ISSN 1678-0701
Número 65, Ano XVII.
Setembro-Novembro/2018.
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16/09/2018AVALIAÇÃO DO CICLO DE VIDA DOS MATERIAIS COMO FERRAMENTA PARA A GESTÃO DOS RESÍDUOS NA CONSTRUÇÃO CIVIL  
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AVALIAÇÃO DO CICLO DE VIDA DOS MATERIAIS COMO FERRAMENTA PARA A GESTÃO DOS RESÍDIOS NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL

Aline Antonia Castro1



1InstitutoFederal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo. Coordenadoria do Curso Técnico em Edificações. Campus Nova Venécia. Nova Venécia – ES. Brasil (CEP 29850-000). *E-mail: alineantoniacastro@yahoo.com.br



RESUMO

A Construção Civil é considerada como um dos setores de maior desenvolvimento econômico e social do país e também como uma das atividades de maior impacto ambiental devido ao grande consumo de recursos naturais e pela disposição inadequada de resíduos no meio ambiente. Este cenário demonstra a relevância da busca por ações voltadas para a redução dos impactos ambientais gerados na construção civil. Para que o setor esteja de acordo com os princípios de sustentabilidade, tornou-se necessário a aplicação de métodos que objetivam melhorar o desempenho ambiental dos produtos e processos, através da eficiência na utilização de matérias-primas, fontes de energia, redução de geração de resíduos, análise do potencial de poluição do produto e possibilidade de reaproveitamento de produto. Um dos métodos que visa esta melhoria de produtos ou serviços, quanto aos aspectos ambientais é a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), cujo objetivo é buscar, em cada estágio da existência do produto, desde a extração de matéria-prima até a disposição final, fatores que possam interferir na melhoria do meio ambiente. O objetivo deste estudo foi mostrar, através de prática investigativa, que a ACV pode ser aplicada com sucesso na indústria da construção civil, como forma de gestão de resíduos, de maneira a contribuir para a sustentabilidade ambiental, através da reutilização de materiais. Por fim, foram apresentados exemplos de aplicação da ACV em diversas obras no país, para mostrar a viabilidade de utilização da ferramenta ACV e relacionar os conceitos teóricos à prática dentro da área da construção civil.

Palavras-chave: Sustentabilidade; Construção Civil; Avaliação do Ciclo de Vida.

ABSTRACT

The Civil Construction is considered as one of the sectors of greater economic and social development of the country and also as one of the activities of greater environmental impact due to the great consumption of natural resources and the inadequate disposition of residues in the environment. This scenario demonstrates the relevance of the search for actions aimed at reducing the environmental impacts generated in construction. In order for the industry to comply with the principles of sustainability, it has become necessary to apply methods that aim to improve the environmental performance of products and processes through efficient use of raw materials, energy sources, generation reduction Waste, analysis of the potential of pollution of the product and possibility of reuse of product. One of the methods that aim sat this improvement of products or services, regarding the environmental aspects is the Life Cycle Assessment - ACV, whose objective is to search, at each stage of the existence of the product, from the extraction of raw material to the final disposal ,Factors that may interfere in the improvement of the environment. The objective of this study was to show, through investigative practice, that the Life Cycle Assessment - LCA can be success fully applied in the construction industry, as a form of waste management, in a way that contributes to environmental sustainability through Reuse of materials. Finally, examples of the application of LCA in several works in the country were presented, to show the feasibility of using the LCA tool and to relate theoretical concepts to practice within the civil construction area.

KEYWORDS: Sustainability; Construction; Life Cycle Assessment.



1INTRODUÇÃO

A Construção Civil é considerada como um dos setores de maior desenvolvimento econômico e social do país. Também é considerada como uma das atividades de maior impacto ambiental devido ao grande consumo de recursos naturais e pela disposição inadequada de resíduos no meio ambiente.

Os Resíduos da Construção Civil (RCC) representam um problema por sobrecarregar os sistemas de limpeza pública municipais, sendo que no Brasil, eles podem representar de 50% a 70% da massa dos Resíduos Sólidos Urbanos – RSU (Brasil, 2005b).

Estes números demonstram a importância do tema e da urgente necessidade de implantação de medidas voltadas para a redução dos impactos ambientais gerados neste setor.

Um dos métodos que visa à sustentabilidade ambiental de produtos ou serviços é a Avaliação do Ciclo de Vida - ACV, cujo objetivo é buscar, em cada estágio da existência do produto, desde a extração de matéria-prima até a disposição final, fatores que possam interferir para alcançar-se a melhoria do meio ambiente.

Com a ACV é possível quantificar e qualificar os potenciais danos ambientais ao longo do ciclo de vida do produto, desde a retirada de matéria-prima da natureza, passando pelos processos de fabricação e embalagem, o transporte e distribuição, a utilização por parte do consumidor, o descarte, a reutilização, remanufatura, reciclagem e disposição final.

Com base na ACV, podem-se promover alterações no projeto do produto de modo a torná-lo ambientalmente amigável. Por exemplo, a partir dos resultados da ACV, pode-se concluir que o material utilizado na fabricação do produto não permite que este seja reciclado, ou que sua estrutura física dificulta a desmontagem para que seus componentes possam ser reaproveitados. Sendo assim, devem-se buscar alternativas que permitam um melhor reaproveitamento do produto após este ser descartado pelo usuário. Ou ainda, se durante a avaliação do ciclo de vida do produto for constatado que sua utilização oferece algum risco ao consumidor ou ao meio ambiente, também é prudente que o seu projeto seja modificado. (Assis, 2009, p. 36).


O objetivo deste estudo é mostrar, através de prática investigativa por revisão bibliográfica, que a Avaliação do Ciclo de Vida – ACV pode ser aplicada com sucesso na indústria da construção civil, como forma de gestão de resíduos, de forma a contribuir para a sustentabilidade ambiental, através da redução dos impactos ambientais gerados pela elevada quantidade de extração de matéria-prima e pela disposição inadequada dos resíduos no meio ambiente.

Como metodologia para a execução deste trabalho, inicialmente foi realizada uma pesquisa bibliográfica relacionada ao tema. Como fontes de pesquisa foram utilizados livros, trabalhos acadêmicos, artigos publicados e sites relacionados ao assunto. Nesta etapa do trabalho foram apresentados conceitos sobre sustentabilidade, o panorama da construção civil, características dos resíduos da construção civil, definições sobre a ACV, a legislação aplicada.

Por fim, foram apresentados exemplos de aplicação da ACV em diversas obras no país, para mostrar a viabilidade de utilização da ferramenta ACV e relacionar os conceitos teóricos à prática dentro da área da construção civil.

1.1 Resíduos da Construção Civil - RCC

A Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS em 2010 definiu o termo resíduo da construção civil - RCC, em seu Artigo 13, como “os gerados nas construções, reformas, reparos e demolições de obras de construção civil, incluídos os resultantes da preparação e escavação de terrenos para obras civis” (Brasil, 2010a, Artigo 13, inciso I, alínea h).

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA (2012) estima que a quantidade de RCC coletada em 2010, para o país, era em torno de 99.354 t/dia.

Além dos dados quantitativos, para o diagnóstico da situação dos resíduos da construção civil, também é necessário conhecer a sua composição, para avaliar o seu potencial de reciclagem ou reutilização.

Segundo o IPEA (2012), os resíduos da construção civil são compostos, em média, por 63% de argamassa, 29% por concreto e blocos, 7% por outros materiais e 1% por componentes orgânicos.

Apresentando esta composição, os RCC são considerados como materiais que representam pouco perigo de contaminação ao ser humano, sendo que a maior preocupação está no fato do impacto causado por apresentar grande volume, no momento do descarte no meio ambiente.

Assim, devido às suas características, os RCC são passíveis de reutilização através do processo de reciclagem, voltando como matéria prima para a produção dentro do setor da construção civil, o que reforça a ideia da implantação da ACV na construção civil.



1.2 Panorama Ambiental da Construção Civil

A construção civil é responsável por cerca de 50% de todos os recursos naturais extraídos no planeta. Diante deste cenário, é possível perceber a magnitude do impacto ambiental decorrente da extração de matéria-prima para o setor. Além disso, os resíduos gerados no processo ocupam grandes áreas de disposição, por apresentarem grande volume. (SANTOS et tal., 2010)

As estimativas internacionais sobre a geração per capita destes rejeitos, variam entre 130 e 3.000kg/hab.ano, sendo que na cidade de São Paulo, por exemplo, esta geração está estimada em 280kg/hab. ano (PAIVA E RIBEIRO, 2006).

Mas, por outro lado, Santos et tal. (2010) afirma que a construção civil é potencialmente o setor que mais apresenta possibilidades de incorporação de resíduos em novos materiais, já que é o maior consumidor de recursos naturais de qualquer economia.

Além de extrair recursos naturais, a produção de materiais de construção também gera poluição: poeira (tipicamente de concreto, cimento, madeira, pedra, sílica), CO2, vapores nocivos de óleos, colas, solventes, tintas, madeiras tratadas, plásticos, produtos de limpeza, entre outros produtos químicos perigosos que são amplamente utilizados na construção civil. Para cada tonelada de clínquer produzido, mais de 600 kg de CO2 são gerados.

As medidas de produção ambientais de outras indústrias e o crescimento da produção mundial do cimento fazem com que a participação do cimento no CO2 total gerado tenha mais que dobrado no período 30 anos (1950 e 1980). Outros materiais, como areia, brita, aço, usados em grande escala têm problemas similares. (PAIVA e RIBEIRO, 2006)

Finalmente a construção civil é certamente um dos maiores geradores de resíduos de toda a sociedade. O volume de entulho de construção e demolição gerado é até duas vezes maior que o volume de lixo sólido urbano. (ASSIS, 2009)

Destarte, o uso da ferramenta da ACV faz-se importante e urgente, pois através dela é possível obter resultados sobre os materiais utilizados no setor, apontando aqueles que são viáveis sob o ponto de vista ambiental, que atendam as necessidades do ciclo de vida, desde a retirada do meio ambiente até a sua reutilização ou reciclagem.

A geração de RCC representa um grave problema para a questão ambiental, como apresentado anteriormente. Assim, é relevante a elaboração e implementação de critérios de gestão com base em legislações específicas e normas técnicas referentes ao tema para um melhor entendimento do assunto. O conhecimento delas é essencial para a correta gestão dos resíduos provenientes da construção civil.

A resolução CONAMA N° 307, de 5 de julho de 2002, estabelece diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil, disciplinando as ações necessárias de forma a minimizar os impactos ambientais.

Segundo esta Resolução, os resíduos da construção civil são classificados em 04 classes, de acordo com a possibilidade de reciclagem.

Classe A: são os resíduos reutilizáveis ou recicláveis como agregados, tais como:

a) de construção, demolição, reformas e reparos de pavimentação e de outras obras de infra-estrutura, inclusive solos provenientes de terraplanagem;

b) de construção, demolição, reformas e reparos de edificações: componentes cerâmicos (tijolos, blocos, telhas, placas de revestimento etc.), argamassa e concreto;

c) de processo de fabricação e/ou demolição de peças pré-moldadas em concreto (blocos, tubos, meio-fio etc.) produzidas nos canteiros de obras;

Classe B - são os resíduos recicláveis para outras destinações, tais como: plásticos, papel/papelão, metais, vidros, madeiras e outros;

Classe C - são os resíduos para os quais não foram desenvolvidas tecnologias ou aplicações economicamente viáveis que permitam a sua reciclagem/recuperação, tais como os produtos oriundos do gesso;

Classe D: são resíduos perigosos oriundos do processo de construção, tais como tintas, solventes, óleos e outros ou aqueles contaminados ou prejudiciais à saúde oriundos de demolições, reformas e reparos de clínicas radiológicas, instalações industriais e outros, bem como telhas e demais objetos e materiais que contenham amianto ou outros produtos nocivos à saúde.

O conhecimento desta classificação é de suma importância para o estudo de aplicabilidade da ACV na construção civil, pois se um produto não é passível de reutilização, ele deverá ser substituído por outro, de igual função, que possa ser reutilizado, completando assim o ciclo de vida da atividade ou produto.

Segundo a Resolução CONAMA N° 307 (2002), os resíduos oriundos da construção civil não podem ser despejados em aterros de resíduos domiciliares, em área desocupadas, junto às encostas ou corpos de água, nem tampouco em área de preservação. É de responsabilidade dos geradores de resíduos a destinação final, adotando medidas para sua reutilização, a reciclagem e a destinação final.

Desta forma, é importante a aplicação de medidas que visem à reciclagem dos RCC, como é o caso da aplicação da Avaliação do Ciclo de Vida aos produtos descartados nas obras, onde é avaliado o potencial de reutilização de cada produto/serviço dentro do canteiro de obras.

Com o objetivo de criar responsabilidades para os geradores de RCC, foi criada em 2010, a Lei nº12305/2010 que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), definindo critérios entre os envolvidos diretos e indiretos: fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores e os titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos.

Após o uso dos produtos, os consumidores não são isentos da responsabilidade por danos que vierem a ser provocados pelo gerenciamento inadequado dos respectivos resíduos ou rejeitos. Estes devem efetuar a devolução de seus resíduos e das embalagens aos comerciantes ou distribuidores. Os comerciantes e distribuidores deverão efetuar devolução destas aos fabricantes ou aos importadores. Por fim, os fabricantes e/ou importadores deverão dar um destino ambientalmente adequado a estes Resíduos (PNRS, 2010).


Desta forma, a PNRS cria responsabilidade para que os geradores possam gerenciar os resíduos provenientes de suas atividades. Na construção civil, uma forma utilizada com bastante sucesso é a reutilização ou reciclagem dos RCC.


1.3 Avaliação do Ciclo de Vida

Segundo Condeixa (2013), o Ciclo de Vida de um serviço ou produto compreende todas as fases, desde a aquisição de matérias-primas, a produção, o uso, o tratamento pós-uso, a reciclagem até a disposição final deste produto ou de resíduos resultantes do serviço.

Para Soares; Souza e Pereira (2002) a ACV consiste na análise e na comparação dos impactos ambientais causados por diferentes sistemas que apresentam funções similares. Em outras palavras, sob a ótica ambiental, a ACV estabelece balanços tão completos quanto possível do fluxo de matéria (e energia) para cada sistema e permite a comparação desses balanços entre si, sob a forma de impactos ambientais.

Como definição da Avaliação de Ciclo de Vida pode-se dizer que é uma técnica capaz de avaliar o desempenho ambientalda função exercida por um produto, processo ou serviço, ao longo de seu ciclo de vida, ou seja, desde a extração de recursos junto à natureza, até sua disposição junto ao ambiente, que ocorre após o uso a que este bem se destina haver se esgotado. (CONDEIXA, 2013)

Com base no exposto podemos entender que, com o estudo da ACV, pode-se verificar se um produto apresenta todas as características, desde sua extração até sua reutilização ou descarte, de não ser prejudicial ao meio ambiente. Se em alguma fase o produto mostrar-se ineficiente, como por exemplo, emitir muito poluente à atmosfera, o estudo vai requerer que ele seja substituído por outro, com a mesma função, mas que apresente características ambientais satisfatórias.

A normalização da ACV é feita pela ISO (InternationalOrganization for Standardization), através da série ISO14040, que no Brasil foi regulamentada pela ABNT/CB38.Para a elaboração dos estudos envolvendo a ACV, as normas ISO estabelecem conceitos e metodologias para analisar os impactos provenientes da utilização de produtos e serviços durante todo o seu ciclo de vida.

Além disso, as normas ISO também tratam dos seguintes assuntos:

- definições de escopo;

- referência normativa;

- termos específicos ao tema e suas definições;

- recomendações quanto à estrutura metodológica para ACV, com suas fases;

- comunicação de requisitos adicionais e para relatórios destinados a terceiros.

Para implementação da ACV, a NBR ISO 14040 (2005) dividiu o estudo em três fases, a saber:

  1. Definição dos objetivos, escopo e fronteiras:Devido ao grande número de parâmetros que podem ser analisados dentro de um sistema, é preciso delimitar, da maneira mais clara possível, quais serão os dados que serão alvos de estudo.

  2. Inventário do Ciclo de Vida: Consiste na descrição detalhada, de forma qualitativa e quantitativa, de todos os insumos usados e dos resíduos gerados, durante todo o ciclo de vida do produto ou serviço estudado.

  3. Avaliação e Interpretação dos Impactos:O objetivo é a identificação dos fatores de impacto e os critérios de avaliação. Busca-se aqui fazer um estudo comparativo entre diferentes opções de produtos ou serviços, para mostrar seus impactos locais, regionais e globais.

Com os resultados obtidos na fase de avaliação, podem-se propor as ações a serem tomadas à solução dos impactos ambientais gerados, quer pelo manejo adequado dos produtos, ou pela substituição por outros de melhor desempenho ambiental.

Condeixa (2013) afirma que para atender às etapas do ciclo de vida, um produto deve apresentar-se ambientalmente correto em todas as fases consideradas a seguir:

  1. Produção de materiais: extração de matérias-primas;

  2. Processo de produção: tratamento e processamento dos produtos/serviços;

  3. Transporte: meios e emissão de poluentes;

  4. Geração de energia: unidades dadas para eletricidade, calor, etc.;

  5. Disposição de resíduos: reutilização, reciclagem e disposição adequada.



2METODOLOGIA

Quanto à natureza, a presente pesquisa pode ser classificada como aplicada, pois “objetiva gerar conhecimentos para aplicação prática e dirigidos à solução de problemas específicos. Envolve verdades e interesses locais” (MENEZES; SILVA, 2005, p. 20).

No que se refere aos objetivos, esse trabalho possui um caráter exploratório, pois visa:

(...) proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a constituir hipóteses. Pode-se dizer que estas pesquisas têm como objetivo principal o aprimoramento de ideias ou a descoberta de intuições. Seu planejamento é, portanto, bastante flexível, de modo que possibilite a consideração dos mais variados aspectos relativos ao fato estudado (SELLTIZ et al., 1967, apud GIL, 1991, p. 41).



Quanto aos procedimentos técnicos utilizados neste estudo, trata-se de uma pesquisa bibliográfica, porque “(...) é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos” (GIL, 1991, p. 44). Embora na maioria das pesquisas seja necessário estudo bibliográfico, essa usa-o como método único. Portanto, será necessário um estudo de referenciais bibliográficos buscando analisar a viabilidade da utilização de tijolos solo-cimento com intuito de reduzir os impactos ambientais.

Quanto à abordagem do problema é classificada como qualitativa, pois não exige o uso de técnicas estatísticas, possui caráter somente descritivo (MENEZES; SILVA, 2005).

Para mostrar que a ACV pode ser aplicada com sucesso na indústria da construção civil, como forma de gestão de resíduos, esta pesquisa foi dividida em duas partes, apresentadas a seguir.

Na primeira parte foram apresentados os conceitos necessários ao entendimento do tema, tais como: classificação e constituição do RCC, de acordo com a legislação brasileira; definição e caracterização da ACV, para mostrar a viabilidade de utilização da ferramenta ACV e relacionar os conceitos teóricos à prática dentro da área da construção civil.

Já na segunda parte, foram apresentadas algumas aplicações de sucesso da ACV na construção civil, especificamente com relação ao uso dos RCC.



3 RESUTADOS E DISCUSSÕES

O consumo excessivo dos recursos naturais em curto espaço de tempo não permite que a natureza se componha e gera sérios problemas como as mudanças climáticas que desiquilibram todo o nosso planeta. (CONDEIXA, 2013)

Segundo o SIDUSCON-SP (2005), o setor formal das atividades construtivas naturalmente sobressai pelo seu consumo elevado de recursos naturais e consequente geração significativa de resíduos. Assim, deve-se pensar em uma produção da construção sustentável, que deve estar atenta para a não geração, a reutilização, a reciclagem e a correta destinação de seus resíduos.

O SIDUSCON- SP (2005) afirma ainda que as deposições irregulares de restos de obra são comuns nos municípios brasileiros, diante da falta de alternativas para destinação ou disposição correta, provocando desperdício de materiais nobres e elevados recursos financeiro para as ações corretivas.

Tendo em vista que a ACV busca em cada estágio da vida de um produto ou serviço, desde a extração de matéria-prima até a disposição final, um melhor desempenho ambiental, a reciclagem tem se mostrado uma forma muito eficiente de reduzir o impacto ambiental na construção civil, pois o resíduo das obras, que poderia ser jogado num terreno baldio, pode ser reutilizado no próprio canteiro ou ir para uma usina de reciclagem e voltar a ser utilizado como matéria-prima.

Mas, para que a aplicação da ACV possa ser aplicada com sucesso na construção civil, Soares; Souza e Pereira (2002) entendem que o conhecimento das diversas etapas do ciclo de vida de uma edificação pode auxiliar na delimitação do sistema. Podem ser citados os processos de transformação de energia e materiais: a produção de matérias-primas necessárias às diversas etapas do ciclo de vida de edificações; a fase construtiva propriamente dita, incluindo desde o transporte de materiais até o acabamento final da estrutura; a fase de uso; e as fases de inutilização, renovação ou demolição, decorrentes de inadequações ao uso, ou de limitações impostas pelo tempo de vida útil da construção.

Muitas são as tentativas no ramo da construção civil em utilizarem-se os resíduos de obras para a produção de matérias primas para novos serviços. Desta forma, a ACV entra como solução para apontar os materiais que possuam a característica de poderem ser reciclados, completando, assim, o seu ciclo de vida.

Neste sentido, Ferraz e Segantini (2004), concluíram que os resíduos de argamassa de cimento são uma excelente alternativa para melhorar as características dos solos, visando a sua aplicação na produção de tijolos de solo-cimento. A adição dos resíduos possibilitou melhores condições para se produzir tijolos com qualidade e pode significar redução no consumo de cimento. A fabricação de tijolos de solo-cimento é uma prática ecologicamente correta, pois dispensa o processo de cozimento, preservando o meio-ambiente.

Em seu estudo, Pierezan e Antocheves (2010) concluíram que a forma mais simples de reciclagem do entulho é a sua utilização em pavimentação (base, sub-base ou revestimento primário) na forma de brita corrida ou ainda em misturas do resíduo com solo.

Segundo Gradin e Costa (2009) vêm se criando soluções para o emprego dos RCC reciclados no Brasil. O entulho processado pelas usinas de reciclagem pode ser utilizado como agregado para concreto não estrutural, que são resíduos processados pelas usinas de reciclagem podendo ser utilizados a partir da substituição dos agregados convencionais (areia e brita); agregado para confecção de argamassa, que são originados após o processado por equipamentos denominados argamasseiras, que moem o entulho na própria obra, em granulometrias semelhantes as da areia, e pode ser utilizado como agregado para argamassas de assentamento e revestimento.

O SINDUSCON-CE (2011) apresenta algumas sugestões para a destinação final de componentes de obras. O entulho de concreto, se não passar por beneficiamento, pode ser utilizado na construção de estradas ou como material de aterro em áreas baixas. Caso passe por britagem e posterior separação em agregados de diferentes tamanhos, pode ser usado como agregado para produção de concreto asfáltico, de sub-bases de rodovias e de concreto com agregados reciclados; artefatos de concreto, como meio-fio, blocos de vedação, briquetes, etc.

A madeira pode ser reutilizada na obra se não estiver suja e danificada. Caso não esteja reaproveitável na obra, pode ser triturada e usada na fabricação de papel e papelão ou pode ser usada como combustível. O papel, papelão e plástico de embalagens, bem como o metal podem ser doados para cooperativas de catadores. O vidro pode ser reciclado em novo vidro, em fibra de vidro, telha e bloco de pavimentação ou, ainda, como adição na fabricação de asfalto. O resíduo de alvenaria, incluindo tijolos, cerâmicas e pedras, pode ser utilizado na produção de concretos, embora possa haver redução na resistência à compressão, e de concretos especiais, como o concreto leve com alto poder de isolamento térmico.

Pode ser utilizado também como massa na fabricação de tijolos, com o aproveitamento até da sua parte fina como material de enchimento, além de poder ser queimado e transformado em cinzas com reutilização na própria construção civil. Os sacos de cimento devem retornar à fábrica para utilização com combustível na produção do cimento. O gesso pode ser reutilizado para produzir o pó de gesso novamente ou pode ser usado como corretivo de solo.



4 CONCLUSÃO

Neste estudo, buscou-se mostrar que a Avaliação do Ciclo de Vida – ACV pode ser aplicada com sucesso na indústria da construção civil, uma vez que ela é definida como uma técnica utilizada para verificar se um produto apresenta todas as características de não ser prejudicial ao meio ambiente, em todas as suas fases, desde a aquisição de matérias-primas, a produção, o uso, o tratamento pós-uso, a reciclagem até a disposição final deste produto.

Neste sentido foram mostrados exemplos de utilização desta ferramenta em diversas obras no país como, por exemplo, o vidro que pode ser reciclado em novo vidro, em fibra de vidro, telha e bloco de pavimentação ou, ainda, como adição na fabricação de asfalto; os sacos de cimento que podem retornar à fábrica para utilização com combustível na produção do cimento; o entulho de concreto que, se não passar por beneficiamento, pode ser utilizado na construção de estradas ou como material de aterro em áreas baixas; dentre outros.

Desta forma, a ACV pode e deve se usada como solução para apontar os materiais que possuam a característica de poderem ser reciclados, completando, assim, o seu ciclo de vida, contribuindo para a redução ou até mesmo a eliminação da prática de deposição inadequada destes resíduos, além de favorecer a diminuição do consumo excessivo de matéria prima dentro da área da construção civil.



REFERÊNCIAS

ASSIS, B. B. Avaliação do Ciclo de Vida do Produto como Ferramenta para o Desenvolvimento Sustentável. 2009. 66 f. Monografia (Graduação em Engenharia de Produção). Universidade Federal de Juiz de Fora. Minas Gerais. 2009.


ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS – ABNT/CB38 – ISO (InternationalOrganization for Standardization) 14040. Brasil, 2009.


______________ ABNT NBR 10004:2004: Resíduos de Construção e Demolição(RCD) . Brasil, 2004.


BRASIL. Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, Brasil, 2010.


CONDEIXA, K. M. S. P. Comparação entre Materiais da Construção Civil Através da Avaliação do Ciclo de Vida: Sistema Drywall e Alvenaria. 2013. 210 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil – Tecnologia da Construção). Universidade Federal Fluminense. Rio de Janeiro, 2013.


CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE. Resolução CONAMA N° 307. Brasil, 2002.


FERRAZ, A. L. N.; SEGANTINI, A. A. S. Engenharia sustentável: aproveitamento de resíduos de construção na composição de tijolos de solo-cimento. FAPESP UNICAMP, V. 9, P. 25 - 36, 2004.


GRADIN, A.M.N.; COSTA, P.S.N. Reciclagem dos Resíduos Sólidos da Construção Civil. 2009.

Disponível em:<http://www.falcoit.com.br/blog/images/easyblog_images/500/RECICLAGEM-DOS-RESDUOS-SLIDOS-DA-CONSTRUO-CIVIL---Gradin--Costa-2009.pdf>

Acesso em 10 nov. de 2016.


IPEA – INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Diagnóstico dos Resíduos Sólidos da Construção Civil: Relatório de Pesquisa. Brasília, 2012.


SANTOS, M. F. N.; BATTISTELLE, R.A.G.; HORI, C.Y; JULIOTI, P.S. Importância da avaliação do ciclo de vida na análise de produtos: possíveis aplicações na construção civil. GEPROS, ano 6, n. 2, p. 57 - 73, 2010.


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SINDUSCON SP. Gestão Ambiental de Resíduos da Construção Civil. São Paulo, 2005.


SOARES, S. R.; SOUZA, D. M.; PEREIRA, S. W. A avaliação do ciclo de vida

no contexto da construção civil. ColetâniaHabitare, v. 7, p. 96 -127, 2002.


PAIVA, P. A.; RIBEIRO, M. S. A reciclagem na construção civil: como economia de custos. FEA-RP/USP, v. 5, p. 1-15, 2006.


PIEREZAN, J.; ANTOCHEVES, R. Reaproveitamento do Entulho da Construção Civil. 2010.

Disponível em:<http://www.tapera.net/acit/eventos/2012/reaproveitamento.pdf>

Acesso em 10 de nov. de 2016.








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