas nativas do local que são utilizadas pela população a partir do saber empírico.

REFERÊNCIAS

ALBUQUERQUE, U. P. de; LUCENA, R.F.P. de (org). Métodos e técnicas na pesquisa etnobotânica. Recife: LivroRápido/NUPEEA, 2004. 189p.

BATTISTI et al. Plantas Medicinais utilizadas no município de Palmeira das Missões, RS, Brasil. Revista Brasileira de Biociências, v. 11, n. 3, p. 338-348, 2013.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatítisca (IBGE). Cidelândia, Maranhão: Dados gerais do município, 2013. Disponível em: <https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ma/cidelandia/panorama>. Acesso em 10 nov.2017.

MATOS, F.J.A, VIANA G.S.B, BANDEIRA, M.A.M. Guia Fitoterápico. 2. ed. revisada. Expressão Gráfca, 2001.

MONTELES, R; PINHEIRO, C.U. Plantas Medicinais em um quilombo maranhense: uma perspectiva etnobotânica. Revista de Biologia e Ciências da terra, v. 7, n. 2, p. 2-12, 2007.

RATES, S. M. K. Plants as source of drugs. Toxicon, v.39, p.603-613, 2001.

SALES, M. D. C; SARTOR, E. B; GENTILI, R. M. L. Etnobotânica e etnofarmacologia: medicina tradicional e bioprospecção de fitoterápicos. Revista Salus J Health SCi. v, n. 1 p. 17-26, 2015.

SALGADO, C. L; GUIDO, L. F. E. O conhecimento popular sobre plantas: um estudo etnobotânico em quintais do Distrito de Martinésia, Uberlândia, MG. Disponível em: <www.anppas.org.bor/encontro4/cd/ARQUIVOS/GT3-806-504-20080510195009.pdf>. acesso em 27/10/2017.

SILVA, L. E; QUADROS, D. A; NETO, A. J. N. Estudo etnobotânico e etnofarmacológico de plantas medicinais utilizados na região de Matinhos – PR. Revista Ciências e Natura, v. 37, n.2, p. 266 a 276, 2015.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines for testing mosquito adulticides for indoor residualspraying and treatment of mosquito nets control of neglected tropical diseases who pesticide evaluation scheme.Geneva: World Heatlth Organization, 2006.



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