ISSN 1678-0701
Número 65, Ano XVII.
Setembro-Novembro/2018.
Números  
Início      Cadastre-se!      Procurar      Submeter artigo      Fazer doação      Contato     Apresentação     Normas de Publicação     Artigos     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Dinâmicas e recursos pedagógicos     Entrevistas     Culinária     Arte e ambiente     Divulgação de Eventos     O que fazer para melhorar o meio ambiente     Sugestões bibliográficas     Educação     Você sabia que...     Plantas medicinais     Contribuições de Convidados/as     Folclore     Práticas de Educação Ambiental     Soluções e Inovações     Ações e projetos inspiradores     Gestão Ambiental     Relatos de Experiências     Notícias
Artigos

16/09/2018JARDINS BOTÂNICOS DO RECIFE: ESTRATÉGIAS PARA A TRANSVERSALIDADE NA EDUCAÇÃO E CONSERVAÇÃO AMBIENTAL DOS ESPAÇOS NATURAIS  
Link permanente: http://revistaea.org/artigo.php?idartigo=3323 
" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">

JARDINS BOTÂNICOS DO RECIFE: ESTRATÉGIAS PARA A TRANSVERSALIDADE NA EDUCAÇÃO E CONSERVAÇÃO AMBIENTAL DOS ESPAÇOS NATURAIS



BOTANICAL GARDENS OF RECIFE: STRATEGIES FOR TRANSVERSALITY IN ENVIRONMENTAL EDUCATION AND CONSERVATION OF NATURAL AREAS

José Gustavo da Silva Melo¹, Elisabeth Regina Alves Cavalcanti Silva², Ana Claudia Caminha de Melo3, Elizabeth Sharllyda Cantanhede Santos4; Josimar Vieira dos Reis5

¹Mestre em Desenvolvimento Urbano, UFPE, Departamento de Ciências Geográficas, Universidade Federal de Pernambuco, Brasil. E-mail: josegustavo_melo@hotmail.com

² Professora de Engenharia Ambiental, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA) e Doutoranda em Desenvolvimento Ambiental, UFPE, Brasil. E-mail: elisabeth.silva@ifma.edu.br

3 Professora de Engenharia Ambiental, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA), Alcântara, MA, Brasil.

4 Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Maranhão, Alcântara, MA, Brasil. E-mail: elizabeth.cantanhede@ifma.edu.br

5 Doutorando em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco, Brasil.





R E S U M O

A presente pesquisa é uma análise da relação entre a sociedade e a natureza no tocante à perspectiva socioespacial do espaço. Os Jardins Botânicos se apresentam como áreas de grande beleza e diversidade natural, geralmente inserido nas próprias dinâmicas urbanas, de forma a romper com a lógica estrutural da grande maioria dos centros populacionais. Entretanto, a conservação desses ambientes torna-se mais desafiador quando tenta-se englobar temas transversais na análise. Os temas transversais abrem a possibilidade de um trabalho integrado de várias áreas. Nesse sentido, a pesquisa tem por finalidade analisar a percepção da conservação ambiental do Jardim Botânico do Recife, através da integração teórica das disciplinas de Geografia, Biologia e língua Portuguesa, em parceria com o alunado. No tocante à metodologia, ela está em consonância com as diretrizes orientadoras da pesquisa científica, que pode ser interpretada por quatro momentos indissociáveis: primeiro: exposição dissertativa-argumentativa do tema gerador; segundo: importância do estudo; terceiro: a coleta dos dados; e quarto, os resultados obtidos. Logo, a transversalidade no currículo escolar prioriza e contextualiza questões referentes ao meio ambiente de acordo com as realidades locais e regionais. Contudo, pode-se estabelecer na prática educativa, não só uma relação entre aprender conhecimentos teoricamente sistematizados, como também questões da vida real e da sua transformação, objetivando a eficácia da educação ambiental.



Palavras-Chaves: Interdisciplinaridade. Projeto Pedagógico. Prática Educativa. Meio ambiente.



A B S T R A C T

The present study is an analysis of the relationship between society and nature in relation to the socio-spatial perspective of the space. The Botanical Gardens present themselves as areas of great beauty and natural diversity, usually inserted in the urban dynamics themselves in order to break with the structural logic of population centers. However, the conservation of these environments becomes more challenging when cross-cutting themes are sought. The transversal themes open the possibility of an integrated work of several areas. The research aims to analyze the perception of environmental conservation of the Botanical Garden of Recife, through the theoretical integration of the subjects of Geography, Biology and Portuguese language, in partnership with the student. Regarding methodology, it is in line with the guiding directives of scientific research, which can be interpreted by four inseparable moments: first: expository-argumentative exposition of the generating theme; second, the importance of the study; third: data collection; and fourth, the results obtained. Therefore, transversality in the school curriculum prioritizes and contextualizes issues related to the environment according to local and regional realities. However, it is possible to establish in educational practice, not only a relationship between learning systematized knowledge, but also real-life questions and their transformation aiming at the effectiveness of environmental education.



Keywords: Interdisciplinarity. Pedagogical project. Educational Practice. Environment.





1 INTRODUÇÃO

A preocupante crise ambiental pela qual o planeta tem passado nas últimas décadas revela a necessidade de apreensão em relação ao destino da humanidade nessa fase contemporânea da sociedade (TOZONI-REIS, 2004). Ao examinar a história humana, o que se vê ao longo da evolução da sociedade é a relação de dominação do meio ambiente pelo homem, representada pela transformação da paisagem através de ambientes projetados e erguidos por ele. Dessa forma, pode-se observar que a degradação ambiental manifesta-se, segundo Leff (2012), “como sintoma de uma crise de civilização, marcada pelo modelo de modernidade regido pelo predomínio do desenvolvimento da razão tecnológica sobre a organização da natureza”. Essa crise pode ser entendida como consequência de uma forma de percepção inadequada do homem em relação ao meio ambiente, pois por muito tempo predominou uma visão antropocêntrica do homem em relação ao meio. Nesta forma de ver/perceber o ambiente, a natureza se mostra como produto a ser explorado pelo homem. Reigota (1991) deixou claro que a forma como a sociedade se relaciona com o meio é resultado da forma como ela o percebe.

Nesse sentido, destaca-se que a conservação da biodiversidade representa um dos maiores desafios deste século, em função do elevado nível de perturbações antrópicas nos ecossistemas naturais, e uma das principais consequências dessas perturbações é a fragmentação dos ecossistemas florestais, que constituem a maior parte dos remanescentes florestais existentes atualmente (ALVES et al. 2012). Dessa forma, a natureza vem sendo utilizada, prioritariamente, para atendimento das necessidades humanas. Por essa razão, tais remanescentes florestais raramente estão em harmonia com a natureza, como é o caso dos atuais centros urbanos (SILVA et al, 2017). Viana (1995) afirma que a maior parte dos remanescentes florestais na Mata Atlântica, especialmente em paisagens intensamente cultivadas, encontra-se na forma de pequenos fragmentos, altamente perturbados, isolados, pouco conhecidos e pouco protegidos.

A fragmentação e a simplificação que reduzem a compreensão da realidade, características do paradigma cientificista-mecanicista consolidado a partir da Idade Moderna, também vêm sendo consideradas, por vários autores, como um dos pilares da crise ambiental da atualidade (LUCENA, 2011). A impressão é a de que a humanidade percebe o meio ambiente numa outra esfera, da qual ela não faz parte e cujo desequilíbrio não pode prejudicá-la. Por isso, mantem-se afastada e despreocupada com as questões ambientais.

Reigota (1991) afirma que existem categorias estabelecidas para as diferentes representações de ambiente, para isso ele faz a seguinte interpretação das formas de se perceber o meio: a visão globalizante: evidencia as relações recíprocas entre natureza e sociedade, nesta forma de perceber o ambiente, o homem considera o princípio da sustentabilidade; a visão antropocêntrica: privilegia a utilidade/exploração dos recursos naturais para a sobrevivência do homem; e a visão naturalista: evidencia somente os aspectos naturais/românticos do meio ambiente. Nota-se que o que predominou no mundo foi a visão antropocêntrica, que culminou na crise ambiental de civilização.

Por sua vez, considerando as relações entre a sociedade e o meio ambiente, torna-se fundamental a construção de um pensamento crítico sobre o modo como acontece a integração entre o meio social e natural, tendo em vista as limitações de recursos disponíveis e a alta demanda que o atual estágio de “desenvolvimento” capitalista exerce sobre o quadro físico do planeta na busca por recursos naturais. Nesse sentido, autores como Loureiro (2012), Reigota (2010) e Leff (2009) afirmam que a educação ambiental “não pode e nem deve ser um processo mecanizado definido por esquemas ou por modelos”.

Sabe-se, contudo, que a especulação imobiliária e pressões, no que concerne à expansão das fronteiras urbanas, constituem forte fator de ameaça à integridade de áreas de interesse ambiental, sobretudo pelo atual momento socioeconômico vivido nacionalmente, haja vista a efervescência do setor de construção civil durante anos, em seus diferentes escopos, e posteriormente a crise econômica no setor, tendo suas atividades notadamente direcionadas aos espaços periurbanos, áreas de relevante interesse imobiliário e nas quais o Jardim Botânico do Recife está inserido (CERATI; LARAZINI, 2009). Diante do exposto percebe-se a necessidade e relevância do desenvolvimento de trabalhos que visem à exaltação da importância desse bem natural e público, o que levará a valorização, pela sociedade, de sua existência e funcionalidade plena (LUIZA et al., 2013).

Segundo Alves et al. (2014) jardins botânicos foram criados na Europa com o objetivo de cultivar e estudar plantas de uso medicinal. No Brasil, a primeira iniciativa para formar um jardim botânico (JB) foi do príncipe Maurício de Nassau, no século XVII, quando da construção do Palácio de Friburgo, em Recife (PE), entre 1637 e 1644 (PEREIRA; COSTA, 2013). Os JBs se apresentam como áreas de grande beleza e diversidade natural, geralmente inseridos nas próprias dinâmicas urbanas de forma a romper com a lógica estrutural da grande maioria dos centros populacionais (IBGE, 2000; RECIFE, 2017). Constituem-se de importantes instrumentos de sensibilização e educação ambiental, sobretudo no atual cenário de profundas pressões e discussões acerca da temática, promovendo uma interação benéfica entre homem e natureza (PEREIRA; COSTA, 2013).

Num resgate histórico realizado por Pessoa et al. (2011), o Jardim Botânico foi criado no ano de 1960 a partir da reformulação do Parque Zoobotânico do Curado, e compõe uma parte da Unidade de Conservação Municipal denominada Mata do Curado, uma área de 113,6 hectares pertencentes, em sua maioria, ao patrimônio do Exército. Ainda para os autores, o Jardim Botânico do Recife “representa um elemento proporcionador de desenvolvimento científico, tecnológico, econômico, social e conservacionista, pois se trata de um fragmento de Mata Atlântica dentro do perímetro urbano da cidade do Recife” (ALVES, 2014).

Dessa forma, o objeto de estudo deste trabalho é a Unidade de Conservação do Jardim Botânico do Recife, que tem como vegetação predominante a Mata Atlântica, cenário do início da colonização do Brasil e bioma protegido por Lei Federal. O estudo deve primeiramente expor as condições em que se encontram o ecossistema ao qual ele pertence, para posterior compreensão da importância de se construir o senso crítico dos estudantes, no tocante à consciência de cidadania, que passa pela consciência ambiental.

Em face disso, faz-se necessário relatar alguns dos aspectos que colaboraram para o embasamento teórico, antes de estruturar a pesquisa propriamente dita, tais como: as abordagens de ensino, o planejamento das aulas (Geografia, Biologia e Língua Portuguesa), o uso de recursos como o livro didático, rotinas de sala de aula, o interesse e a participação dos alunos em relação às atividades (externas à sala de aula) propostas pelos professores, entre outros. A partir dessas disciplinas, numa abordagem interdisciplinar, inserindo abordagens transversais para atrair a atenção do aluno, pôde-se introduzir a temática da conservação ambiental dos espaços naturais Aulas bem regidas se iniciam com um plano de aula bem elaborado, pois este facilita o aprendizado dos alunos e aprimora a prática pedagógica.

Diante disso, a disciplina de geografia torna-se indispensável na compreensão dos fenômenos físicos, com o objetivo de instruir e esclarecer como as diversas formas de impactos ambientais ocorrem no ecossistema, além de analisar suas consequências na preservação do ambiente estudado, ajudando a desenvolver e expandir o conhecimento dos alunos e formar cidadãos atuantes que possam propor novas ideias para a resolução de problemas ambientais.

Já a disciplina de biologia, ciência multidisciplinar ou a área de investigação que funde teoria e pesquisa voltadas para o entendimento e minimização dos fatores que contribuem para a perda da biodiversidade. Contribuirá no projeto, para sintetizar o entendimento dos efeitos da atividade humana nas espécies, comunidades e ecossistemas, além de auxiliar na reintegração das espécies ameaçadas ao seu ecossistema funcional. Esta disciplina incorpora temas como população das espécies, taxonomia, ecologia e genética. Assim, a biologia da buscará, no tocante ao projeto, determinar as melhores estratégias para proteger espécies raras, conscientizar o alunado da preservação das reservas naturais (Unidades de Conservação).

O papel da disciplina de português, no tocante ao desenvolvimento do projeto interdisciplinar, é que ao final do projeto o alunado poderá ter a compreensão dos processos que envolvem a constituição da paisagem através da linguagem não verbal, que utiliza dos signos visuais para ser efetivada e é representada pela fauna e flora do jardim botânico, sem deixar de corroborá-la com os conceitos, discurso e conteúdos proferidos pelos docentes (professores), nas aulas de campo.

Nessa perspectiva a relevância do estudo concerne (através de procedimentos que tenderão a promover sucessivas reflexões a respeito da entidade natural e temas ambientais relacionados pelo alunado no decorrer das análises do ecossistema, com maior ou menor abrangência social e cultural a depender de como exposto o trabalho) na ascensão do exercício indiscutível da cidadania e contribuição para uma participação cada vez mais ativa dos estudantes, assim como, da sociedade, na tomada de decisões de interesse comum, a qual constitui a missão da escola e do professor, sem deixar de lado a construção do pilar da conservação ambiental da área de estudo.

Desta forma, autores como Santilli (2005) e Oliveira (2011) salientam que os diagnósticos gerados, quando dispostos aos órgãos administrativos competentes e sociedade civil, por diversas estratégias de divulgação, são capazes de favorecer um melhor planejamento tanto das Políticas Públicas direcionadas quanto do Regimento de Uso Público da própria entidade de conservação natural, bem como estimular o interesse da população em usufruir dessa alternativa de lazer e educação, o que fortalece o sentido de bem público e indispensável do Jardim Botânico.

Não obstante, o objetivo desta pesquisa é analisar a percepção da conservação ambiental do Jardim Botânico do Recife, através da integração teórica das disciplinas de Geografia, Biologia e língua Portuguesa, em parceria com o alunado. O registro e a discussão das principais alterações nos elementos naturais (fauna e flora) ficaram sob a responsabilidade das duas primeiras, que debateram com os estudantes as transformações ambientais encontradas na área de estudo. Já a disciplina de português, fará a leitura provocativa do tema meio ambiente, transversalmente com o auxílio de textos jornalísticos, científicos e didáticos, desenvolvendo assim, a interpretação crítica dos conceitos trabalhados em sala. Neste contexto, o presente trabalho propõe contribuir, através dos dados coletados, para a realização de estudos e discussões, com o legado científico e cultural, além de contribuir na construção do conhecimento critico dos alunos, bem como na melhoria das atividades do Jardim Botânico.



2 MATERIAL E MÉTODOS

No tocante à metodologia, ela foi elaborada por quatro etapas indissociáveis: primeiro, uma exposição dissertativa-argumentativa sob os dados, ou seja, tema gerador, proposta de estudo, importância, metodologia, agente e atores envolvidos no estudo, resultados esperados (Avaliação dos alunos e Extensão da pesquisa).

Em seguida, apropriando-se das formas de planejamento realizadas na Escola, buscou-se o acervo bibliográfico para elaboração do Referencial Teórico, para melhor compreensão da prática pedagógica, terceiro momento, a partir do qual se elaborou as atividades de campos, feitas pelos alunos, sob orientação dos professores de Geografia, Biologia e Língua Portuguesa.

Posteriormente, foi realizada a parte prática, com o levantamento dos dados, a partir de visitas, observação da turma, entrevista com a direção e os gestores da unidade de conservação, bem como, registro das transformações ambientais e planejamento das próximas atividades.

No quarto e último momento, concomitante as intervenções de campo, foram ministradas aulas (Regência de Classe), complementares e discursivas para subsidiar o alunado, sobre o (s) tema (s) analisado in loco. Essas deverão ser elaboradas numa perspectiva interdisciplinar, seguindo o planejamento bimestral organizado pelos docentes das disciplinas envolvidas no projeto. Pois os alunos terão como atividade analisar o jardim Botâniico, a fim de identificar os impactos e/ou a importância daquela para a manutenção da qualidade de vida, bem como dos recursos ambientais utilizados pela sociedade para sua sobrevivência.



2.1 Caracterização da área de estudos

O estudo foi realizado no Jardim Botânico do Recife (JBR) (Figura 1), situado no bairro do Curado, zona oeste do Recife, Pernambuco. Esse possui uma área total de 25 ha, sendo 10,72 ha de floresta e 15 ha de área aberta com gramíneas e área em regeneração. O JBR integra a Bacia Hidrográfica do Rio Tejipió, apresenta o clima quente e úmido, temperatura média de 27° C, e está sujeito a uma precipitação anual de 2.000 mm de chuvas, concentradas no período de maio a agosto (VASCONCELOS; BEZERRA, 2000). A vegetação é caracterizada como floresta ombrófila densa, representada por floresta secundária residual em diversos estágios sucessionais (VELOSO et al., 1991). Atualmente o Jardim Botânico do Recife encontra-se cercado pela malha urbana da RMR, próximo ao Distrito industrial do Curado, às margens da BR-232 e ao bairro do Totó. Os bairros do Curado e do Totó possuem uma densidade demográfica de 20,56 e 176,81 habitantes por hectare (Figura 1):