ISSN 1678-0701
Volume XIX, Número 73
Dezembro-Fevereiro 2020/2021.
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No. 73 - 03/12/2020
CRISE HÍDRICA NO MUNICÍPIO DE COLATINA NA ÁREA RURAL DE CÓRREGO JOÃO PRETINHO: UM RECORTE HISTÓRICO  
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CRISE HÍDRICA NO MUNICÍPIO DE COLATINA NA ÁREA RURAL DE CÓRREGO JOÃO PRETINHO: UM RECORTE HISTÓRICO

WATER CRISIS IN THE MUNICIPALITY OF COLATINA IN THE RURAL AREA OF CÓRREGO JOÃO PRETINHO: A HISTORICAL OUTLINE



Cintia Pancieri

Mestrando em ciências, tecnologia e educação pela Faculdade Vale do Cricaré - FVC; cintiapancieri@hotmail.com, Rua Enzo Ferrari- Bairro Vila Verde, Colatina - ES, (27)99692-4834.

Rosiane Ferreira Paz Oliveira

Mestrando em ciências, tecnologia e educação pela Faculdade Vale do Cricaré - FVC; rosianefpaz@hotmail.com, Rua Projeta S/N Bairro: Jaqueira, Município: Presidente Kennedy-ES. (22)997455859.

Rozana Paz Martins Marvila

Mestrando em ciências, tecnologia e educação pela Faculdade Vale do Cricaré - FVC; rozanapaz@hotmail.com, Rua Projetada S/N Bairro: Jaqueira Cidade: Presidente Kennedy, (028) 99903-0029.

José Geraldo Ferreira da Silva

Doutor em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa; Rua afonso Sarlo, 160. Bento Ferreira, 29052010 - Vitória, ES – Brasil.

Désirée Gonçalves Raggi

Doutorada em Educação - Universidad del Norte - Revalidado pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE; desireeraggi@yahoo.com.br, Av. Vitória - 1729

Jucutuquara, 29100040 - Vitória, ES – Brasil.



RESUMO

A crise hídrica tem suas origens na degradação do meio ambiente. Este por sua vez encontra início no crescimento de atividades produtivas consequência das mudanças econômicas, políticas e no modo de consumo das pessoas. Grandes impactos foram lançados a esses elementos com a transformação econômica que o mundo sofreu ao longo dos anos. O trabalho traz um recorte sobre o tema abordando a região do Córrego de João Pretinho, situada no município de Colatina/ES e o surgimento da crise hídrica no lugar bem como a projeção macro do problema para esse ponto em específico. O objetivo geral do trabalho foi o de reconhecer o recorte histórico que deu origem à crise hídrica enfrentada pela comunidade do Córrego de João Pretinho. Para o alcance desse objetivo foram realizadas entrevistas junto aos moradores do local na perspectiva de coletar informações sobre o que vivenciaram desde a década de 30 até os dias atuais traçando-se uma trajetória do surgimento da crise no espaço. Os dados coletados apontam para um percurso histórico de degradação devido às atividades econômicas da época, o surgimento da crise e a falta do maior recurso não renovável e essencial à vida até a conscientização e a preservação das nascentes, matas e áreas de solo.

Palavras-Chave: Meio ambiente. Recursos. Crise Hídrica. Conscientização. Sustentabilidade.



ABSTRACT

The water crisis has its origins in the degradation of the environment. This in turn finds its beginning in the growth of productive activities as a consequence of economic, political changes and in the way people consume. Great impacts were launched on these elements with the economic transformation that the world has undergone over the years. The work brings an outline on the theme addressing the Córrego de João Pretinho region, located in the municipality of Colatina / ES and the appearance of the water crisis in the place as well as the macro projection of the problem for that specific point. The general objective of the work was to recognize the historical outline that gave rise to the water crisis faced by the community of Córrego de João Pretinho. To achieve this goal, interviews were conducted with local residents in order to collect information about what they experienced from the 1930s to the present day, tracing a trajectory of the emergence of the crisis in space. The data collected point to a historical path of degradation due to the economic activities of the time, the emergence of the crisis and the lack of the largest non-renewable resource that is essential to life until the awareness and preservation of springs, forests and soil areas.

Keywords: Environment. Resources. Water Crisis. Awareness. Sustainability.



1 INTRODUÇÃO

O artigo aborda sobre a crise hídrica na região de Córrego João Pretinho e o percurso histórico que fomentou esse problema apontando comportamentos, impactos econômicos e consequências que as ações agrícolas e pecuárias propuseram com o lugar. Os problemas que afetam direta e indiretamente na escassez do recurso não renovável como a água são originários de vários fatores incluindo em um patamar principal, o desmatamento. Isso porque quanto menor a quantidade de vegetação nativa, menor a quantidade de fontes e volumes de água. Além de essa ação causar um impacto direto e em médio prazo para os lugares também é desencadeador do surgimento da desertificação em longo prazo.

As atividades agrícolas podem ser consideradas como desencadeantes da “necessidade” de desmatar o que quando mal planejada afeta outras diversidades locais da área. A compreensão por estes indivíduos que o desmatamento tem uma grande influência sobre o ciclo hidrológico muitas vezes é difícil e perdura por anos até sofrerem com as próprias consequências.

Neste sentido, pergunta-se: como a mudança da economia que supervalorizou as produções agrícolas deu ênfase para o desmatamento e consequentemente para o surgimento da crise hídrica na região do Córrego de João Pretinho situado no município de Colatina, ao noroeste do estado do Espírito Santo? O estudo sobre essa região vai ao encontro do conhecimento sobre uma área extremamente preservada na década de 30 e que viu no percurso histórico até o século XXI uma degradação impactante e que modificou toda a paisagem e funcionalidade daquela terra.

O objetivo geral do estudo é reconhecer o recorte histórico que deu origem à crise hídrica enfrentada pela comunidade do Córrego de João Pretinho. Para o alcance desse intuito é preciso reconhecer como era a região na década de 30 (ponto inicial da pesquisa); traçar a trajetória das atividades que ali se instalaram; apontar os fatores que resultaram na escassez da água no local.

A pesquisa se pauta no estudo de caso da região supracitada ouvindo através de relatos de moradores antigos e mais recentes sobre como vivenciaram essa experiência junto às suas atividades. O tema é justificável por se tratar de um exemplo para que as ações agrícolas e o uso da cobertura do solo sejam planejados e sustentáveis. Não há como desenvolver quaisquer ações lucrativas ou de negócios sem pensar nos impactos que as mesmas podem causar ao meio ambiente e às comunidades do entorno.



2 A CRISE DE 1929 E SEUS REFLEXOS NA ECONOMIA

A crise de 1929 foi avassaladora para todo o mundo. A bolha financeira explodiu por meio da alta queda de cotações na Bolsa de Nova York e assim inicia-se o grande impacto mundial e resquícios na economia generalizada. Alguns dos principais fatores que originaram tal problema partindo dos Estados Unidos foram o declínio indústria, as barreiras surgidas na agricultura, a saturação do setor imobiliário e a desorganização no setor bancário (FARIA, 2016).

Houve o surgimento de desemprego, falências, pobreza, declínios de preços dentre outros fatos desastrosos. Esses e outros efeitos não só permaneceram no ano em questão como também perduraram por diversos anos impactando setores, lugares e pessoas. A profundidade da crise foi intensa influenciando nos agregados econômicos reais. Toda a economia mundial desacelerou. A crise de 1929 foi, acima de tudo, um colapso geral de qualquer tipo de produção em quase todo o mundo industrializado. Surgiu de maneira violenta e contrastante submetendo o mundo ocidental a um revés comparável ao dos dois conflitos mundiais que o enquadram cronologicamente (GAZIER, 2009).

É notório dizer que 1929 foi um divisor de águas na economia e atividades de todos os setores e consequentemente no comportamento da sociedade. No início deste ano, várias empresas já começavam a falir e o governo não interferia nesse cenário. Nas grandes fazendas e propriedades produtoras de alimentos, os fazendeiros não conseguiam escoar a sua produção nem mesmo para o mercado interno. Era muito alimento para pouca procura e com isso os preços caíam drasticamente. Em outras situações, produtos passaram a produzir menos, comprando menos maquinário, contratando pessoal suficiente para as tarefas fazendo com que cidades pequenas e que dependiam em grande parte do agronegócio nos Estados Unidos entrassem em colapso como afirma Alves (2015).

A crise de 1929 foi caracterizada como sendo de sobre acumulação onde Campos (2016) afirma que poderia ter sido resolvida se houvesse novos investimentos em maturação.

Na América Latina, a crise trouxe duras mudanças onde surgiu pressão forte por parte dos Estados Unidos e da Inglaterra forçando exportações mediante acordos que só favoreciam a esses países e, contudo colocavam obstáculos nas importações interrompendo uma política econômica liberal. Neste cenário houve a divisão de dois grandes grupos de países que enfrentaram a crise de maneiras diferentes. Enquanto nações como Equador se mantiveram na crise durante anos, Brasil, México e outros enfrentaram mais rapidamente o problema trazendo inovações e alterações nos processos políticos (CANO, 2015).

No Brasil a crise de 1929 impactou o Governo de Getúlio Vargas que perdurou no período de 1930-1945. Os produtores rurais estavam otimistas quanto às ações que o governo os propunha. A racionalização do trabalho e a valorização de mão de obra brasileira eram um dos elementos defendidos por Vargas. Desse modo, os produtores acreditavam ter chance de aumentar as produções cafeeiras. O governo considerava que o setor rural atrasava a produção e, por isso, propôs algumas medidas que despertava a economia local (WELCH, 2016).



2.1 O PERÍODO NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO: GOVERNO, ECONOMIA E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

Oliveira (2008) afirma que o estado do Espírito Santo em períodos antigos era considerado como uma capitania que não demonstrava relevância no aspecto econômico enfrentando sérios problemas de evolução.

Segundo Araújo (2012) a economia do estado do Espírito Santo passou por um ciclo de três fases sendo o primeiro ocorrido no meado do século XIX até o ano de 1950 conhecido como o ciclo do café de base familiar e sendo produzido em pequenas colônias de imigrantes. O segundo ciclo pode ser constatado dentre os anos de 1960-1990, ou seja, durando cerca de trinta anos onde se iniciou a instalação de pequenas e médias empresas no estado na primeira metade deste período e logo depois a iniciação de grandes projetos em industrialização. E, por fim, o terceiro ciclo tendo início na década de 90 e caracterizado pelo crescimento da dependência de commodities onde a indústria de petróleo ressurgiu com significativa força.

Dias (2012) destaca os principais elementos que compõem o segundo ciclo no estado:

Industrialização empreendida pelo grande capital externo ao Estado (estrangeiro e nacional);

Predominância da população urbana;

Agricultura diversificada e instalação de agroindústrias; Aprimoramento da logística voltada ao comércio exterior;

Inserção da economia local na lógica de desenvolvimento nacional; e

Articulação das lideranças locais e nacionais (DIAS, 2012, p.22).



Caçador (2009) ainda explica que no primeiro ciclo as principais características mercantis eram a monocultura mercantil de base familiar e o beneficiamento do café. No segundo ciclo houve um forte incentivo por parte do governo para os investimentos de empresas locais de médio e grande porte. Já o terceiro ciclo é denominado como o período de diversificação concentradora.

Dias (2012) resume sucintamente esse primeiro ciclo como apresentação das seguintes características: ocupação do interior do estado; predominância da população rural; monocultura mercantil de base familiar; pequenas propriedades e principais atividades urbanas voltadas às atividades agrícolas.

Certamente a economia principal do estado do Espírito Santo foi os cultivos agrícolas principalmente os do café. O estado ocupava o segundo lugar na região sudeste em produtividade do café com uma parcela de 25% do total colhido (ESPÍRITO SANTO, 2001).

Sem grandes alterações econômicas, manteve-se o Espírito Santo até o início do século XIX, quando governava Antônio Pires da Silva Pontes, que procurou novas fontes econômicas, sendo atraído pela região do Rio Doce, que foi aberta à navegação e comércio com a implantação de quarteis para proteger a área. Entretanto, a medida não surtiu o efeito desejado, apesar de terem tomado medidas junto às firmas comerciais visando à efetivação de sua política colonizadora (OLIVEIRA, 2008, p. 520).

O Ministério da Educação (2018) afirma que a cultura do café foi a principal fonte de economia do estado diferenciando-se da cultura do mesmo produto em São Paulo que levou ao assalariamento e no desenvolvimento de relações de trabalho. No estado, essa cultura caracterizou-se na força de trabalho de meeiros, parceiros, arrendatários.

A cultura do café foi responsável pelo fim da inércia econômica da região sul e pelo seu aumento populacional, resultado dos fluxos migratórios provenientes das províncias vizinhas. Entretanto, sua expansão se deu de forma lenta se compararmos com o Oeste Paulista e o Vale do Paraíba, ambas as zonas pioneiras no século XIX (STAUFFER, 2014, p.4).

Segundo Dias (2012) até a década de 50, o estado tinha 75% de propriedades rurais com o cultivo do café como principal produto sendo este responsável pela geração de um terço da renda do local. Nos anos 60, houve uma grande crise cafeeira que marcou o início da modernização de relações capitalistas no estado. Foi a partir dessa crise que o perfil econômico do Espírito Santo se redirecionou para o eixo industrial (LOUREIRO, 2006).

Em meados da década de 1960 a carteira de crédito agrícola do Banco de Crédito Agrícola foi expandida consideravelmente, uma vez que neste período houve uma erradicação dos cafezais velhos e deficitários, reduzindo a produção de café no estado de 2 milhões para 500 mil sacas. Isso impactou numa queda acentuada da receita gerada no estado, refletindo negativamente em todos os setores da economia (ARAUJO, 2012, p.39).

Os efeitos da crise do café seriam altamente deletérios para uma economia eminentemente agrária e com poucas unidades industriais. A cafeicultura não teria sido suficiente para patrocinar a industrialização” (RIBEIRO, 2014, p.262). De acordo com Rocha e Morandi (1992) a crise do café no estado afetou o desempenho da agricultura do estado do Espírito Santo, pois essa cultura ainda era tida como a mais rentável em vista das demais que ainda não se destacavam como fonte de renda e subsistência suficiente para os indivíduos. Algumas outras culturas como a pecuária tentaram ser substitutas do café não tendo muito êxito.

Na segunda metade do século XX, a crise da atividade cafeeira inaugurou uma nova fase do desenvolvimento do estado consubstanciada em incentivos fiscais responsáveis pela atração de novos investimentos, principalmente no setor industrial, pelos chamados Grandes Projetos que, mesmo tardiamente, expandiram o grau de internacionalização do Espírito Santo (FORTUNATO, 2011, p.41).

Zorzal e Silva (1995) dizem que o Espírito Santo tornou-se dependente do cultivo do café que por sua vez se mostrou muito resistente a crises por mais de um século. Após o declínio, por volta de 1960 e 1970, houve uma nova conjuntura econômica em nível nacional que também impactaram alguns estados incluindo o Espírito Santo.

O Estado conseguiu superar a crise a que o levara a erradicação de 220 milhões de pés de café (1966-68), o que importou no deslocamento de cerca de 30.000 famílias, ou seja, 180.000 pessoas, das quais 30.000 emigraram para outros estados, 20.000 se marginalizaram como subempregados no meio rural e 10.000 no urbano (OLIVEIRA, 2008, p. 480).

Conforme afirma Siqueira (2009) a indústria institucionalizada na década de 60 foi uma das alternativas para a reestruturação e o dinamismo da economia com o intuito de apoiar grandes empreendimentos voltados para a exportação. Depois de passados oito anos da crise cafeeira houve então a desruralização do estado passando a ser mais urbano.

Extremamente dependente da monocultura do café, o Espírito Santo foi o estado que mais sofreu com o Programa de Erradicação dos Cafezais Improdutivos, implementado pelo Governo Federal nos anos de 1960, cujos reflexos – êxodo rural, redução da renda e do emprego, entre outros – na economia capixaba foram bastante profundos (LOUREIRO, 2006, p.16).

Porém, alguns estudiosos não viram a crise cafeeira de forma dramática igual estava sendo veiculada. Com a erradicação dessa cultura no estado, deu-se lugar para outros tipos de cultura, diversificando assim a economia local e com isso dando mais ênfase à modernização da economia (ROCHA; MORANDI, 1992).

A economia do estado só passou a ser constituída por elementos mais modernos e menos rurais já em 1990. Significa dizer que essa modernização é muito recente ainda e a crise cafeeira proporcionou essa mudança na vida dos capixabas (BUFFON, 1992).

O chamado ciclo da industrialização posto por Dias (2012) foi até os anos 80 sendo um período de fortes transformações para o estado passando de uma economia agroexportadora para uma especialização secundário-exportadora com produção em larga escala. O ano de 1975 foi um período significativo para a alta expansão desses negócios para o estado.

Entre os setores que aumentaram sua participação na indústria de transformação destacam-se: (I) o setor de papel e celulose, resultado da implantação da fábrica da Aracruz Celulose S.A., em 1979; (II) o setor de extração mineral, que teve a sua participação ampliada a partir de 1971, com a inauguração de mais quatro usinas de pelotização da CVRD; e (III) o setor metalúrgico, que teve ampliada sua participação apenas no início dos anos oitenta, com a operacionalização da Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), em fins de 1983 (DIAS, 2012, p.16).

Já no século XX, as principais indústrias e investimentos que existiam no estado eram o Moinho Vitória (Grupo Buaiz); Chocolates Garoto S/A; Fábrica de Tecidos de Cachoeiro de Itapemirim; Companhia União Manufaturadora de Tecidos em Vitória; Fábrica de Cimento de Cachoeiro de Itapemirim; Cia de Ferro e Aço Vitória e Usina Paineiras S/A (PAVÃO, 2013).

Caçador (2013) afirma que a economia do estado passou por uma intensa mudança que originou um crescimento econômico significativo. Segundo o autor, o estado atualmente cresce acima da média há várias décadas. No ano de 2009, o Espírito Santo tinha o 11º lugar de melhor PIB brasileiro. Com isso, é possível destacar duas características marcantes para esse período sendo elas: o nível agregado das atividades desempenhadas pelo estado ao longo das últimas duas décadas; as flutuações do estado encontram-se mais voláteis se comparadas àquelas em nível de país e o desempenho dentro do comércio exterior.

O Espírito Santo teve uma modernização tardia onde passou a ter dentro do seu ambiente disponibilizado uma reprodução da colonialidade do poder.

Assim, por todos estes critérios, o Espírito Santo ainda é uma economia periférica em termos de geração de conhecimento e, neste caso, da sua incorporação ao processo produtivo. Situação que não deve se alterar no curto e médio prazos, pois os investimentos previstos para os próximos anos na economia capixaba são predominantemente de baixo conteúdo tecnológico, como mineração e siderurgia (CAÇADOR, 2013, p. 109).

O que se constata nos dias atuais pode ser evidenciado nas palavras de Araujo (2012). O setor agropecuário é destaque pelo cultivo do café conilon que sofre um crescimento significativo desde a década de 90. O Espírito Santo contribui para a produção nacional com cerca de 25% do total chegando a mais de 9 milhões de sacas. O estado também tem cultivado frutas como banana e mamão onde também impacta com cerca de 40% a produção nacional desses produtos. Já no setor industrial, destaca-se a siderurgia, a fabricação de celulose, petróleo, gás natural, exportação de ferro, granito, aço e outras atividades importantes para a sociedade como os setores têxtil, madeireiro e alimentício.

Dias (2012) afirma que a estrutura produtiva do estado atualmente é dinâmica trazendo inovação e um alto valor agregado nos produtos. São cultivos que já estão integrados à economia global e, por isso, a valorização da economia local se estende a municípios do interior onde podem ser encontrados arranjos produtivos dinâmicos e competitivos. “A agricultura e a pecuária mereceram atenção especial do governo, consequência natural da filosofia política do homem que dirigia o Estado” (OLIVEIRA, 2008, p.474).



3 O NOVO FORMATO ECONÔMICO, O CAPITALISMO E O IMPACTO AO MEIO AMBIENTE

Sabe-se que desde o surgimento das cidades na Antiguidade, algumas práticas já impactavam a relação do homem com o meio ambiente. Os ancestrais planejavam a seu tempo infraestrutura hidráulicas que fomentavam o cultivo de alimentos e com o tempo, a crescente produção fez acontecer a grande migração das pessoas do campo para esses centros que se tornariam cidades (BONZI, 2019). Acelerando essa trajetória, chega-se às décadas de 30,40 e 50 onde marcaram as mudanças econômicas e políticas como descritas em capítulo anterior. A partir desse período é que o novo formato econômico passa a existir e aos poucos impactar direta e indiretamente no meio ambiente e nos recursos não renováveis.

O aumento da população gera um proporcional acréscimo na demanda por alimentos; e, se a natureza espontaneamente não é capaz, por si só, de fornecê-los 20 na sua totalidade, surge a necessidade de buscar novas alternativas que supram essa demanda. Dessa forma, a escassez de alimento foi relativamente solucionada com o cultivo da terra e a domesticação de animais (RODRIGUES, 2009, p.24).

A expansão do capitalismo e do excesso de trabalho e atividades produtivas deu força à corrida da lucratividade exacerbada direcionava para o domínio dos recursos naturais de forma desenfreada e sem limites para atender à grande demanda consumista. A crise que assolou o século XX foi marcada por uma grande onda de desemprego e outros problemas sociais oriundos do surgimento do capitalismo. Essa condição capitalista repercutia sobre o meio ambiente mais rápido do que a própria reprodução da natureza (QUINTANA; HACON, 2011).

O trabalho passou a ser, com o decorrer do tempo e a evolução dos sistemas, um dos elementos impulsionadores, tanto da produção de alimentos e de bens, quanto da formação e acumulação de riquezas, fator decisivo para que a sociedade progredisse e alcançasse melhores condições de vida. Todavia, tal evolução impôs um ônus que tem sido suportado por todos os indivíduos, independente da forma com que cada um se beneficiou desse progresso (RODRIGUES, 2009, p.24).

A escala produtiva tem ligação direta com o impacto ao meio ambiente, ou seja, o acréscimo dessas atividades fez com que o aumento pela degradação surgisse como consequência. No entanto essa proporção torna-se inversa quando com o avanço tecnológico e industrial traz melhorias e benefícios para a vida cotidiana enquanto ao mesmo tempo traz destruição às áreas preservadas de recursos (BORGES, 2007).

A industrialização fez com os processos ocorressem mais rápido, com mais volume tornando os modos de produção mais eficientes fazendo com que o consumismo aumentasse e com isso o desperdício e a futilidade na aquisição de produtos. A superprodução que se vê até os dias de hoje reformulou o cenário econômico e consequentemente o ambiental. A questão econômica está vinculada ao meio ambiente, pois faz parte do tripé da sustentabilidade onde se encontram com as dimensões sociais, ambientais e econômicas (ROSA, 2007).



3.1 A DEGRADAÇÃO DO MEIO AMBIENTE NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO COMO FATOR PREPONDERANTE PARA A CRISE HÍDRICA

O cuidado com o meio ambiente significa preservar em ações contínuas o lugar, ou seja, explorá-lo de maneira sustentável e que não impacte na reestruturação das matas e nascentes. Toda e qualquer atividade que vai de encontro a essa premissa certamente causa resquícios de degradação ao lugar fazendo com que muitos elementos nunca mais se regenerem e criando consequências a curto, médio e longo prazos. Quando há um equilíbrio entre quaisquer tipos de atividade e o meio ambiente, as gerações futuras terão melhor qualidade de vida. No entanto, tratando-se de algumas atividades como a agropecuária, há de se pensar que não existe desenvolvimento sem destruição assim como aponta Pereira (2007).

O termo degradação ambiental está diretamente ligado ao impacto ambiental. Ao mesmo tempo, ambos os termos identificam a ação do homem como única causadora artificial de algum descontrole do meio ambiente que até então se encontra harmonioso. Importante destacar que os acontecimentos naturais nunca degradam o meio ambiente, apenas o modificam (BRAGA, 2017).

O estado do Espírito Santo assim como em outras várias regiões, foi o responsável por desmatar muitas áreas de mata nativa. Em um recorte mais atual no estado, existem municípios que ficaram em um patamar acima do desejável quando o quesito se trata de desmatamento.

Linhares, no litoral capixaba, foi o município que mais desmatou a Mata Atlântica entre 2014 e 2015, com a eliminação de 60 hectares de florestas (aproximadamente a área de 60 campos de futebol). No sentido inverso, Sooretama, no interior do Espírito Santo, foi a cidade que mais conservou o seu bioma, com 42,4% de sua área natural. Isso é o que mostra o Atlas dos Municípios da Mata Atlântica, lançado pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Esses são os principais destaques do Estado do Espírito Santo no levantamento da ONG (SOS MATA ATLÂNTICA, 2016, p.1).

Em 2014, foi emitido um mapa de cobertura dos municípios do estado do Espírito Santo onde apontam os focos de mata nativa bem como qual o tipo de cobertura existe em cada região. É importante destacar que o estado do Espirito Santo de acordo com Jaques (2017) vivenciou período entre 2004-2014 uma das maiores crises hídricas da história, o que pode ter relação com as características mantidas pela falta de cuidado com o solo e com os mananciais. Abaixo na figura 2, encontram-se as principais atividades cultivadas na cidade em sua zona rural, a saber:

Figura 1 – Mapa do uso de cobertura da terra (Colatina/ES)

Fonte: SEAMA (2014)



Os efeitos do desmatamento para a escassez da água são evidentes e encontrados em inúmeros estudos A diminuição do volume de água dentro dos lençóis freáticos pode ser consequência das ações de desmatamento do entorno. Diante de todos os recursos naturais não renováveis, a água ocupa um patamar importante. Isso porque esse recurso, em consequência do desmatamento e outras agressões ao meio ambiente, vem sendo seriamente comprometido (MARINOSKI, 2007).

As crises hídricas constantemente ocorridas em muitos lugares do Brasil fez surgir uma nova visão do uso desse recurso. Com isso, a preocupação se estende para além do simples consumo consciente ampliando para a reutilização da água para várias finalidades. Bertolo (2006) afirma que a água percorre três destinos diferentes ao cair das chuvas: penetra no solo, evaporam-se e escorrem direto para os cursos normais. Esse seria o ciclo natural das águas, ou seja, algo sem interferência humana.

É válido ressaltar que alguns pesquisadores não considera a escassez de água como uma crise tendo em vista a crença de que esta situação não é passageira. Ela é contínua e crescente. Os fatores que levam aos esvaziamentos de represas, rios, lagos e nascentes não sumirão abruptamente, pois, implica em mudança de cultura de uma sociedade e de comunidade rurais. É necessário que essas pessoas compreendam que a atividade agrícola predatória é o principal fator de empobrecimento da diversidade das matas ciliares e outros recursos não renováveis, como a água (JARDIM, 2015).

Tratando-se do estado do Espírito Santo, a origem da crise hídrica pode ter sido da pouca cobertura florestal que o lugar possui bem como a falta de proteção do solo. Cerca de 90% da área de todo o estado está descoberta e desprotegida. Ações urgentes devem ser pensadas para que se aumente a capacidade de retenção de água no estado conforme afirmam Souza, Néri e Bernardo Neto (2018).



3.2 A REALIDADE AMBIENTAL DO CÓRREGO JOÃO PRETINHA EM COLATINA-ES: UM RECORTE DE 1930-2016

O Córrego João Pretinho está situado à região norte do município de Colatina fazendo divisas com outros distritos rurais como Córrego Bela Aurora, São Roque, Reta Grande e Ângelo Frechiani. A comunidade é formada exclusivamente por agricultores estando caracterizado como zona rural como pode visto no mapa apresentado em destaque abaixo.

Figura 2 – Mapa da Zona Rural de Colatina - ES

Fonte: Prefeitura Municipal de Colatina (2020)

Na década de 30 havia uma área onde as atividades e impactos aconteceram de cerca de 220 hectares conforme os relatos coletados. Quando as primeiras famílias chegaram à região de Córrego João Pretinha, 80% da área ainda eram de matas. Essa paisagem foi se transformando ao longo dos anos e das atividades chegando-se em 1944 com apenas 55% das matas situadas em partes mais altas dos terrenos cultivados.

A policultura foi perdendo espaço para que a pecuária abastecesse um grande laticínio da época: o Laticínios Colatina, atualmente a empresa Quero Quero. Em algumas propriedades, a pecuária permaneceu até meados da década de 70 onde fazendeiros de maior porte vendiam parte de suas terras e caracterizando o lugar como minifúndios. Desse modo, nos minifúndios, a policultura ainda era preservada. No entanto, na década de 80 começou-se a prática das queimadas. Muito constantes na estação do inverno, as queimadas destruíam áreas de mata e muitos dos proprietários não tinha conhecimento e nem manejo adequado com a prática resultando em alguns pontos críticos.

Para combater os pontos de queimada que invadiam áreas erradas, utilizavam-se as águas das nascentes de dentro das propriedades ou próximas às queimadas. A ação se intensificou de tal maneira que as nascentes não davam conta de abastecimento e nem de combate aos incêndios. Havia na &e