ISSN 1678-0701
Número 65, Ano XVII.
Setembro-Novembro/2018.
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16/09/2018MUSEU CHARLES DARWIN REORGANIZAÇÃO E AMPLIAÇÃO DE COLEÇÕES DE INVERTEBRADOS.  
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MUSEU CHARLES DARWIN: REORGANIZAÇÃO E AMPLIAÇÃO DE COLEÇÕES DE INVERTEBRADOS

Michael César Alves1


1Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Paulista – UNIP – Bauru/SP, Pós-graduado em Educação Ambiental para a Sustentabilidade pelo Centro Universitário SENAC – Bauru/SP, Pós-graduando em Gestão, Licenciamento e Auditoria Ambiental pela Universidade Norte do Paraná – UNOPAR -Bauru/SP, Mestrando em Zoologia pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP – Botucatu/SP.



Resumo
Os Museus de Zoologia têm como prioridade manter as coleções de animais coletados em seus habitats naturais, os quais são preparados para dar origem a coleções de pesquisa e coleções didáticas. Estas coleções, preservadas em meio líquido ou a seco, são testemunhos da biodiversidade e, se bem mantidas, servirão de apoio para estudos por muito tempo. Este trabalho teve por objetivo reorganizar e ampliar as coleções de invertebrados do Museu Charles Darwin, da UNIP - Bauru, contribuindo para melhoria desse material de uso nas aulas práticas de Zoologia de Invertebrados e nas exposições destinadas à comunidade, visando estimular a curiosidade e a reconstrução de conhecimentos nos alunos e resgatando o interesse frente aos conteúdos apresentados. O trabalho incluiu a substituição de frascos e de líquidos conservantes, a identificação dos organismos e coleta de novos espécimes. Dos exemplares mantidos no Museu Charles Darwin, aproximadamente 796 exemplares de diversos táxons marinhos ou litorâneos passaram por manutenção e o acervo foi ampliado em 61 exemplares de Chelicerata. Com a reorganização e ampliação do acervo, Através da participação dos alunos, durante as exposições, pudemos avaliar que eles demonstram melhorar sua percepção em relação à Ciência, reconstruindo conceitos, sobretudo em relação a animais que lhes são próximos. Além disso, o uso deste material, nas aulas práticas, parece possibilitar melhor entendimento das características morfológicas dos animais, de suas funções ecológicas no ecossistema e de adaptações adquiridas com a evolução. O desenvolvimento deste trabalho permitiu, ainda, ampliação da minha formação na área, enquanto graduando de Ciências Biológicas.
Palavras-chave: conservação; exposições; educação ambiental.

Abstract
The Museums of Zoology have as a priority to keep the collections of animals from their natural habitats, which are prepared to give research collections and teaching collections. These collections, preserved in liquid or dry, are testimonies of biodiversity and, if well maintained, will support studies for long. This study aimed to reorganize and expand the collections of invertebrates Charles Darwin Museum, UNIP - Bauru, contributing to improvement of this material for use in practical classes of Invertebrate Zoology and exhibitions aimed at the community , to stimulate curiosity and reconstruction knowledge in students and rescuing the interest before contents . The work included replacement of bottles and preservatives liquid, the identification of the bodies and collecting new specimens. Copies kept in the Museum of Charles Darwin, about 796 copies of various marine or coastal taxa have undergone maintenance and the collection was expanded in 61 specimens of Chelicerata. With the reorganization and expansion of the collection, through the participation of students, during the exposures, we evaluate them demonstrate to improve their perception towards science, rebuilding concepts, especially for animals who are near them. Furthermore, the use of this material, practical class, it seems possible better understanding of the morphological characteristics of the animals, their ecological functions in the ecosystem and adaptations acquired through evolution. The development of this work also allowed expansion of my training in the area while majoring in Biological Sciences.
Keywords: conservation; exhibitions; environmental education.



Introdução

Os museus conquistaram uma importante centralidade no panorama político e cultural, deixando de serem lugares meramente de guarda e conservação, para se tornarem espaços relacionados com a criação, a comunicação e a produção de conhecimento interdisciplinar dentro de universidades1.

Todo museu tem a obrigação de adotar cuidados apropriados à preservação ou conservação do seu acervo, utilizando todos os conhecimentos técnicos e científicos disponíveis2.

Preservação e conservação podem ser entendidas como níveis distintos de intervenções que afetam os bens, que implicam em prever ameaças à integridade e à permanência dos mesmos e tentar evitar que elas aconteçam e acarretem danos, ou mesmo a destruição, da coleção e/ou a manutenção das características originais, bem como o prolongamento da vida dos bens culturais materiais2.

Isto pode ser feito com ações que se denominam “conservação preventiva”, destinada a conferir condições adequadas à integridade e ambiência do bem, como por exemplo, a limpeza, verificação e controle das condições de umidade e temperatura2.

Atualmente, “os museus são locais historicamente consagrados à coleta e ao estudo dos testemunhos provenientes do mundo natural e cultural” 3.

Museus de Zoologia, comuns em universidades, têm como prioridade manter coleções de animais coletados em seu habitat natural, os quais são preparados e preservados para que permaneçam em condições ótimas por muito tempo. Se assim forem mantidos, oferecem informações valiosas sobre a biodiversidade, contribuindo para o estudo dos ecossistemas e das biocenoses que os compõem.

As coleções de animais podem ser formadas com objetivos diversos. Podemos dividi-las em dois tipos básicos: coleções didáticas e coleções de pesquisa, estas últimas, muitas vezes, denominadas de coleções científicas. As coleções didáticas são produzidas com o intuito de mostrar aos alunos parte da diversidade conhecida e sofrem deterioração rápida, devido ao manuseio constante durante as aulas práticas4. Já as coleções de pesquisa têm finalidades científicas e não didáticas e têm valor inestimável, sendo de acesso restrito e devidamente preservadas, sob cuidados específicos. Estas últimas são organizadas baseando-se na Sistemática. Em alguns casos, os detalhes não são visualizados a olho nu e nem sempre os espécimes são vistosos e coloridos. Espécimes de alguns grupos são bem pequenos e necessitam de recursos adicionais para serem montados e acondicionados. Uma diferença importante é que este tipo de coleção sempre porta informações de procedência do material, localidade, data, coletor, métodos de coleta e coordenadas geográficas, visando sempre a repetibilidade da experimentação.

Coleções zoológicas de pesquisa são testemunhos da biodiversidade, que, bem mantidas, servirão como acervo para estudos pela geração atual e futuras gerações. São fontes de informações para estudos de Zoologia teórica, como a evolução dos grupos taxonômicos, e constituem ferramenta indispensável na formação de diversos profissionais como biólogos, agrônomos, veterinários, médicos, farmacêuticos e bioquímicos, entre outros4. Sendo patrimônio da nação, é de nossa responsabilidade sua manutenção. Com tanta importância, a coleção de pesquisa precisa de cuidados em sua preparação e em seu manejo4.

Independente de sua natureza, as coleções zoológicas consistem em espécimes preservados, em meio líquido ou a seco, associados a dados ambientais e geográficos, dando suporte ao desenvolvimento de projetos de pesquisa de profissionais e alunos de graduação e pós-graduação, que visam o conhecimento e a conservação da diversidade biológica5. Nas instituições universitárias, as coleções zoológicas servem, ainda, de apoio nos trabalhos de iniciação científica, no treinamento de alunos de graduação na identificação de grupos taxonômicos e no aprendizado de técnicas de preparação e conservação de espécimes para coleções.

O museu é o local ideal para o estudo da cultura material e da preservação e tratamento das coleções6. Mas, um museu que não mantém atualizada as informa­ções relativas a seu acervo, deixa de cumprir uma de suas principais funções, ou talvez a mais importante, que é a preservação de sua memória. Os responsáveis pelos museus têm a obrigação de manter as coleções em bom estado para que os alunos e visitantes recebam as melhores informações dos exemplares expostos. Assim, a conservação das peças do acervo de um museu pressupõe sua guarda, transporte e exposição em condições adequadas. Só assim estará garantida a integridade desses objetos. Para tanto, é necessário considerar vários fatores ambientais: a qualidade da atmosfera, a presença de in­setos e/ou microrganismos, a umidade relativa, a temperatura e a iluminação locais7.

A conexão entre museus e conhecimento interdisciplinar ocorre, intrinsecamente, pelo exercício do saber-fazer museológico, utilizando-se de várias áreas de conhecimento como Química, Botânica, Zoologia, Parasitologia, Ecologia, Geologia, Paleontologia, Educação Ambiental, além de profissionais ligados ao campo específico do acervo8.

Para cumprir esta conexão e exercer, com transparência, seu papel de mediador da educação ou da construção de conhecimentos, os museus têm se aberto às visitações, em exposições que são fixas ou itinerantes, em exposições que são contínuas ou temporárias, em exposições que são temáticas ou gerais.

Assim, pelo fato dos museus abordarem conteúdos científicos por meio de exposições que têm sido crescentemente interativas, educadores ambientais e professores da área de ensino de Ciências Naturais passaram a ver, nessas instituições, condições para que funcionassem como um complemento ao ensino promovido nas escolas.

Por outro lado, para o usuário comum, o Museu é visto como um espaço para ampliação da cultura de modo geral ou, particularmente, da cultura científica9.

As exposições têm sido consideradas como mediadoras da comunicação entre o homem e a cultura material e são elementos essenciais entre a pesquisa e o público 10.

Por outro lado, o processo ensino-aprendizagem tem sido prejudicado pela falta da participação ativa dos estudantes na sua própria formação, fazendo-se necessárias atividades que estimulem a criatividade e o raciocínio crítico, auxiliando na formação do cidadão. Neste sentido, a visita a Museus torna-se uma alternativa para o professor resgatar o interesse do aluno frente aos conteúdos apresentados, proporcionando algo novo, levando-os a despertar a curiosidade pelo diferente, que pode, posteriormente, estabelecer o desejo pelo aprendizado e facilitar o entendimento dos temas previamente abordados3.

O desenvolvimento de programas e projetos educativos, nos museus, faz parte do que se pode chamar de “alfabetização visual” ou “alfabetização museal”2. Sendo assim, “os museus interativos de Ciência apresentam-se como espaço educativo complementar à educação formal, possibilitando a ampliação e a melhoria do conhecimento científico de estudantes, bem como da população em geral”11. Reafirma-se, assim, que os museus vêm assumindo o papel de auxiliares dos educadores e têm sido preparados, pelos seus responsáveis, para receber quem procura educação em suas instalações e, por vezes, fora delas. Os museus abrem-se, também, ao exterior, aceitam desafios, saem de si próprios e assumem o papel de ir ao encontro dos interesses de públicos diversificados12. Para isso, atualmente, têm contado com profissionais de áreas afins, como a informática, que têm contribuido com softwares que, em muitos deles, tornam a visita e o entendimento do conhecimento mais fácil e agradável.

O acervo do Museu de Zoologia da UNIP abriga um grande número de espécimes de animais cordados e invertebrados, os quais são encontrados em meio liquido ou expostos em caixas ou armários, constituindo coleções com finalidades primariamente didáticas, mas que têm sido também utilizados em exposições destinadas à comunidade extra-acadêmica, realizadas no próprio campus universitário ou em outras instituições do município.

Ao observar a admiração que o acervo zoológico do Museu do campus local causa nos visitantes e contribuindo para a melhoria desse material de uso nas aulas práticas das disciplinas de Invertebrados, optou-se por um projeto de reorganização e ampliação do acervo de invertebrados do Museu Charles Darwin da UNIP, campus de Bauru, com uma atividade interdisciplinar e voltada para minha formação.

Objetivo

O presente projeto teve como objetivo a reorganização e ampliação dos espécimes de invertebrados do Museu Charles Darwin da UNIP, campus de Bauru, e, indiretamente, uma ampliação da minha formação na área, enquanto graduando de Ciências Biológicas.

Materiais e Métodos



  1. Coleta de Espécimes de Invertebrados

Através de incursões feitas a diversos ecossistemas litorâneos no Parque Estadual da Serra do Mar, núcleo Picinguaba, em outubro de 2011, realizamos coletas de invertebrados de hábitos nectônicos e bentônicos, utilizando técnicas diversas, como rede de arrasto e coleta manual. Para esta atividade, em uma Unidade de Conservação, como o núcleo Picinguaba, a docente responsável pela viagem de estudos obteve, junto à SISBIO – Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade, autorização para coleta deste material. O SISBIO é um sistema de atendimento à distância, que permite a pesquisadores solicitarem autorizações para coleta de material biológico e para a realização de pesquisa em Unidades de Conservação federais e cavernas. O Sistema permite ao ICMBio - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e ao Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA).

Outras atividades extraclasse, integrantes da grade curricular do curso de Ciências Biológicas, como as visitas técnicas a instituições diversas (Duratex de Agudos/SP, o Jardim Botânico Municipal de Bauru, etc), possibilitaram a ampliação do acervo de invertebrados do museu universitário. A coleta manual foi a técnica mais utilizada nestas ocasiões.

Também foram realizadas coletas noturnas dentro do campus da UNIP de Bauru; e na fazenda Pavuna, próxima ao município de Botucatu/SP, ambos em caráter esporádico.

Deixamos aqui esclarecido que, por princípios adquiridos durante o curso, optamos por coletar, cada vez mais, apenas exemplares que se encontrassem inativos, por razões diversas. Esta atitude torna-se crescentemente necessária, uma vez que, como biólogos, devemos respeitar o direito de existência que cada ser vivo tem, independente de seus papéis ecológicos nos ambientes de vida.



  1. Triagem, identificação e acondicionamento

Dependendo das condições físicas de cada exemplar capturado, verificamos a necessidade de que os mesmos sofressem ação de anestésicos como éter e cristal de mentol, que efetivassem sua morte. Posteriormente, o material coletado, quando necessário, passou por triagem em laboratório, quando os exemplares de invertebrados foram separados de outros corpos, como resíduos, substratos e outros.

Depois de selecionados, os espécimes foram acondicionados em frascos com líquidos ou caixas de madeiras, dependendo dos táxons, para a adequada fixação e/ou conservação dos mesmos. Assim, exemplares de Mollusca, Echinodermata, Cnidaria e Crustacea foram conservados em álcool 70% ou formol 2%, dentro de frascos de vidro. Alguns exemplares de Chelicerata, conservados a seco, foram expostos em caixas ou gavetas com tampas de vidro, que são devidamente fechadas, para evitar danos às coleções, seja por poeira, umidade ou alguns organismos.

Salienta-se, ainda, o fato de que todos os exemplares a seco e os frascos que agrupam vários deles tiveram a fixação de etiquetas com algumas informações básicas, como nome científico, nome vulgar, grupo taxonômico, procedência, coletor, data da coleta, entre outras, como técnica de coleta.



  1. Limpeza e Manutenção

Para realizar esta etapa de trabalho, buscamos auxílio e informações em bibliografia especializada. Várias técnicas são utilizadas e recomendadas por autores, para se efetuar a limpeza e a conservação de exemplares integrantes de coleções.

A utilização de substâncias específicas, nas coleções a seco ou em líquidos, possibilitou a realização desta fase de nosso trabalho.



Resultados e Discussão

Periodicamente, os armários, gavetas, caixas e frascos devem passar por uma limpeza minuciosa, a fim de que o valioso material ali armazenado seja preservado. Assim, dentro das caixas e gavetas de Chelicerata, providenciamos a adição de reservatórios de naftaleno, com o objetivo de retirar o mau cheiro e proteger as coleções contra fungos e pequenos coleópteros, que estavam danificando os exemplares.

Já nos frascos contendo exemplares de fauna marinha, foi realizada a troca de frascos inadequados à conservação dos espécimes e também a reposição de álcool 70% ou formol 2%.

Quantificando os dados obtidos em relação à reorganização do Museu Charles Darwin, obtivemos os seguintes resultados: foram realizadas a limpeza e a troca de líquidos fixadores ou conservantes em 20 frascos, contendo 579 exemplares de Crustacea; em 9 frascos, contendo 163 exemplares de Mollusca; em 7 frascos, contendo 40 exemplares de Cnidaria; e em 5 frascos, contendo 14 exemplares de Echinodermata. (Tabela 1) (Figura 1).

Tabela 1 – Número de exemplares de diversos grupos taxonômicos do acervo de invertebrados do Museu Charles Darwin, da UNIP – Bauru, que passaram por manutenção em 2013.



Grupos Taxonômicos

Frascos

Exemplares

Crustacea



Siri

5

63

Caranguejo

8

32

Paguro/Ermitão

2

12

Camarão

4

465

Lagostim

1

7

Subtotal: 5 grupos

20

579

Mollusca



Cephalopoda (Lulas)

2

17

Cephalopoda (Polvo)

1

1

Acmaea sp

2

10

Thais sp

Mexilhão dourado

Perna perna

Subtotal: 6 grupos

Cnidaria

Anêmona

Medusa

Renilla sp

Gorgonia sp

Coral calcário

Subtotal: 5 grupos

Echinodermata

Ouriço-do-mar

Estrela-do-mar

Pepino-do-mar

Lírio-do-mar

Bolacha-da-praia

Subtotal: 5 grupos

2

1

1

9





2

2

1

1

1

7





1

1

1

1

1

5

13

108

14

163





8

10

11

4

7

40





3

3

3

1

4

14

Total: 21 grupos

41

796

Figura 1 – Potes com exemplares de diversos grupos taxonômicos do acervo de invertebrados do Museu Charles Darwin, da UNIP – Bauru, que passaram por manutenção em 2013. Fonte: Arquivo Pessoal.

As coleções acima especificadas foram acrescidas, em número de exemplares, por ocasião da viagem de estudos realizada em 2011, quando conhecemos vários ecossistemas do litoral norte do estado de São Paulo. As atividades integrantes dessa viagem foram importantes na minha formação de Biólogo, pois a visita técnica oportunizou o conhecimento de parte da fauna que habita estes sistemas ecológicos, a ecologia de alguns grupos taxonômicos e a complexidade destes ecossistemas, enquanto ambientes de vida. Durante e após esta visita, as coletas de animais foram sempre complementadas com o conhecimento das técnicas de fixação e conservação de cada grupo, além da observação de algumas de suas características diagnósticas. Esta e outras visitas técnicas deram-nos embasamento teórico e prático para o trabalho que resultou neste artigo.

O estudo destas e outras técnicas e práticas facilita o entendimento do conteúdo teórico e amplia o nosso conhecimento, contribuindo para a formação de profissionais que precisam, hoje, apresentar um currículo e uma formação inicial diferenciada.

Estas atividades extraclasse permitem, ao aluno, o contato com a aplicação prática dos conteúdos aprendidos em sala de aula, propiciando um aprendizado mais efetivo na observação das inúmeras variáveis que influenciam os processos13.

O manuseio e a adequada fixação dos organismos marinhos, acima especificados, exigiu o estudo de literatura específica, pois alguns exemplares de Cnidaria, como as medusas, são de difícil conservação e fragmentam-se rapidamente, dependendo do meio em que são colocadas.

Estes mesmos cuidados foram dispensados no manuseio de outros grupos taxonômicos pertencentes ao acervo depositado no Museu Charles Darwin, pois, na dependência de sua morfologia, utiliza-se diferentes técnicas de fixação. Todo este material necessitava de cuidados especiais, para que suas características morfológicas fossem mantidas.

Os exemplares utilizados em aulas práticas sofrem uma fragmentação maior, necessitando de manutenção periódica ou, mesmo, de coleta de novos exemplares.

Manter essas coleções em bom estado de conservação é importante para o estudo e conhecimento da biodiversidade encontrada nos locais de coleta, para a visualização de suas características morfológicas, e, até mesmo, para discussão dos processos evolutivos que, ao longo do tempo, deram origem a adaptações provocadas por alterações ambientais.

Em relação a outros grupos taxonômicos, obtivemos ampliação do acervo de invertebrados, com a deposição de, aproximadamente, 61 exemplares de Chelicerata, além de 4 frascos com líquidos conservantes contendo alguns exemplares do mesmo táxon (Tabela 2) (Figura 2).

Em relação a estes grupos taxonômicos, existia um reduzido número de exemplares conservados a seco e a maioria deles com apêndices fragmentados.



Tabela 2 – Número de exemplares de Chelicerata, acrescentados ao acervo de invertebrados do Museu Charles Darwin, da UNIP – Bauru.

Grupos Taxonômicos

Exemplares

Locais

Chelicerata

Tityus sp.



32



Caixas = 42

Tarântulas

2

Gavetas = 19

Lycosa sp.

13

1 Pote = Acari

Opiliões

6

2 Potes = Scorpiones

Nephila sp.

8

1 Pote = Araneae

Total : 5 grupos

61

4 Potes



Figura 2 – Caixa e Gaveta contendo exemplares de Chelicerata, acrescentados ao acervo de invertebrados do Museu Charles Darwin, da UNIP – Bauru. Fonte: Arquivo Pessoal.

Utilizando literatura específica, estudamos técnicas de fixação e alfinetagem deste material, além de técnicas para amolecimento dos exemplares que se encontravam muito rígidos, uma condição indispensável para a alfinetagem.

Estes organismos foram acondicionados em gavetas com tampa de vidro, que compõem uma das mesas que estão disponíveis no Museu. De maneira semelhante, as caixas também apresentam tampas de vidro. Esta vedação auxilia na conservação dos exemplares, pois limita a entrada de insetos e/ou microrganismos que podem danificar as coleções, além de manter a coleção protegida do excesso de luminosidade, da umidade e da poeira.

Os espécimes de História Natural também requerem alto grau de cuidado, no que se refere aos níveis de temperatura, umidade e iluminação. Esses quesitos de conservação devem ser parte da rotina nos ambientes de museus; em casas particulares e ambientes análogos, no entanto, pode ser mais difícil obter-se bons resultados nestes quesitos. Em geral, é melhor expor os espécimes em áreas frescas, sem umidade e sem iluminação direta.

A umidade ambiental, particularmente se associada ao calor, gera condições favoráveis à decomposição química, desenvolvimento de mofo e ataque de pragas. Altas temperaturas associadas à baixa umidade, condições que podem existir próximo a um aquecedor, podem fazer com que os tegumentos dos organismos sofram encurtamento e se rompam.

Fontes de luz fortes também são prejudiciais em museus, pois podem provocar desbotamento das peças ali depositadas. Portanto, deve-se evitar iluminação direta do Sol e de refletores. Há necessidade de redução tanto da duração quanto da intensidade da incidência de luz sobre os espécimes. A incidência de raios ultravioleta pode ser reduzida com filtros adequados, embora eles precisem ser periodicamente verificados, pois sua eficácia diminui com o tempo.

A montagem desta coleção teve como objetivo contribuir para o conhecimento da diversidade de espécies de Chelicerata encontrada no município de Bauru, especialmente nas áreas que possuem remanescentes de cerrado e, também, para uma ampliação do acervo depositado no museu.

Estas coleções são bem utilizadas no Museu Charles Darwin. Como já foi dito, muito deste material tem uso em aulas práticas das disciplinas de Zoologia de Invertebrados, mas, são também utilizadas em exposições durante feiras cientificas. A UNIP – Bauru tem participado anualmente da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, quando estas exposições ocorrem. Outras delas também acontecem nas FECITECs – Feira de Ciência e Tecnologia da UNIP – Bauru, também realizadas anualmente.

Para os professores de Educação Básica, a visitação de seus alunos às nossas exposições tem funcionado como uma complementação do conteúdo teórico de sala de aula, uma oportunidade de enriquecimento cultural e até um incentivo para uma carreira a ser seguida.

Em alguns casos, os alunos demonstram fascínio ao visitá-las, produzindo um aprendizado diferente do obtido em aulas, através do contato direto com o que é ministrado. Estes momentos chegam a contribuir para a escolha da profissão de muitos alunos e a formação de futuros cientistas.

Lopes (1991)14 propõe que os museus colaborem com o processo de construção do conhecimento em nossa realidade e seja um espaço de veiculação, produção e divulgação de conhecimentos.

Um museu e suas exposições geram conhecimento tanto quanto uma aula sobre o mesmo tema, a diferença está na aprendizagem efetiva dos alunos, pois a exposição gera maior interesse nos mesmos em aprender mais, e são consideradas mais divertidas, por eles.

Segundo Almeida (1997)15, educadora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, os museus proporcionam a experiência com objetos que, em si, podem gerar motivação, curiosidade e questionamento da parte do estudante.

Assim, o conhecimento adquirido é passado entre os alunos e, durante as exposições, também para os integrantes da família, e esse ciclo de conhecimento não fica somente entre os alunos das escolas, podendo atingir a todos, levando informações que lhes são úteis e moldá-las ao conhecimento popular que já possuíam.

Peter Giles, citado por Menezes (2006)16, entende que um Museu de Ciências tem a missão de engajar pessoas de todas as idades e conhecimentos na exploração e experimentação de tecnologias que afetem suas vidas.

Muitas vezes, o conhecimento popular sobre a biologia dos organismos pode conter incorreções e, através das exposições, esse conhecimento pode ser alterado com dados verdadeiros, obtidos através de informações fornecidas ao público, durante as exposições.

Nestes eventos, os espécimes marinhos chamam a atenção e possibilitam conhecimentos, sobre parte da diversidade encontrada em nosso litoral, a muitas pessoas que, muitas vezes, não tiveram a oportunidade de conhecê-los em seus habitats.

Para Moutinho (1994)17, expor é, ou deveria ser, trabalhar contra a ignorância, especialmente contra a forma mais refratária da ignorância, a ideia preconcebida, o preconceito, o estereótipo cultural. Assim atuam os Centros de Divulgação Científica, visando o ensino de Ciências dentro dos museus, trazendo vantagens para todos os envolvidos. Nestes locais, os alunos e professores da Educação Básica enriquecem os conteúdos desenvolvidos em sala de aula, numa experiência não formal. Os visitantes melhoram sua percepção de ciência, em especial em relação aos conceitos que conheciam antes. Quando estes visitantes são graduandos, além de receberem uma grande gama de conteúdo teórico-experimental, a partir do convívio com professores e alunos das mais diversas áreas, tomam conhecimento da pesquisa desenvolvida dentro das universidades e vivenciam um processo de ensino-aprendizagem que se dá de forma dinâmica e lúdica11.



Considerações Finais



Ao desenvolver este trabalho, encontramos várias dificuldades, que podem ser atenuadas em outros períodos em que se realize uma outra manutenção do acervo de invertebrados do Museu Charles Darwin.

Assim propomos, abaixo, algumas ações que podem melhorar as condições de conservação das peças, a seco, do Museu:

  • Controle da umidade relativa e temperatura locais, pois alterações bruscas podem provocar dilatações e contrações nos materiais, acelerando o seu envelhecimento;

  • Instalação de desumidificador do ar;

  • Instalação de filtros ou películas de luz, para evitar o excesso de iluminação no local, evitando danos às peças mais sensíveis a energia radiante, que podem causar amarelamento e ressecamento nas peças;

  • Substituição temporária de peças e contínua ampliação do acervo, para que se mantenha uma coleção em bom estado de conservação e com número suficiente de exemplares, para cumprimento das funções às quais se propõe.



Conclusões

Com relação à reorganização do acervo de invertebrados do Museu Charles Darwin, realizamos a manutenção adequada dos recipientes que acondicionam os invertebrados, num total de 796 exemplares de diversos táxons de hábitos marinhos ou litorâneos.

Em relação à ampliação das coleções de artrópodos, mantidas a seco, obtivemos um acréscimo de 61 exemplares de Chelicerata, aproximadamente.

Através da participação dos alunos, durante as exposições, pudemos avaliar que eles demonstram melhorar sua percepção em relação à Ciência, reconstruindo conceitos, sobretudo em relação a animais que lhes são próximos.

O uso deste material, nas aulas práticas, possibilita melhor entendimento das características morfológicas dos animais, de suas funções ecológicas no ecossistema e das adaptações fisiológicas e estruturais adquiridas com a evolução.

Os museus interativos de Ciências apresentam exposições de diferentes exemplares de organismos, atuando como mediadores da comunicação entre o homem e centros de pesquisa e completando a formação recebida nas escolas, através do contato direto com seus objetos de estudo.



















Referências

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16: Menezes A. Múltiplos olhares sobre um museu de ciências. Jornal da UNICAMP. 2003 ago 18,24; 1.

17: Moutinho M. A construção do objeto museológico. In: Caderno de Sociomuseologia. n. 4. Lisboa: Centro de Estudos de Sociomuseologia, 1994, p. 6.





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