ISSN 1678-0701
Número 61, Ano XVI.
Setembro-Novembro/2017.
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11/09/2017CULTIVO DE PLANTAS MEDICINAIS E HORTALIÇAS NÃO-CONVENCIONAIS EM UMA ESCOLA RURAL DE UBÁ-MG: SUBSÍDIOS PARA A EDUCAÇÃO AMBIENTAL  
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CULTIVO DE PLANTAS MEDICINAIS E HORTALIÇAS NÃO-CONVENCIONAIS EM UMA ESCOLA RURAL DE UBÁ-MG: SUBSÍDIOS PARA A EDUCAÇÃO AMBIENTAL

 

Ronaldo Vinícius-Silva1, Renata Barreto Tostes2 e Maria Aparecida Vilela de Resende3

1Doutorando em Botânica pela Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Biologia Vegetal, Avenida Purdue s/n, CEP: 36570-900, Viçosa – MG. E-mail: ronaldovinybio@yahoo.com.br

2Doutoranda em Botânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/Museu Nacional e Professora na Universidade do Estado de Minas Gerais, Avenida Olegário Maciel 1427, Bairro Industrial, CEP: 36500-000, Ubá- MG. E-mail: rtostes@hotmail.com

3Doutora em Fitotecnia pela Universidade Federal de Lavras e professora na Universidade do Estado de Minas Gerais, Avenida Olegário Maciel 1427, Bairro Industrial, CEP: 36500-000, Ubá- MG. E-mail: tida@nortecnet.com.br

 

Resumo – Esta pesquisa objetivou promover o incentivo à Educação Ambiental em uma escola municipal de Ubá-MG, utilizando plantas medicinais e hortaliças não convencionais. O primeiro passo foi implantar uma horta para o cultivo desses dois grupos vegetais. Após o desenvolvimento das espécies, palestras e oficinas foram ministradas á comunidade escolar. Observou-se que as plantas medicinais são comumente utilizadas, no entanto, as hortaliças não convencionais são pouco conhecidas e foram raramente mencionadas quanto ao seu consumo. As atividades relacionadas à Educação Ambiental foram conduzidas de modo a esclarecer sobre a forma de manipulação das plantas medicinais, fornecer informações sobre a importância das hortaliças não convencionais, bem como incentivar a sua inclusão no cardápio dos alunos e funcionários. Estudos desse cunho são importantes, poisse relacionam com o bem-estar da comunidade, além de auxiliar no resgate da cultura e saberes locais.

Palavras-Chave: Educação Ambiental. Plantas Medicinais. Hortaliças Não-Convencionais.

 

Abstract – This research aimed promotes the incentive for Environmental Education in a school of municipality of Ubá, Minas Gerais State, using medicinal plants and non-conventional vegetables. The first step was installing a vegetable garden to cultivation of these two plants groups. After the development of species, lectures and workshops were given to school community. It was observed the medicinal plants are commonly used, however, the non-conventional vegetables are few known and are rarely mentioned about their consumption. The activities related to Environmental Education were conducted to clarify about the manipulation method of medicinal plants, give information about important of non-conventional vegetables, as well as encourage their inclusion in the menu of students and school employees. Studies about this are extremely important because are related with community well-being, besides help in the rescue of culture and local knowledge.

Keywords:Environmental Education; medicinal plants; non-conventional vegetables

 

INTRODUÇÃO

Atualmente, a Educação Ambiental (EA) vem recebendo atenção especial por parte de governantes, organizações não governamentais, empresários e mídia (MENEGUZZO; MENEGUZZO, 2013). Este fato associa-se à busca por soluções no combate a problemas socioambientais e à crise civilizacional que a sociedade vem enfrentando (LEFF, 2008).

Como meio de disseminar os valores dessa educação para a comunidade, Santos (2007) salienta que o papel do educador é fundamental, pois este pode desenvolver nos alunos, hábitos e atitudes de conservação ambiental de maneira a torná-los cidadãos conscientes. A Educação Ambiental deve ser desenvolvida desde a educação infantil, sendo a postura tanto de educadores quanto da instituição, imprescindível para a conscientização das crianças (SILVA; SILVA, 2009). Desta forma, a escola é entidade chave neste processo e, além de levar o conhecimento aos alunos, leva através deles o conhecimento para seus familiares, atingindo desta forma a comunidade.

Novelli et al. (2006) complementam que esse contexto educacional se propõe a atingir todos os cidadãos, sensibilizando tanto o educando quanto a sociedade onde ele está inserido, contemplando o desenvolvimento do conhecimento e de ações que levem àpreservação e a melhoria da qualidade de vida. Enquanto formação e exercício da cidadania, a EA é referida como um meio de entender as relações entre ser humano e natureza (JACOBI, 2003). Segundo Virginio et al. (2013), a EA é a melhor ferramenta para conscientização do ser humano sobre o meio ambiente, já que o homem está intimamente relacionado à natureza, sendo esta integrante de sua cultura (VIANA et al., 2000).

A natureza deve ser vista como uma possibilidade de aprendizagem e conhecimento e não apenas como uma via de manipulação e exploração (MAULI et al., 2007). Portanto, é necessária a aquisição de valores e atitudes que estejam relacionados com o conhecimento sobre os processos ambientais visando a busca de um equilíbrio entre homem e meio ambiente (TOZONI-REIS, 2008).

A biologia vegetal como ciência, pode ser utilizada como uma alternativa para conscientizar o homem a respeito das diversas vertentes ambientais. A botânica possibilita a interligação entre aspectos naturais e amplia as formas de ação para diversos temas, contribuindo para que esta conscientização se concretize (VINHOLI-JÚNIOR; VARGAS, 2010). Dentro desse amplo universo vegetal, as plantas medicinais e as hortaliças não convencionais se apresentam como um campo de atuação da EA e um meio de resgatar o conhecimento dessas espécies, que são estreitamente relacionadas com a qualidade de vida humana.

Muito provavelmente, o uso de plantas medicinais teve seu início ainda na pré-história (MARTINS et al., 2000) e, atualmente, a sua utilização vem sendo bastante significativa (ACCORSI, 2000). Accorsi (2000) ainda salienta que a ciência tem buscado a unificação do progresso com aquilo que a natureza oferece, respeitando a cultura do povo em torno do uso de produtos ou ervas medicinais para a cura de enfermidades.

 Sob o aval da Organização Mundial de Saúde (OMS) à redescoberta das plantas medicinais numa conferência internacional na Tailândia, por meio da proposta: “Salvem Plantas que Salvam Vidas", têm-se multiplicado os esforços de vários países (PERECIN et al., 2002). Estes possuem com o intuito: resgatar as tradições envolvendo as plantas medicinais; conservá-las em coleções de germoplasma e, ainda, incluir os medicamentos produzidos a partir delas (fitoterápicos), no sistema público de saúde (PERECIN et al., 2002). A sociedade atual vive um claro movimento de procura por produtos naturais para uso terapêutico, cosmético e alimentar. Fatores de ordem cultural, relacionados com o uso da agrobiodiversidade, ligados à saúde, com a revalorização do “natural”, e também de ordem econômica, têm contribuído para esta tendência. Este movimento está relacionado com o resgate e aumento do conhecimento sobre essas plantas que, por suas características, são conhecidas como bioativas (COUTO, 2006).

Juntamente com essas espécies medicinais, as chamadas hortaliças não convencionais também são importantes na cultura de determinadas populações. Essas plantas estão presentes em determinadas localidades ou regiões e influenciam a alimentação de comunidades tradicionais, não sendo inseridas na cadeia produtiva como são as hortaliças comumente utilizadas em nosso dia-a-dia (MAPA, 2010). Pinto et al.(2001) e Kinupp e Barros (2008) destacam que essas plantas apresentam uma base ampla de alimentação e que essas espécies possuem um alto valor nutricional e muitas vezes podem substituir certas hortaliças utilizadas frequentemente na alimentação humana.

O resgate e a valorização das hortaliças não convencionais representam ganhos importantes do ponto de vista cultural, econômico, social e nutricional. Estas espécies são cultivadas, na maioria das vezes, por populações tradicionais e, consequentemente associadas à agricultura familiar, que preservam o conhecimento acerca de seu cultivo e consumo, passando-o de geração a geração (MAPA, 2010).

Considerando a importância da escola em relação à preservação do meio ambiente, este estudo objetivou: promover atividades de incentivo à educação ambiental com plantas medicinais e hortaliças não convencionais em uma Escola Rural da Rede Municipal de Ensino em Ubá-MG por meio da implantação de uma horta. Esta proposta contemplou todos os integrantes da instituição, incluindo discentes, docentes e funcionários.

 

MATERIAL E MÉTODOS

A pesquisa foi realizada em uma escola rural da rede municipal de ensino de Ubá-MG, localizada no bairro Aeroporto. Esta recebe 100 alunos diariamente, distribuídos em 10 turmas de 1º ao 5º ano e com aulas nos períodos matutino e vespertino.

A primeira etapa da pesquisa ocorreu em outubro de 2012 e consistiu na aplicação de um questionário ao diretor, professores e funcionários. Este direcionava questões a respeito da viabilidade e importância de uma horta com plantas medicinais e hortaliças não convencionais na escola e também sobre o grau de conhecimento que eles possuíam sobre esses grupos de plantas.

A segunda etapa seguiu durante novembro de 2012 a janeiro de 2013. Neste período foi realizada a confecção da horta, sendo destinados, aproximadamente, 1000 m2 para a instalação dos canteiros. Foram instalados 20 canteiros com 1,20 x 3,00 m para o plantio das espécies, sendo que algumas dessas foram plantadas em covas no decorrer da área.

A escolha das espécies a serem utilizadas se baseou na viabilidade e praticidade para o trabalho com as crianças. Além disso, foram consideradas as condições climáticas locais e um levantamento realizado sobre as principais plantas medicinais utilizadas pela população da região (Santos & Arruda, 2010, dados não publicados). Além destas, também foram inseridas na horta, para integrar a dieta dos alunos, alface, Lactuva sativa L. (Asteraceae); couve, Brassica oleraceavar.acephala D.C. (Brassicaceae); pimentão, Capsicum sp. (Solanaceae); cenoura, Daucus carota L. (Apiaceae) e beterraba, Beta vulgaris L. (Amaranthaceae).

Os propágulos (estacas, touceiras, sementes) foram obtidos junto a universidades (ex. Universidade Federal de Viçosa e Unimontes) e, principalmente, por meio de visitas a comunidades e proprietários rurais da região. As espécies que se multiplicam por sementes foram semeadas em sementeiras e, posteriormente, transplantadas para os canteiros. As plantas receberam somente adubação orgânica, com 4 a 5 kg/m2 de esterco bovino curtido. Cada canteiro foi identificado com uma placa contendo o nome comum, científico e família da planta que o compõe. A partir da montagem da horta e, consequentemente, do desenvolvimento das espécies, uma manutenção era realizada periodicamente para a retirada de espécies ruderais e daninhas.

Após a confecção da horta, a terceira etapa, iniciada em fevereiro de 2013, teve como principais atividades a realização de palestras e oficinas. Estas foram direcionadas, primeiramente para diretor, professores e funcionários, enfocando a atuação dessas espécies vegetais e suas aplicações, seja como alimento ou como medicinal. Foram direcionadas, também, dicas práticas sobre o uso de várias espécies presentes na coleção, de acordo com o conhecimento prévio dos autores e literatura especializada.

Posteriormente, palestras foram ministradas aos alunos. Nestas, enfatizava-se a importância das plantas e também do solo, além da preservação da biodiversidade e a relevância que as plantas medicinais e as hortaliças não convencionais possuem no nosso dia-a-dia, principalmente no que diz respeito à saúde.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A coleção de plantas medicinais e hortaliças não convencionais implantada na escola foi compostapor 20 espécies (tabela I). A figura 1 mostra um panorama geral da horta e algumas de suas espécies.

A entrevista com diretor, professores e demais funcionários revelou que estes possuem conhecimento sobre algumas plantas medicinais, porém não detêm uma bagagem mais aprofundada sobre suas aplicações. Foi possível notar que eles são conscientes da importância dessas plantas, apesar de possuírem muitas dúvidas principalmente relacionadas á melhor maneira de utilizá-las. A respeito das hortaliças não convencionais, o conhecimento por parte dos entrevistados foi bem menor, sendo que das cinco espécies inclusas na horta, apenas o ora-pro-nóbis foi citado comoconhecido e já consumido.

 

Tabela I - Plantas medicinais e hortaliças não convencionais utilizadas na confecção da horta. M - Medicinal; HNC - Hortaliça não Convencional; * Espécie utilizada também como condimentar.

 

Nome Popular

Nome Científico

Família

Uso

Alecrim*

Rosmarinus officinalis L.

 

Lamiaceae

M

Arnica

Solidago microglossa DC.

 

Asteraceae

M

Arruda

Ruta graveolens L.

Rutaceae

M

 

Babosa

Aloe vera (L.) Burm. f.

 

Xanthorrhoeaceae

M

Bálsamo

Cotyledon orbiculata L.

 

Crassulaceae

M

Camomila

Chamomila recutita (L.) Rauschert

 

Asteraceae

M

Capim Cidreira

Cymbopogon citratus (DC.) Stapf

 

Poaceae

M

Coentro*

Coriandrum sativum L.

 

Apiaceae

M

Erva Cidreira Verdadeira

 

Melissa officinalis L.

Lamiaceae

M

Funcho

Foeniculum vulgare Mill.

 

Apiaceae

M

Hortelã*

Mentha sp.

 

Lamiaceae

M

Manjericão*

Ocimum basilicum L.

 

Lamiaceae

M

Mil Folhas

Achillea millefolium L.

 

Asteraceae

M

Orégano*

Origanum vulgare L.

 

Lamiaceae

M

Salsinha*

Petroselinum crispum (Mill.) Nym.

 

Apiaceae

M

Tanchagem

Plantago major L.

 

Plantaginaceae

M

Almeirão de Árvore

 

Chicorium intybus L.

Asteraceae

HNC

Bertalha

Basella rubra L.

 

Basellaceae

HNC

Feijão Mangalô

Lablab purpureus (L.) Sweet

 

Leguminosae

HNC

Ora- pro-nóbis

Pereskia aculeata Mill.

Cactaceae

HNC

 

Vinagreira

Hibiscus sabdariffa L.

Malvaceae

HNC

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 1 – Horta confeccionada para estudos de Educação Ambiental e algumas de suas plantas medicinais e hortaliças não convencionais. A. Visão geral da horta. B. Manjericão. C. Hortelã. D. Funcho. E. Coentro. F. Capim Cidreira. G. Bertalha. H. Vinagreira.

 

Em contrapartida, outras hortaliças como a taioba, Xanthosoma sagittifolium Schott (Araceae); o inhame ou taro, Colocasia esculenta (L.) Schott (Araceae) e a serralha, Sonchus oleraceus L. (Asteraceae) foram mencionadas como conhecidas e já consumidas.

As palestras, oficinas, conversas e trocas de informações realizadas com este grupo de pessoas sobre essas espécies vegetais foram de extrema importância. Essa relevância deve-se a dois motivos principais: o uso adequado das plantas medicinais e o resgaste do conhecimento sobre as hortaliças não convencionais.

A respeito das plantas medicinais, a utilização destas deve ser conduzida de forma criteriosa, com escolha correta da planta e preparação adequada do fitoterápico a ser consumido (PINTO; BERTOLUCCI, 2002). Estes mesmos autores ainda mencionam que correta identificação dessas espécies é de grande relevância para o sucesso no seu uso, devido ao fato de que em cada local que se estabelecem, podem ser designadas por um nome popular diferente.

Segundo Varella (2010), os brasileiros,em geral, possuem o hábito de associar tudo que é natural a benefícios. No entanto, é necessário saber corretamente o que se está utilizando e como este produto age no organismo, caso contrário efeitos colaterais poderão ser detectados.  Desta forma, foi divulgado para os funcionários da escola, principalmente as cozinheiras, o preparo de chás por infusão, utilizando principalmente capim cidreira, hortelã e a erva cidreira verdadeira. Foi repassado, também, o preparo do suco de capim cidreira com limão. Estes fitoterápicos poderiam ser utilizados se, por ventura, alguém do ambiente escolar, dentre alunos e funcionários, necessitasse.

Sobre as hortaliças não convencionais, o pouco conhecimento sobre a sua utilização por parte dos entrevistados corrobora com resultados de outros estudos (DIAS et al., 2005; CÂNDIDO; STURZA, 2016). A maioria dessas espécies não é ainda inclusa no cardápio alimentar do ser humano (MAPA, 2010). Pelo fato de serem cultivadas geralmente por grupos tradicionais e não possuírem um grande apelo comercial, a perda sobre o conhecimento dessas espécies é um alarmante cada vez maior (MAPA, 2010). Sendo assim, todo esforço que vise o incentivo ao cultivo e utilização dessas hortaliças é de grande interesse, levando-se em consideração o valor nutritivo que elas apresentam (MAPA, 2010).

As hortaliças mais divulgadas para a comunidade escolar foram a bertalha, o feijão mangalô e a vinagreira ou hibisco. A bertalha foi introduzida na merenda sob a forma de saladas, em omeletes e refogada. O feijão mangalô, similar ao uso da ervilha e do feijão vagem, sob a forma de grãos ou vagens refogadas com ovos. A vinagreira ou hibisco despertou maior curiosidade, sendo realizadas oficinas para demonstração do uso como hortaliça (salada da folha), sucos e chás e a confecção de geléias.  A vinagreira, recentemente introduzida na região de Ubá é caracterizada por deter um alto valor nutricional (CARDOSO, 1997) e medicinal (VIEIRA, 1992). A procura por sementes dessa planta foi enorme, principalmente entre as professoras, sendo distribuídas sementes e mudas.

Muitos estudos direcionam o foco da Educação Ambiental dentro das instituições de ensino apenas para os alunos. No entanto, dependendo do campo a ser utilizado para a promoção da EA, é necessário que os professores e demais funcionários se inteirem melhor para terem condições de continuar contribuindo para com seus alunos e também na comunidade.Os esclarecimentos fornecidos a professores e demais funcionários foram fundamentais, pois a partir destes, informações valiosas sobre plantas medicinais e hortaliças não convencionais podem ser disseminadas para familiares e vizinhos. Além disso, esse conhecimento pode, também, ser utilizado dentro de sala com os alunos e na culinária escolar, de maneira a enriquecer a dieta dos estudantes.

Um interessante exemplo foi o estudo realizado por Lopes et al. (2011). Neste, os autores destacam que a transmissão de valores aos professores a respeito das plantas medicinais contribui significativamente para o aprendizado do aluno. A partir desse processo, o educador terá um maior subsídio para exercer o importante papel de incluir o aluno no ambiente em que vive. Deste modo é possível conciliar o saber regional com a preservação da biodiversidade.

Em relação aos alunos, pôde-se perceber, no decorrer do estudo, o interesse da maioria para com as plantas que compunham a horta. Estes acompanharam a sua instalação inicial e o desenvolvimento das espécies contidas na mesma. Durante essa atividade, recebiam explicações sobre os métodos de cultivo e uso de determinadas espécies. As visitas à horta eram extremamente produtivas, visto que, recebiam informações de seus professores. Essas informações eram adicionais às da sala de aula e podiam comprovar na prática os conceitos recebidos. Imerso no conteúdo abordado, contemplava-se questões com a importância das plantas de um modo geral, do solo e da água para o ser humano e para o ecossistema como um todo, além da interligação de dependência entre esses três elementos.

Quando as espécies começaram a se desenvolver, mesmo antes do início das atividades voltadas para educação ambiental, os alunos, no horário do intervalo, sempre se dirigiam próximo aos canteiros, sendo possível ouvir comentários como: “Para que serve essa planta?”; “Eu gosto de plantas!”; “Minha mãe gosta muito de plantas!”; “Na minha casa também tem uma horta igual a essa!” e “Minha mãe fala que verdura é bom pra saúde!”. Nesse contexto é possível inferir que a horta implantada na escola estimulou a curiosidade nessas crianças, fato muito importante para o processo de aprendizagem. Freire (2003) salienta sobre o papel da curiosidade para o aprendizado, destacando que esta é fundamental para possibilidade de conhecer e aprender.

No período em que a maioria das espécies iniciou a floração, um projeto interno da escola chamado Jardinagem (o qual já era idealizado, porém o espaço ainda não havia sido preparado), começou a ser desenvolvido com algumas turmas. Este possuía uma finalidade bem semelhante á presente pesquisa, enfocando a conscientização sobre preservação ambiental e a importância de se cuidar das plantas. Dentro dessa proposta a turma era divida em grupos, os quais eram responsáveis por cuidar de determinados canteiros, realizando atividades como rega e adubação, quando necessário.

Durante as atividades, os alunos tinham a oportunidade de verificar se conheciam as plantas em estudo e se estas eram utilizadas por sua família. A partir de então era possível uma difusão dos conhecimentos adquiridos na escola junto aos pais e outros familiares, bem como trazer para a escola conhecimentos sobre as plantas medicinais e hortaliças cultivadas em suas casas. 

Quando questionados informalmente sobre a utilização, em casa, de alguma das plantas presentes na horta, a maioria dos estudantes afirmou já ter ingerido chá para combater gripe, febre ou resfriado (apesar de não conseguirem lembrar o nome da planta utilizada). Em relação às hortaliças consumidas, nenhuma dentre as não convencionais presentes na horta foram citadas. As mencionadas nas respostas foram as comumente encontradas no nosso cardápio alimentar como: alface, couve e cebolinha, além de legumes como batata, tomate, cenoura e beterraba.

Estes resultados demonstram que, apesar de necessário uma maior divulgação sobre as plantas medicinais, bem como instruções sobre a melhor maneira de sua utilização, o uso de fitoterápicos é bem relevante (SIMÕES, 1998). Esse conhecimento é passado de pais para filhos, ou seja, de geração para geração (CARAVACA, 2000).

As hortaliças não convencionais não foram referidas pelos alunos como comuns em seu meio familiar e segundo Pinto et al. (2000), os dados sobre a maioria destas são escassos, com exceção de algumas espécies já bem conhecidas. No Brasil existem poucos trabalhos científicos e de divulgação sobre plantas alimentícias não convencionais. Em função desta carência de informações básicas sobre a disponibilidade de recursos alimentícios nativos, suas formas de uso, partes utilizadas e potencial utilização destes recursos alimentares, a criação e manutenção de bancos de multiplicação de sementes e mudas sãonecessárias para o cultivo dessas hortaliças (KINUPP; BARROS, 2007). Esses autores anda salientam que a divulgação desse conhecimento popular, traz benefícios à sociedade e contribui para o resgate da cultura local.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O uso de plantas medicinais e hortaliças não convencionais como subsídio à educação ambiental fornece suporte para o resgate da cultura e saberes locais. Além disso, contribui ao inteirar a comunidade escolar sobre a melhor maneira de utilizá-las, o valor que elas possuem e, consequentemente, a importância de se preservá-las. Esta situação se torna extremamente importante ao passo que os alunos e funcionários podem levar essas informações para casa. Assim, o aprendizado não se restringe apenas ao ambiente escolar, atingindo toda a comunidade.

A partir do desenvolvimento prático, os conhecimentos foram repassados à comunidade escolar. Entretanto, ainda são necessárias novas propostas, visando uma conscientização mais efetiva, por exemplo, com a participação dos pais e um resgate de informações culturais úteis àqualidade de vida da comunidade.

 

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