ISSN 1678-0701
Número 71 (volume 19, série 2)
Junho-Agosto/2020
Números  
Início      Cadastre-se!      Procurar      Área de autores      Contato     Apresentação     Normas de Publicação     Artigos     Notícias     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Entrevistas     Arte e ambiente     Divulgação de Eventos     Sugestões bibliográficas     Educação     Sementes     Gestão Ambiental     O Eco das Vozes     Relatos de Experiências
 
Artigos

No. 71 - 08/06/2020
DIAGNÓSTICO DAS CONDIÇÕES DE MANUTENÇÃO DA ZONA COSTEIRA DO MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS – MA: A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO ALTERNATIVA DE AMENIZAÇÃO DE IMPACTOS  
Link permanente: http://revistaea.org/artigo.php?idartigo=3934 
" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">

DIAGNÓSTICO DAS CONDIÇÕES DE MANUTENÇÃO DA ZONA COSTEIRA DO MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS – MA: A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO ALTERNATIVA DE AMENIZAÇÃO DE IMPACTOS



Naara Suzany da Silva Reis1, Paula Verônica Campos Jorge Santos2, Victor Lamarão de França3, Deoclides dos Santos Costa Dias4 Rafael Carvalho Ribeiro5



1Engenheira Ambiental, Mestranda em Engenharia química, de materiais e processos químicos da PUC, 2Doutora em Biodiversidade e Biotecnologia UFMA, 3 Doutorando em Biodiversidade e Biotecnologia UFMA, Superintendente de Recursos Hídricos da Secretaria de Estado de Meio Ambiente 4Bacharel em Direito, Secretario Adjunto de Recursos Naturais da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, 5 Engenheiro Ambiental, Secretário de Estado de Meio Ambiente do Maranhão.



Resumo: O crescimento das cidades em regiões costeiras, reforçam problemas ambientais, especialmente em virtude da sensibilidade dos ecossistemas presentes. Nesse contexto, este trabalho caracterizou os usos e as condições de manutenção das praias do Município de São Luís MA, de forma a avaliar como a Educação Ambiental pode solucionar os problemas diagnosticados.



Palavras-chave: Crescimento populacional; Zona Costeira; Resíduos Sólidos; Educação Ambiental.



Abstract: The growth of cities reinforces environmental problems, and when in coastal areas they tend to be enhanced due to the sensitivity of the ecosystems present there. In the State of Maranhão, the coastal zone is 640 km long, corresponding to the second largest coastal region in Brazil, in which there are diversified geoenvironmental characteristics, with great fishing, touristic, port potential and a rich ecosystem. This work aimed to characterize the conditions of Uses and maintenance of the coastal area of ​​the Municipality of São Luís, and to evaluate what are the possible applications of Environmental Education as a tool for solving specific problems.



Keywords: Population growth; Coastal Zone; Solid Waste; Environmental education.

Introdução



A região costeira, área de interface entre ar, mar e terra, é destaca por Gruber, Barboza e Nicolodi (2003), como a região sobre maior estresse ambiental a nível mundial, isso porque está submetida a fortes pressões por intensas e diversificadas forma de uso do solo. Os autores estimam, que nesse século, 80% das atividades humanas, se concentrarão nessa zona. Dentre essas atividades destacam-se processos acelerados de intensa urbanização, atividade portuária, industrial relevantes e exploração turística.

Essa região está submetida a fortes pressões pelas formas diversificadas de uso do solo, o que a pequeno, médio e longo prazo pode convergir para inúmeros impactos, com destaque especial para os processos oriundos das diversas formas de apropriação histórica por ocupações desordenadas, e, mesmo daquelas que são fruto do processo de planejamento, mas, que negligenciam à proteção necessária ao funcionamento dos ecossistemas sensíveis presentes nessa região.

O crescimento das cidades reforça problemas de ordem ambiental, e quando em áreas costeiras tendem a serem potencializados por conta da sensibilidade dos ecossistemas ali presentes. As agressões ao meio ambiente ocorrem devido a uma soma de fatores, ligados basicamente ao uso e ocupação informal do solo, ao crescimento da malha urbana sem o acompanhamento adequado de recursos de infraestrutura e a expansão imobiliária. Assim, áreas inadequadas, como APP’s, são ocupadas pela população, ocasionando o comprometimento dos recursos ambientais, com prejuízo para a sociedade como um todo. (Correia, 2006).

Andrade (2019) avalia que no Brasil, as pressões socioeconômicas na zona costeira vêm desencadeando, ao longo do tempo, um processo acelerado de urbanização não planejada e intensa degradação dos recursos naturais, os quais são uma ameaça à sustentabilidade econômica e à qualidade ambiental e de vida das populações humanas.

No Estado do Maranhão, a zona costeira possui 640 km de extensão, correspondendo a segunda maior região costeira do Brasil, na qual se encontra características geoambientais diversificadas, tendo grande potencial pesqueiro, turístico, portuário e um rico ecossistema. Silva e Lima (2013) diagnosticam que no município de São Luís, capital do Estado, a ocupação da zona costeira ocorreu em virtude do crescimento populacional da cidade e que em função desse processo de ocupação foram desenvolvidos projetos visando à urbanização e aproveitamento sócio espacial da área, que passou por um processo de especulação imobiliária e projetos voltados para a indústria do turismo, entretanto, esses investimentos parecem estar apresentando sérios problemas socioambientais.

Diante desse cenário, este trabalho buscou caracterizar as condições de Usos e manutenção da zona costeira do Município de São Luís, e avaliar como a Educação Ambiental pode ser utilizada como ferramenta de resolução dos problemas caraterizados.



Materiais e Métodos



Caracterização da área de estudo

A área em estudo é a região de praias do município de São Luís, composta pelo espigão costeiro, localizado na praia da ponta da areia, seguido da praia de São Marcos, Praia do Calhau, Praia do Caolho e Praia do Olho D’Água, conforme figura 1, abaixo. (BORGES et al. 2011).

Figura 1: Localização da área de estudo, composta pelas praias da região costeira do município de São Luís –MA. Fonte: Autores.



O conjunto de praias em estudo é bastante frequentado para o desenvolvimento de atividade de turismo, lazer e prática de esportes, o que se não for devidamente gerido pode configurar impactos locais relevantes, tanto de ordem natural quanto antrópica.

Foi utilizada a pesquisa do tipo exploratória que busca proporcionar maior familiaridade com o objeto de estudo (Ribeiro, et al., 2019). Assim como, pesquisa qualitativa, onde segundo Zanelli (2002), sua utilização é mais indicada quando: a) o objetivo é estudar casos particulares, mais do que abarcar populações extensas; b) deseja-se o entendimento da experiência subjetiva em vez do teste de hipóteses; c) busca-se a análise interpretativa em lugar da manipulação estatística dos fatos; e d) pretende-se tomar os dados na forma de palavras e não de números.

O estudo de caso envolve o estudo profundo de um ou poucos objetos de maneira que se permita o seu amplo e detalhado conhecimento (GIL, 2007). Descrever e caracterizar estudos de caso não é uma tarefa fácil, pois eles são usados de diferentes formas, com abordagens quantitativas e qualitativas, destaca-se ainda o papel relevante do investigador que deverá ter cuidado com as generalizações e buscar sempre o rigor científico no tratamento da questão (VENTURA, 2007).

Dessa forma, para alcançar o objetivo da pesquisa foi realização visita in loco nas praias do município de São Luis. Na ocasião foram feitas observações diretas, anotações em diário de campo e registros fotográficos para a materialização dos fatos.



Resultados e discussões



No dia 13 de setembro de 2019 foi realizada visita in loco, na qual foi percorrida a extensão aproximada de 16 km, para a caracterização das condições de manutenção da área, conforme Figura 2.



Figura 2: Distância percorrida para a caracterização dos impactos de uso da região das praias do município de São Luís. Fonte: Autores.





Cabe destacar que ao longo dos 16 km não foi possível acessar alguns trechos das praias, pois por ocasião da maré alta não era possível o acesso. Os impactos observados foram classificados em impactos de ordem antrópica e de ordem natural, conforme observado na macro classificação abaixo.



IMPACTOS AMBIENTAIS

ANTRÓPICO

NATURAL

Descarte irregular de resíduos sólidos

Corrosão de estruturas metálicas

Lançamento in natura de resíduos líquidos

Rebaixamento de nível de estruturas de construção civil causado pela hidrodinâmica

Falta de manutenção de estruturas de uso comum

Engordamento de praia

Falta de manutenção de estruturas de suporte

Movimentação de areia para a via de acesso urbanizada

Ocupações humanas

Ruptura de estruturas de acesso da Avenida

Estabelecimentos comerciais regulares e irregulares


Quadro 1: Classificação da tipologia de Impactos observados no local.



Dentre os impactos antrópicos foi observado que o descarte irregular de resíduos sólidos foi registrado ao longo de toda a extensão percorrida, sendo o impacto mais comum em toda a extensão territorial percorrida, como observado na Figura 3.

Figura 3: Impactos registrados na Zona de Costa das praias do município de São Luís- MA. A- Copo descartável, B-Garrafa pet, C-papel e guardanapo, D – saco de estopa, E – saco plástico de supermercado cheio de restos de alimentos e F – cocos secos. Fonte: Autores.



Os resíduos sólidos registrados, conforme figura acima são: copos descartáveis, garrafas pets, canudos, cocos d’água vazios, sacos plásticos, lenços de papel, saco de estopa, restos de lanches. Observa-se que todos os resíduos lançados foram utilizados e posteriormente abandonados nos locais. Foram ainda registradas latas enferrujadas, embalagens de biscoitos, lenços de papel, sacos de estopa, restos de lanches, tapas de garrafas plásticas, pontas de cigarros, conforme Figura 4 abaixo.



Figura 4: Impactos registrados na zona Costeira de São Luis. G- lata enferrujada, H-Pontas de cigarros e tampas de refrigerantes e cervejas, I – Tijolos e Brasa, J- Aterramento da área para construção de estabelecimento comercial, K- Residências construídas em cima de áreas aterradas, L- estruturais civis para a extensão de via de acesso. Fonte: Autores.

Foi possível observar latas já em estágio avançado de corrosão, indicando já estarem abandonadas no local há um tempo longo. Muitas pontas de cigarros e tampas de refrigerantes e cervejas (H), além de tijolos e restos de brasa, que sugerem a organização de uma assadeira, indicando que o local é utilizado como área de convívio social.

Portanto é possível inferir que o convívio social na área, especialmente daquele desenvolvido pelo turismo, não tem sido harmônico, visto a quantidade de resíduos expostos de forma inadequada. Sobre o assunto Oliveira (2015), destaca que apesar de contribuir para o desenvolvimento local, a atividade turística está relacionada a impactos sociais, econômicos e ambientais, especialmente gerados pelo turismo de massa, onde, muitas vezes, “os turistas são insensíveis à cultura e às tradições locais, e pretendem apenas aproveitar o que a região tem a lhes oferecer”. Dessa relação os ônus são visíveis nos locais turistados.

Observou-se que partes da praia foram aterradas para a construção de casas (K) e estabelecimentos comerciais (J). Cabe destacar que essa área aterrada faz parte de uma área de proteção da bacia do rio Pimenta, além disso nessa mesma área de influência dessa bacia hidrográfica, está sendo construído a extensão de uma via de acesso muito importante (L) para o fluxo de veículo no município de São Luís, denominada de Avenida Litorânea, cujo objetivo é desafogar o trânsito da região, além de valorização como área de turismo, e outras atividades.

Foi registrado que o descarte de resíduos sólidos de estabelecimentos comerciais localizados na área, não estão sendo realizados de forma adequada, Figura 5.



Figura 5: Descarte de resíduos sólidos realizados por estabelecimentos comerciais regulares. Fonte: Autores.



Percebe-se que alguns resíduos não são colocados nos sacos plásticos e ficam dispostos na parte urbanizada utilizada para o acesso de pedestres. Alguns sacos são colocados diretamente na areia, e mesmo quando existe recipientes de disposição dos resíduos, eles não possuem tampa. Além disso, foi possível perceber que não existe um horário de disposição desses resíduos, eles são colocados a qualquer hora e ficam expostos até a passagem do carro que recolhe, o que dependendo do dia da semana, pode ocorrer no turno da noite.

Em relação aos impactos naturais, foram registrados fragmentação de estruturas ocasionadas pela hidrodinâmica costeira, processos erosivos, assim como processos de corrosão de estruturas, Figuras 6 e 7, respectivamente.



Figura 6: Registro de processos de degradação da zona costeira do município de São Luís. Fonte: Autores.



Pôde–se verificar que a hidrodinâmica costeira está destruindo a estrutura das vias de acesso de pedestres e ciclistas. O calçadão está em processo de rebaixamento, e em alguns pontos quase que totalmente quebrado. Em outras partes turísticas, a falta de manutenção é notória (Figura 7).